Pleno de actualidade, no espírito, no saber transparente de amor, numa síntese cultural que uma vez mais aponta para uma das presenças válidas desta pátria pequena, palco antigo de gente corajosa que no mundo desempenhou um extraordinário papel de alargamento visual do espaço terreno, e afinal não parece tão parca em espíritos que nele imprimiram o seu dedo espiritual, como JAIME NOGUEIRA PINTO – igualmente um desses – bem expõe. E são estas dedadas seriamente evocativas que nos fazem minimizar por vezes tanto dos errores sociais que nos “marginalizam” envergonhadamente, lembrando que gente nobre e ilustre vai sempre contribuindo para minimizar certos complexos com razões de ser.
A Língua Portuguesa não é só a nossa pátria
É uma língua grande e plástica e
plural e aberta como toda a vida que vale a pena ser vivida. Vive nas palavras
dos escritores e até nas dos que são um bocado disso tudo ou dos que não são
nada disso.
JAIME NOGUEIRA PINTO Colunista do Observador
OBSERVADOR, 08 mai. 2020, 00:0338
A língua portuguesa é uma língua viva no
tempo e no espaço. Uma língua que um povo pequeno e pobre mas aventureiro levou
pelo mundo fora. E que tem em Portugal, no Brasil, em Angola, em
Moçambique, em Cabo Verde, na Guiné, em S. Tomé, em Timor, séculos de
criadores, de inventores, de inovadores, no romance, na poesia, na música, no
teatro, na vida de todos os dias. É
uma língua grande e plástica e plural e aberta como toda a vida que vale a pena
ser vivida. Vive nas palavras dos escritores – poetas, novelistas, cronistas,
historiadores – e até nas daqueles que são um bocado disso tudo ou até dos que
não são nada disso.
Quando
penso na língua portuguesa, viajo no tempo até aos poetas dos cancioneiros
d’Amor e d’Amigo, que a usaram para bem dizer, e passo pelos que a usaram com
Escárnio para Mal Dizer. Penso em Fernão Lopes, em D. Duarte, em Zurara, em
João de Barros, em Diogo de Couto que com ela fizera a crónica dos nossos dias
de então.
Depois demoro-me, claro, em Camões, sempre dividido entre o épico e o lírico. Entre o contador dos reis, dos heróis e
do povo que fizeram Portugal, desde o princípio até pouco antes do primeiro fim
de Portugal: de Afonso Henriques, o “príncipe Afonso”, que “aparelhava o
Lusitano exército ditoso” em Ourique, até D. Sebastião, “bem nascida segurança
da lusitana antiga liberdade; Maravilha fatal da nossa idade”, que foi morrer
numa tarde de Agosto, romântica e desastradamente, numa expedição que tinha um
sentido estratégico e político, mas que foi no terreno muito mal conduzida. O Camões épico, da paixão e da razão de
Estado do episódio da “linda Inês” desassossegada e “posta em (derradeiro)
sossego” pelos mensageiros do rei e da Morte. Ou o Camões lírico, nostálgico
dos rios da Babilónia e vizinho das águas do Mondego a dar expressão ao amor.
Não
haveria também língua portuguesa sem a sátira de Gil Vicente,
sem o romance de Bernardim, sem a poesia de Sá de Miranda.
E sem Damião de
Góis,
humanista por excelência. E as histórias da Expansão não seriam
as mesmas sem o “burlador” Fernão
Mendes Pinto. E mais
europeu, D.
Francisco Manuel de Melo, nascido
no tempo dos Filipes, um polymetis, como Ulisses – militar, dramaturgo,
cronista político, escritor –, e, como escritor, percorrendo vários géneros, da
História a Teatro, e no teatro, encarnando vários estilos, do satírico ao
moralista. Grande figura literária do barroco peninsular.
De Padre Vieira, não se pode dizer mais do que Pessoa
disse dele. Ou talvez
possa porque o “imperador da língua portuguesa” foi sacerdote jesuíta,
missionário no Brasil, conselheiro estratégico do Rei Restaurador, embaixador
itinerante da Restauração, amigo das grandes figuras da Europa de Seiscentos,
até da rainha Cristina da Suécia.
E foi também perseguido por amor do Rei e do Reino quando, percebendo que
Portugal precisava de imaginação, quis fazer voltar os cristãos novos com os
seus fundos para criar uma companhia majestática portuguesa. A Inquisição não
gostou e D. João IV não ousou contrariá-la. E de tudo isto, de toda esta
longuíssima vida no tempo, deixou-nos, em palavras portuguesas, memórias,
sermões e cartas admiráveis.
O século
XVIII, o do absolutismo monárquico, clerical e magnânimo com D. João V, secular
e brutal com o Marquês, piedoso e nem sequer revanchista com a “Viralhada” de D. Maria I, foi académico. Com Academias de
História e Academias de Poesia, mas academias. Mais uns estrangeirados e
iluminados – Ribeiro
Sanches, Alexandre de Gusmão. Nunca me
impressionaram académicos e arcádicos, e no fim do século, Bocage,
com o seu talento marginal, veio redimi-los como uma poesia em que nos revemos
melhor, pelas melhores e piores razões. Depois, a fazer a ponte para o século
XIX, José Agostinho de Macedo, genial polemista e caceteiro reaccionário
que fará escola com marca ideológica, embora os discípulos sejam, como quase
sempre, fracos imitadores do Mestre.
No
século XIX vem o romantismo com um par de combatentes liberais, Herculano e
Garret. Herculano tem aquela linha de idealismo kantiano, mas Eurico o
Presbítero é um bom romance histórico; como A Dama Pé-de-Cabra é um
conto terrorífico, digno das melhores antologias do Gótico. Garrett, nos
antípodas do estilo de vida do ascético Herculano, com uma pose de dandy
literário inglês, deixou também a sua marca nessa primeira metade do século XIX
– na poesia e na narrati va.
Mas o grande escritor romântico do século
XIX português é Camilo Castelo Branco. Genial, pelo seu uso – e às vezes pelo seu abuso – da língua
portuguesa, pela sua ressurreição de palavras e de expressões, pela construção
literariamente incorrecta, pela copiosa titulação dos romances. É romântico
ao extremo – nas Novelas do Minho ou no Amor de Perdição – mas é também é realista, na Brasileira de Prazins. E
é um admirável conhecedor e retratista do Portugal a norte do Mondego, do
Portugal profundo.
E depois Eça,
José Maria Eça de Queirós. No meu tempo, no tempo em que os miúdos, os
adolescentes, liam livros e discutiam
escritores (que é quase como dizer “no tempo em que os animais falavam”)
a competição entre Camilo e Eça era um
tema de conversa permanente. Quem era o melhor, de quem mais
gostávamos? De Camilo ou de Eça? São sinais diferentes, pessoas diferentes,
diferentes sensibilidades, línguas diferentes na mesma língua. Eça
era um cosmopolita, tinha viajado pela Europa, tinha ido ao Egipto, tinha
estado em Cuba. Apanhara o mundo da Europa imperial, andara pelos clubes
chiques de Paris e de Londres e conhecia bem Lisboa e a sociedade portuguesa.
Para o bem e para o mal retratou, Eça ridicularizou e satirizou personagens que
ainda hoje por aí andam: os Pachecos, os Dâmasos, os Conselheiros Acácios, até
os Artures Corvelos, como o da Capital, um romance póstumo, injustamente
marginalizado. Por vezes, com alguma dificuldade, ainda apanhamos um Jacinto.
O século XX faz-se da extraordinária
geração do Orfeu e, antes e acima de todos, Fernando Pessoa. Como é que, tendo morrido tão novo,
escreveu com genialidade sobre coisas tão diferentes. Ao dar-nos um retrato de
Portugal e dos heróis da História de Portugal na Mensagem deixou-nos um novo
Portugal, e na poesia completa, em nome próprio ou desdobrado em heterónimos,
consegue quase sempre surpreender-nos e esmagar-nos.
Camilo e Eça apanharam os indivíduos, as pessoas, os portugueses.
Pessoa e Camões perceberam e ergueram de novo o conjunto orgânico de que se faz
Portugal, o povo, a nação portuguesa, na matéria e no espírito.
E há na geração do Orfeu outros geniais, como Almada, o grande
“ilustrador”, como gostava de se definir.
O século XX tem depois uma geração de escritores que trabalharam na
língua a ressurreição e o registo dos vocábulos portugueses: Aquilino é um Camilo
na província, com a tradição do campo; Ferreira de Castro, o
neo-realista; Tomaz de Figueiredo, um Aquilino monárquico, católico e de
direita; Joaquim Paço d’Arcos, que apanhou muito bem a sociedade de
Lisboa; Agustina, que fez isso para o Porto e para o
Norte; e Vitorino Nemésio com Mau Tempo no Canal, um grande romance português. E os poetas O’Neil, Ruy
Bello, Sophia de Mello Breyner; e os contemporâneos que, confesso,
não conheço tão bem, Herberto Helder, na poesia, Lobo Antunes, no romance
e o Saramago do Ensaio Sobre
a Cegueira e do Ano da Morte
de Ricardo Reis.
E o Brasil, que é todo
um outro infindável continente nesta nossa mesma língua e que, entre mortos e
vivos, tem muitos dos maiores astros da Língua Portuguesa: desde Machado de Assis e Euclides da Cunha (Os
Sertões é uma narrativa épica única, melhor que o Vargas Llosa de La
Guerra del Fin del Mundo), José Lins do Rego, Jorge Amado, Graciliano Ramos,
Adonias Filho, João Guimarães Rosa, Eurico Veríssimo, Josué Montello, Carlos
Drummond de Andrade, Vinícius de Morais, João Ubaldo Ribeiro, Moacyr
Scliar , Rubem Fonseca, Nelson Rodrigues, Clarice Lispector, Nélida Piñon
e os poetas da música, Dorival Caymmi, Chico Buarque, Caetano Veloso…
E Angola com os seus criadores desde o “tempo
colonial” aos dias de hoje: Castro
Soromenho, Maria Archer, Tomás Vieira da Cruz, Manuel Rui, Pepetela, João Melo,
José Eduardo Agualusa, Ondjaki, Rui Duarte de Carvalho, Sousa Jamba, tantos
mundos, tanta gente. E Moçambique com José Craveirinha, Mia Couto, Nelson
Saúte.
Ou as ilhas: Baltazar Lopes, Germano de Almeida,
Manuel Lopes, Jorge Barbosa, Corsino Fortes, Onésimo Silveira, Alda do Espírito
Santo, Francisco José Tenreiro.
E todo este mundo de língua portuguesa,
uma língua esforçada, densa, aventurosa, inventiva, criativa. Uma língua capaz
de se adaptar à modernidade sem complexos e que é também e sobretudo um grande
tesouro da identidade e das nações e dos povos que a falam e escrevem.
LÍNGUA
PORTUGUESA PAÍS SOCIEDADE A SEXTA
COLUNA HISTÓRIA CULTURA JAIME
NOGUEIRA PINTO
COMENTÁRIOS (de 38)
Joaquim Rodrigues: 08/05/2020: Estes mentecaptos estão à
espera de quê para enterrarem de vez o DESacordo ortográfico, que já
morreu há muito, está putrefacto e cheira mal?
vitor guerra 08/05/2020: Tenho pudor em analisar questões da língua portuguesa, quando tem
valor jurídico um Acordo Ortográfico ridículo, que
só os tugas levam a sério, num universo de quase 350 milhões Antes
pelo contrário 08/05/2020 - Há uns dez anos, num dia de
grande calor, parei para almoçar em Ponte de Sor, num restaurante atascado que
tinha uma esplanada. Veio uma empregada loira, de cabelo frisado, com uma bata
azul, e eu disse-lhe: - "Boa tarde, queria que me trouxesse já, se fizer
favor, uma Água das Pedras fresca..." E ela respondeu-me, com o melhor
sotaque brasileiro: - "Dá pédra nã sei si tein, axu qui só tein dum
castelo cualqué. Mas eu vou vê..." Sem dúvida, estava a falar português.
Da terra dela, obviamente. O que significa que o acordo ortográfico é sem
dúvida necessário, mas para eles escreverem a língua como a falam. Nós não
precisamos dele. Maria
Nunes, 08/05/2020: Excelente. Admirável tributo à
Língua Portuguesa. Antes
pelo contrário: 08/05/2020
Tudo isso é verdade, mas
continuo a não ver nenhuma razão para nós falarmos e escrevermos de outra
maneira que não seja a nossa. Uma língua viva, evolui, não fica estática. Mas
evolui com a vida e não por decreto. Por isso é que a língua falada e escrita
no Brasil é diferente da que se fala e escreve em Portugal Continental. E
foi por isso que o latim, originário de Itália, acabou por ser falado em quase
todo o mundo conhecido na altura, mas ao ser usado por outros povos, foi
moldado por cada um deles em função das necessidades e realidades, até se ter
transformado numa série de línguas "latinas", entre elas o Português.
É por isso que a língua falada por exemplo em Angola, não difere
substancialmente do português de Portugal, mas a língua usada pelos
brasileiros, não só tem muitíssimas variantes consoante as regiões e os
estratos sociais, mas tem vindo a afastar-se cada vez mais da nossa. Mario Areias 08/05/2020: Não podia estar mais de acordo consigo. Agora temos de nos
habituar a textos mal escritos e com erros ortográficos, como a cada vez mais
estrangeirismos.
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