Eram os Chineses que ocupavam as nossas terras de além-mar, discretos e
sábios. Tive colegas chinesas lá pelo liceu e indianas também. Belos tempos esses,
das recordações da velhice. Hoje vai o Montenegro à China, mais propriamente a
Pequim, mas também nós já fomos ao Japão, Praia e Bissau, como conquistadores a
viver hoje de recordações nas canções. Agora só somos viajantes, não sabemos
bem, as amizades antigas não se desfazem assim, embora a humildade, que era
apanágio chinês, seja mais da nossa valia, hoje em dia. Amigos, amigos, possibilidade
de negócios, e Montenegro assim o tenta, no virtuosismo amenizador dos pruridos
operatórios, ainda que de migalhas para nós, actualmente. Mas nada sabemos, é o
que consta já do antigamente socrático de exiguidade no tal saber de modéstia,
e daí a ida de Montenegro a Pequim até pode ter sido uma de receita eficaz para
nós, Montenegro que o diga, não vale a pena esconder, mesmo que não tenha
resultado, a vida é assim mesmo, de altos e baixos e por aí fora.
A China
venceu e Montenegro foi a Pequim
Não faz
sentido – pela história, pela geografia, pela natureza do regime – Portugal
alinhar com um bloco chinês. Mas é evidente que a generalidade dos países
europeus está a procurar melhores relações
BRUNO CARDOSO REIS Historiador e especialista em
segurança internacional
OBSERVADOR,19 set. 2025, 00:197
A recente viagem do
Primeiro-Ministro de Portugal a Pequim é um bom pretexto para fazermos um ponto
da situação sobre a evolução da posição da China na geopolítica global e as
suas implicações para a Europa. A visita veio pouco depois da parada para
comemorar os 80 anos do final da Segunda Guerra Mundial, que contou com mais de
10.000 militares e uma ampla amostra de novos sistemas de armamento. A China
de Xi Jinping queria mostrar que venceu não só na Segunda Guerra Mundial, mas
também na Guerra Fria e tem instrumentos para vencer nesta nova era em que
estamos a viver.
Pequim fez ainda questão de
mostrar, para quem ainda tivesse dúvidas, que não
é realmente neutra na guerra de conquista russa da Ucrânia dando dar lugar de destaque a Putin. É irónico porque a China na Segunda
Guerra Mundial “era” a Ucrânia: um
país invadido por uma potência militarmente muito superior, com 25% do seu
território ocupado, praticamente sem força aérea e com a sua capital,
provisoriamente em Chongqing, constantemente bombardeada. Apesar
disso, graças à ajuda dos Aliados ocidentais acabou do lado dos vencedores. Sim,
houve grande heroísmo na resistência ao expansionismo japonês resultando em
milhões de mortos chineses. Mas não se ganha guerras tendo muito mais baixas do
que o inimigo. A China fixou muitas tropas japonesas, mas o Japão foi
derrotado, em setembro 1945, sobretudo pelas eficazes operações anfíbias e
aeronavais norte-americanas. Foi isso que permitiu à China recuperar a sua
soberania e territórios perdidos. Mais,
os EUA foram a grande potência que mais fez por manter a China formalmente
independente e unida durante o seu período de maior fraqueza, entre meados do
século XIX e do século XX. E foi a Rússia a potência europeia que mais
beneficiou com essa fraqueza chinesa. Em 1860, a China foi forçada a ceder 1,5
milhões de km2 à Rússia.
Esta história de agressão e de
tratados desiguais é central na narrativa de legitimação do regime do PC chinês como o grande responsável
pela restauração do estatuto da China como grande potência. Mas não é
contada nestes termos porque interessa ao regime chinês uma Rússia dependente de
Pequim e os EUA são rivais a abater. Qualquer
versão oficial da história é relevante para perceber como as elites desse Estado querem que se
veja o Mundo, mas em especial numa ditadura deve ser lida com grande cepticismo.
O fim da Guerra Fria que dividiu o
Mundo, entre 1945 e 1991, em dois blocos foi inicialmente lido como uma vitória
inequívoca do Ocidente e do seu modelo de democracia pluralista e economia de
mercado. Mas cada vez vai ficando mais claro que a China também esteve entre as
grandes vencedoras da Guerra Fria. O regime comunista chinês tinha entrado em
ruptura com o Kremlin e um conflito fronteiriço, em 1969, quase levou a uma
guerra em grande escala. Este facto foi decisivo na aceitação por Mao Zedong da aproximação aos EUA de Nixon, a partir de 1972. A China tornou-se,
depois disso, numa aliada de facto do Ocidente na Guerra Fria, mas teve sempre
uma agenda própria.
O regime chinês até promoveu a
liberalização económica, a partir de 1979, para sair do abismo em que os
extremos do Maoismo o tinham mergulhado. Mas,
contrariando Gorbatchev e as esperanças ocidentais, a liderança comunista
chinesa nunca aceitou a liberalização política. Pelo
contrário, não hesitou em usar toda a força ao seu dispor para esmagar a
revolta dos jovens chineses pela liberdade. Recordamos
1989 pela queda do Muro de Berlim. Mas esse também foi o ano do massacre de Tiananmen, e hoje é claro que esse episódio não foi menos crucial para a evolução da
política global até hoje.
A China consolidou o seu leninismo de mercado e o seu autoritarismo como um
modelo alternativo.
A grande questão hoje é perceber até
que ponto a China irá beneficiar com a viragem a que estamos a assistir na
política externa dos EUA com Donald Trump. A parada
militar em Pequim e a cimeira da
Organização da Cooperação de Xangai (OCX) – fundada em 2001, que passou
de 6 membros para 10 actualmente – são sinais de que Pequim quer criar um bloco liderada por si. Também
mostram, que o sucesso não está garantido. Muitos Estados preferem tirar
partido das oportunidades de um mundo mais multipolar. A Índia é exemplo disso. Modi foi agora à cimeira na China, a sua
primeira visita em 7 anos, mostrando a Trump que hostilizar Nova Delhi tem
custos. Mas Modi
optou por não ir à parada militar. Os
presidentes das outras duas grandes democracias dos BRICS – o Brasil
e a África do Sul – também não
estiveram presentes na parada. Estiveram representados 26 países, o que
é relevante, mas há 193 Estados membros da ONU. Da União Europeia apenas esteve presente
o líder da Eslováquia, uma figura, para já marginal, na política europeia.
Quer isto dizer que Montenegro fez
mal em ir a Pequim uns dias depois? Não. Nos
últimos meses vimos vários responsáveis da União Europeia e de diversos Estados
membros ir a Pequim, de Meloni
a Von der Leyen, Costa ou Sanchéz.
Com Trump a deixar clara a sua aposta no
nacionalismo económico, e que não se irá automaticamente condicionar por
alianças ou tratados, a opção
racional para os aliados tradicionais dos EUA é diversificar
relações. Uma cimeira
bilateral na China, numa viagem em que também se vai ao Japão, deixa claro que
não se trata de Portugal alinhar exclusivamente com um bloco chinês mas,
precisamente, de diversificar relações, ignorando, pragmaticamente, as
diferenças de regime político. Na
imprensa oficiosa chinesa essa mensagem foi percebida, e as relações com
Portugal foram mesmo apresentadas como um exemplo de bom relacionamento entre
países com regimes diferentes. A
ausência de contenciosos sérios e evidentes ajuda. Esperemos que em privado Montenegro
tenha falado do caso do activista democrático detido em Macau.
Não faz sentido – pela história, pela
geografia, pela natureza do regime chinês – Portugal pensar em alinhar com um
bloco chinês. Mas é
evidente que a generalidade dos países europeus está a procurar melhores
relações, desde logo económicas, com a China e outras potências emergentes,
quando os EUA estão a fechar mais o seu mercado e a dar sinais de desinteresse
pela Europa. Apostar no realismo pragmático e na defesa
de interesses económicos nacionais não é um exclusivo dos EUA. A ideia do
alinhamento automático com qualquer potência estrangeira é o inverso de uma
política externa patriótica ou estratégica. Mostrar que Portugal tem
alternativas provavelmente até ajudará a aumentar o interesse da Casa Branca
nas relações com Portugal. Terá sido
um acaso que Trump entretanto decidiu falar ao telefone com Luís Montenegro? Poderá ser mero acaso ou a tragédia da
Elevador da Glória que foi referido na conversa. Seja como for, fica claro que
o facto de o chefe do governo português ir a Pequim não é um obstáculo à
diplomacia ao mais alto nível com os EUA, bem pelo contrário.
DIPLOMACIA MUNDO CHINA LUÍS
MONTENEGRO POLÍTICA NEGÓCIOS DO
ESTADO
COMENTÁRIOS
(de 7)
Antonio Melo: A China queixa-se (e com razão)
da humilhação ocidental por causa das guerras do ópio e da invasão Japonesa. Quando será que a China se sentirá humilhada com a Rússia, por causa dos
territórios perdidos a norte?
klaus muller > Antonio Melo: Dê-lhes tempo, António, os chineses não se esqueceram. E então com a acelerada decadência da Rússia, vai ser mais em breve do que
estamos a contar. Francisco
Ramos > Antonio Melo: É por isso que quando se fala da Rússia invadir a Europa fico
um pouco surpreso. A invasão da Europa pela Rússia, em caso de sucesso,
seria uma aquisição de enorme valor acrescentado para a Rússia. Levavam um património científico e tecnológico de se lhe tirar o chapéu. Seria
um sério concorrente da China. E a pergunta é: e a China ia nessa conversa? Claro que não. A Rússia
só irá até onde a China consentir, e não será muito longe. De momento, a Rússia
é apenas um armazém de matérias primas para a China. Quando o armazém se esgotar passará a ser uma terra de ninguém. Filipe
Aguiar: Bom artigo, sim senhor! klaus > mullerFilipe Aguiar: Também gostei Oscar gomes: Análise perfeita. Os americanos e a Administração
americana, de momento, pouco interesse têm em cooperar com a Europa. Fazem
jus ao ditado "cada um por si e deus por todos..." e são os negócios
(e os proveitos) que os fazem mover. Quanto á China pragmaticamente trata
dos seus interesses e não se mete em questões que não lhe tragam benefícios
(vide por ex médio oriente...). Não são nem querem ser polícias do
mundo. E bom que façamos com diz Jorge Palma na sua canção "dou-me com
toda a gente, não me dou a ninguém..". Montenegro assim fez.
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