O melhor e o pior, e já agora o assim-assim,
afinal só existem porque existe um Ser Humano criador de conceitos. E isso é extraordinário,
pois nenhum outro ser é capaz disso. Roseau
pensant, chamou-lhe Pascal, consciente das suas fragilidades mas igualmente
da superioridade do seu espírito, com graus de valor esse, embora, mas criador
da ideia do Bem, do Mal, do antes pelo contrário… E intérprete de tudo, afinal,
o que o seu olhar abarcou com a tal perspicácia, incluindo os valores e os
conceitos, de tal modo perfeitos ou o seu oposto, que só utopicamente se
conseguem descrever na sua dimensão. Deus, Criador, talvez, do Céu e da Terra. E
de tudo o que na Terra existe, mais os espaços das cercanias, na esperança de
os atingirmos nas suas diversas gradações. Ler, escrever, contar, esclarecer as
suas leituras, como o faz Patrícia Fernandes, “roseau pensant” de magistral
capacidade esclarecedora… Somos felizes porque somos o que somos, até mesmo
seres infelizes e ignorantes também. Mas podemos sempre dizer, com consciência
ou sem ela: “Valha-nos Deus!” Quem somos nós, afinal? Nós, mulheres, ainda fomos
advertidas de que saímos de uma costela primitiva, mas o Adão, nem por isso,
coitado, criado por um Deus, ao que parece, - um Deus dará, que deu no que deu,
pois, como o expulsou, mais à Eva, não teve tempo de lhe ensinar os tais
dogmas, foi mesmo através da sua inteligência que ele mais a mulher os foram
criando, sabe-se lá porquê e como e quando, cá na ilha… Creio que estou tergiversando, valha-me
Deus!
OS RAPAZES NA ILHA
Devemos ser particularmente cautelosos com as nossas ambições
políticas — em particular, quando propomos a abolição de antigas instituições
que passaram o teste do tempo.
PATRÍCIA FERNANDES Professora na Escola de Economia e Gestão da
Universidade do Minho
OBSERVADOR, 08
set. 2025, 00:0816
1. A possibilidade da utopia
Nas palavras do escritor Vergílio Ferreira, “a História do Homem é a das suas utopias”,
que seriam expressão da sua permanente
insatisfação. Mas a relação pessoal que estabelecemos com a ideia de utopia
depende, na verdade, de uma perspectiva
antropológica: de que modo vemos o homem e a sua natureza?
Se
admitirmos uma natureza imperfeita do homem, capaz do bom mas também do mal, a eutopia, o bom lugar, torna-se impossível. Afinal, um ser imperfeito não será capaz
de concretizar um projecto perfeito e não seria, assim, surpreendente que todas
as utopias se transformem em distopias.
Mas, se negarmos a ideia de natureza
humana, se negarmos que exista uma forma de ser humano que condiciona o modo
como nos comportamos, podemos acreditar que é possível resolver todos os
problemas sociais. É precisamente esse exercício que Rafael
Hitlodeu, o
navegador português que ocupa o lugar central na obra Utopia de Thomas
More, traduz na seguinte formulação: todas as injustiças sociais decorreriam
da existência de propriedade privada, pelo que, se abolíssemos a propriedade
privada, criaríamos um mundo justo e de plena felicidade para os homens.
Parece residir aqui o âmago da
reflexão metapolítica por excelência: se não existir uma natureza humana, se tudo for construção social,
então tudo se torna possível. Bastaria abolir as instituições injustas e
reformular as que nos parecem erradas, por mais antigas que sejam, para criar
um mundo perfeito, sem problemas. Tudo dependeria da imaginação humana,
que actuaria sem limites, e assim poderíamos sonhar com um mundo sem
propriedade, sem polícia, sem prisões e sem fronteiras, ao estilo de John
Lennon.
2. A certeza da distopia
Não podemos negar: é uma hipótese reconfortante, como são todas as
boas mentiras. O único problema é que, como diz Vergílio Ferreira, “toda a utopia paga a fatura que a vida lhe apresenta,
ou seja a que lhe apresenta a realidade”.
E a realidade é que, embora pareçamos naturalmente propensos a
imaginar mundos melhores, revelamo-nos, simultaneamente, incapazes de concretizar a eutopia. Somos,
afinal, como os textos sagrados ensinam, seres decaídos,
constantemente predispostos ao pecado, ao erro, à inveja, à gula, à ganância. E é por essa razão que precisamos de
disciplinar constantemente os nossos instintos e resistir às tentações.
Esta
lição tem sido validada pelo conhecimento científico mais recente, nomeadamente
nas áreas da psicologia social, cognitiva e evolutiva: nascemos sujeitos a vieses morais que nos
fazem tender mais para a manipulação do que para a
verdade e a
vieses cognitivos que nos inclinam mais para a sobrevivência do que para a
objetividade. Somos, para além disso, profundamente tribais, o que nos predispõe a uma constante agressividade.
Como diz Sigmund Freud, usando a
expressão latina popularizada por Thomas Hobbes: “Homo homini lupus; depois de tudo o que a vida e a História
mostraram, quem terá a coragem para contestar esta verdade?”
É esta verdade que William
Golding procurou explorar em 1954 no livro O Deus das Moscas, um
clássico que se tornou rapidamente uma referência cultural: foi adaptado
a cinema em 1963 e 1990, e inspirou músicas e programas de
televisão. Consta também de muitos currículos escolares para que os
jovens leitores possam discutir o tema da obra: se um
grupo de rapazes pré-adolescentes se encontrasse, de repente, numa ilha deserta
sem adultos, que tipo de sociedade criaria?
(A
questão de serem rapazes não é aqui um pormenor, mas esse é um assunto que
ficará para outro texto.)
3. Os rapazes na ilha
Em textos e entrevistas posteriores, William
Golding esclareceu que
a sua intenção era escrever um texto mais realista sobre a natureza humana do
que as versões de aventura que marcavam o imaginário anglófono com livros como A
Ilha do Tesouro e Andorinhas e Amazonas. Diz o autor: “Decidi adoptar a convenção literária de
rapazes numa ilha, mas torná-los rapazes reais em vez de recortes de papel sem
vida; e tentar mostrar como o tipo de sociedade que eles desenvolveram seria
condicionado pela sua natureza doentia e decaída.”
O autor escreve, em particular, contra o
livro The coral Island, de R. M.
Ballantyne, contestando a ideia de que aqueles rapazes, produto da
civilização britânica, seriam radicalmente diferentes do mundo selvagem.
Para além de ter vivido a II Guerra
Mundial, Golding tinha sido professor e sabia que as brincadeiras entre rapazes
eram tudo menos pacíficas e inocentes. A civilização consiste apenas num verniz que cobre uma natureza
inalterável e esta revela-se temerosa e violenta mal os medos e as dificuldades
subsistem.
Assim, perante uma felicidade inicial
de liberdade e aventura – “Aqui
estava, finalmente, o lugar imaginado mas nunca alcançado a saltar para a vida
real”
–, os rapazes rapidamente descobririam que o mal e o perigo se encontravam
mais no seu interior do que no exterior: “Talvez, talvez exista uma fera. (…) Talvez sejamos só nós”, como
compreende Simon pouco antes da tragédia.
Contra as noções do
bom selvagem e de inocência natural, Golding
recorda-nos que, mesmo num sítio paradisíaco, longe de todas as instituições
sociais potencialmente perversas e com crianças que estariam ainda livres das
piores influências sociais, a natureza humana não muda e conterá sempre,
latente, o potencial de conflito e violência.
O esforço civilizador representaria
a luta contínua contra as nossas tendências naturais e nem as crianças, por
muito novas que sejam, estão a salvo – ideia
representada por Roger, um rapaz
que o autor descreve, no capítulo 4, a atirar pedras na direção de uma das crianças
mais pequenas, com aquela maldade infantil que reconhecemos nesta idade.
Mas, “havia um espaço em torno de Henry,
talvez com uns seis metros de diâmetro, para o qual ele não se atrevia a
apontar. Aí, invisível mas poderoso, dominava o tabu da vida antiga. À volta da criança agachada erguia-se a proteção de
pais, escola, polícia e leis.”
Ao longo do livro, o efeito
civilizador vai perdendo a sua força e o mesmo Roger, já no penúltimo capítulo,
não hesitará em usar de violência, sendo responsável pelo lançamento de uma
enorme pedra que provoca a morte de um dos rapazes.
O argumento de Golding poderá,
naturalmente, ser alvo de reparos, mas ele parece captar uma sabedoria
antiga e instintiva: existe uma natureza humana que, embora não nos
determine, condiciona amplamente as nossas possibilidades de utopia. E é porque essa natureza humana desmente o bom
selvagem de Rousseau que devemos ser particularmente cautelosos com as nossas
ambições políticas – em particular, quando propomos a abolição de antigas
instituições que passaram o teste do tempo.
COMENTÁRIOS (de 16)
Ana Luís da Silva
Excelente artigo de Patrícia Fernandes! Uma visão
realista da natureza humana que entronca na visão cristã e que explica a
impossibilidade prática das utopias. O homem detentor do livre arbítrio e
entregue a si mesmo, sem um decálogo moral, um Deus para adorar, amar e, por
causa desse amor, obedecer em liberdade… e sem bons exemplos a seguir…
rapidamente pode rebaixar-se a uma besta má e violenta. Porque a natureza
humana é decaída, não divina, portanto contingente, necessariamente imperfeita.
Como diz Gonçalo de Almeida Ribeiro (Uma reflexão sobre o problema do mal,
revista Crítica XXI, nº 10) “A
humanidade foi criada à imagem e semelhança de Deus, mas toda a criatura é por
natureza um projecto por executar ou uma potência por realizar”.
Daí podemos inferir a permanente insatisfação e
inquietude humanas. E essa potência e esse projecto de que fala este autor e
que é a pessoa humana no tempo e no espaço ( um devir)
só se tornarão plenos e o ser humano completamente realizado, se “cheio” pela
graça de Deus, como Maria, Mãe de Deus, sem mais dessintonias com a vontade
divina, sem pecado, isto é, se for santo.
Mas para ser santo precisa de se tornar humilde, isto
é, reconhecer a sua pequenez diante de Deus (um grão de areia) e aprender a
peregrinar… para que Deus com a Sua graça possa actuar.
Não haja dúvida ou hesitação: a pessoa humana só se
realizará se integrada no plano (de Amor) de Deus, fora desse plano, viverá uma
eternidade de solidão terrífica.
Escutemos as palavras sábias e clarividentes de Santo
Agostinho: “Fizeste-nos, Senhor, para Ti, e o nosso
coração anda inquieto enquanto não descansar em Ti”.
Ricardo Frade: Grande texto. Um tratado à razão para tanta gente ser
conservadora.
Paulo Silva: Cara Patrícia Fernandes, a noção de sentido histórico inaugurada pela
tradição judaico-cristã, a ideia de que a História caminha num sentido positivo
e salvífico da humanidade, combinada com o mito rousseauniano do bom-selvagem
resultou nas piores distopias. A natureza humana é uma das questões que
está na base de qualquer concepção filosófica da Política. Já aqui se falou de
Rousseau e de Hobbes, mas e Marx?… Para Marx o que é o Homem?... Para ele começa por distinguir-se dos outros animais, não pela
consciência ou a moral, mas pela sua capacidade de produzir os seus meios de
subsistência, como se este fosse acto instintivo... O homem, um animal de
produção, do trabalho… No meu modesto entender uma das muitas falácias
convenientes do barbudo de Trier. Quem sabe se inspirado na condenação
de Adão no Génesis... Para terminar, embora o improvável não seja o mesmo
que o impossível, o seu primeiro ponto é quase uma contradição nos termos. Alguém
definiu a Utopia como ‘aquilo que é bom
demais para ser verdade’. No final da obra que deu nome ao género
literário, Thomas More termina dizendo o seguinte: devo
confessar que há muitas coisas na comunidade utopiana que eu desejo, mais do
que espero, ver seguidas pelos nossos cidadãos. E pode parecer uma
perfeita contradição, mas o maior propagandista da Utopia, o crítico do
‘socialismo utópico’ inventor do ‘socialismo científico’, definiu a utopia
como uma fantasia. A Utopia apresenta diversos graus de subjectividade,
(o que para uns é o céu para outros é o inferno), e nasce do desejo de
imaginar, mas se a imagem figurar no nosso horizonte de possibilidade, por
definição, deixa de ser utopia, mas pode continuar a ser utopia para outros...
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