“Pela retina dos meus olhos” foi o que me lembrou mais este magnífico texto evocativo, de JAIME NOGUEIRA PINTO, que traduz vivências e prazeres a que, mais parcamente embora, também pudemos aceder se não sempre pela visualização dos filmes de que fala, na sua totalidade, pelo menos muito parcialmente, e sobretudo nos registos referenciais.
Uma bonita homenagem de JNP – mais um texto, a enriquecer o nosso
património cultural e que desta vez nos faz reviver uma bonita figura que por
nós passou e permanece fixada nos filmes que protagonizou – CLÁUDIA CARDINALE-
E, já agora, um soneto, no prolongamento do prazer pela beleza da
palavra escrita, expressiva, neste caso do título do soneto de Camilo Pessanha,
não de prazeres vividos, mas do sentimento trágico da vida sobre o irrefutável
da morte e da vacuidade das aspirações humanas a um prolongamento dessas, mas
necessariamente efémeras. Por isso, no final deste texto de JNP, reponho o
soneto de CP, pelo prazer da sua leitura, não como corolário do texto de
vivências na magia que é o sentido da vida que nos foi dada, plena de
recordações de prazeres e de amores que os tempos trazem, uns mais gratos pelo
dom da vida, outros mais dramáticos no sentimento trágico do seu efémero. Ambos
os textos – o de JAIME NOGUEIRA PINTO e o de CAMILO PESSANHA merecedores da
nossa gratidão – o primeiro pela evocação de algo que passou e que amámos, o
segundo pela criatividade no sentimento, por derrotista que seja, ambos
transparentes de realidades vivenciadas e que nos são oferecidas para nosso
prazer de colhedores do espírito alheio. Daí a nossa gratidão constante, no
bem-estar espiritual com que pensamentos alheios nos deleitam.
Claudia Cardinale (1938-2025)
O desaparecimento de Claudia Cardinale lembra-nos o muito que nos
trouxe e ao cinema e damos graças pelo dom da vida e pelo que de bom e de belo
constantemente se cruza connosco e nos toca neste mundo
JAIME NOGUEIRA
PINTO Colunista do Observador
OBSERVADOR, 27
set. 2025, 00:1836
Quando comecei a ver cinema (a “ir ao cinema”, como se dizia), o cinema italiano era um grande cinema,
para não dizer o grande cinema. A começar pelos realizadores, os Visconti, os Fellini, os Pasolini, os Antonioni, os
Monicelli, os Risi, os Rossellini, os De Sica, criadores
admiráveis em todos os géneros, da comédia mais divertida à tragédia mais
shakespeariana.
Mas para nós, miúdos, muito mais do que os realizadores, que até à adolescência nos passavam
relativamente despercebidos, impressionavam-nos os actores – um cómico admirável,
como Antonio de Curtis, Totó,
um actor genial para papéis mais sérios, como Marcelo
Mastroianni, ou alguém preparado para todos os géneros, como Vittorio Gassman. E mais ainda que os
actores, fascinavam-nos as actrizes.
Estávamos no Portugal dos anos
1960, a sair da Igreja pré-conciliar de Pio XII, e as nossas “referências artísticas” eram americanas
(como a Marilyn Monroe, a Rita Hayworth ou a Ava
Gardner, que víamos nos filmes e nas páginas do Século Ilustrado), francesas
(como a Brigitte Bardot de Et Dieu créa la femme ou a Catherine Deneuve de Belle de Jour) e italianas (como a Silvana Mangano, a Sofia
Loren, a Gina
Lollobrigida, a Monica Vitti…
e a Claudia Cardinale).
Claudia
Cardinale era uma italiana
nascida na Tunísia, então um domínio francês, onde, com 19 anos, ganhara um
concurso de beleza. O primeiro prémio dava direito a uma semana em
Veneza com acompanhante. Claudia levou a mãe e voltou para a Tunísia. Estávamos
em 1957. Não passou um ano até que saísse da Tunísia para o grande
écran, com I Soliti Ignoti, de Mario Monicelli.
Era o começo. Em 1960, estava em Rocco
e i Suoi Fratelli, de Visconti,
com Alain Delon, em 61 era La Ragazza con la Valigia no filme de
Valerio Zurlini, e em 63 dava corpo à Ragazza di
Bube, de Luigi Comencini. No mesmo ano, Visconti
voltava a escolhê-la, desta vez para desempenhar o papel de Angelica em Il
Gattopardo. Angelica
era a bela filha do burguês Dom Calogero Sedara, parte do exercício de
transição política e social que “o
Leopardo”, o príncipe de Salina (Burt Lancaster), vai protagonizar para
que a estrutura social não sofra muitos abalos com a passagem da monarquia tradicionalista dos Bourbon-Duas Sicílias
para a monarquia liberal e revolucionária dos Saboia.
São
raros os grandes filmes de grandes livros, ou da adaptação de grandes livros,
vá-se lá a saber porquê… Talvez
porque os livros falem outra linguagem, mais intimista, centrada na palavra e
deixando a imaginação visual à solta, e o cinema encontre o seu encanto
sobretudo na imagem, no movimento, na acção, num apelo mais directo aos
sentidos. Por alguma razão nem as adaptações francesas de Le Rouge et le Noir ou de La Chartreuse de Parme, de Stendhal,
resultaram em grandes filmes, nem os
livros que serviram de guião aos geniais tratados do poder e da condição humana
que são Os Padrinhos de Coppola eram
obras-primas.
Il Gattopardo, de Lampedusa, é uma excepção. É um romance admirável que, pela mão de
Visconti, inspira um filme admirável. Livro e filme são obras
diferentes e assumem essa diferença. Visconti,
ao sabor do seu tempo, da sua arte e da sua condição de aristocrata-comunista,
faz uma leitura marxista do romance de Lampedusa, a narrativa nostálgica da
viagem à Sicília do aristocrata Giuseppe Tomasi de Lampedusa à procura de um
tempo perdido.
CLAUDIA CARDINALE veste bem a pele de Angelica, a filha de Dom Calogero (Paolo
Stoppa), o burguês em ascensão social que, nas terras feudais dos Salina, ajuda
a evitar a revolução que a sucessão dos “homens novos” aos aristocratas e o fim
do Ancien Régime podia provocar.
Visconti encerra o filme com Claudia
Cardinale a rodopiar no
salão dos Salina nos braços do patriarca, um Burt
Lencaster que nos tínhamos habituado a ver nas fitas americanas como
trapezista, pirata, cowboy ou até índio
(no Último Apache), mas que o
realizador italiano se atreve a transformar no aristocrata nostalgicamente
maquiavélico que muda o que for
preciso (o acessório) para que o
essencial (a propriedade dos meios de produção – segundo Visconti, conde de
Lonate Pozzolo, com casa em Milão, cheia de criadagem e dois chefs de cozinha,
segundo o amigo e rival Fellini) continue na mesma. E sim, o
filme é diferente do livro também no essencial.
A versatilidade de Claudia Cardinale não será menor do que a do
trapezista, pirata, cowboy, índio e príncipe, Burt Lancaster. Em 1968,
em Hollywood, vai protagonizar entre vaqueiros, caminhos-de-ferro, maus muito
maus (Henry Fonda) e um bom
com cara de mau (Charles Bronson)
Aconteceu no Oeste, um
filme de Sergio Leone, que
trabalhara com mestres como Vittorio de
Sica e Luigi Comencini e se lançara nos chamados Western Spaghetti com fitas como Por um Punhado de Dólares e O Bom, o Mau e o Vilão.
Contrastando em quase tudo
com a Angélica de O Leopardo, Claudia
é, em Once Upon a
Time in the West, Jill
McBain, uma mulher de vida fácil (ou difícil) de Nova Orleães que vem para a
terra onde se passa a acção porque casa com o homem que é assassinado, com a
família, logo no princípio da história. E desce, linda e feliz, do comboio,
para enfrentar o que der e vier.
Vi este Aconteceu no Oeste num dia que é sempre
inesquecível: o dia seguinte ao do último exame da
época; o dia ou a noite em que, pela primeira vez depois de um tempo de grande
azáfama e sofrimento, em pleno Verão, estamos livres, soltos e podemos jantar
bem e ir ao cinema.
Pude, por isso, apreciar mais ainda a beleza da Cardinale, ajudado pela
música de Ennio
Morricone e
por aqueles desfechos típicos dos Westerns, com os maus a serem punidos e tudo a acabar
bem.
E vi-a em muitas outras fitas –
como Claudia, no 8 ½ de Fellini, como dona de uma casa de passe,
no Fitzcarraldo de
Werner Herzog, como chefe de quadrilha em Les Petroleuses, de Christian-Jacques (que juntava na mesma quadrilha Bardot e Cardinale, BB e CC).
Vi-a sempre bela, como princesa Dala na Pantera
Cor de Rosa sempre bem, ainda na tela ou já a sair de cena
e a envelhecer.
Dizem que em 1967, na Basílica
de S. Pedro (Paulo VI quisera receber um grupo de actrizes italianas), o Papa
conversou alguns minutos a sós com ela e Claudia
saiu a chorar. Especula-se que teriam falado do que lhe acontecera aos
17 anos: a violação, a hesitação em
abortar e a decisão de ter o filho, o seu Patrick, que o futuro marido, Franco
Cristaldi, iria perfilhar.
O desaparecimento de Claudia
Cardinale lembra-nos o muito que nos trouxe e ao cinema, a sua forma única de
passar pelo tempo. E lembra-nos também aquilo de que muitas vezes nos
esquecemos: de
dar graças pelo dom da vida e pelo que de bom e de belo constantemente se cruza
connosco e nos toca neste mundo. Que descanse em paz.
A SEXTA
COLUNA HISTÓRIA CULTURA CINEMA 36
Transposto da INTERNET_
«O SONETO DE CAMILO PESSANHA»:
«Imagens que
passais pela retina»
“Imagens que
passais pela retina
Dos meus olhos, porque não vos fixais?
Que passais como a água cristalina
Por uma fonte para nunca mais!...
Ou para o lago escuro onde termina
Vosso curso, silente de juncais,
E o vago medo angustioso domina,
_ Porque ides sem mim, não me levais?
Sem vós o que são os meus olhos abertos?
_ O espelho inútil, meus olhos pagãos!
Aridez de sucessivos desertos...
Fica sequer, sombra das minhas mãos,
Flexão casual de meus dedos incertos,
_ Estranha sombra em movimentos vãos.”
CAMILO PESSANHA, in 'CLEPSIDRA'
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