sábado, 20 de setembro de 2025

“MUNDO muito malfeito, marquês”

-“Mundo muito malfeito, sr. Afonso da Maia”!

Mas não se trata aqui de dar esmolas às escondidas. Trata-se puramente de pôr a ridículo o que vai por esse mundo, mas sobretudo por este nosso, exímios que somos em gozar o próximo, e sobretudo nós mesmos, em programas de diferenciação ideológica propícia a ironias et alia… Mas ainda bem que assim é, sintoma de vida pertinentemente vivida, a capacidade intelectual funcionando, bem ou mal… Mundo, pois, muito bem feito, os marqueses em omissão, todavia, hélas! …

O destino trágico de Jimmy Kimmel

Ao contrário dos americanos que resistem a tudo, os portugueses assistem a tudo. Certo é que por cá Charlie Kirk não teria morrido, ou sequer nascido. Nós somos escassos em Kirks e pródigos em Kimmels

ALBERTO GONÇALVES Colunista do Observador

OBSERVADOR, 20 set. 2025, 00:201

Após longa carreira, o comediante Jimmy Kimmel finalmente participou numa rábula cómica: viu o seu programa ser suspenso após espalhar mentiras sobre o assassino de Charlie Kirk, que o sr. Kimmel garantiu ser partidário de Trump. Em abono da exactidão, o cancelamento do programa provavelmente não se deve às mentiras, mas à consistente perda de audiências, que hoje eram cerca de metade das de há 5 anos e cerca de um terço das de há 10 anos.

Em parte, o êxodo das audiências para o YouTube, os canais de “streaming” e traquitanas afins explica o declínio. O resto do tombo explica-se com a velha fixação do sr. Kimmel em dedicar o tempo de antena à hostilização da maioria do público americano, os caipiras e fanáticos e analfabetos e fascistas que não fazem as suas escolhas políticas de acordo com as directivas de actores e apresentadores de variedades e teimam em votar num partido que não o Democrata. Como sucedeu recentemente com Stephen Colbert, outro cabotino impressionante, e talvez suceda em breve com os demais protagonistas de “talk shows”, as mudanças nos hábitos de consumo e o insulto recorrente dos potenciais consumidores têm um preço, que o sr. Kimmel, com involuntária graça, pagou. As mentiras acerca de Charlie Kirk, e a insinuação de que a sua morte se devia à “cultura de violência” e de “ódio” que ele, na retórica primitiva do sr. Kimmel, representava, foram sobretudo um pretexto.

Faço um parêntesis para, a propósito da “violência” e do “ódio”, lembrar que o sr. Kimmel é o espécime que, desde que abandonou o “humor” de peitos e rabos, aí por 2015, passou os serões em transtorno permanente, a anunciar aos derradeiros fiéis os cataclismos que advirão se Trump e respectivos eleitores não forem travados. É o espécime que nos dias seguintes gozou à grande com os atentados a Trump. E é também o espécime que se opunha ao tratamento hospitalar, por qualquer doença, de pessoas não vacinadas contra a Covid.

Sob o argumento de que o sr. Kimmel foi enxotado por dizer piadas, pecado que ele jamais cometeu (no limite, foi enxotado por não as dizer), a esquerda dos EUA irrompeu, tipicamente furiosa, a culpar Trump e a gritar “Censura!”. Há aqui três pressupostos curiosos. O primeiro é o de que um presidente chamado de “nazi” para baixo a cada minuto de transmissão televisiva ou a cada página de imprensa consegue silenciar o que lhe apetece, se é que lhe apetece (a América não é o Brasil do sr. Lula, em que os inconvenientes vão para a cadeia ou para o exílio). O segundo pressuposto é o de que a decisão, à partida financeira, de uma empresa privada pode constituir um acto censório (a censura é um privilégio do Estado, e o sr. Kimmel é livre de continuar a espalhar alucinações fora da ABC). O terceiro pressuposto é o de que a Disney, dona da ABC e que ocupou a última década a fabricar lixo “identitário” e “inclusivo”, não aprendera já a lição (e que, não fosse a “censura”, tencionava continuar a estraçalhar biliões em ideologia sem retorno).

Com ou sem a confirmação das pressões governamentais, sempre desagradáveis, é compreensível a indignação da esquerda americana, muito mais chocada com uma demissão regada a milhões de dólares do que com um homicídio que deixa duas crianças órfãs. Além disso, suponho que só por distracção a esquerda americana não reparou nas sugestões da administração Biden, essas amáveis e justas, para calar ou controlar incontáveis humoristas, “redes sociais”, programas de televisão e, sim, o próprio antecessor (e sucessor) de Biden na Casa Branca.

É verdade que, quando escrevo “a esquerda americana”, refiro-me à porção dos esquerdistas que neste momento não estão em pranto no TikTok ou no Instagram, a gravar vídeos verticais nos quais relatam a tragédia do seu despedimento por, dias antes, terem gravado vídeos verticais a festejar sem reticências o assassínio de Charlie Kirk. Às quintas-feiras, acham justo e espectacular e divertido que alguém seja abatido a tiro por defender e praticar a liberdade de expressão. Às sextas, invocam a liberdade de expressão para poder escarnecer de um cadáver que ainda nem arrefecera, e choram as consequências laborais da proeza.

Será isto o reflexo dos cancelamentos “woke”, agora em versão “conservadora”? É possível, mas tenho dúvidas. E essas dúvidas prendem-se com a diferença entre Fulano ser punido por insistir na existência de apenas dois sexos biológicos, ou por ridicularizar a ideia de que os homens menstruam, ou por suspeitar que aquilo das “reparações” raciais é capaz de ser uma cretinice – e Sicrano ser punido por festejar aos urros um crime fatal acabadinho de cometer. É diferente o empregador ceder a pressões de “terraplanistas” e demitir um funcionário por este acreditar na ciência e nos factos da vida e o empregador demitir um funcionário por este exibir um bizarro fascínio pelo sofrimento alheio. Nem me parece uma questão política. Eu, se empregasse funcionários, estaria mais à vontade para apresentar um cliente à Sílvia da contabilidade, que discordou num “tweet” da mutilação genital de crianças, do que ao Jorge dos recursos humanos, que pendurou um poster de Ted Bundy atrás da secretária e possui um busto de Diogo Alves em cima. Ser realista é diferente de ser tarado.

Em suma, para efeitos de clareza: não aprecio a possibilidade de a política interferir nos negócios; não sou ingénuo a ponto de acreditar em inocentes na matéria, especialmente se vêm da esquerda; acho fundamental que as empresas, admitindo que vivem do lucro e não de subsídios, tenham o direito de decidir os sujeitos e as sujeitas a quem desejam pagar salário. Às vezes o milagre acontece. Para não ir longe, em Portugal as televisões encheram-se de charlatães a despejar falsidades grotescas e calúnias grosseiras alusivas a Charlie Kirk e, que eu saiba, nenhum caiu no olho da rua. Em princípio, nem o governo se meteu, nem as direcções dos canais recearam a fuga de espectadores, nem os espectadores fugiram. E assim é que é bonito. Independência. Incompetência. Indiferença. Ao contrário dos americanos, que resistem a tudo, os portugueses assistem a tudo. Certo é que por cá Charlie Kirk não teria morrido, nem sequer nascido. Nós somos escassos em Kirks e pródigos em Kimmels.

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COMENTÁRIOS
graça Dias: Caríssimo Alberto Gonçalves Transcrevo como termina este seu artigo:

# Certo é que por cá Charlie Kirl não teria morrido, nem sequer nascido. Nós somos escassos em Kirks e pródigos em Kimmels. # Artigo mordaz com salpicos hilariantes bem enquadrados.

 

 

NOTÍCIA DA INTERNET:

Jimmy Kimmel, no seu espaço televisivo, abordara o assassinato do activista de extrema-direita Charlie Kirk, apoiante do presidente dos Estados Unidos da América (EUA), Donald Trump, que foi morto a tiro durante um comício no estado Utah, sugerindo que estava a haver capitalização política do sucedido.

A televisão ABC suspendeu-lhe o programa depois de o presidente da entidade reguladora das comunicações dos EUA (FCC, na sigla inglesa), Brendan Carr, ter dito que havia fortes argumentos contra Kimmel e que a empresa-mãe, Walt Disney Company, podia vir a ser responsabilizada.

Stewart optou pela sátira, Colbert -- que também tem ameaça de cancelamento sobre si por parte da televisão CBS - foi mais institucional, alegando "censura", e Fallon elogiou Kimmel e desejou que o cómico continuasse a fazer o seu trabalho.

Kimmel ainda não se pronunciou sobre o assunto. Os seus apoiantes dizem que Carr, o dirigente da FCC, interpretou mal as suas palavras e que, em momento algum, o humorista sugeriu que o suspeito da autoria do assassinato de Kirk, Tyler Robinson, era um conservador.

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