Sobre os tais filhos, que, ao
longo dos tempos se manifestam, por diferentes motivos que sejam, cada época revelando
os temas das zangas que figurarão com maior ou menor afinco nas Histórias dos Tempos,
trazidos à ribalta por quem os analise a fundo, caso de Jaime
Nogueira Pinto, a propósito dos tempos que hoje vivemos, de sacanices
e maldades de analogia com esses tempos passados, como ele bem descreve e
ironiza, revelando quanto em termos de Mal ou de Bem, o Homem em nada evoluiu.
Filhos de Torquemad@
A ideia de que o inimigo político é
não só inimigo político, mas um ser profundamente perverso, Untermensch,
sub-humano, que deve ser impedido de falar, escrever, circular e, em último
caso, de viver.
JAIME
NOGUEIRA PINTO Colunista
do Observador
OBSERVADOR, 07 out. 2023, 00:2250
As guerras de Religião foram um tempo
particularmente cruel da História da Europa, em que, em nome de Deus, do mesmo
Deus, católicos e protestantes se guerrearam, se mataram, se torturaram, se
exterminaram, se condenaram reciprocamente às piores penas deste mundo e do
outro. E
fizeram-no paralelamente, ou seja, nuns Estados o poder católico proibiu,
preventivamente, as religiões reformadas e perseguiu os que as seguiam;
noutros, os protestantes fizeram o mesmo aos católicos; noutros, divididos, foi
a guerra civil.
Em Espanha e em Portugal, a Inquisição
actuou preventivamente, contra os que se dedicavam “a espalhar e pregar os
erros da predita seita luterana e de outros hereges”, como o agostinho Frei
Valentim da Luz, que sustentara doutrinas contrárias à ortodoxia, como as
seguintes: “Que o purgatório não
tinha lugar na Sagrada Escritura” e que as
“esmolas deviam ser dadas aos pobres e não à Igreja”.
Por essas e por outras heresias, frei Valentim, apesar
de se mostrar arrependido (os inquisidores, desconfiados, não acreditaram na
firmeza do propósito de emenda do frade), foi considerado “herege,
apóstata, seguidor de Lutero, Calvino e de outros hereges”. E por isso “morreu de garrote” em
Auto-de-fé, em 10 de Maio de 1553.
Mais sorte tinha tido, alguns anos antes,
o dominicano Fernão de Oliveira, o celebrado autor da primeira Grammatica da lingoagem
portuguesa, de 1536, acusado de ser simpatizante das reformas anglicanas de
Henrique VIII, Tudor, declarando que os reis não deviam obediência aos Papas. Oliveira foi condenado à prisão, mas foi
posto em liberdade ao fim de três anos, por ordem do cardeal D. Henrique,
mediante pedido de desculpas e acto de contrição público.
A
Inquisição tinha vindo para Portugal em 1536, no reinado de D. João III, depois
de muita resistência de Roma à sua instituição no Reino. Em
Espanha, estava estabelecida desde 1478, quando os Reis Católicos a obtiveram
do Papa Sisto IV, pela Bula Exigit sincerae devotionis affectus; ali,
muito antes da Reforma, começou por ser uma forma de combate às práticas
judaizantes, prosseguida com grande zelo identitário pelo Inquisidor-mor,
confessor e conselheiro de Isabel de Castela, Don Tomás de Torquemada. E foi, acima
de tudo, um instrumento
da Coroa na prossecução da unidade de Espanha. Primeiro,
até 1530, empenhou-se contra os judeus; depois contra os protestantes e
mouriscos; mais tarde contra os hereges e as heresias em geral.
Complementarmente a estas actividades
repressoras, funcionou uma Censura, que estabeleceu um Index
Librorum Prohibitorum et Derogatorum – embora,
curiosamente, a Censura política do Estado fosse mais dura que a da Igreja.
Também as bruxas e os tratos com o
Diabo foram investigados e perseguidos, mas em muito menor escala do que na
Europa protestante – Inglaterra e Alemanha. Os inquisidores espanhóis
eram bastante cépticos nestas matérias, ao ponto de um deles comentar: “No hubo brujas ni embrujados en el lugar
hasta que se comenzó a tratar y escribir de ellos”. E se, as
execuções por bruxaria em Espanha foram trezentas, no mesmo período na Alemanha
foram vinte e cinco mil.
Onde triunfou a Reforma, como na
Inglaterra de Henrique VIII, nos países nórdicos e na Genebra de Calvino, foi a
vez dos católicos serem perseguidos, os mosteiros fechados, os padres e
religiosos relapsos executados. Em 1535, na Inglaterra Tudor, os monges da cartuxa de
Londres foram enforcados e esquartejados na praça de Tyburn; São Thomas
Moore também foi supliciado por não
aceitar a legitimidade do divórcio de Henrique VIII e Catarina de Aragão e o
seu casamento com Ana Bolena. O Papa
São João Paulo II declarou-o patrono dos políticos, revelando grande sabedoria (só um político
virtuoso como São Thomas Moore
poderia chamar à santidade uma classe que quase sempre aceita quase tudo, desde
que lhe convenha). No tempo de Maria
Tudor, a Católica, (ou a Sanguinária, para os inimigos) foi a
vez dos mártires protestantes – 275; com Isabel I chegou, outra
vez, a vez dos católicos e mais de mil foram mortos. Dos
católicos martirizados entre 1535 e 1679, 40 foram beatificados e canonizados
pelos papas Leão XIII, Pio XI e Paulo VI.
Em França houve guerras civis entre
católicos e protestantes, com a terrível matança de Saint-Barthélemy, em 1572, quando milhares de huguenotes
foram assassinados, guerras que duraram até ao Édito de Nantes, de Henrique IV.
A ideologia como religião
A partir da Revolução Francesa e sobretudo
da Revolução bolchevique e das reacções europeias à revolução
bolchevique, as ideologias políticas passaram a
ocupar o lugar das crenças religiosas, nos altos ideais proclamados e
rasteiramente prosseguidos e na mobilização dos homens para a luta. E de uma
forma total, totalitária.
Nos limites, o comunismo soviético, o
hitlerismo e depois o maoísmo revelaram um extremo fanatismo, introduzindo na
luta política o sentido da aniquilação, uma espécie de mors tua vita mea, quer dizer, a minha vida depende da tua morte.
A isto acrescentou-se o maniqueísmo, isto é, a ideia
de que o inimigo político, hostes, é
não só inimigo político, mas um ser profundamente perverso, Untermensch,
sub-humano, que deve ser impedido de
falar, de escrever, de circular e, em último caso, de viver.
Que este espírito de perigosidade
implícita fosse, tradicionalmente, invocado pelos reaccionários para proibir,
para perseguir, para prevenir a difusão de doutrinas subversivas da ordem e da
autoridade, não é de espantar. Ou
sequer que, nos anos que se seguiram à Revolução Francesa as generosas e
liberais ideias do Iluminismo, uma vez no poder, se precipitassem nos excessos
apocalípticos das execuções em massa, ao Terror na guilhotina, nos afogamentos
de Nantes por Carrier, na eliminação por classes de padres e aristocratas, ao
genocídio da Vendeia. Também as hecatombes do comunismo do século XX estavam
já implícitas nos breviários marxistas-leninistas como caminho natural para a
instauração do paraíso na terra; ou o holocausto hitleriano dos Untermensch para
a consolidação e protecção do Terceiro Reich.
A nova Esquerda inquisitória
O que é de estranhar é que uma
nova esquerda, inclinada para o revisionismo humanista e humanitário, uma nova
esquerda inspirada numa reencenação, simultaneamente mais superficial e mais
masoquista, dos ensinamentos do marquês de Sade e de outros libertinos, numa
releitura mais intensa, extensiva e volante do binómio opressor/oprimido de
Marx, numa revisão mais criativa da Vulgata de Estaline e dos seus métodos, se
proponha adoptar, em pleno século XXI, práticas inquisitoriais. Práticas de
suspensão preventiva, de indiciação por categorias de malvadez e de
perigosidade latente de todos os que considera obstáculos à Nova Fé. Ou que vai
considerando, ao sabor das conveniências ou de um posicionamento mais vantajoso
no mercado, das ideias e das políticas.
Assim, um “pensador de
Extrema-Direita” quando fala ou se prepara para falar, seja sobre o que for,
vai inevitavelmente “emitir discurso de ódio”, pelo que deve ser imediata e veementemente
pré-excluído pelos auto-proclamados inclusivos. Ao contrário do comum dos mortais, parece que estes comissários políticos da inclusão são
mesmo seres excepcionais, tanto que têm o dom da fluidez e direito a “pronomes
pessoais”, podendo até usar o plural majestático (e
ai do súbdito que os não trate com a devida reverência); possuem também antenas hiper-sensíveis
para detectar o mais ínfimo cisco de ofensa, de incorrecção, de intolerância e
de não-inclusividade no olho alheio.
Esta “nova esquerda”, que nos quer impor
as suas intermináveis letras, os seus pronomes indefinidos, os seus códigos de
escrita e censura, as suas ladainhas, as suas infindáveis inclusões e
exclusões (desde
banir os clássicos a cortar o trânsito ou furar pneus para salvar o planeta); esta
esquerda que quer silenciar os dissidentes, não tem nada, mesmo nada, que ver
com aquilo que, por muito tempo, deu prestígio e razão moral à Esquerda – a defesa dos trabalhadores, a justiça social, a
correcção das desigualdades de nascimento e fortuna, a defesa da liberdade de
expressão.
Os seus apóstolos e discípulos – e
não excluo que entre eles não haja gente crédula e de boa-fé – parecem ter
herdado dos progenitores ideológicos só o pior: dos libertinos, o sado-masoquismo; dos
marxistas, a dogmática persecutória; e do cristianismo, os métodos e o zelo do
grande inquisidor das Espanhas e “martelo de hereges”, Don Tomás de Torquemad@.
A SEXTA
COLUNA HISTÓRIA CULTURA POLÍTICA…LIBERDADES SOCIEDADE
COMENTÁRIOS (de 50):
Alfredo Freitas: Pena é que o Sr Doutor não zurzas mais vezes nestas esquerdas,
principalmente no BE, porque tirando o Sr quase mais nenhum dos que escrevem
nos jornais tem a cultura histórica necessária para os pôr a nu, portanto que
nunca lhe doa a mão, continue. Além disso o Sr Doutor não é mantido pelos
nossos impostos como o BE, é mantido pelo seu muito trabalho, não tem que ter
qualquer amarra. Os partidos deviam ser sustentados exclusivamente pelas quotas
dos militantes, mais nada, não era receber dos impostos x por cada voto. Muita
escumalha que para aí anda abria logo falência, o que era muito bom por ser uma
limpeza sanitária. Carlos Quartel: De facto, sempre foi assim. Comunistas e afins nunca
esconderam a sua intolerância e o seu desejo de destruição de quem não lê pela
mesma cartilha. A manifestação desse espírito é que varia com as condições e
com alterações de fervor ideológico. Qualquer
argumento serve para elevar esse fervor, desde alterações climáticas a
violência doméstica ou rendas de casa. O ódio está lá sempre e a chispa salta à mínima
oportunidade. . Ainda ontem vi uma interveniente num debate televisivo pedir a
cabeça do Chega, fascistas que deviam ser proibidos. Não só o tom, mas a
postura e o olhar foram denunciantes do fel que ali anda acumulado. O comunismo
é uma religião, é a verdade, quem não a vê deve ser "removido". De
modo expedito, tipo Estaline ou a versão soft de perseguição e acosso (por não
haver condições para o Stalin style ).....
João Floriano
> Rui Lima: Curioso como foram fazer a
eleição para Borba. Normalmente costumavam eleger a miss num ambiente de
glamour e confettis no Casino Estoril ou noutro casino qualquer. Igualmente
também muito discreta a cobertura dada pela CS. Tanto que estas organizações
LGBTI e feministas têm criticado a organização de concursos de misses como um
exemplo do heteropatriarcado decadente e exploração do corpo e da imagem da
mulher, a pontos de a marca Victoria's Secret ter incluido nos seus catálogos
corpos tipo abóbora, e agora invadem esses mesmos concursos para fazerem
propaganda da causa. Em novembro serão duas misses trans: a holandesa e a
portuguesa, sendo que nestas coisas Portugal vai sempre à frente. Noutras , nas
que interessam , está a ficar cada vez mais para trás. Para o ano serão mais a
ponto de o concurso das misses se transformar num desfile de matulões a quem
cortaram os genitais e todos trabalhados no silicone e no botox. Alguém que me
explique porquê Borba! Será porque se quer chamar a atenção para a necessidade
de descentralizar e para as vantagens da regionalização? Rui Lima: Se no passado a ditadura tinha
alguns opressores, hoje os tempos são mais difíceis , os opressores são aos
milhares em todas as áreas da vida e ninguém é poupado, os mortos , as estátuas
,os livros, os filmes , a história das nações , o homem branco , ser
heterossexual é mal visto a misse de Portugal é notícia em toda a Europa, não
pela sua beleza mas pela originalidade. Vi a notícia primeiro nos jornais
estrangeiros nem sei se é verdade deixo o título da notícia : “Une femme
transgenre sacrée Miss Portugal, une première historique Rui Guerreiro: Na mouche! Até devíamos
sentir-nos animados por estarmos a viver tempos históricos... pena é que nestes
tempos só se esteja a escrever a história da queda da civilização ocidental. João Floriano
> Tone da Eira: Resolve-se já: inscreva-se no
Climáximo. Ontem Manuela Ferreira Leite perguntava com graça onde é que se arranjava o cartão
de activista: segurança social, loja do cidadão, quiçá Junta de Freguesia ou
então online como o Cartão europeu de saúde. Só uma pergunta: Tem a certeza
que é moça? É que alguns dos que por lá andam deixam-me na dúvida. Não me diga
que está encantado com uma que só trazia meio collant preto. Eu não
resisto a collants pretos e então se estiverem esburacados nem me fale.
Aquele ar desmazelado chic é o «climáximo». Desejo-lhe um bom date. Mario Bastos:
Que grande texto.
Eu disse grande texto não disse longo texto que também o é. Manuel
Gonçalves: A História, essa
grande conselheira, para quem a domina com mestria. Análise excepcional, a
desfilar os erros dos pequenos sicofantas. João Floriano: Excelente. O mundo ocidental está a fervilhar de exemplos de Untermensch
sobretudo e por enquanto de ordem cultural. Levado ao extremo a agressão russa
ao martirizado povo ucraniano é o exemplo máximo do conceito de Untermensch. Os
russos não escondem o seu direito moral a aniquilar e varrer da face da terra a
«maldade» da Ucrânia. Salvo as devidas proporções, a manifestação pelo direito
à Habitação do passado dia 30 de setembro, é também um exemplo do conceito de
Untermensch, se bem que os fanáticos que ergueram cartazes de ódio e andaram a
partir montras com martelos, não tenham conhecimentos para perceber o que
significa Untermensch e o nome Torquemada nada lhes diga . Não sabem que são
filhos de Torquemada mas sabem de certeza que são filhos de Louçã e a mãe se
chama Mariana Mortágua. Coxinho: Um artigo cuja inexistência
deixaria o Observador a braços com um défice muito sério. Fernando
CE: Muito bom artigo
e lição de História. JML - ESTATE MANAGER: Numa só palavra: Obrigado. Fernando Cascais > João Floriano: O PS vive enlameado no
oportunismo político de António Costa que ao perder as eleições em 2015, fez um
pacto com o diabo, onde vendeu a mãe e o pai para poder ser primeiro-ministro.
Abriu a porta ao radicalismo no PS, e hoje, todos os lugares tenentes vêem
com bons olhos uma aliança com o radicalismo da extrema-esquerda. Esta vitória de um derrotado deixou o país
refém das politicas de extrema esquerda e condicionou o PS ao
"Deixa-Andar" ou ao "Vamos Andando" para garantir o apoio
do BE e do PCP. Hoje, todos estamos a pagar a traição que Costa fez a Portugal,
mas, infelizmente, como somos um povo que quanto pior melhor, há muito boa
gente que aplaude os traidores. Fernando
Cascais: A política sempre
foi mais do que um debate de ideias. A ideia de eliminar os adversários
continua presente, apesar, de hoje em dia já não arrastarmos com uma mão a
fêmea pelos cabelos para o coito, enquanto com a outra levamos a moca. Evoluímos,
é verdade, mas, em muitas regiões do mundo a prática de eliminarmos adversários
políticos continua presente e actual incluindo a submissão das mulheres à força
do macho. Eu, pessoalmente, sinto-me evoluído, aceito de bom grado o debate
de ideias e fico conformado com os resultados das eleições, mas, não sei se
reagiria bem se porventura um dia o BE ou o PCP ganhassem as eleições e Mariana
Mortágua fosse nomeada primeiro-ministro. Confesso, que quando vejo a Mortágua
a discursar dá-me vontade de esganá-la, mas, esta ideia na prática seria tão
horripilante como cheirar os velhos All Star que a dita começou a usar quando
nasceu. Todavia, nos contextos certos, qualquer moderado seria capaz de esganar
um adversário político com ideias políticas radicais. Se a direita portuguesa
um dia ganhasse eleições com 90% dos votos, os adversários radicais de esquerda
podiam ter problemas com a sua liberdade. As suas ideias seriam atentados à
normalidade e aos bons costumes vigentes. O mesmo acontece com as esquerdas, se
bem, que as esquerdas radicais anunciam logo à partida que não existe
conivência democrática com os adversários políticos. A justificação dos
comunistas para a defesa de um regime anti-democrático são os trabalhadores.
Dizem eles, que depois de os trabalhadores conquistarem o poder não pode haver
o risco de o perderem. Ou seja, neste aspecto as esquerdas radicais são
cruelmente honestas e dizem ao que vem; os adversários políticos são para
eliminar, e com a esquerda radical no poder, Jaime Nogueira Pinto estaria mudo
e possivelmente a apodrecer numa qualquer prisão política. Resumindo, diria que
evoluímos mas como um elástico a ser esticado. Basta alguém nos tirar a mão que
voltamos num instante para trás. O radicalismo de esquerda não é democrático,
quer impor as suas ideias pela força, e, se um dia ganhassem o poder, iam
faltar balas para tanto tiro na nuca.
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