A um
texto de opinião, sendo que um paralelo serve para mais facilmente - neste
caso, pelo menos – se vivenciarem factos próximos para maior compreensão do que
vamos vivendo, pela analogia com o que já se viveu, ou se colheu na História
Antiga. Como vamos – por enquanto - vivendo a oeste do que sofrem os que estão
a nosso leste, sujeitos a cobardias de ambiciosos, que mais não fazem do que,
sentados na sua cadeira de repouso, arquitectar planos do seu maquiavelismo falsamente
patriótico, para os seus capangas executarem, e a quem se distribuirão, pelo
meio, medalhas de louvor estimulante – vivendo nós, pois, indiferentes a tudo
isso que é condenável, desde os primórdios, nem sei se já traçados no primitivo
código de Hamurabi, (cuido que não, que os Mandamentos da Lei de Deus é que
aclararam esses valores humanos do nosso descuido habitual), preferimos atacar
quem tente elucidar os factos através do paralelo histórico. Mas não havia necessidade.
Trata-se de uma revisão passadista, para reavivar a memória. Só podemos ficar
gratos a quem nos elucidou, segundo o seu saber e código de honra, tabu para
muitos, é certo.
Donald Chamberlain e Adolf Putin – a Cimeira
A Alemanha de Hitler é a
Rússia de Putin (tal qual); Chamberlain parece o modelo de Trump (tal qual, em
modo histriónico); e a Ucrânia é empurrada para ficar como a antiga
Checoslováquia (tal qual).
JOSÉ RIBEIRO E CASTRO Advogado e cidadão
OBSERVADOR, 01 set. 2025, 00:162
Passadas duas semanas sobre a cimeira
do Alasca, há três factos absolutamente claros. O primeiro refere-se ao
respectivo guião: é o
mesmo de 1938. Quase a papel químico.
Neste ano, na Europa central, aumentava a pressão expansionista da
Alemanha nazi, procurando alargar a área de influência e o território. Em Março
de 1938, absorve a Áustria, pelo Anschluss,
apoiado numa população germanófona e nos partidários das ideias de Hitler. Um
referendo aprovou a anexação.
A
pressão focou-se, então, nos Sudetas,
na Checoslováquia ocidental,
onde viviam numerosos alemães há várias gerações. Estas
populações de origem alemã, exprimiam aspirações de separação e
reunião com a Alemanha, através de movimentos nacionalistas e um partido nazi. França e Reino Unido, campeões da
“política de apaziguamento”, inquietos com a tensão e receosos de uma guerra,
encorajavam Praga a aceitar as reivindicações iniciais. O Anschluss
austríaco fortaleceu as exigências dos alemães da Checoslováquia.
Com a tensão no máximo, o
primeiro-ministro britânico, Neville Chamberlain, foi à Alemanha reunir com Hitler, para discutir a crise checoslovaca e
selar a paz, junto com Mussolini e o primeiro-ministro francês, Daladier.
Em 29 de Setembro de 1938, assinaram o
Acordo de Munique. Segundo Chamberlain, ao regressar a Londres, fora
firmada a “paz para a nossa época”. O
preço foi a cedência à Alemanha do território checoslovaco em questão. A
Checoslováquia não participara das conversações de Munique.
Uma das raras vozes contra o Acordo de Munique – e defendendo a
Checoslováquia – foi a de Winston Churchill que, poucos dias depois, no
debate na Câmara dos Comuns, profetizou, apontando a Chamberlain: “Tinham-lhe dado a escolher entre a guerra
e a desonra. Escolheu a desonra; e terá a guerra.”
Os alemães anexaram logo os Sudetas,
de maioria alemã. Em Março de 1939, após a separação da República da
Eslováquia (com um regime fantoche nazi), a Alemanha ocupou a parte checa que sobrara, como Protectorado da
Boémia e Morávia. Em Setembro de 1939, Hitler ataca a Polónia, dando
início à 2.ª Guerra Mundial. Em
Maio de 1940, invade a França, que acabaria ocupada – na parte Sul (Vichy), com
um regime colaboracionista. A
retirada de Dunquerque consegue evacuar, sob intensos bombardeamentos, entre 26
de Maio e 4 de Junho de 1940, 340.000 soldados da costa francesa (Dunquerque) para a cidade inglesa de Dover. Estava
ao rubro a 2.ª Grande Guerra, até hoje a mais violenta e trágica guerra da
História da Humanidade.
A paz de Munique não chegou a durar
um ano. As
anexações alemãs prosseguiram, as grandes invasões começaram para oriente e
para ocidente e, em menos de dois anos, França e Reino Unido, que, pela
“política de apaziguamento”, tinham fugido da guerra, entregando outros, eram
golpeados com violência: a França, vencida e submetida; o
Reino Unido, lutando bravamente pela sobrevivência.
Viajando rapidamente de 1938 para os
nossos dias, impressionam as semelhanças: a
Alemanha de Hitler é a Rússia de Putin (tal qual); o Anschluss da Áustria é a anexação da Crimeia (tal qual);
a pressão sobre os Sudetas germanófonos
é a mesma que sobre o Donbass russófono (tal qual); Chamberlain
parece o modelo de Trump (tal qual, em modo histriónico); e a Ucrânia
é empurrada para ficar como a antiga Checoslováquia (tal qual).
Depois de tudo se entornar, Neville
Chamberlain ficou
muito desacreditado.
Ainda assim, assinou o acordo, quando
ainda não havia combates e teria a ideia de os evitar. Mas imaginemos que a reunião de Munique
se fizera com combates duros na Checoslováquia há anos e Chamberlain
proclamasse igualmente que o acordo era a “paz para a nossa época”. Não ficaria
só desacreditado; toda a gente o consideraria um idiota chapado.
Passemos ao segundo facto
absolutamente claro do Alasca: é já evidente que a cimeira foi um fracasso
completo. Aparentemente
sem apelo, nem agravo. O objectivo
principal declarado por Donald
Trump era obter
um cessar-fogo. “Stop the killing!”
era a repetida palavra de ordem, que, entretanto, parece silenciada. A desculpa é que iria buscar-se um mais
ambicioso “acordo de paz”, incluindo o desenho de um sistema de “garantias de
segurança” para a Ucrânia. E haveria
um encontro a dois entre Putin
e Zelensky, ou a
três com Trump, o que entraria já em preparação.
As duas semanas passadas chegam para
mostrar que tudo foi uma floresta de enganos, ou de mal-entendidos, se não
mesmo de genuínos embustes. A alegada
conversa e suas várias desconversas públicas, no tema crucial das “garantias de
segurança”, é bem ilustrativa da falta de vontade da Federação Russa. Aliás, se a Rússia quisesse,
bastar-lhe-ia aplicar as “garantias de segurança” (sic) a que se comprometeu no
Memorando de Budapeste de 1994 e tudo ficaria resolvido.
Desrespeitar estas garantias, invadir
e agredir a Ucrânia e, depois, dizer que se propõe prestar novas garantias de
segurança, enquanto continua a violar aquelas, é comédia cínica de evidente mau
gosto. O mesmo quanto ao encontro Putin/Zelensky, que o líder
do Kremlin não mostra a menor vontade de realizar. A razão é óbvia: não quer a paz com a Ucrânia.
Enfim, o terceiro facto absolutamente
claro do Alasca é o mais saliente: em guerra
estávamos, em guerra continuamos. A
cimeira foi, na perspectiva da paz, uma inutilidade dispendiosa, pura
representação de ilusões. O
festivo encontro Trump/Putin, “maravilha fatal da nossa idade”, não teve o
menor efeito no terreno: prossegue, praticamente todas as
noites, o bombardeio de cidades ucranianas, a começar pela capital, Kyiv, com
muitas vítimas civis, atingidas e mortas em zonas residenciais. A guerra de atrição continua, como se
nada tivesse acontecido, mostrando, na verdade, que nada aconteceu. A Rússia
mantém os mesmos métodos para os mesmos objectivos: vergar a Ucrânia e, podendo, conquistá-la. Como é
pelos frutos que se conhecem as árvores, Anchorage
foi um posto de reabastecimento moral e político para a estratégia russa.
O único resultado útil para que serviria, no imediato, seria o
cessar-fogo. Como se vê desde
2022, não é possível chegar a conversações de paz, sem, primeiro, calar as
armas. As desconfianças são muito profundas e as vítimas numerosas e demasiado
recentes para que as partes possam pensar em fazer as pazes e construir uma
plataforma comum, enquanto os combates continuam. Por isso, negar ou negligenciar o cessar-fogo é
sabotar a possibilidade de paz. Foi o que se passou no
Alasca. E, a seguir,
continuou em Washington, com os europeus a deixarem-se entreter com o resto –
que, afinal, não havia.
A única coisa que importa saber é se europeus e americanos, do lado
da Ucrânia, são capazes de empreender alguma acção vigorosa, no plano militar
e/ou diplomático, que, no mínimo, force a Rússia a aderir em breve ao
cessar-fogo. Não sendo assim, a guerra vai continuar – e tudo tenderia a ficar
cada vez pior. É no terreno
que a realidade tem de mudar.
GUERRA NA UCRÂNIA UCRÂNIA EUROPA
MUNDO
VLADIMIR PUTIN RÚSSIA
DONALD TRUMP ESTADOS
UNIDOS DA AMÉRICA AMÉRICA
VOLODYMYR ZELENSKY
COMENTÁRIOS:
José B Dias: Que
gigantesca falta de imaginação ... ou será antes imaginação a mais?
Liberales Semper Erexitque: Não há qualquer semelhança entre o mero encontro
inconclusivo de Trump com Putin no Alasca e o apaziguamento de Munique de 1938. Ah, o regime ucraniano não faz o papel de
"Churchill" nesta história mal contada, faz o papel daquilo que é,
fascista. A condição necessária, estritamente necessária, para que as
armas se calem na Ucrânia é a queda do regime fascista ucraniano, que nunca
abdicará da sua guerra sem ser forçado a isso. Ela acontecerá. Acredito na
invasão da Ucrânia por ciclistas!
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