segunda-feira, 22 de setembro de 2025

Julgo


Que esse apego vem dos inícios, das matinées dos sábados à tarde. Lembro-me da minha prima Maria José que não falhava uma, dos filmes importados da América, lá em Lourenço Marques, enquanto nós as suas primas, jogávamos ao voley ou fazíamos corridas, no terreno por trás da nossa casa, por falta de verba, na questão cinéfila, mas também pelos princípios puritanos paternos, que só admitiam a assistência a filmes portugueses, mais comedidos nos relacionamentos amorosos entre os seus actores e actrizes, e, nesse caso, toda a nossa recatada família os ia ver aos sábados à noite, incluindo os primos que viviam connosco, por uma questão financeira de mutualidade na inter ajuda. Mas conhecíamos as actrizes e os actores estrangeiros fascinantes, desses filmes de que se falava e se lia nos jornais, com as respectivas imagens. Sim, os filmes foram responsáveis por esse apego maravilhado aos United States, desde os primórdios, mesmo que fossem italianas as Ginas e as as Sophias da altura, que os States projectaram, lá da sua distância de sonho, jamais desfeito, mesmo hoje, com os curiosos actores do palco da vida, que, afinal, pensam de si, ainda agora, o mesmo que nós deles pensávamos, no nosso outrora adolescente.

A AMÉRICA É UM REALITY SHOW

Nenhum país foge tanto à compreensão do resto do mundo como os Estados Unidos. Quanto mais assistimos aos episódios da série, mais a acção nos confunde e fascina.

TIAGO DE OLIVEIRA CAVACO Pastor Baptista, colunista do Observador

OBSERVADOR, 21 set. 2025, 00:1612

Excluindo Portugal, os Estados Unidos da América são o país onde passei mais tempo. Não foi tanto tempo assim porque sou um português caseiro mas diria, somando por alto todas as estadias, que ultrapassou a barreira do meio ano (sendo que a parte maior foi uma licença sabática de quase 5 meses). Isso não me oferece nenhuma categoria da especialista mas também não me permite ser apenas uma pessoa com opiniões vagas sobre a América. Tenho estado lá.

A questão é que, mesmo tendo estado lá, sei que para o resto do mundo os Estados Unidos não são um país—são um reality show. Nós temos muitas opiniões sobre os Estados Unidos de um modo completamente independente de os conhecermos. Como a América é o país com maior impacto cultural no mundo no último século, ela existe no nosso coração e na nossa cabeça como nenhum outro. Ora, se a América está cá dentro, é como se nos pertencesse (e, claro está, estou a usar intencionalmente Estados Unidos e América como sinónimos).

Mas nenhum país foge tanto à compreensão do resto do mundo como os Estados Unidos. Quanto mais assistimos aos episódios da série, mais a acção nos confunde e fascina. Ficamos inflamados com amores e ódios espalhados pelas personagens que nos aparecem em conflito, não compreendendo que toda essa intensidade só assinala o lapso que existe entre uma vida vivida lá, que para nós é pura ficção, e a nossa vida vivida cá. Por cada opinião que o resto do mundo tem sobre os Estados Unidos, há apenas a certeza de haver mais um espectador.

E os outros países, também não são programas da TV para nós? É que nem se compara. No caso português, por exemplo, talvez tenhamos uma atenção especial dada ao Brasil e, por complexo de inferioridade, a Espanha. Mas são exemplos que não têm unhas para arranhar a posição norte-americana. Sim, lembramo-nos das produções da Globo e da TVE mas, vá lá. O nosso coração é americano. Nada nos excita como os Estados Unidos.

Logo, o que tem estrondo na América ganha eco nas nossas conversas. Mas o nível raramente ultrapassa o da Teresa Guilherme no primeiro Big Brother. Partilhamos emoções cruas, intrigas severas, ocasionalmente empertiga-se aqui e ali um mais armado em ideólogo. No ecrã, todavia, tudo redunda numa escolha muito resumida e editada dos factos para consumo facilitado e passional dos espectadores. Sobretudo interessa entreter, não entender.

O facto de ensaiarmos análises supostamente políticas acerca dos Estados Unidos é uma outra amostra de quão requintado pode ser o nosso provincianismo. Nós, Portugalzinho de quase 900 anos e pouco mais de dez milhões, somos o velhote que não perde um episódio porque uma das moçoilas concorrentes agita os já periclitantes níveis de testosterona. Não é uma análise política, é um exame urológico.

Os comentadores nacionais quando falam da América exprimem sobretudo um desejo por sublimar, um anseio freudiano pela presença deles próprios no domínio das suas fantasias. Por exemplo, num canal privado está um repórter destacado nos Estados Unidos há décadas que é a encarnação perfeita da personagem do Tom Hanks naquele filme chamado “Terminal”: entalado num aeroporto americano, ele não consegue entrar na América nem regressar a casa. Enviem-lhe uma missão de resgate, por favor.

Significa isto que os Estados Unidos devem tornar-se um assunto reservado a quem já lá esteve e serem tratados com privilégios de especialismo empírico? De modo algum. Uma das conquistas realmente modernas da América é ter ultrapassado o nível de país para se tornar reality show. O facto de o resto do mundo assistir ao programa que os Estados Unidos são é um dos efeitos mais realmente democratizantes consequente da influência deles em nós—tornámo-nos espectadores porque a América quis ser estrela.

A proposta é, por isso, mais simples. Se nos Estados Unidos queremos compreender alguma da “reality” no “show”, precisamos de ganhar mais consciência do que nós próprios mostramos ao olhar para eles. Da minha parte, confesso que acho mais cómica a figura que fazemos como espectadores do que a interpretação das personagens americanas. Aliás, a nossa figura é cómica e também trágica. Acho que o maior filme já não está na América mas em nós. Será que estamos finalmente a superá-la?

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COMENTÁRIOS (de 12)

MANIFESTO FUTURISTA: Genial e certeiro.

JOSÉ B DIAS: Fantástica a descrição de Costa Ribas ... 😉

 

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