terça-feira, 30 de setembro de 2025

Os entreténs


Lá por fora. Os nossos são de consumo interno, sem relevo, pois. A não ser televisivamente, até que nos aprazem também, na inércia dos noventa, com o vento a levar a vida, aliterativamente falando… ou sussurrando...

Trump "fez a sua magia" e convenceu Bibi. Mas a paz ainda está longe de estar garantida

Em dia "histórico", Presidente norte-americano conseguiu convencer líder israelita a pedir desculpa ao Qatar e a aceitar um acordo para Gaza. Hamas pode recusar; e os parceiros de Netanyahu também.

CÁTIA BRUNO: Texto

OBSERVADOR,  30 set. 2025, 01:032

Índice

O acordo Biden 2.0 que tem dois pormenores espinhosos

A “exasperação” com Netanyahu que levou Trump a dar um murro na mesa

Os entraves: a resistência do Hamas e parceiros de coligação israelitas

 

“Um lindo dia, talvez até um dos maiores dias de sempre da civilização.” Foi assim que o Presidente norte-americano classificou o anúncio feito, esta segunda-feira, na Casa Branca, de uma proposta de plano para acabar com o conflito em Gaza, que contou com a anuência de Benjamin Netanyahu. Donald Trump falou num “dia histórico para a paz” e Bibi acabou por selar o anúncio, dizendo “apoio o seu plano para pôr fim à guerra em Gaza, que cumpre os nossos objectivos de guerra”.

É um avanço grande, já que é a primeira vez que o primeiro-ministro israelita afirma tão declaradamente em público que quer pôr um ponto final no conflito perante uma proposta que implica algumas cedências da parte de Israel. O que, à primeira vista, se traduz numa grande vitória para Trump.

Benjamin Netanyahu e Donald Trump na conferência de imprensa de segunda-feira Getty Images

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Mas ainda falta a luz verde do Hamas — e é possível que ainda haja tortuosas negociações, com o grupo terrorista a resistir à desmilitarização e o líder israelita a querer evitar um compromisso maior de reconhecimento de um futuro Estado da Palestina, a fim de não alienar ainda mais os seus parceiros de coligação no Governo. Por isso, impõe-se a questão: irá este dia ficar de facto para a História? Ou ainda é cedo para dizer que Trump conseguiu o que parecia impossível?

O acordo Biden 2.0 que tem dois pormenores espinhosos

Em linhas gerais, o acordo de 20 pontos apresentado esta segunda-feira inclui uma série de propostas como o fim imediato das operações militares por parte de Israel, combinadas com a libertação dos reféns em 72 horas. Prevê entrada de ajuda humanitária na Faixa de Gaza, a desmilitarização do Hamas (e possível amnistia dos seus membros), permanência dos palestinianos no enclave e o estabelecimento uma gestão de transição gerida por tecnocratas palestinianos, presidida pelo próprio Donald Trump e co-liderada por figuras internacionais como o antigo primeiro-ministro britânico Tony Blair, levantando a possibilidade de a Autoridade Palestiniana vir a ocupar esse lugar no futuro.

Na prática, a proposta não é radicalmente diferente de outras que já foram discutidas no passado, como notou o jornalista da Economist Anshel Pfeffer: “Deve ser dito que o acordo é essencialmente o mesmo apresentado por [Joe] Biden em 31 de maio do ano passado”, escreveu no X o também biógrafo de Netanyahu. “Tantas vidas poderiam ter sido poupadas se Biden tivesse pressionado Netanyahu à altura como Trump fez agora.”

A obrigatoriedade de desmilitarização do Hamas e a possibilidade de a Autoridade Palestiniana vir a assumir o poder em Gaza — com o reconhecimento de um Estado da Palestina no futuro — são os pontos da proposta que enfrentarão mais resistência.

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Há de facto vários pontos de contacto em ambas as propostas. Embora o plano de Biden previsse um cessar-fogo temporário como primeira fase do acordo, também previa a libertação de reféns israelitas de um lado (embora de forma faseada) e de prisioneiros palestinianos do outro, a entrada de ajuda humanitária e o regresso e permanência de palestinianos no território. Mas também há algumas nuances: o plano de Biden não tinha mais detalhes sobre o que constituía “um grande plano de reconstrução” com apoio internacional.

Era uma definição de futuro vaga. Desta vez, há alguns detalhes extra, como a criação de um órgão internacional para supervisionar o enclave. Os outros novos pormenores são precisamente os que representam o principal entrave à concretização deste plano de paz. Por um lado, a obrigatoriedade de desmilitarização do Hamas, que consta no texto; por outro, a possibilidade de a Autoridade Palestiniana vir a assumir o poder em Gaza, como abordou Trump, e o reconhecimento de um Estado da Palestina no futuro.

A desmilitarização do Hamas é um dos pontos do acordo que pode levantar mais resistência por parte do grupo Getty Images

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Ambas estão intrinsecamente ligadas, do ponto de vista do Hamas. Pouco depois da conferência de imprensa, um dos líderes do grupo terrorista deu uma entrevista à Al Jazeera onde não fechou a porta a um acordo, mas sublinhou que o plano atual é “uma tentativa de suprimir o impulso e a vaga de reconhecimento de um Estado palestiniano” — indiciando que essa pode ser uma das condições do Hamas para aceitar a proposta. Outro representante do grupo fez declarações à BBC que apontam no mesmo sentido, dizendo que a desmilitarização é “uma linha vermelha”, que só pode ser discutida se houver garantias de que venha a ser “estabelecido um Estado palestiniano independente com as fronteiras de 1967”.

Netanyahu, na conferência de imprensa, pareceu rejeitar liminarmente a ideia de a Autoridade Palestiniana vir a gerir o território — e, portanto, de vir a reconhecer um Estado da Palestina —, o que pode chocar com as palavras (vagas) do texto. “Não será uma surpresa para vocês que a larga maioria dos israelitas não tem qualquer fé que o leopardo da Autoridade Palestiniana venha a mudar as suas manchas”. Trump, contudo, não considerou isso um problema: “O primeiro-ministro Netanyahu foi muito claro sobre a sua oposição a um Estado palestiniano”, disse. “Compreendo e respeito a sua posição em muitas coisas, mas o que ele está a fazer hoje é tão bom para Israel.”

A “exasperação” com Netanyahu que levou Trump a dar um murro na mesa

Talvez Donald Trump acredite que pode vir a convencer Bibi a mudar de ideias no futuro da mesma maneira que o fez esta segunda-feira. O seu poder de persuasão sobre o líder israelita ficou patente num momento crucial: aquele em que o primeiro-ministro israelita telefonou ao primeiro-ministro do Qatar para pedir desculpas pelo ataque ao país no início de setembro.

“Israel não tem qualquer plano para voltar a violar a vossa soberania no futuro e fiz esse compromisso ao Presidente [Trump]”, acrescentou Netanyahu durante a chamada. Um flic flac claro, se tivermos em conta que, na véspera, em entrevista à Fox News, Bibi comparou o ataque ao Qatar (que tinha como alvos líderes do Hamas que vivem no país) à operação dos EUA no Paquistão que matou Bin Laden. “Um país que se respeite não dá abébias a terroristas”, disse.

Mas foi um passo que Trump forçou Netanyahu a tomar, por uma razão simples: na sequência do ataque, o Qatar retirou-se como negociador da questão israelo-palestiniana. Sem o emirado, que mantém grande influência sobre o Hamas e é também aliado dos Estados Unidos, era praticamente impossível que as negociações se mantivessem de pé.

Trump com o emir do Qatar, país mediador do conflito em Gaza e aliado dos EUA

Getty Images

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A pressão de Trump foi evidente até na linguagem corporal da conferência de imprensa, com o Presidente norte-americano a protagonizar um longo monólogo perante um Netanyahu sem expressão e em silêncio, ao contrário da sua postura habitual.

Mas como conseguiu Donald Trump dominar Netanyahu e obrigá-lo a aceitar um acordo não muito diferente daquele que Biden oferecera — e cujos novos detalhes podem ser ainda mais pesados, do ponto de vista do primeiro-ministro israelita? Várias fontes da Casa Branca foram dando sinais sobre isso ao longo do último mês:“toda a gente está exasperada com o Bibi”, lamentava uma fonte da administração ao site Axios, destacando como Steve Witkoff e Jared Kushner — que estiveram na sala durante a reunião desta segunda-feira na Casa Branca — estão “pela ponta dos cabelos com Israel”.

“Os árabes já concordaram a 100%. Agora estamos à espera que o Presidente faça a sua magia com Netanyahu.” Conselheiro de Donald Trump ao site Axios

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A gota de água parece ter sido precisamente o ataque ao Qatar, um conhecido aliado dos norte-americanos. Cada vez que estamos a fazer progressos, ele bombardeia alguém”, disse uma fonte da equipa de Segurança Nacional ao Politico. “É por isso que o Presidente e os seus conselheiros estão tão frustrados com Netanyahu.”

Perante essa exasperação, como se posicionaram os Estados Unidos para conseguir pressionar Benjamin Netanyahu? Ao que tudo indica, terá sido uma combinação de diplomacia com pulso firme. Primeiro, conseguindo alinhavar a proposta com vários países árabes e conseguindo que a apoiassem — o que ficou patente horas depois da conferência de imprensa, com uma declaração conjunta de respaldo à proposta. “Os árabes já concordaram a 100%. Agora estamos à espera que o Presidente faça a sua magia com Netanyahu”, comentava outro conselheiro do Presidente com o Axios.

Ninguém sabe ao certo o que disse Trump a Bibi dentro daquela sala. Mas, a fazer fé no mesmo conselheiro, a estratégia poderá ter sido dura: se Netanyahu não aceitasse, o Presidente norte-americano iria culpá-lo em público por não ter sido alcançado um acordo, o que seria um puxão de orelhas inédito dos Estados Unidos ao seu aliado.

Os entraves: a resistência do Hamas e parceiros de coligação israelitas

Significa isto que agora é apenas uma questão de tempo até os bombardeamentos pararem e os reféns serem libertados? Não exactamente.

Primeiro, é preciso que o Hamas aceite a proposta. A esperança de Washington é que a pressão dos países árabes possa ajudar a dobrar o grupo terrorista e convencê-lo, mesmo isso implicando aceitar uma paz que representa a sua auto-destruição, ao mesmo tempo que suaviza a resistência dos israelitas a uma transferência de poder futura para a Autoridade Palestiniana.

 Não vejo ainda um acordo. Vejo um grande acordo teórico, vejo uma simulação”, notou à Al Jazeera o ex-diplomata israelita Alon Pinkas. “Quero ser optimista, mas acho que isto é demasiado complicado, demasiado complexo, há demasiados temas alvo de disputa aqui.

Não só é difícil imaginar o Hamas a aceitar livrar-se do seu armamento e estruturas militares, como também não é claro como conseguirá Bibi convencer os partidos de extrema-direita que sustentam a sua coligação a aceitar esta proposta. O ministro da Segurança, Itamar Ben-Gvir, já tinha avisado no sábado: “Senhor primeiro-ministro, o senhor não tem mandato para acabar com a guerra sem uma derrota completa do Hamas”, escreveu no X. Já o ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, tem colocado como exigências para um acordo a manutenção de tropas israelitas no corredor de Filadélfia (na fronteira de Gaza com o Egito) e o completo afastamento do processo da Autoridade Palestiniana e do Qatar.

Ben-Gvir e Smotrich, os ministros radicais do Governo de Israel que podem rejeitar o acordo POOL/AFP via Getty Images

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Sobre este último país — e ilustrando o afastamento de Smotrich de Bibi —, o ministro reagiu ao telefonema de Netanyahu para Doha comparando-o ao Acordo de Munique, assinado por Neville Chamberlain e outros líderes europeus com a Alemanha Nazi em 1938. Dirigindo-se directamente ao seu primeiro-ministro, acusou: “O seu bajulador pedido de desculpas a um Estado que apoia e financia o terrorismo é uma desgraça.”

Isso não significa, contudo, que Ben-Gvir e Smotrich arrisquem deitar abaixo o Governo e perderem a capacidade de continuar a influenciar a liderança do país. E, mesmo que o venham a fazer, há sinais de que isso pode ser contornado, como explicou à BBC Jonathan Conricus, antigo porta-voz das IDF: o militar reconhece que o acordo é “difícil de vender internamente”, mas também que é possível “embrulhá-lo e oferecê-lo à opinião pública de Israel”.

Não por acaso, os principais líderes da oposição, Yair Lapid e Benny Gantz, aplaudiram o documento e desfizeram-se em elogios a Donald Trump. Lapid classificou a proposta como “a base certa para um acordo”, Gantz destacou que este “deve ser implementado”. No passado, ambos já se ofereceram para substituir os partidos de extrema-direita, caso Netanyahu precise de apoio político para aprovar um acordo que leve ao fim da guerra em Gaza.

No fundo, as incógnitas ainda são muitas. “Estamos numa espécie de limbo; meio que fora do inferno, mas ainda sem saber se vamos chegar ao paraíso”, resumiu à BBC Yehuda Cohen, pai do refém Nimrod Cohen, que ainda está em Gaza. Por agora, só há uma coisa clara: “Entre sorrisos e abraços, Trump forçou Netanyahu a aceitar este acordo”, diz o israelita, apontando o telefonema para o Qatar como exemplo máximo. “Trump está a forçar Netanyahu a aceitar este acordo enquanto o abraça.”

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COMENTÁRIOS;

Antonio Madureira: Biden 2.0?! Por amor de Deus! É um plano totalmente diferente que inclui passos detalhados para a reconstrução de Gaza e envolve muitos Estados Árabes. Sei que é muito difícil reconhecer que Trump possa fazer qualquer coisa certo mas os jornalistas terão de se habituar...

henrique pereira dos santos: Nem uma palavra sobre os reféns que o Hamas não quer libertar. Extraordinário.

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