quarta-feira, 3 de setembro de 2025

Energia solar


Radiosa e doce, numa simpatia familiar que tem o arrojo aristocrático de se manifestar, em faceta contrária aos preceitos da piedade indignada como regra, neste mundo de guerra e poder maldoso, por enquanto, por nós, os do sofá, apenas visualizado, e talvez refractário às temáticas de graciosidade familiar amena, que MJA reivindica como direito, com amor e humor, como hino à Família e, afinal à Vida.

Os “primos”- crónica de pré-rentrée

Este texto será lido como desconforme dos combates onde nos devemos alistar, mas dada a formidável vitória do joio sobre o trigo e a devastadora confusão em que se navega, quis escrever isto mesmo.

MARIA JOÃO AVILLEZ Jornalista, colunista do Observador

OBSERVADOR, 03 set. 2025, 00:221

1Dantes os nossos verões lembravam saltimbancos que iam pousando a tenda nunca no mesmo lugar: uma casa alugada em S. Miguel, o Douro acima e abaixo, um barco nalguma ilha, as praias do sul. E a Comporta onde começámos a ir há 42 anos. Poucos sabiam onde ficava e menos ainda porque íamos ou o que lá se fazia (e 42 anos quase me conferem hoje a legitimidade de um “doutoramento” sobre a “Comportááá” de agora…)

Só então depois de montar tendas aqui, ali, acolá, rumávamos ao Oeste, enquanto no caminho me ia travestindo de “estalajadeira”.

Hoje, não. Acabou-se. Foi uma época de privilégio e descoberta mas passou, exit saltimbancos. A estalajadeira entrou em regime full-time sem folgas” (e vivam todas as minhas “colegas” que eu serei sempre a primeira a louvá-las).

2Sucede porém que este ano foram tempos especiais e não foi só o calor. Foi a observação da nossa paisagem humana “privativa” e a ternura que ela destilava. Mais sentimento que banhos de mar.

Claro que se antecipava que intensa seria a automática subversão da ordem natural de comportamentos, horários e modos de vida; a permanente sobrelotação das duas casas do nosso perímetro oestino onde vivemos; o afanoso labor diário em mercados e supermercados, como se lá trabalhássemos; as luzes permanentemente acesas, em horas e circunstâncias que justamente as dispensavam; a frequente e persistente troca do dia pela noite. (“Ah logo de manhã a comerem tanto pão com chouriço?”, inquiriu um dia a três matulões hirsutos um espantado pater famílias, ao entrar cedo na cozinha: “não, chegámos agora das festas de S. Martinho, estamos a comer qualquer coisa antes de ir dormir”. Eram quase nove horas da manhã.)

3 S. Martinho festejou exitosamente o seu longo “15 de Agosto”; Pedro Abrunhosa brilhou nas festas de Ferrel, para onde boa parte de tribo se deslocou alvoroçada ; a freguesia em nosso redor honrou ruidosamente a sua padroeira, Santa Maria Madalena, graças à qual os mais novos se empanturraram de farturas, em barracas duvidosas… Mas nada enfim que chegasse ao nosso, como dizer?, tão animado viver doméstico, numa indefinível mistura de gerações, viveres e ritmos, embalados pela permanente alteração da ordem das coisas.

Não apenas provocada pelo ar do tempo, propenso como se sabe à alteração da ordem mas pela dose de excitação que envolve o reencontro dos “primos” no mesmo universo geográfico. Uma ligação que é um poder e ao mesmo tempo o terno e eterno combustível destes dias. Os “primos” é uma mitologia. Foi talvez o voltar a constatar tudo isso ao vivo e em directo, que, apesar do azoinamento vigente, o meu verão se tenha este ano auto-transposto para um casulo sentimental (ou então é da idade).

4Também é certo que esta gente cresceu e que agora há universitárias e universitários que interpretam o mundo e a vida ou discutem da bondade deste filósofo, ou daquele economista entre o almoço e o jantar (e somos nós que ganhamos em seguir-lhes o voo); que há o grupo “do meio”, uma adolescência numerosa, circulando entre a vibração do verão, o capricho e as asperezas da idade; e os “mais pequenos” que lidavam com a informática com uma perícia desenvolta, sem ainda perceber como irão ser vorazmente capturados por ela, num combate desigualíssimo. Há anos que repito – sem utilidade, nem proveito – que não pode acabar bem.

A verdade mais “verdadeira” porém é que de vez em quando não me impeço de olhar para este grande edifício familiar com a certeza de que a sua arquitectura foi concebida por nós e pelos diversos pais dos “primos”, ao mesmo tempo que entre certezas e incertezas, íamos trabalhando o cimento que levantava o edifício.

É capaz de ter valido a pena.

5De modo que estes personagens vivem como siameses. Nunca soubemos ao certo quantos eram em cada dia devido aos “passantes” que a caminho de outros destinos estivais, chegavam e pernoitavam apesar da lotação esgotada. O benjamim desta população tem dois anos e chama-se mesmo Benjamim e o Luís, patriarca dos “primos”, tem vinte. Mas apesar de naturalmente se agruparem por idades e interesses, são indesligáveis da cumplicidade que une toda a tribo. (E indesligáveis da desordem disruptiva da qual se alimentam e é o nosso fadário.) Claro que não foram todos os dias “assim”; foram os suficientes para eu poder escrever sem mentir. Ou sequer exagerar.

6Houve de tudo: desafiantes mergulhos; futeboladas transgeracionais no “campo” da antiga escola primária da povoação; exasperantes trânsitos nocturnos entre as duas casas, uns já de pijama, outros ainda de fato de banho e tanto fazia que tivessem 16 ou 20 anos, ou 5 ou 10, o movimento era incessante até de madrugada; ócios diversos, desde jogos ainda mais diversos às altas conversas dos “grandes” onde rigorosamente tudo cabia. E claro, o sacrosssanto ritual das ceias. Desesperando a “estalajadeira” quando chocava com um frigorifico que deixara composto na véspera e se lhe apresentava então como um quase esqueleto.

Tudo isto não era afinal mais do que o escorrer da noite pelo quadro humano, dos “primos”, entretidos com os seus segredos, alianças, desabafos, cumplicidades. Mundos.

7Os “despojos” dariam para abrir uma loja que ninguém abrirá, ficam para a estalajadeira – who else? Fatos de banho, óculos, livros, toalhas, t-shirts, chaves, ténis, barbatanas, que aparentemente não fazem a menor falta aos seus ex-donos.

Bem vistas as coisas, porém, o mais extraordinário deste verão é que estejamos milagrosamente todos bons da cabeça (e da alma, suponho) e felizes, mesmo que a sua confissão seja “proibida”. Felizes no fundo porque o tal edifício familiar se vai mantendo de pé.

Não é pouco. Ou melhor, é meio caminho andado.

8Não basta evocar o país, a Europa, o sombrio Ocidente nosso, para antecipar como esta crónica será – erradamente, claro – considerada desconforme da ordem de “prioridades” que nos devem mobilizar ou dos combates onde nos devemos alistar. Puro engano. E paciência se nada do que escrevi for lido… como o que realmente aqui disse. Costumo todos os verões escrever coisas parecidas mas dada hoje a formidável vitória do joio sobre o trigo e a devastadora confusão em que se navega, foi a este tema que escolhi voltar: um hino à família como a entendo, formei, pratico e agradeço. E uma atribuição da medalha de oiro à felicidade (sim, mesmo, que não saibamos bem defini-la ou sequer se ela existe, mas isto é o mais parecido que encontro.)

9 Talvez por estar geograficamente em posto de “estalajadeira” no mesmo lugar há dois meses, pude estar um pouco atenta ao que aí anda, e assustei-me: saberemos mover-nos num mundo que nunca conhecemos? Com que bússola e fabricada por quem? E paredes dentro, vi e ouvi um país entre chamas e acusações letais numa irrazoabilidade de meter medo.

Não sei se esta “escriba” vai vencer o regresso às lides. Só porventura porque o que tem de ser, tem muita força.

PS: Partiu, assim de repente, num adeus unilateral e silencioso. O sol que ela era abateu-se sob a sombra da mais irremediável impossibilidade de viver. Fico com algumas coisas nossas, episódios, viagens, risos, afinidades, guardarei para sempre o que era só seu: o infinito rio de delicadeza, doçura, generosidade para aonde a Tegui nos atraía. Morrer de tristeza. Ou a morte como impossibilidade de vida.

NATUREZA      AMBIENTE      CIÊNCIA

COMENTÁRIOS

Alexandre Barreira: Pois. Cara Helena, Essa dos "primos". Tem...."água-no-bico". Velhos tempos.....!

Carlos Almeida: Deleito-me com os seus textos, a sua forma de escrever. Sendo certo que, por vezes, me azede com algumas ideias ou afirmações neles contidas. Como tudo na vida, ainda bem que assim é.

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