segunda-feira, 15 de junho de 2020

Engraçado



…como o magnífico texto de António Barreto, sobre a manipulação não só dos dados da História como dos objectos provindos de um passado que se supôs de esforço e glória e que hoje são relegados para o sótão das velharias a desprezar – ou a devolver – “como se as não tivéramos merecido”,( tal como aconteceu com o enganado Jacob que teve de servir o velhaco Labão, pai de Raquel, mais outros sete anos para poder finalmente usufruir dela em plenitude, por ora trocada por Lia, sua mana, numa clara demonstração de que “chapéus há muitos”), o magnífico texto de AB, repito, sobre os “revisores da História” e seus acólitos, mereceu tantos comentários depreciativos dos tais revisores, cheios de bons princípios e das ironias com eles condizentes, mau grado a preocupação dos restantes - a mesma que a de AB - pelo apagamento dos tais libertos da “lei da morte” até hoje, e na sua continuação - do hoje, digo. Leiamos, pois, “l’un et les autres”, preferencialmente ao som e dança do magnífico “Bolero de Ravel” com que termina o também magnífico filme de Claude Lelouch “Les uns et les autres”, do nosso entendimento – ou o seu contrário – actual, para fortalecermos as nossas respectivas opiniões, sobre os valores da História e a falta deles, valores,  da maioria cá do burgo.

OPINIÃO
Ainda não vimos nada!
Republicanos, corporativistas, fascistas, comunistas e até democratas mostraram, nos últimos séculos, que se dedicaram com interesse à revisão selectiva da História, assim como à censura e à manipulação.
ANTÓNIO BARRETO
PÚBLICO, 14 de Junho de 2020
É triste confessar, mas ainda estamos para ver até onde vão os revisores da História. Uma coisa é certa: com a ajuda dos movimentos anti-racistas, a colaboração de esquerdistas, a covardia de tanta gente de bem e o metabolismo habitual dos reaccionários, o movimento de correcção da História veio para ficar. Serão anos de destruição de símbolos, de substituição de heróis, de censura de livros e de demolição de esculturas. Até de rectificação de monumentos. Além da revisão de programas escolares e da reescrita de manuais. Tudo, com a consequente censura de livros considerados impróprios, seguida da substituição por novos livros estimados científicos, objectivos, democráticos e igualitários. A pujança deste movimento através do mundo é tal que nada conseguirá temperar os ânimos triunfadores dos novos censores, transformados em juízes da moral e árbitros da História.
Serão criadas comissões de correcção, com a missão de rever os manuais de História (e outras disciplinas sensíveis como o Português, a Literatura, a Geografia, o Meio Ambiente, as Relações Internacionais…), a fim de expurgar a visão bondosa do colonialismo, as interpretações glorificadoras dos descobrimentos e os símbolos de domínio branco, cristão, europeu e capitalista.
Comissões purificadoras procederão ao inventário das ruas e locais que devem mudar de nome, porque glorificam o papel dos colonialistas e dos traficantes de escravos. Farão ainda o levantamento das obras de arte públicas que prestam homenagem à política imperialista, assim como aos seus agentes. Já começou, aliás, com a substituição do Museu dos Descobrimentos pelo Memorial da Escravatura!
Teremos autoridades que tudo farão para retirar os objectos antes que as hordas cheguem e será o máximo de coragem de que serão capazes. Alguns concordarão com o seu depósito em pavilhões de sucata. Outros ainda deixarão destruir, gesto que incluirão na pasta de problemas resolvidos. Entretanto, os Centros Comerciais Colombo e Vasco da Gama esperam pela hora fatal da mudança de nome. Praças, ruas e avenidas das Descobertas, dos Descobrimentos e dos Navegantes, que abundam em Portugal, serão brevemente mudadas. Preparemo-nos, pois, para remover monumentos com Albuquerque, Gama, Dias, Cão, Cabral, Magalhães e outros, além de, evidentemente, o Infante D. Henrique, o primeiro a passar no cadafalso. Luís de Camões e Fernando Pessoa terão o devido óbito. Os que cantaram os feitos dos exploradores e dos negreiros são tão perniciosos quanto os próprios. Talvez até mais, pois forjaram a identidade e deram sentido aos mitos da nação valente e imortal. Esperemos para liquidar a toponímia que aluda a Serpa Pinto, Ivens, Capelo e Mouzinho, heróis entre os mais recentes facínoras. Sem esquecer, seguramente, uns notáveis heróis do colonialismo, Kaúlza de Arriaga, Costa Gomes, António de Spínola, Rosa Coutinho, Otelo Saraiva de Carvalho, Mário Tomé e Vasco Lourenço.
Não serão esquecidos os cineastas, compositores, pintores, escultores, escritores e arquitectos que, nas suas obras, elogiaram os colonialistas, cúmplices da escravatura, do genocídio e do racismo. Filmes e livros serão retirados do mercado. Pinturas murais, azulejos, esculturas, baixos-relevos, frescos e painéis de todas as espécies serão destruídos ou cobertos de cal e ácido.
Outras comissões terão o encargo de proceder ao levantamento das obras de arte e do património com origem na África, na Ásia e na América Latina e que se encontram em Portugal, em mãos privadas ou em instituições públicas, a fim de as remeter prontamente aos países donde são provenientes.
Os principais monumentos erectos em homenagem à expansão, a começar pelos Jerónimos e pela Torre de Belém, serão restaurados com o cuidado de lhes retirar os elementos de identidade colonialista. Os memoriais de homenagem aos mortos em guerras do Ultramar serão reconstruídos a fim de serem transformados em edifícios de denúncia do racismo. Não há liberdade nem igualdade enquanto estes símbolos sobreviverem.
Muitos pensam que a História é feita de progresso e desenvolvimento. De crescimento e melhoramento. Esperam que se caminhe do preconceito para o rigor. Do mito para o facto. Da submissão para a liberdade. Infelizmente, tal não é verdade. Não é sempre verdade. Republicanos, corporativistas, fascistas, comunistas e até democratas mostraram, nos últimos séculos, que se dedicaram com interesse à revisão selectiva da História, assim como à censura e à manipulação. E, se quisermos ir mais longe no tempo, não faltam exemplos. Quando os revolucionários franceses rebaptizaram a Catedral de Estrasburgo, passando a designá-la por Templo da Razão, não estavam a aumentar o grau de racionalidade das sociedades. Quando o altar-mor de Notre Dame foi chamado de Altar da Liberdade, caminharam alegremente da superstição para o preconceito. E quando os bolchevistas ocuparam a Catedral de Kazab, em São Petersburgo e apelidaram o edifício de Museu das Religiões e do Ateísmo, não procuravam certamente a liberdade e o pluralismo. E também podemos convocar os Iconoclastas de Istambul, os Daesh de Palmira ou os Taliban de Bamiyan que destruíram símbolos, combateram a religião e tentaram apropriar-se tanto do presente como do passado.
Os senhores do seu tempo, monarcas, generais, bispos, políticos, capitalistas, deputados e sindicalistas gostam de marcar a sociedade, romper com o passado e afastar fantasmas. Deuses e comendadores, santos e revolucionários, habitam os seus pesadelos. Quem quer exercer o poder sobre o presente tem de destruir o passado.
Muitos de nós pensávamos, há cinquenta anos, que era necessário rever os manuais, repensar os mitos, submeter as crenças à prova do estudo, lutar contra a proclamação autoritária e defender com todas as forças o debate livre. É possível que, a muitos, tenha ocorrido que faltava substituir uma ortodoxia dogmática por outra. Mas, para outros, o espírito era o de confronto de ideias, de debate permanente e de submissão à crítica pública.
O que hoje se receia é a nova dogmática feita de novos preconceitos. Não tenhamos ilusões. Se as democracias não souberem resistir a esta espécie de vaga que se denomina libertadora e igualitária, mergulharão rapidamente em novas eras obscurantistas.
Sociólogo
TÓPICOS

COMENTÁRIOS:
TML INICIANTE: chamar "denegrir" o passado a questionar os mitos é um bocado exagerado, não acha? Quem denigre o passado? Os que violaram e cometeram atrocidades em nome da Fé e do Império, ou os que hoje estudam e falam sobre esses assuntos? Não se pode "culpabilizar" a História e criar uns mitos de que foi tudo mau, de acordo. Mas "glorificá-la" e criar uns mitos de que foi tudo bom já se pode e é recomendado?
fernando ferreira franco INICIANTE: Meu caro António Barreto, o que faz a história são os actos, não a ideologia dos actos. O que algumas obras de arte colocam na memória colectiva é a destruição de sociedades distintas, de culturas únicas e de ecossistemas fundados no respeito pela natureza. Desta forma, a destruição contra a qual hoje se eleva, não é distinta da que sofreram os colonizados, às mãos dos que defendiam uma cultura do saque e que deu azo à revisão da história, revisão sim!, forjada pelo interesse económico e que o senhor quer perpetuar e manter. Saiba pois que as ideologias são perecíveis e ainda bem, pois o que seria da democracia se um miserável legado histórico a impedisse de ser justa. Convenhamos que nem a natureza tem esse perfil eterno das coisas, o tempo também degrada as obras de arte.
mpro EXPERIENTE: Penso que António Barreto não quererá perceber a diferença, Fernando. Ele, como tantos outros, vivem bem com todos os actos praticados pelos países na sua construção, dado que a evolução humanista, deve ser condicionada aos interesses da ordem estabelecida e da qual faz parte. As estátuas e, monumentos, devem estar em museus e locais onde possam ser discutidas e valorados, mas não servir de culto ao cidadão, sem uma perspectiva de enquadramento, social e político da altura.
AndradeQB MODERADOR: Há quem gostasse de que ainda hoje houvesse sacrifícios humanos ao deus sol. Gostos.
AndradeQB MODERADOR: De facto, uma pandemia para que não é possível descobrir vacina e em que a protecção de grupo é bem mais incerta do que a que se espera vir a acontecer contra o Covid.
João Borges MODERADOR: Completamente de acordo.
Francisco Lemos INICIANTE: Excelente texto que convoca todos os não fundamentalistas, a larga maioria, a não se deixar instrumentalizar e resistir pela persuasão e pela acção, se necessário, aos novos inquisidores do século XXI.
Macuti EXPERIENTE: Uma afronta aos “ heróis do mar, nobre povo e nação valente”. Mas que nação é esta que denigre o seu passado? Qual a motivação para o que está a acontecer, que só faz aumentar tensões raciais? Voltar a condenar o colonialismo que terminou há quase cinco décadas? Ou a escravatura quando era praticada por brancos e hoje quase só existe em países africanos?
Francisco Lemos INICIANTE: Excelente texto que convoca todos os não fundamentalistas, a larga maioria, a não se deixar instrumentalizar e resistir pela persuasão e pela acção, se necessário, aos novos inquisidores do século XXI.
Margarida Paredes, defensora do Serviço Nacional de Saúde MODERADOR: António Barreto, não era necessário descer ao nível das caixas de comentários.
rafael.guerra EXPERIENTE: Só nos resta o suicídio colectivo, como solução definitiva, para apagar da História colonial todos os seus descendentes.
Amigo da verdade INICIANTE: Espero que as "previsões" exageradas de António Barreto sejam apenas retóricas, como certamente espera também o autor do artigo, e nunca se concretizem. Mas seria bom que, ao menos, neste país se parasse de erigir monumentos aos "heróis do Ultramar", que mais não foram do que o braço armado do fascismo-colonialismo e em nome deste andaram, em guerras injustas nas colónias, a lutar contra guerrilheiros que apenas queriam a autodeterminação dos seus povos.
Margarida Paredes, defensora do Serviço Nacional de Saúde MODERADOR: Não é só retórica, e se fosse é disparatada. O movimento de Descolonização defende que os museus façam uma análise crítica do passado colonial e isso significa que a estatuária e objectos continuarão em exposição, mas contextualizados. O que é glorioso para a história colonial, do ponto de vista do "outro", do africano significou uma tragédia.
Mário Areias INICIANTE: o problema é que uma posição extrema provoca sempre outra também extrema. Quando essa outra chegar veremos muitos destes revolucionários de pacotilha negarem 3 vezes que eles nunca tiveram nada a ver com o assunto.
Fowler Fowler INICIANTE: Não se preocupem com o derrube e conspurcamento das estátuas. Logo, logo, o historiador Rui Ramos tratará de as reerguer e branquear. Como diria Salazar em horas de aperto: “Hora a hora, Deus melhora!”. E o outro, depois do adeus: “É só fumaça! O povo é sereno!”. Afinal, tanta conversa para nada!
António Borga INICIANTE: A propósito de estátuas: "Do rio que tudo arrasta se diz que é violento, mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem" (Bertold Brecht "Sobre a Violência")
Macuti: EXPERIENTE: O título diz tudo: Ainda não vimos nada. O caso Floyd foi apenas o rastilho para uma campanha contra as democracias liberais, que permitem desmandos, e contra o branco que colonizou e escravizou. Há ditaduras, hoje potências, que nunca colonizaram e que estão interessadas nesta agitação social. Ainda não vimos nada. Esta agitação também serve independências falhadas que têm e terão sempre a colonização como bode expiatório.
Fowler Fowler INICIANTE: Assim falou o vidente galardoado com as maiores insígnias do Estado. Também merece uma estátua! Mesmo que depois venha a ser derrubada pela turbamulta libertadora que ele abomina.
ana cristina MODERADOR: apagar é mais fácil do que iluminar.

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