segunda-feira, 1 de setembro de 2025

Estranhos comentários


A um texto de opinião, sendo que um paralelo serve para mais facilmente - neste caso, pelo menos – se vivenciarem factos próximos para maior compreensão do que vamos vivendo, pela analogia com o que já se viveu, ou se colheu na História Antiga. Como vamos – por enquanto - vivendo a oeste do que sofrem os que estão a nosso leste, sujeitos a cobardias de ambiciosos, que mais não fazem do que, sentados na sua cadeira de repouso, arquitectar planos do seu maquiavelismo falsamente patriótico, para os seus capangas executarem, e a quem se distribuirão, pelo meio, medalhas de louvor estimulante – vivendo nós, pois, indiferentes a tudo isso que é condenável, desde os primórdios, nem sei se já traçados no primitivo código de Hamurabi, (cuido que não, que os Mandamentos da Lei de Deus é que aclararam esses valores humanos do nosso descuido habitual), preferimos atacar quem tente elucidar os factos através do paralelo histórico. Mas não havia necessidade. Trata-se de uma revisão passadista, para reavivar a memória. Só podemos ficar gratos a quem nos elucidou, segundo o seu saber e código de honra, tabu para muitos, é certo.

Donald Chamberlain e Adolf Putin – a Cimeira

A Alemanha de Hitler é a Rússia de Putin (tal qual); Chamberlain parece o modelo de Trump (tal qual, em modo histriónico); e a Ucrânia é empurrada para ficar como a antiga Checoslováquia (tal qual).

JOSÉ RIBEIRO E CASTRO Advogado e cidadão

OBSERVADOR, 01 set. 2025, 00:162

Passadas duas semanas sobre a cimeira do Alasca, há três factos absolutamente claros. O primeiro refere-se ao respectivo guião: é o mesmo de 1938. Quase a papel químico.

Neste ano, na Europa central, aumentava a pressão expansionista da Alemanha nazi, procurando alargar a área de influência e o território. Em Março de 1938, absorve a Áustria, pelo Anschluss, apoiado numa população germanófona e nos partidários das ideias de Hitler. Um referendo aprovou a anexação.

A pressão focou-se, então, nos Sudetas, na Checoslováquia ocidental, onde viviam numerosos alemães há várias gerações. Estas populações de origem alemã, exprimiam aspirações de separação e reunião com a Alemanha, através de movimentos nacionalistas e um partido nazi. França e Reino Unido, campeões da “política de apaziguamento”, inquietos com a tensão e receosos de uma guerra, encorajavam Praga a aceitar as reivindicações iniciais. O Anschluss austríaco fortaleceu as exigências dos alemães da Checoslováquia.

Com a tensão no máximo, o primeiro-ministro britânico, Neville Chamberlain, foi à Alemanha reunir com Hitler, para discutir a crise checoslovaca e selar a paz, junto com Mussolini e o primeiro-ministro francês, Daladier. Em 29 de Setembro de 1938, assinaram o Acordo de Munique. Segundo Chamberlain, ao regressar a Londres, fora firmada a “paz para a nossa época”. O preço foi a cedência à Alemanha do território checoslovaco em questão. A Checoslováquia não participara das conversações de Munique.

Uma das raras vozes contra o Acordo de Munique – e defendendo a Checoslováquia – foi a de Winston Churchill que, poucos dias depois, no debate na Câmara dos Comuns, profetizou, apontando a Chamberlain:Tinham-lhe dado a escolher entre a guerra e a desonra. Escolheu a desonra; e terá a guerra.”

Os alemães anexaram logo os Sudetas, de maioria alemã. Em Março de 1939, após a separação da República da Eslováquia (com um regime fantoche nazi), a Alemanha ocupou a parte checa que sobrara, como Protectorado da Boémia e Morávia. Em Setembro de 1939, Hitler ataca a Polónia, dando início à 2.ª Guerra Mundial. Em Maio de 1940, invade a França, que acabaria ocupada – na parte Sul (Vichy), com um regime colaboracionista. A retirada de Dunquerque consegue evacuar, sob intensos bombardeamentos, entre 26 de Maio e 4 de Junho de 1940, 340.000 soldados da costa francesa (Dunquerque) para a cidade inglesa de Dover. Estava ao rubro a 2.ª Grande Guerra, até hoje a mais violenta e trágica guerra da História da Humanidade.

A paz de Munique não chegou a durar um ano. As anexações alemãs prosseguiram, as grandes invasões começaram para oriente e para ocidente e, em menos de dois anos, França e Reino Unido, que, pela “política de apaziguamento”, tinham fugido da guerra, entregando outros, eram golpeados com violência: a França, vencida e submetida; o Reino Unido, lutando bravamente pela sobrevivência.

Viajando rapidamente de 1938 para os nossos dias, impressionam as semelhanças: a Alemanha de Hitler é a Rússia de Putin (tal qual); o Anschluss da Áustria é a anexação da Crimeia (tal qual); a pressão sobre os Sudetas germanófonos é a mesma que sobre o Donbass russófono (tal qual); Chamberlain parece o modelo de Trump (tal qual, em modo histriónico); e a Ucrânia é empurrada para ficar como a antiga Checoslováquia (tal qual). Depois de tudo se entornar, Neville Chamberlain ficou muito desacreditado.

Ainda assim, assinou o acordo, quando ainda não havia combates e teria a ideia de os evitar. Mas imaginemos que a reunião de Munique se fizera com combates duros na Checoslováquia há anos e Chamberlain proclamasse igualmente que o acordo era a “paz para a nossa época”. Não ficaria só desacreditado; toda a gente o consideraria um idiota chapado.

Passemos ao segundo facto absolutamente claro do Alasca: é já evidente que a cimeira foi um fracasso completo. Aparentemente sem apelo, nem agravo. O objectivo principal declarado por Donald Trump era obter um cessar-fogo. “Stop the killing!” era a repetida palavra de ordem, que, entretanto, parece silenciada. A desculpa é que iria buscar-se um mais ambicioso “acordo de paz”, incluindo o desenho de um sistema de “garantias de segurança” para a Ucrânia. E haveria um encontro a dois entre Putin e Zelensky, ou a três com Trump, o que entraria já em preparação.

As duas semanas passadas chegam para mostrar que tudo foi uma floresta de enganos, ou de mal-entendidos, se não mesmo de genuínos embustes. A alegada conversa e suas várias desconversas públicas, no tema crucial das “garantias de segurança”, é bem ilustrativa da falta de vontade da Federação Russa. Aliás, se a Rússia quisesse, bastar-lhe-ia aplicar as “garantias de segurança” (sic) a que se comprometeu no Memorando de Budapeste de 1994 e tudo ficaria resolvido.

Desrespeitar estas garantias, invadir e agredir a Ucrânia e, depois, dizer que se propõe prestar novas garantias de segurança, enquanto continua a violar aquelas, é comédia cínica de evidente mau gosto. O mesmo quanto ao encontro Putin/Zelensky, que o líder do Kremlin não mostra a menor vontade de realizar. A razão é óbvia: não quer a paz com a Ucrânia.

Enfim, o terceiro facto absolutamente claro do Alasca é o mais saliente: em guerra estávamos, em guerra continuamos. A cimeira foi, na perspectiva da paz, uma inutilidade dispendiosa, pura representação de ilusões. O festivo encontro Trump/Putin, “maravilha fatal da nossa idade”, não teve o menor efeito no terreno: prossegue, praticamente todas as noites, o bombardeio de cidades ucranianas, a começar pela capital, Kyiv, com muitas vítimas civis, atingidas e mortas em zonas residenciais. A guerra de atrição continua, como se nada tivesse acontecido, mostrando, na verdade, que nada aconteceu. A Rússia mantém os mesmos métodos para os mesmos objectivos: vergar a Ucrânia e, podendo, conquistá-la. Como é pelos frutos que se conhecem as árvores, Anchorage foi um posto de reabastecimento moral e político para a estratégia russa.

O único resultado útil para que serviria, no imediato, seria o cessar-fogo. Como se vê desde 2022, não é possível chegar a conversações de paz, sem, primeiro, calar as armas. As desconfianças são muito profundas e as vítimas numerosas e demasiado recentes para que as partes possam pensar em fazer as pazes e construir uma plataforma comum, enquanto os combates continuam. Por isso, negar ou negligenciar o cessar-fogo é sabotar a possibilidade de paz. Foi o que se passou no Alasca. E, a seguir, continuou em Washington, com os europeus a deixarem-se entreter com o resto – que, afinal, não havia.

A única coisa que importa saber é se europeus e americanos, do lado da Ucrânia, são capazes de empreender alguma acção vigorosa, no plano militar e/ou diplomático, que, no mínimo, force a Rússia a aderir em breve ao cessar-fogo. Não sendo assim, a guerra vai continuar – e tudo tenderia a ficar cada vez pior. É no terreno que a realidade tem de mudar.

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COMENTÁRIOS:

José B Dias: Que gigantesca falta de imaginação ... ou será antes imaginação a mais?

Liberales Semper Erexitque: Não há qualquer semelhança entre o mero encontro inconclusivo de Trump com Putin no Alasca e o apaziguamento de Munique de 1938. Ah, o regime ucraniano não faz o papel de "Churchill" nesta história mal contada, faz o papel daquilo que é, fascista. A condição necessária, estritamente necessária, para que as armas se calem na Ucrânia é a queda do regime fascista ucraniano, que nunca abdicará da sua guerra sem ser forçado a isso. Ela acontecerá. Acredito na invasão da Ucrânia por ciclistas!

 

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