terça-feira, 2 de setembro de 2025

E assim dizendo

 

Em reflexões com o seu quê passadista, os passeios marítimos do Dr. Salles, por terras e mares distantes, trazem-me à memória as didácticas redondilhas de Sá de Miranda da carta ao Rei D. João III, que felizmente encontramos nesta maravilhosa Internet do nosso comodismo ledor, porque nos dá oportunidade de reler, sem o pormenor cansativo de ter que pesquisar nos locais da estante os esplendores literários que nela se escondem, como as tais “redondilhas” da sua volta ao mundo em que tão bem traduz o que se passa de boa ou má arte de governar (assunto das intenções moralistas do Dr. SALLES DA FONSECA) – as quais redondilhas transcrevo no final, com regozijo.

PELAS AREIAS DO GOLFO DE CÁDIS - 4

HENRIQUE SALLES DA FONSECA

A BEM DA NAÇÃO, 30.08.25

A propósito de uma voz imitando o falsete que ontem ouvi por acaso não sei já onde, lembrei-me de Norodom Sihanouk, o Rei do Camboja que, com falsa modéstia, se intitulava Príncipe. Neste mundo há homens altos e baixos, gordos e magros, robustos e frágeis sendo que em todas estas categorias há grandes homens e homenzinhos. E aqui recordo Sá de Miranda quando nos diz que: «Homem de um só parecer, D` um só rosto, uma só fé D’ antes quebrar que torcer, Ele tudo pode ser Mas da Corte homem não é.»

Esta, sim, a apologia do carácter, dos homens de palavra contra os palavrosos, dos afirmativos contra os explicativos.

Pessoas cultas são as que buscam o significado dos conhecimentos herdados e lhes acrescentam valor em prol do bem-comum concebido na mais ampla consensualidade; os outros são consumidores de oxigénio. O perigo surge quando os oxigenosos, por tradição ou compadrio, ocupam cargos de chefia com as instituições a ruírem e o caos instalar-se. Foi o que aconteceu no Camboja com Sihanouk.

Mãe e aias extremamente carinhosas (em vez de pai e tutores masculinos) infantilizaram Norodom para sempre. Total ausência de postura de Estado, mexia-se em permanente competição com a ubiquidade. Para foto oficial como Chefe de Estado escolheu uma em que, ainda muito novo, traja vestes doiradas e usava uma coifa de vários patamares cujos significados ignoro. Terá sido esta foto que levou a mulher do último Governador francês da Cochinchina chamá-lo depreciativamente de «le mignon» e foram os seus discursos atabalhoados a referi-lo como «l’imbécile». Governança «à la diable», liberdade de corrupção, povo kmehr ao abandono… mas o pior estava para vir pela loucura sanguinária de Pol Pot. Sihanouk auto-exilado junto dos seus arqui-inimigos chineses. Terror vermelho e campos de morte até que alguém matou o assassino e a Nação Kmehr se entregou à dolorosa tarefa de lamber de feridas. Nação destroçada e sem ânimo para ver que o filho de Sihanouk, antigo bailarino em Londres, não se interessa por assuntos de Estado e que o novo Governo era formado por «kmehrs vermelhos recauchutados».

Infalivelmente, a História vai repetir-se…

CONCLUSÕES

É muito perigoso fazer depender a sorte de uma Nação dos apetites genéticos de alguéma República Portuguesa deveria ter sido proclamada em Santarém em Janeiro de 1580;

Os cargos públicos de chefia devem ser preenchidos por concursos públicos referendáveis sem critérios hereditários nem compadrio.

NOTA FINALEstá na hora de trasladarmos os restos mortais de D. António (o que fora Prior do Crato) de Paris para Santarém onde os Procuradoras do Povo nas Cortes de Almeirim o elegeram Rei de Portugal em Janeiro de 1580.

Agosto de 2025

Henrique Salles da Fonseca

NOTAS DA INTERNET:

I - NORODOM SIHANOUK

Foi o rei do Camboja em dois períodos: de 1941 a 1955 e de 1991 a 2004, quando renunciou ao trono em favor do filho, Norodom Sihamoni. Desde então ficou conhecido como o "Rei-Pai do Camboja".

Filho do Rei Norodom Suramarit e da Rainha Sisowath Kossamak, tentou em 1954 fazer a sua nação tornar-se independente da França, liderando um movimento de libertação.

Por várias vezes, exerceu também o cargo de primeiro-ministro do Camboja. Foi a pessoa que mais ocupou altos cargos políticos, segundo o Guinness Book.

 

II - Carta de SÁ DE MIRANDA a El-Rei D. João III:

Rei de muitos reis, se um dia,
Se uma hora só mal me atrevo
Ocupar-vos, mal faria,
E ao bem comum não teria
Os respeitos que ter devo.

Que em outras partes da esfera,
Em outros céus diferentes,
Que Deus até agora escondera,
Tanta multidão de gentes
Vossos mandados espera.

Que sois vós tal, que eles sós,
Justo e poderoso rei,
Ou lhe desdais os seus nós,
Ou cortais; porque entre nós
Vós sois nossa viva lei.

Onde há homens há cobiça,
Cá e lá, tudo ela empeça,
Se a santa, se a igual justiça
Não corta, ou não desempena
O que a má malícia enliça.

Senhor, que é muito atrevida,
E onde ela nós cegos deu,
Cortar é coisa devida;
Exemplo o justo de Mida,
Que el-rei vosso avô fez seu.

Ora eu, que respeito havendo
Ao tempo, mais que ao estilo,
Irei fugindo ao que entendo;
Farei como os cães do Nilo,
Que correm, e vão bebendo.

A dignidade real,
Que o mundo a direito tem,
Sem ela ter-se-ia mal,
É sagrada, e não leal
quem limpo ante ela não vem.

Não falemos nos tiranos,
Falemos nos reis ungidos;
Remedeiam nossos danos;
Socorrem os afligidos;
Cortam pelos maus enganos.

As vossas velas, que vão,
Dando quase ó mundo volta,
Raramente contarão
Gente doutro algum rei solta;
Sem cabeça o corpo é vão.

Dignidade alta e suprema,
Que há que a não reconheça?
Viu-se em Marco Antônio tema
De pôr real diadema
A César sobre a cabeça.

Que nome de imperador
Dantes a César se dera
Sem suspeita, e sem temor;
Que inda então muito mais era
Ser cônsul, ser ditador.

Um rei ao reino convém;
Vemos que alumia o mundo;
Um sol, um Deus o sustém:
Certa a queda, e o fim tem
O reino onde há rei segundo.

Não ao sabor das orelhas,
Arenga estudada e branda;
Abastam as razões velhas:
A cabeça os membros manda;
Seu rei seguem as abelhas.

A tempo o bom rei perdoa;
A tempo o ferro é mezinha:
Forças e condição boa
Deram ao leão coroa
De sua grei montezinha.

Às aves, tamanho bando
Doutra liga, e doutra lei,
Por vencer todas voando,
A águia foi dada por rei,
Que o sol claro atura olhando.

Quanto que sempre guardou
David lealdade e fé
A Saul, quanto o chorou!
Quanta maldição lançou
Aos montes de Gelboé!

Onde caíra o escudo
De seu rei, inda que inimigo,
Inda que já mal sisudo
Saindo de tal perigo,
E subindo a mandar tudo.

O senhor da natureza,
De quem céu e terra é cheia,
Vindo a esta nossa baixeza,
Do real sangue se preza:
Por rei na cruz se nomeia.

Sobre obrigações tamanhas
Velem-se contudo os reis
Dos rostos falsos, das manhas
Com que lhe querem das leis,
Fazer teias das aranhas.

Que se não pode fazer
Por arte, por força ou graça,
Salvo o que a justiça quer;
Senhor, não chamam valer,
Salvo ao que lhes val na praça.

E por muito que os reis olhem,
Vão por fora mil inchaços,
Que ante vós, senhor, se encolhem
Duns gigantes de cem braços
Com que dão, e com que tolhem.

Quem graça ante el-rei alcança,
E lhe fala o que não deve,
Mal grande da má privança,
Peçonha na fonte lança,
De que toda a terra breve.

Quem joga, onde engano vai,
Em vão corre e torna atrás;
Em vão sobre a face cai:
Mal hajam as manhas más
Donde tanto dano sai!

Homem de um só parecer,
Dum só rosto, uma só fé,
Dantes quebrar que torcer,
Ele tudo pode ser,
Mas de corte homem não é.

Gracejar ouço de cá
De quem vai inteiro e são,
Nem se contrafaz mais lá;
Como este vem aldeão,
Que cortesão tornará?

As santidades da praça,
Aqueles rostos tristonhos,
Cos quais este, e aquele caça;
Para Deus, senhor, é graça;
Para nós tudo são sonhos.

E os discursos que fazemos,
Pode ser, não pode ser,
Mais diante o entenderemos:
Agora mortos por ver;
Então todos nós veremos.

Senhor, hei-vos de falar
(Vossa mansidão me esforça)
Claro o que posso alcançar;
Andam para vos tomar
Por manhas, que não por força.

Por minas trazem suas azes
Os rostos de tintureiros,
Falsas guerras, falsas pazes;
De fora mansos cordeiros;
De dentro lobos roazes.

Tudo seu remédio tem
E que assim bem o sabeis,
E ao remédio também;
Querei-los conhecer bem,
No fruto os conhecereis.

Obras, que palavras não:
Porém, senhor, somos muitos,
E entre tanta multidão
Tresmalham-se-vos os frutos,
Que não sabeis cujos são.

Um que por outro se vende,
Lança a pedra, e a mão esconde;
O dano longe se estende;
Aquele a quem dói e entende,
Com só suspiros responde.

A vida desaparece,
E entretanto geme e jaz
O que caiu: e acontece,
Que dum mal, que se lhe faz,
Outro mor se lhe recresce.

Pena e galardão igual
O mundo a direito tem,
A uma regra geral;
Que a pena se deve ao mal,
E o galardão ao bem.

Se alguma hora aconteceu
Na paz, muito mais na guerra,
Que a balança mais pendeu,
Faz-se engano às leis da terra;
Nunca se faz às do céu.

Entre os lombardos havia
Lei escrita, e lei usada,
Como se sabe hoje em dia;
Que onde a prova falecia,
Que o provasse a espada.

Ali no campo às singelas,
Enfim morrer ou vencer,
Fosse qual quisesse delas:
Não era melhor morrer
A ferro, que de cautelas?

Ao nosso alto e excelente
Dom Dinis, rei tão louvado,
Tão justo, a Deus tão temente,
Falsa e maliciosamente,
Foi grande aleive assacado.

Ele posto em tal perigo,
Rei que rei fez e desfez;
Contra o malicioso inimigo,
Foi-lhe forçado esta vez
Chamar-se a esta lei que digo.

E juntamente às cidades
A quem cumpriu de acudir,
Pelas suas lealdades:
Que tão más são as verdades
Às vezes de descobrir!

Neste tempo quem mal cai,
Mal jaz; e dizem que à luz
Por tempo a verdade sai;
Entretanto põem na cruz
O justo, o ladrão se vai.

Da mesma casa real,
Em verdade um grande infante
Tratado às escuras mal,
Bradava por campo igual,
E inimigos claros diante.

Enfim vendo a indústria e arte
Quanto que podem, chamou
Um leal conde de parte;
Só com ele se apartou;
Foi viver a melhor parte.

Onde tudo é certo e claro,
Onde são sempre umas leis;
Príncipe no mundo raro,
Sobre tanto desamparo
Foram três seus filhos reis.

Ó senhor! quantos suores
Passa o corpo e alma em vão
Em poder de envolvedores!
Enfim, batalhas que são?
Salvo desafios mores.

Com a mão sobre um ouvido
Ouvia Alexandre as partes,
Como quem tinha entendido,
Por fazer certo o fingido,
Quantas que se buscam d’artes.

Guardava ele o outro inteiro
A parte não inda ouvida:
Não vai nada em ser primeiro:
Quem muito sabe duvida;
Só Deus é o verdadeiro.

A tudo dão novas cores
Com que enleiam os sentidos:
Ah maus! ah enliçadores!
Ante os reis vossos senhores,
Andais com rostos fingidos!

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