-“Mundo muito malfeito, sr. Afonso da Maia”!
Mas não se trata aqui de dar esmolas às escondidas. Trata-se puramente
de pôr a ridículo o que vai por esse mundo, mas sobretudo por este nosso,
exímios que somos em gozar o próximo, e sobretudo nós mesmos, em programas de diferenciação
ideológica propícia a ironias et alia…
Mas ainda bem que assim é, sintoma de vida pertinentemente vivida, a capacidade
intelectual funcionando, bem ou mal… Mundo, pois, muito bem feito, os marqueses em omissão, todavia, hélas! …
O destino trágico de Jimmy Kimmel
Ao contrário dos americanos que resistem a tudo, os portugueses
assistem a tudo. Certo é que por cá Charlie Kirk não teria morrido, ou sequer
nascido. Nós somos escassos em Kirks e pródigos em Kimmels
ALBERTO GONÇALVES Colunista do Observador
OBSERVADOR, 20 set. 2025, 00:201
Após longa carreira, o comediante Jimmy Kimmel finalmente participou numa rábula
cómica: viu o seu programa ser suspenso após espalhar mentiras sobre o
assassino de Charlie Kirk, que o
sr. Kimmel garantiu ser partidário de
Trump. Em abono da
exactidão, o cancelamento do programa provavelmente não se deve às mentiras,
mas à consistente perda de audiências, que hoje eram cerca de metade das de há 5 anos e
cerca de um terço das de há 10 anos.
Em parte, o êxodo
das audiências para o YouTube, os
canais de “streaming” e traquitanas afins
explica o declínio. O resto do tombo explica-se com a velha
fixação do sr. Kimmel
em dedicar o tempo de antena à
hostilização da maioria do público americano, os caipiras e fanáticos e analfabetos
e fascistas que não fazem as suas escolhas políticas de acordo com as
directivas de actores e apresentadores de variedades e teimam em votar num
partido que não o Democrata. Como sucedeu
recentemente com Stephen
Colbert, outro
cabotino impressionante, e talvez suceda em breve com os demais protagonistas de “talk shows”, as mudanças nos hábitos de consumo e o
insulto recorrente dos potenciais consumidores têm um preço, que o sr. Kimmel,
com involuntária graça, pagou. As mentiras acerca de Charlie Kirk, e a insinuação de que a sua morte
se devia à “cultura de violência” e de “ódio” que ele, na retórica primitiva do
sr. Kimmel, representava, foram sobretudo um pretexto.
Faço
um parêntesis para, a propósito da “violência” e do “ódio”, lembrar que o sr.
Kimmel é o espécime que, desde que abandonou o “humor” de peitos e rabos, aí
por 2015, passou os serões em transtorno permanente, a anunciar aos derradeiros
fiéis os cataclismos que advirão se Trump e respectivos eleitores não forem
travados. É o espécime que nos dias seguintes gozou à grande com os
atentados a Trump. E é também o espécime que se opunha ao tratamento
hospitalar, por qualquer doença, de pessoas não vacinadas contra a Covid.
Sob
o argumento de que o sr. Kimmel foi enxotado por dizer piadas, pecado que ele
jamais cometeu (no limite,
foi enxotado por não as dizer), a
esquerda dos EUA irrompeu, tipicamente furiosa, a culpar Trump e a gritar
“Censura!”. Há aqui três pressupostos curiosos. O primeiro é o de que um presidente chamado de “nazi” para baixo
a cada minuto de transmissão televisiva ou a cada página de imprensa consegue
silenciar o que lhe apetece, se é que lhe apetece (a América
não é o Brasil do sr. Lula, em que os inconvenientes vão para a cadeia ou para
o exílio). O segundo pressuposto é o de que
a decisão, à partida financeira, de uma empresa privada pode constituir um acto
censório (a censura é um privilégio do
Estado, e o sr. Kimmel é livre de continuar a espalhar alucinações fora da ABC). O terceiro
pressuposto é o de que a
Disney, dona da ABC e que ocupou a última década a fabricar lixo “identitário”
e “inclusivo”, não aprendera já a lição (e que, não fosse a “censura”,
tencionava continuar a estraçalhar biliões em ideologia sem retorno).
Com
ou sem a confirmação das pressões governamentais, sempre desagradáveis, é
compreensível a indignação da esquerda americana, muito mais chocada com uma
demissão regada a milhões de dólares do que com um homicídio que deixa duas
crianças órfãs. Além disso,
suponho que só por distracção a esquerda americana não reparou nas sugestões da
administração Biden, essas amáveis e justas, para calar ou controlar
incontáveis humoristas, “redes sociais”, programas de televisão e, sim, o
próprio antecessor (e sucessor) de Biden na Casa Branca.
É verdade que, quando escrevo
“a esquerda americana”, refiro-me à porção dos esquerdistas que neste momento
não estão em pranto no TikTok ou no Instagram, a gravar vídeos verticais nos
quais relatam a tragédia do seu despedimento por, dias antes, terem gravado
vídeos verticais a festejar
sem reticências o assassínio de Charlie Kirk. Às quintas-feiras, acham justo
e espectacular e divertido que alguém seja abatido a tiro por defender e
praticar a liberdade de expressão. Às
sextas, invocam a liberdade de expressão para poder escarnecer de um
cadáver que ainda nem arrefecera, e choram as consequências laborais da proeza.
Será isto o reflexo dos cancelamentos
“woke”, agora em versão “conservadora”? É possível, mas tenho dúvidas. E essas dúvidas prendem-se com a
diferença entre Fulano ser punido por insistir na existência de apenas dois
sexos biológicos, ou por ridicularizar a ideia de que os homens menstruam, ou
por suspeitar que aquilo das “reparações” raciais é capaz de ser uma cretinice
– e Sicrano ser punido por festejar aos urros um crime fatal acabadinho de
cometer. É diferente o empregador ceder a pressões de
“terraplanistas” e demitir um funcionário por este acreditar na ciência e nos
factos da vida e o empregador demitir um funcionário por este exibir um bizarro
fascínio pelo sofrimento alheio. Nem me parece uma questão política. Eu, se
empregasse funcionários, estaria mais à vontade para apresentar um cliente à
Sílvia da contabilidade, que discordou num “tweet” da mutilação genital de
crianças, do que ao Jorge dos recursos humanos, que pendurou um poster de Ted
Bundy atrás da secretária e possui um busto de Diogo Alves em cima. Ser
realista é diferente de ser tarado.
Em suma, para efeitos de clareza: não aprecio a possibilidade de a
política interferir nos negócios; não sou ingénuo a ponto de acreditar em
inocentes na matéria, especialmente se vêm da esquerda; acho fundamental que as
empresas, admitindo que vivem do lucro e não de subsídios, tenham o direito de
decidir os sujeitos e as sujeitas a quem desejam pagar salário. Às vezes o
milagre acontece. Para não ir longe, em Portugal as televisões
encheram-se de charlatães a despejar falsidades grotescas e calúnias grosseiras
alusivas a Charlie Kirk e, que eu saiba, nenhum caiu no olho da rua. Em princípio, nem o governo se meteu, nem
as direcções dos canais recearam a fuga de espectadores, nem os espectadores
fugiram. E assim é que é bonito. Independência. Incompetência. Indiferença. Ao contrário dos americanos, que resistem a tudo, os
portugueses assistem a tudo. Certo é que por cá Charlie Kirk não teria morrido,
nem sequer nascido. Nós somos escassos em Kirks e pródigos em Kimmels.
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COMENTÁRIOS
graça Dias: Caríssimo
Alberto Gonçalves Transcrevo como termina este seu artigo:
# Certo é que por cá Charlie Kirl não teria morrido, nem sequer
nascido. Nós somos escassos em Kirks e pródigos em Kimmels. # Artigo
mordaz com salpicos hilariantes bem enquadrados.
NOTÍCIA DA
INTERNET:
Jimmy Kimmel, no seu
espaço televisivo, abordara o assassinato do activista de extrema-direita Charlie Kirk, apoiante do presidente dos
Estados Unidos da América (EUA), Donald Trump, que foi morto a tiro durante um
comício no estado Utah, sugerindo que estava a haver capitalização política do
sucedido.
A televisão ABC suspendeu-lhe o programa depois de o
presidente da entidade reguladora das
comunicações dos EUA (FCC, na sigla inglesa), Brendan Carr, ter dito que havia fortes argumentos contra Kimmel e
que a empresa-mãe, Walt Disney
Company, podia
vir a ser responsabilizada.
Stewart
optou pela sátira, Colbert -- que também tem ameaça de cancelamento sobre si por
parte da televisão CBS - foi
mais institucional, alegando "censura", e Fallon elogiou Kimmel e desejou que o cómico continuasse a fazer o seu
trabalho.
Kimmel ainda não se pronunciou sobre o
assunto. Os seus apoiantes dizem que Carr, o dirigente da FCC, interpretou mal
as suas palavras e que, em momento algum, o humorista sugeriu que o suspeito da
autoria do assassinato de Kirk, Tyler Robinson, era um conservador.
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