O Dr. Salles teoriza, apoiado na sua
experiência humana, que lhe dá o poder de exprimir o conceito, eivado de
natural ironia, resultante de uma perspectiva humanística vivencial: uma
palavra poderosa, essa, a de LIBERDADE, significativa de algo que emerge da
existência de todo o ser vivente, mas que só o HOMEM tem a capacidade de
explorar conscientemente, na abertura ou na repressão, na filosofia lata ou na
demagogia tendenciosa. Um sentimento de ampla aspiração, geralmente coarctado
pelas respectivas regras que ele próprio racionalmente criou, para si e os
seus, por vezes o protesto contra a sua ausência resultando em favorecimento do
protestante, como é o caso da Inês Pereira que se queixava de estar sempre
fechada em casa “como panela sem asa que
sempre está num lugar”, idêntica à da menina que na cantiga se queixa: “Liberdade, liberdade, quem na tem chame-lhe
sua / Eu não tenho liberdade / Nem de pôr o pé na rua”. A Inês Pereira lá
achou artes para se pôr às costas do marido Pero Marques, que assim vai a seu
mando, ajoujado com o seu peso. Mas essa sabia-a toda. A maioria de nós é
sujeita e cumpre, pois se o não fizer não tem direito às cavalitas. Às vezes
também há quem saiba imprimir magia a essas referências de falhas nas
liberdades e é o caso do M. Torga, que com isso se entretém a dar-nos a alegria
da sua magia verbal e experiencial, mas o discurso argumentativo do Dr Salles
não é menos mágico, na sua aprazível racionalidade argumentativa:
Liberdade
— Liberdade, que estais no céu...
Rezava o padre-nosso que sabia,
A pedir-te, humildemente,
O pio de cada dia.
Mas a tua bondade omnipotente
Nem me ouvia.
— Liberdade, que estais na terra...
E a minha voz crescia
De emoção.
Mas um silêncio triste sepultava
A fé que ressumava
Da oração.
Até que um dia, corajosamente,
Olhei noutro sentido, e pude, deslumbrado,
Saborear, enfim,
O pão da minha fome.
— Liberdade, que estais em mim,
Santificado seja o vosso nome. (M.
TORGA)
HENRIQUE SALLES DA FONSECA
A BEM DA NAÇÃO, 22.09.25
…e
aos brados da liberdade, prenderam quem quiseram.
Foi por certo assim desde tempos
imemoriais mas eu lembro-me de Robespierre e Lenine que aprendi nos livros e
lembro-me de Cunhal e Otelo durante o «Verão quente de 75».
* * *
O que é então a liberdade?
Começando pelo fim, a liberdade é a ausência de constrangimentos a não ser os impostos
pela própria consciência e desde que essas condicionantes morais e éticas
tenham sido aceites pelo próprio, sem rude imposição. Daqui resulta
uma relação condicional entre os conceitos de liberdade, moral e ética, ou
seja, de bem e de mal. A
conflitualidade das liberdades pode, pois, resultar de morais e éticas de
origens diferentes. A quem não
tenha este tipo de condicionantes, à semelhança dos animais que deambulam pela
selva, podemos chamar selvagens.
Mas há outras bases de aproximação ao
tema.
Assim,
recordemos que a História é a essência da Cultura
pois só com ela conhecemos o passado para, então, compreendermos o presente e
podermos perspectivar o futuro.A busca do espírito dos tempos; a
busca do significado. Só assim se é livre. A
liberdade é, pois, um acto de cultura formatado pela Moral e Ética. Se assim
não fôr, será libertinagem.
Setembro de 2025
HENRIQUE SALLES DA FONSECA
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