Radiosa e doce, numa simpatia familiar que tem o arrojo aristocrático de
se manifestar, em faceta contrária aos preceitos da piedade indignada como
regra, neste mundo de guerra e poder maldoso, por enquanto, por nós, os do sofá,
apenas visualizado, e talvez refractário às temáticas de graciosidade familiar
amena, que MJA reivindica como direito, com amor e humor, como hino à Família
e, afinal à Vida.
Os “primos”- crónica de pré-rentrée
Este texto será lido como desconforme
dos combates onde nos devemos alistar, mas dada a formidável vitória do joio
sobre o trigo e a devastadora confusão em que se navega, quis escrever isto
mesmo.
MARIA JOÃO AVILLEZ
Jornalista, colunista do Observador
OBSERVADOR, 03
set. 2025, 00:221
1Dantes os nossos verões lembravam
saltimbancos que iam pousando a tenda nunca no mesmo lugar: uma casa alugada em S. Miguel, o Douro
acima e abaixo, um barco nalguma ilha, as praias do sul. E a Comporta onde
começámos a ir há 42 anos. Poucos sabiam onde ficava e menos ainda porque íamos
ou o que lá se fazia (e 42 anos quase me
conferem hoje a legitimidade de um “doutoramento” sobre a “Comportááá” de agora…)
Só
então depois de montar tendas aqui, ali, acolá, rumávamos ao Oeste, enquanto no
caminho me ia travestindo de “estalajadeira”.
Hoje, não. Acabou-se. Foi uma época de privilégio e descoberta mas
passou, exit saltimbancos. A
estalajadeira entrou em regime full-time sem folgas” (e vivam todas as minhas
“colegas” que eu serei sempre a primeira a louvá-las).
2Sucede porém que este ano foram tempos especiais
e não foi só o calor. Foi a observação da nossa paisagem humana “privativa” e a
ternura que ela destilava. Mais sentimento que banhos de mar.
Claro que se antecipava que intensa
seria a automática subversão da ordem natural de comportamentos, horários e
modos de vida; a permanente sobrelotação das duas casas do nosso perímetro
oestino onde vivemos; o afanoso labor diário em mercados e supermercados, como
se lá trabalhássemos; as luzes permanentemente acesas, em horas e
circunstâncias que justamente as dispensavam; a frequente e persistente troca
do dia pela noite. (“Ah logo de manhã
a comerem tanto pão com chouriço?”, inquiriu um dia a três matulões hirsutos um
espantado pater famílias, ao entrar cedo na cozinha: “não, chegámos agora
das festas de S. Martinho, estamos a comer qualquer coisa antes de ir dormir”.
Eram quase nove horas da manhã.)
3 S. Martinho festejou
exitosamente o seu longo “15 de Agosto”; Pedro Abrunhosa brilhou nas
festas de Ferrel, para onde boa parte de tribo se deslocou alvoroçada ; a freguesia em
nosso redor honrou ruidosamente a sua padroeira, Santa Maria
Madalena, graças à qual os mais novos se empanturraram de
farturas, em barracas duvidosas… Mas
nada enfim que chegasse ao nosso, como dizer?, tão animado viver doméstico,
numa indefinível mistura de gerações, viveres e ritmos, embalados pela
permanente alteração da ordem das coisas.
Não
apenas provocada pelo ar do tempo, propenso como se sabe à alteração da ordem mas pela
dose de excitação que envolve o reencontro dos “primos” no mesmo universo
geográfico. Uma ligação que é um poder e ao mesmo tempo o terno
e eterno combustível destes dias. Os “primos” é uma mitologia. Foi talvez o voltar a constatar tudo isso ao
vivo e em directo, que, apesar do azoinamento vigente, o meu verão se tenha
este ano auto-transposto para um casulo sentimental (ou então é da idade).
4Também é certo que esta gente cresceu e que agora há universitárias e universitários que
interpretam o mundo e a vida ou discutem da bondade deste filósofo, ou daquele
economista entre o almoço e o jantar (e somos nós que ganhamos em seguir-lhes o
voo); que há o grupo “do meio”, uma adolescência numerosa, circulando entre a
vibração do verão, o capricho e as asperezas da idade; e os “mais pequenos” que
lidavam com a informática com uma perícia desenvolta, sem ainda perceber como
irão ser vorazmente capturados por ela, num combate desigualíssimo. Há
anos que repito – sem utilidade, nem proveito – que não pode acabar bem.
A verdade mais “verdadeira” porém é que de vez em quando não me impeço
de olhar para este grande edifício familiar com a certeza de que a sua
arquitectura foi concebida por nós e pelos diversos pais dos “primos”, ao mesmo
tempo que entre certezas e incertezas, íamos trabalhando o cimento que
levantava o edifício.
É capaz de ter valido a pena.
5De
modo que estes personagens vivem como siameses. Nunca soubemos ao certo quantos
eram em cada dia devido aos “passantes” que a caminho de outros destinos
estivais, chegavam e pernoitavam apesar da lotação esgotada. O benjamim desta
população tem dois anos e chama-se mesmo Benjamim e o Luís, patriarca dos
“primos”, tem vinte. Mas apesar de naturalmente se agruparem por idades e
interesses, são indesligáveis da cumplicidade que une toda a tribo. (E
indesligáveis da desordem disruptiva da qual se alimentam e é o nosso fadário.)
Claro que não foram todos os dias “assim”; foram os suficientes para eu poder
escrever sem mentir. Ou sequer exagerar.
6Houve de tudo: desafiantes mergulhos; futeboladas transgeracionais
no “campo” da antiga escola primária da povoação; exasperantes trânsitos
nocturnos entre as duas casas, uns já de pijama, outros ainda de fato de banho
e tanto fazia que tivessem 16 ou 20 anos, ou 5 ou 10, o movimento era
incessante até de madrugada; ócios diversos, desde jogos ainda mais diversos às
altas conversas dos “grandes” onde rigorosamente tudo cabia. E
claro, o sacrosssanto ritual das ceias. Desesperando a “estalajadeira” quando
chocava com um frigorifico que deixara composto na véspera e se lhe apresentava
então como um quase esqueleto.
Tudo
isto não era afinal mais do que o escorrer da noite pelo quadro humano, dos
“primos”, entretidos com os seus segredos, alianças, desabafos, cumplicidades.
Mundos.
7Os
“despojos” dariam para abrir uma loja que ninguém abrirá, ficam para a
estalajadeira – who else? Fatos de banho, óculos, livros, toalhas, t-shirts,
chaves, ténis, barbatanas, que aparentemente não fazem a menor falta aos seus
ex-donos.
Bem
vistas as coisas, porém, o mais extraordinário deste verão é que estejamos
milagrosamente todos bons da cabeça (e da alma, suponho) e felizes, mesmo que a
sua confissão seja “proibida”. Felizes
no fundo porque o tal edifício familiar se vai mantendo de pé.
Não
é pouco. Ou melhor, é meio caminho andado.
8Não basta evocar o país, a Europa, o
sombrio Ocidente nosso, para antecipar como esta crónica será – erradamente,
claro – considerada desconforme da ordem de “prioridades” que nos devem
mobilizar ou dos combates onde nos devemos alistar. Puro engano. E paciência se
nada do que escrevi for lido… como o que realmente aqui disse. Costumo todos os
verões escrever coisas parecidas mas dada hoje a formidável vitória do
joio sobre o trigo e a devastadora confusão em que se navega, foi a este tema
que escolhi voltar: um hino à família como a entendo, formei, pratico e agradeço. E
uma atribuição da medalha de oiro à felicidade (sim, mesmo, que não saibamos
bem defini-la ou sequer se ela existe, mas isto é o mais parecido que encontro.)
9 Talvez por estar geograficamente em
posto de “estalajadeira” no mesmo lugar há dois meses, pude estar um pouco
atenta ao que aí anda, e assustei-me: saberemos mover-nos num mundo que nunca
conhecemos? Com que bússola e fabricada por quem? E paredes dentro, vi e ouvi
um país entre chamas e acusações letais numa irrazoabilidade de meter medo.
Não sei se esta “escriba” vai vencer o
regresso às lides. Só porventura porque o que tem de ser, tem muita força.
PS: Partiu, assim de repente, num adeus
unilateral e silencioso. O sol que ela era abateu-se sob a sombra da mais
irremediável impossibilidade de viver. Fico com algumas coisas nossas,
episódios, viagens, risos, afinidades, guardarei para sempre o que era só seu:
o infinito rio de delicadeza, doçura, generosidade para aonde a Tegui nos atraía.
Morrer de tristeza. Ou a morte como impossibilidade de vida.
COMENTÁRIOS
Alexandre Barreira: Pois. Cara
Helena, Essa dos "primos". Tem...."água-no-bico". Velhos
tempos.....!
Carlos Almeida: Deleito-me com os seus textos, a sua forma de
escrever. Sendo certo que, por vezes, me azede com algumas ideias ou afirmações
neles contidas. Como tudo na vida, ainda bem que assim é.
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