Em tempo dos Poirots destrinçadores dos
crimes é sintoma não só da nossa virtude, avessa aos descarrilamentos, como
também da nossa capacidade destrinçadora imediata do mistério que a eles
preside. O P. GONÇALO PORTOCARRERO, analista da alma humana, atribui-lhe ainda outros motivos e o texto que segue o demonstra
bem.
O Poder e (o elevador d’) a Glória
À política, o que é da política, mas à moral o que é da moral. Usar
e abusar dos juízos éticos, por mera conveniência eleitoralista, desprestigia a
moral… e a política.
P. GONÇALO PORTOCARRERO DE
ALMADA Colunista
OBSERVADOR, 13 set. 2025, 00:1611
A notícia do descarrilamento do lisboeta
elevador da Glória foi dolorosamente surpreendente, sobretudo pelo elevado
número de vítimas mortais: paz às suas
almas! Esse transporte
da Carris percorria a breve distância entre o Largo dos Restauradores e o
Jardim de São Pedro de Alcântara e é um dos ex-libris da cidade.
Aos especialistas compete apurar as
causas técnicas do acidente, mas a todos os cidadãos interessa saber se houve
responsabilidade imputável aos dirigentes da transportadora, aos responsáveis
pela manutenção desse equipamento, ou aos autarcas da cidade.
É salutar o princípio da separação de
poderes, em que assenta o Estado de Direito democrático e, por isso, é de
evitar a promiscuidade entre o poder executivo e judicial, nomeadamente quando
a política interfere no funcionamento dos tribunais, ou quando os magistrados
se servem da justiça para fazer política. Não sou a favor de sistemas judiciais em que se aplicam penas de
morte e de prisão perpétua, mas aprecio os países que praticam a cultura da
responsabilidade.
A 15 de Janeiro de 2009, o voo 1549
da US Airways, ao colidir com um bando de gansos do Canadá, perdeu os seus dois
motores, pouco depois de ter descolado do aeroporto de La Guardia, em Nova
Iorque. Dada a colisão e a inoperacionalidade de
ambos motores, era urgente uma aterragem imediata. Não sendo factível o
regresso ao aeroporto de partida, nem a opção por nenhuma outra pista de aviação,
o Capitão Chesley ‘Sully’ Sullenberger viu-se obrigado a pousar o Airbus A 320
no rio Hudson, salvando os 155 passageiros a bordo, bem como a respectiva
tripulação. “Esta
aterragem de emergência e a evacuação da aeronave, sem a perda de nenhuma vida
humana, é uma conquista heróica e única da aviação” e, por isso, a respectiva tripulação
foi condecorada com a Medalha de Mestre
da Guild of Air Pilots and Air Navigators.
As
averiguações sobre as possíveis responsabilidades dos pilotos não tiveram lugar
um mês depois do acidente, nem sequer uma semana mais tarde. Com efeito, foram ouvidos logo no dia seguinte, 16 de Janeiro, que é a data do relatório preliminar,
que ilibou a tripulação de qualquer culpa ou responsabilidade. É obra!
Esta diligência contrasta com a
proverbial irresponsabilidade nacional, aliada à não menos habitual morosidade
judicial. A
impunidade nacional ficou bem patente no caso Camarate, em que, entre outros,
morreu o então primeiro-ministro – diga-se de passagem que, embora fosse
justíssima a homenagem, foi muito infeliz dar ao aeroporto portuense o nome de
uma vítima de um acidente aéreo! – e em que nunca, apesar das inúmeras
comissões parlamentares de inquérito, se chegaram a apurar as responsabilidades
criminais dos executores e mandantes desse atentado. Por
sua vez, o actual julgamento de um antigo primeiro-ministro, que há mais de dez
anos já tinha estado nove meses preso pelos indícios que só agora o levaram a
sentar-se, finalmente, no banco dos réus, prova a clamorosa lentidão da justiça
portuguesa.
Sobre a responsabilidade política há
dois extremos a evitar: o de considerar que tudo o que acontece é da
responsabilidade dos governantes locais e/ou nacionais; e o contrário, ou seja, o de entender que os titulares
de cargos políticos são, por regra, inimputáveis e, portanto, não respondem por
nenhuma deficiência do sistema.
Há quem entenda que o Presidente da
Câmara Municipal de Lisboa é responsável, em termos políticos, pelo acidente do
elevador da Glória, porque o mesmo ocorreu na sua autarquia. A este propósito, o Professor André
Azevedo Alves, em crónica no Observador de 10-9-2025, afirmou
que, “mesmo que não haja nenhum erro específico e directamente relacionado
a apontar como causa imediata da tragédia, há uma responsabilidade política
objectiva pela inércia na substituição, actualização e implementação de
mecanismos de segurança que garantam redundância em equipamentos deste tipo.” O ilustre cronista também entende que a
responsabilidade política do autarca ficou agravada por se encontrar em fim de
mandato: “O caso seria mais discutível se estivéssemos na parte inicial do
mandato, mas ao fim de quatro anos há responsabilidades políticas claras que
devem ser assumidas perante a tragédia.”
Se se reconhece, como é o caso, que não
houve “nenhum erro específico e directamente relacionado a apontar como causa
imediata da tragédia”, não parece razoável entender que há responsabilidade
política, nem muito menos que a mesma seja “objectiva” e “clara”. Supõe-se
que o presidente da edilidade deveria ter providenciado a “substituição,
actualização e implementação de mecanismos de segurança que garantam
redundância em equipamentos deste tipo”, mas
trata-se de uma questão técnica tão sofisticada que só dela se poderia
aperceber quem é perito na matéria! Se
um passageiro de um táxi morrer num acidente, porque o air bag ou o seu cinto
de segurança não funcionaram, não é razoável supor que o autarca é politicamente
responsável. Faz sentido que o titular da autarquia responda
por uma gestão que não é manifestamente da sua competência?! Ora, como é óbvio,
o autarca não tem responsabilidades ao nível da manutenção das carruagens e
elevadores da Carris.
O extremo oposto, ou seja, o da
sistemática impunidade dos responsáveis políticos, também não é, em termos
morais, aceitável. Se, por
hipótese, se comprovasse que um governante tomou uma decisão que gerou
insegurança para os passageiros dos transportes públicos, é óbvio que seria, em
termos morais e políticos, responsável pelos danos decorrentes dessa sua opção
e, ocorrido um acidente por este motivo, procederia a responsabilização
politica e, eventualmente, criminal, desse político. Aos que ocupam
cargos públicos corresponde uma maior honra, mas também uma maior
responsabilidade.
À política, o que é da política, à
justiça o que é da justiça, e à moral o que é da moral. Usar e abusar dos juízos éticos, por mera
conveniência eleitoralista, desprestigia a moral e a política. Quando,
na política, se procura o espectáculo e não o bem comum, exigem-se gestos
teatrais, como demissões ribombantes, até mesmo em vésperas de eleições, em que
o voto dos munícipes será, afinal, o veredicto final. Há um antiquíssimo provérbio chinês que
também se aplica a estes casos: quem, de punho fechado, aponta o indicador
contra alguém, tem três dedos apontados contra si.
CÂMARA MUNICIPAL LISBOA
LISBOA PAÍS
SOCIEDADE POLÍTICA
COMENTÁRIOS (de 12)
Graça Dias: Um artigo de opinião vertical, de pensamento livre e independente.
Destaco uma frase já do final da crónica: Usar e abusar dos juízos éticos, por
mera conveniência eleitoralista, desprestigia a moral e política
Luís CR Cabral: Uma voz
sensata entre a histeria coletiva
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