terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

Olarila!


Se enganam os tolos, com as tais papas e bolos. Também gosto, de umas e de outros, mas vejo antes, na doutrina que Salles da Fonseca tão bem explicita, as belas pinturas dos santinhos e das santinhas distribuídos na Igreja, ou noutros lugares de devoção, com que dantes – e não sei se ainda - se educava o tal povo, para o amaciar e posicionar no mundo, com a promessa do Outro, da bondade e do prémio, para os humilhados deste. Mas o Outro virou este, agora bem real, com a reviravolta doutrinária, de aplicação terrena, de prémio estabelecido sobretudo para os que essa bondade defendem, com unhas e dentes, cá na Terra, tão bem sintetizada pelo Dr. Salles. Na realidade, uma tal democracia, lisonjeira dos interesses populares, com o aviltamento de todos os que na sociedade se distinguem por competências ditadas por capacidades de teor vário, só visa o nivelamento social, igualitário, que nunca será possível e apenas criador de desordem, pese embora o ideal de justiça subjacente à doutrina.

O certo é que nós, portugueses, vamos sobrevivendo, humildemente confiados nesses ideais democráticos - mas apenas os do nível externo, que no-lo permitem com fraternal generosidade. Porque os do nível interno, bem zelam para tudo isso destruir, com a aplicação das suas próprias imposições, definidas por Salles da Fonseca. Forças opostas, centrífuga e centrípeta, que nos irão convertendo ao abaixo de zero da nossa irremediável timorata mansidão.

 

AS PAPAS E OS BOLOS

HENRIQUE SALLES DA FONSECA

A BEM DA NAÇÃO, 01.02.21

ou

«DEMOCRACIA AVANÇADA»

Democracia e liberdade são conceitos unicitários, não carecem de complementos adjectivantes. Estes, existindo, são limitadores dos ditos conceitos e, pior, são seus “distorçores”.      * * *

Do Programa do PCP extraio o que nele se refere à «democracia avançada»:

«1. No ideal e projecto dos comunistas, a democracia tem quatro vertentes inseparáveis - política, económica, social e cultural:

democracia política baseada na soberania popular, na eleição dos órgãos do Estado do topo à base, na separação e interdependência dos órgãos de soberania, no pluralismo de opinião e organização política, nas liberdades individuais e colectivas, na intervenção e participação directa dos cidadãos e do povo na vida política e na fiscalização e prestação de contas do exercício do poder;

democracia económica baseada na subordinação do poder económico ao poder político democrático, na propriedade social dos sectores básicos e estratégicos da economia, bem como dos pobres principais recursos naturais, na planificação democrática da economia, na coexistência de formações económicas diversas, no controlo de gestão e na intervenção e participação efectiva dos trabalhadores na gestão das empresas públicas e de capitais públicos;

democracia social baseada na garantia efectiva dos direitos dos trabalhadores, no direito ao trabalho e à sua justa remuneração, em dignas condições de vida e de trabalho para todos os cidadãos, e no acesso generalizado e em condições de igualdade aos serviços e benefícios sociais, designadamente no domínio da saúde, ensino, habitação, segurança social, cultura física e desporto e tempos livres;

democracia cultural baseada no efectivo acesso das massas populares à criação e fruição da cultura e na liberdade e apoio à produção cultural.

Um regime democrático tem de enfrentar e caminhar para a resolução dos mais graves problemas nacionais e de responder com êxito aos grandes desafios que se colocam a Portugal no fim do século XX. A democracia avançada no limiar do século XXI que o PCP propõe ao povo português contém cinco componentes ou objectivos fundamentais:

1ª - um regime de liberdade no qual o povo decida do seu destino e um Estado democrático, representativo, participado e moderno;

2ª - um desenvolvimento económico assente numa economia mista, moderna e dinâmica, ao serviço do povo e do País;

3ª - uma política social que garanta a melhoria generalizada das condições de vida do povo;

4ª - uma política cultural que assegure o acesso generalizado à livre criação e fruição culturais;

5ª - uma pátria independente e soberana com uma política de paz, amizade e cooperação com todos os povos.»

* * *

Posto o que, desde já declaro que não me darei ao trabalho entediante dos meus Leitores e de mim próprio de desmontar cada ponto da transcrição anterior.

Basta lembrarmo-nos do «gulag» siberiano e das purgas stalinistas de todos aqueles que nem chegaram à Sibéria por terem sido aniquilados nas caves da Lubianka para compreendermos o verdadeiro significado de liberdade política comunista; basta lembrarmo-nos do monte de real sucata que era o parque industrial não militar aquando do colapso do Império Soviético para compreendermos as consequências danosas da diabolização do lucro na ideologia marxista; basta lembrarmo-nos da massificação residencial em grandes blocos habitacionais com instalações sanitárias colectivas no rés do chão para compreendermos o significado de conforto no conceito soviético; basta lembrarmo-nos do «tratamento de luxo» dado a todos os intelectuais e artistas que não cantavam loas à «nomenklatura» do Partido; basta lembrarmo-nos do internacionalismo proletário marxista para compreendermos o significado de «Pátria» na mente de um comunista. De tudo, para concluir que «democracia avançada» significa efectivamente a total ausência de democracia e que tem sido com este género de papas e bolos que os marxistas vêm enganando uns quantos desprevenidos.

Um dia destes que por aí vem, mando o meu cão dar umas dentadas em Gramsci e espantar as pombinhas da Cat’rina.

Fevereiro de 2021      Henrique Salles da Fonseca

Tags: "política portuguesa"

COMENTÁRIOS:

Anónimo 01.02.2021:  tem que ser sempre relembrado infelizmente

Adriano Lima 02.02.2021: Dr. Salles, não creio que alguém possa, de boa mente, refutar a conclusão a que chegou e que, em boa verdade, reúne o consenso geral. Claro, à excepção daqueles que se filiam nos partidos ditos comunistas. Ainda assim, compreendo a ingrata posição dos de estrato etário mais velho, já que a adiantada idade talvez já não lhes permita rejeitar crenças instaladas no entusiasmo da juventude ou no fervor da oposição ao anterior regime. Causa-me estranheza é que pessoas mais jovens e intelectualmente esclarecidas possam ainda aderir à causa de partidos cuja ideologia devem, de antemão, saber que faliu estrondosamente em toda a linha e em todas as latitudes. Tanto mais quando não deviam ignorar os crimes contra a pessoa humana que deixaram ao longo do seu trajecto. No entanto, tem de se reconhecer que os nossos partidos de ideologia marxista aceitam e cumprem as regras da democracia e a Constituição da República, distinguindo-se dos que se identificam e reivindicam ideologias tidas como da extrema direita      Adriano Lima:  Continuando a comentar... Creio que nem o mais ingénuo levou a sério o Dr. Cunhal quando, numa entrevista na RTP há 46 anos, afirmou que a democracia defendida pelo PCP garantia "as mais amplas liberdades". Nem mais nem menos, "as mais amplas liberdades". Mas não se deu ao cuidado de as precisar. Se alguma vez o tentou, não terá saído de palavreado vago e completamente ao arrepio do legado político do marximo-leninismo aplicado na URSS e em outros países. Falar de democracia é, principalmente, falar dos sistemas e modelos económicos que ela propicia. Na URSS, Cuba e outros países, a economia estatal resultou naquilo que sabemos. Não mencionei a China porque ela arredou pé a tempo e adoptou o tal modelo de um sistema político autoritário (sem as mais amplas liberdades) com uma economia em que a componente planificada convive com a do mercado. Os líderes chineses chamam-lhe "socialismo com características chinesas". A verdade é que o crescimento económico da China mudou completamente de fisionomia desde que abriu portas a uma economia de mercado controlada pelo estado. Mas não quero com estas observações tecer loas à economia de mercado desregulada nem passar-lhe um cheque em branco. No nosso país, embora ninguém duvide que o crescimento da sua economia depende de um sector privado esclarecida e empreendedor, há muito quem entenda não abdicar do guarda chuva do Estado para o sucesso e sustentabilidade dos seus negócios. Penso que os exemplos abundam para o demonstrar. Um dos mais recentes é o caso do Hospital de Miranda do Corvo (privado), que o Francisco Louçã trata com verdade objectiva num artigo publicado no Expresso Diário em 2 do corrente. Esse hospital parece estar apetrechado mas nunca funcionou e não tem sequer um enfermeiro, talvez um segurança no exterior. Conforme analisou Louçã, o dono do hospital deu uma entrevista a censurar o desaproveitamento da infraestrutura nesta altura em que os meios escasseiam para o combate à pandemia. Tudo indica que o dono estava, ou está, à espera, que o Estado chegue à frente para lhe proteger o negócio que até agora não curou estruturar convenientemente. Diz o articulista: "O dr. Ramos explicou então candidamente numa reportagem da Sic que o que queria, precisamente, era que o Estado lhe garantisse o pagamento dos profissionais que ainda não contratou e que lhe despachasse os clientes que ainda não tem. Ou seja, a iniciativa privada quer que o sector público lhe pague as despesas e lhe proteja o negócio. Não pretende convenções, quer uma garantia de cobertura dos custos e uma salvaguarda das receitas. Sem isso, continua amuado e não contrata ninguém. Só abre portas se o Estado lhe assegurar a tesouraria e os proveitos". Só posso acrescentar dizendo: Assim não!        Adriano Lima 02.02.2021 Continuando ainda a comentar...: Penso que nenhum sistema político e económico pode abdicar da realidade concreta do país e também da idiossincrasia do povo a que respeitam. Com esta observação, formulo uma pergunta: será que o Dr. Cunhal acreditava que Portugal e os portugueses seriam alguma vez encaixáveis num sistema político marxista-leninista, viabilizando o sucesso retumbante de um modelo comunista à portuguesa? Talvez ele o pensasse sinceramente, e digo isto dando o devido desconto a uma visão lunática que estaria em clara oposição aos atributos de inteligência e cultura que lhe eram, e são, reconhecidos. Claro que como homem livre estava no seu direito. O que acho simplesmente censurável é os intelectuais da nossa praça, ontem como hoje ainda, nunca terem chamado os bois pelos nomes, confrontando o líder político com a escassa ou nula clarividência das suas ideias e com a sua obstinação em não reconhecer a falência prática e generalizada da sua ideologia. É por isso que reprovo sem apelo nem agravo a hipocrisia e o baixo nível de coragem cívica e de honestidade intelectual da maior parte dos nossos intelectuais. Principalmente naquelas décadas logo a seguir ao 25 Abril, em que muitos actores da cena pública passavam a ideia de nem serem carne nem peixe, para salvaguardarem os seus lugares na sociedade.        Adriano Lima 02.02.2021: Para conclusão definitiva, mais um comentário... Como disse em comentário anterior, nenhuma política pode ser engendrada e posta em prática ignorando a realidade do país. Isto vem a propósito de o BE e o PCP, impossibilitados e não querendo, por conveniência própria, integrar uma solução governativa, funcionarem quase exclusivamente como forças de protesto e reivindicação. Esta sua prática traduz-se em reivindicar sistematicamente tudo e mais alguma coisa para os trabalhadores e as classes mais desfavorecidas, quase sempre do âmbito do estado, ignorando que este só pode distribuir em função de riqueza produzida. Sem um sector privado pujante e liberto de peias, não é possível uma projecção do PIB para níveis superiores e consentâneos com a nossa definitiva saída da "cepa torta" de que tanto lamentamos quando olhamos para os nossos parceiros europeus. Ora, que eu saiba, nenhuma daquelas forças políticas aposta em propor soluções viáveis para o relançamento do sector privado. Antes pelo contrário, olham para ele com indisfarçável desconfiança e antagonismo, mesmo que, as mais das vezes, e só para compor o vaso, sugiram medidas para o apoio às pequenas e médias empresas. Mas isto sem qualquer ideia sobre como se articula com a realidade concreta aquilo que propugnam com frequente vacuidade e só para fazer figura. E quanto a botar figura, é fácil com dinheiro de outro.


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