Que esse apego vem dos inícios, das
matinées dos sábados à tarde. Lembro-me da minha prima Maria José que não
falhava uma, dos filmes importados da América, lá em Lourenço Marques, enquanto
nós as suas primas, jogávamos ao voley ou fazíamos corridas, no terreno por
trás da nossa casa, por falta de verba, na questão cinéfila, mas também pelos
princípios puritanos paternos, que só admitiam a assistência a filmes
portugueses, mais comedidos nos relacionamentos amorosos entre os seus actores
e actrizes, e, nesse caso, toda a nossa recatada família os ia ver aos sábados à
noite, incluindo os primos que viviam connosco, por uma questão financeira de mutualidade
na inter ajuda. Mas conhecíamos as actrizes e os actores estrangeiros fascinantes,
desses filmes de que se falava e se lia nos jornais, com as respectivas imagens.
Sim, os filmes foram responsáveis por esse apego maravilhado aos United States,
desde os primórdios, mesmo que fossem italianas as Ginas e as as Sophias da
altura, que os States projectaram, lá da sua distância de sonho, jamais
desfeito, mesmo hoje, com os curiosos actores do palco da vida, que, afinal, pensam
de si, ainda agora, o mesmo que nós deles pensávamos, no nosso outrora
adolescente.
A AMÉRICA É UM REALITY SHOW
Nenhum
país foge tanto à compreensão do resto do mundo como os Estados Unidos. Quanto
mais assistimos aos episódios da série, mais a acção nos confunde e fascina.
TIAGO DE OLIVEIRA CAVACO Pastor
Baptista, colunista do Observador
OBSERVADOR, 21
set. 2025, 00:1612
Excluindo Portugal, os Estados Unidos da
América são o país onde passei mais tempo. Não foi tanto tempo assim porque sou
um português caseiro mas diria, somando por alto todas as estadias, que
ultrapassou a barreira do meio ano (sendo que a parte maior foi uma licença
sabática de quase 5 meses). Isso não me oferece nenhuma categoria da
especialista mas também não me permite ser apenas uma pessoa com opiniões vagas
sobre a América. Tenho estado lá.
A questão é que, mesmo tendo
estado lá, sei que para o resto do mundo os Estados Unidos não são um país—são
um reality show. Nós temos muitas opiniões sobre os Estados Unidos de
um modo completamente independente de os conhecermos. Como a América é o país com maior impacto cultural no mundo no
último século, ela existe no nosso coração e na nossa cabeça como nenhum outro.
Ora, se a América está cá dentro, é como se nos pertencesse (e, claro está,
estou a usar intencionalmente Estados Unidos e América como sinónimos).
Mas
nenhum país foge tanto à compreensão do resto do mundo como os Estados Unidos.
Quanto mais assistimos aos episódios da série, mais a acção nos confunde e
fascina. Ficamos inflamados com amores e ódios espalhados pelas personagens que
nos aparecem em conflito, não compreendendo que toda essa intensidade só
assinala o lapso que existe entre uma vida vivida lá, que para nós é pura
ficção, e a nossa vida vivida cá. Por cada opinião que o resto do mundo tem
sobre os Estados Unidos, há apenas a certeza de haver mais um espectador.
E os outros países, também não são
programas da TV para nós? É que nem se
compara. No caso português, por exemplo, talvez tenhamos uma atenção especial dada ao Brasil e,
por complexo de inferioridade, a Espanha. Mas são exemplos que não têm unhas
para arranhar a posição norte-americana. Sim, lembramo-nos das produções da
Globo e da TVE mas, vá lá. O nosso
coração é americano. Nada nos excita como os Estados Unidos.
Logo, o que tem estrondo na América ganha eco nas nossas conversas.
Mas o nível raramente ultrapassa o da Teresa Guilherme no primeiro Big
Brother. Partilhamos emoções
cruas, intrigas severas, ocasionalmente empertiga-se aqui e ali um mais armado
em ideólogo. No ecrã, todavia, tudo redunda numa escolha muito resumida e
editada dos factos para consumo facilitado e passional dos espectadores. Sobretudo
interessa entreter, não entender.
O
facto de ensaiarmos análises supostamente políticas acerca dos Estados Unidos é
uma outra amostra de quão requintado pode ser o nosso provincianismo. Nós,
Portugalzinho de quase 900 anos e pouco mais de dez milhões, somos o velhote que não perde um episódio
porque uma das moçoilas concorrentes agita os já periclitantes níveis de
testosterona. Não é uma análise política, é um exame urológico.
Os comentadores nacionais quando falam
da América exprimem sobretudo um desejo por sublimar, um anseio freudiano pela presença deles próprios no domínio das suas
fantasias. Por exemplo, num canal
privado está um repórter destacado nos Estados Unidos há décadas que é a
encarnação perfeita da personagem do Tom Hanks naquele filme chamado
“Terminal”: entalado num aeroporto americano, ele não consegue entrar na
América nem regressar a casa. Enviem-lhe uma missão de resgate, por favor.
Significa isto que os Estados Unidos
devem tornar-se um assunto reservado a quem já lá esteve e serem tratados com
privilégios de especialismo empírico? De modo algum. Uma das
conquistas realmente modernas da América é ter ultrapassado o nível de país
para se tornar reality show. O facto de o resto do mundo assistir ao programa que
os Estados Unidos são é um dos efeitos mais realmente democratizantes
consequente da influência deles em nós—tornámo-nos
espectadores porque a América quis ser estrela.
A proposta é, por isso, mais simples. Se
nos Estados Unidos queremos compreender alguma da “reality” no “show”,
precisamos de ganhar mais consciência do que nós próprios mostramos ao olhar
para eles. Da minha parte, confesso
que acho mais cómica a figura que fazemos como espectadores do que a
interpretação das personagens americanas. Aliás, a nossa figura é cómica e também trágica. Acho que o maior
filme já não está na América mas em nós. Será que estamos finalmente a
superá-la?
ESTADOS
UNIDOS DA AMÉRICA AMÉRICA MUNDO CRÓNICA OBSERVADOR
COMENTÁRIOS (de 12)
MANIFESTO
FUTURISTA: Genial e certeiro.
JOSÉ B DIAS: Fantástica a descrição de
Costa Ribas ... 😉
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