As orcas podem
viver em sossego.
▲Orcas ibéricas
são "transeuntes". Andam pela costa portuguesa, contornam Espanha e
vão até ao norte de França
Mónica Pérez/EPA
Atraídas pelo leme, abanam
embarcações e já afundaram um veleiro. Porque há cada vez mais
"ataques" de orcas na costa portuguesa?
Casos de interacções de orcas com
veleiros repetem-se, pondo em risco pessoas. Autoridades pedem que se evite
locais de "ataques" prévios. Especialistas
falam de "brincadeiras" de espécimes juvenis.
16 set. 2025, 22:4227
Índice
Qual é o histórico de interacções de orcas com
embarcações na costa portuguesa?
Há um aumento do número de orcas a passar pela costa
portuguesa?
Orcas atacam ou estão a defender-se dos barcos que
abalroam?
Porque é que estes animais começaram a abalroar
barcos?
As orcas atacam directamente pessoas no mar?
O que fazer perante o avistamento ou contacto das
orcas com embarcações?
Negócio de observação de vida marinha ganha ou perde
com a presença de orcas junto à costa?
Em menos de três dias, foram
três os incidentes reportados a envolver orcas e embarcações na costa
portuguesa. Primeiro no sábado, com um grupo de orcas a abalroar não
um, mas dois veleiros. O primeiro, ao largo da
costa de Cascais, afundou-se, e o outro, junto à praia de Fonte da
Telha, apenas sofreu danos.
O
caso mais recente teve lugar esta segunda-feira com a GNR a ter de socorrer um
veleiro que ficou em dificuldades depois da interacção com os
mesmos animais ao largo da Costa de Caparica.
Com
os incidentes recentes não há registo de feridos, apenas de danos materiais
avultados, sobretudo no caso da embarcação que acabou no fundo do mar. Entretanto,
a notícia do incidente de sábado chegou ao Reino Unido, com o The Telegraph a mostrar em vídeo
o momento em que uma orca terá batido repetidamente no iate antes
deste começar a balançar e afundar-se.
Os encontros imediatos entre
estes mamíferos e barcos não são uma novidade, nem sequer os danos que podem provocar às embarcações. Em maio de 2024, um iate afundou ao largo do
Estreito de Gibraltar, com relatos idênticos de “abanões” no barco
antes de as pessoas serem resgatadas por outro navio e o barco acabar por se
afundar.
Mas é este um fenómeno em crescimento
na costa portuguesa? O que se deve fazer em caso de avistamento ou interação
com orcas? E os animais estão a atacar ou a defender-se dos barcos? Respondemos
a sete questões sobre o tema.
Qual é o histórico de interacções de
orcas com embarcações na costa portuguesa?
Em
águas portuguesas, e de forma reiterada, as interacções entre orcas — animal da família dos golfinhos de maior dimensão —
são registadas com frequência desde 2020, afirma ao Observador Joana
Castro, investigadora
na Universidade de Lisboa, que é directora da Associação para a Investigação do
Meio Marinho. “Há
relatos anteriores, em 2017”, ressalva, mas sem relevância pela ausência de
danos.
A especialista esclarece que os animais
fazem parte de uma “população
de orcas ibéricas que habitam nas nossas águas portuguesas, contornam a
Península Ibérica, vão até ao norte de França e andam também perto de
Marrocos”.
Ao OBSERVADOR, fonte oficial da Autoridade Marítima
Nacional (AMN) e da Marinha Portuguesa, informa que, em 2024,
foram “emitidos 45 avisos à navegação de avistamento e interacção com orcas”. Em 2025, e até esta terça-feira, já se
contavam 49 alertas deste tipo. Em relação a naufrágios provocados por estes
animais, a AMN diz que aquele que aconteceu em Cascais é caso único em 2025.
Em julho de 2022 tinha sido afundado
um veleiro ao largo de Sines e um barco de pesca conseguiu resgatar os cinco
tripulantes.
O portal orcas.pt, que realiza também
o registo de interacções entre orcas e veleiros, conta já mais de 70 interacções este ano.
Independentemente da origem dos dados, é seguro dizer que se registou um aumento
do número de incidentes com orcas em Portugal.
▲Mapa do site orcas.pt, com os "ataques" de orcas marcados a
vermelho e os avistamentos a azul
ORCAS.PT
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A subida do registo de
incidentes entre estes mamíferos e embarcações ao largo da costa portuguesa não
determina que exista, necessariamente, mais indivíduos da espécie a passar por
Portugal, concordam os vários especialistas ouvidos pelo Observador. O
que terá mudado é o modo como interagem com as embarcações e o número de vezes
que são avistadas.
Élio
Vicente, biólogo
marinho e antigo director do centro de reabilitação de animais marinhos no
Zoomarine, explica ao Observador que as orcas
ibéricas são transeuntes, ou seja, não têm morada fixa. “Navegam nos oceanos à procura de alimentos, essencialmente de
peixe”. “Nestas alturas, em que há mais movimentação de espécies de que as
orcas se alimentam, elas vão navegando e andam atrás de cardumes”,
esclarece, sendo que estes mamíferos se alimentam preferencialmente
de atum.
“Na altura do verão, vemos mais animais porque há mais alimento
abundante perto da costa, mas também porque há mais humanos nas praias: nas
motas de água, nos jet skies e nos veleiros”, esclarece ainda, notando que os sons
e vibrações emitidos por este meios de deslocação e entretenimento acabam por
atrair os animais, o que faz com que as avistemos mais.
▲ Orcas
vivem em regime matriarcal, normalmente em grupos de mães e crias GETTY
IMAGES/ISTOCKPHOTO
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Negócio de observação de vida marinha ganha ou perde
com a presença de orcas junto à costa?
A
investigadora Joana Castro nota também
que as orcas são animais
“cosmopolitas”, que “habitam em qualquer lugar e meio marinho”. “Aqui em
Portugal não têm uma tendência a aproximar-se tanto da costa”, refere.
O número de espécimes a passar pela costa nacional é muito variável,
sendo que não permanecem muito tempo no mesmo sítio. “Há dois animais que foram chipados em Espanha, conseguindo
perceber-se onde vão estando, mas os restantes são seguidos através de relatos”,
diz ainda a investigadora.
Orcas atacam ou estão a defender-se dos
barcos que abalroam?
Nem uma coisa nem outra. O biólogo Élio Vicente diz “discordar veementemente” da expressão
“ataque”, em relação às interacções de orcas com veleiros.”O ataque pressupõe uma consciência negativa
e uma motivação e não é o caso. No ambiente selvagem os animais são predadores
ou estão a tentar defender-se, mas neste caso não é uma coisa nem outra”,
explica.
O entendimento do especialista, e que se
alinha com os restantes especialistas ouvidos pelo Observador, é de que as orcas
acabam a abalroar os barcos enquanto “brincam umas com as outras”.
“Acabam a brincar com o leme, que é a única parte da embarcação que é
movível e que faz barulhos, duas características que lhes chamam a atenção
porque são essencialmente acústicas”, nota.
A investigadora da Universidade
de Lisboa, JOANA CASTRO, confirma que estas
interacções estão a ocorrer mais em barcos com leme, embora já se tenham
registado no passado, com menos frequência, em barcos de pesca ou a motor.
▲Orcas
não atacam diretamente humanos em ambiente selvagem: AFP/Getty Images
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Os veleiros são também um alvo mais fácil por
serem embarcações que se deslocam a velocidade mais baixa e que as orcas podem
acompanhar. Ainda assim, de acordo com Élio Vicente, só uma minoria de animais
desenvolve interesse por estes veleiros.
“A grande maioria das orcas passa e
ignora por completo as embarcações e os sons que elas fazem. Mesmo por questões
da sua própria segurança, preferem afastar-se”, diz o biólogo.
Porque é que estes animais começaram
a abalroar barcos?
A investigadora Joana Castro diz que, à luz da produção científica actual,
e de um ponto de vista comportamental, estas
interações com barcos estão relacionadas com a “socialização destes animais”.
“Estão a brincar e desenvolvem
interesse em perceber o que é o leme”, esclarece.
A questão é que são
animais com muitas toneladas, pelo que a brincadeira acaba por causar estragos
graves no leme e pode fazer com que os barcos afundem. “Acreditamos que estas interacções têm que
ver com curiosidade e brincadeira e não por defesa ou ataque”,
reafirma. E explica que começaram por ser espécies juvenis a fazê-lo, sendo que
os adultos já espelham o mesmo comportamento em alguns casos.
Élio Vicente diz que as orcas
são muito inteligentes e que “aprendem
a ver os outros animais a fazer coisas, nomeadamente a identificar e capturar
alimento”. O mesmo acontece quando percebem que outro animal se está a “divertir com o
leme”, vão brincando e por terem muita força acabam a destruir esse elemento do
barco.
Na costa portuguesa, estes animais
movimentam-se em grupos pequenos, de entre cinco a sete animais. “É raro ver grupos maiores”, diz o
biólogo, que aponta que as orcas “vivem em regime de matriarcado, tal como
quase todos os golfinhos”.
“A unidade base é a mãe e a
cria, que é desmamada e, de acordo com o seu sexo, ou se mantém com a mãe ou
afasta-se, no caso de ser macho”, explica ainda, notando que as fêmeas tendem a manter-se juntas.
Podem viver em grupos de dois, mãe e cria, de três, mãe, pai e cria, e às vezes
em “grupos de várias fêmeas com as suas várias crias até serem desmamadas”.
As orcas atacam directamente pessoas no mar?
Tendo
em conta os comportamentos de interacção com o leme descritos, as orcas podem
tornar-se um perigo para a segurança das embarcações e de quem nelas circula —
que podem morrer afogadas —, mas não são um perigo directo para as pessoas
quando estas se encontram no mar por terem caído, ou estarem a nadar, por
exemplo.
Tanto que não mordem. Os danos que
causam devem-se à força que empregam através do focinho. O biólogo Élio Vicente afirma
que as orcas não olham para o ser humano como inimigo. “Podem ter curiosidade de ver o que nós somos e o que
estamos a fazer, mas não têm interacção connosco ou intenção para fazer algo
que seja negativo para nós”.
Joana
Castro diz mesmo que “não há registos de ataques de orcas a pessoas em meio selvagem e
natural”. “Há, sim, de ataques a pessoas quando [as orcas] estão em cativeiro”.
E acrescenta: “Havendo mortes no contexto selvagem, não tem a ver directamente com
um ataque directo da orca. É pouco provável que elas façam alguma coisa com a
pessoa se ela cair dentro de água. Têm até tendência para afastar-se perante a
presença de humanos dentro de água.”
O que fazer perante o avistamento ou
contacto das orcas com embarcações?
“O
mais importante é alertar o centro coordenador de busca e salvamento local
sempre que houver uma interacção ou um avistamento de uma orca”, informa ao
Observador fonte oficial da Autoridade Marítima Nacional e da Marinha
Portuguesa.
A segunda recomendação das
autoridades é a de alertar para a necessidade de as pessoas, antes de irem para
o mar com as suas embarcações recreativas, verificarem os avisos à navegação que
estão em vigor para a sua área, que podem ser consultados no site anav.net e
que em circunstâncias normais são transmitidos via comunicação rádio às
embarcações identificadas a navegar.
ÍNDICE
“A embarcação que ontem esteve
em dificuldades [na Costa da Caparica] estava mais ou menos na zona da interacção
que houve no sábado”, relata a mesma fonte oficial da Autoridade Marítima
Nacional e da Marinha Portuguesa, que diz que é
determinante que se evitem “áreas em que houve interacções recentes com orcas”.
O biólogo Élio Vicente recorda que a lei
portuguesa define que “não nos podemos aproximar a menos de 50 metros de golfinhos
ou de cetáceos em geral”.
“Se
o animal se aproximar de nós devemos manter uma atitude passiva, manter os
motores das embarcações em ponto morto e esperar que os animais se afastem“,
aconselha. E deixa uma nota final: “É
usar o bom senso e não esquecer que nós é que estamos a invadir o habitat
destes animais e não o contrário.”
Negócio de observação de vida marinha
ganha ou perde com a presença de orcas junto à costa?
Os
passeios para observação de golfinhos na costa lisboeta são para isso mesmo: avistar
golfinhos. As orcas são um bónus que normalmente podem ser vistas “entre uma
a duas vezes ao ano”, diz ao Observador Sidónio Paes, biólogo marinho e CEO da SeaEO Tours.
“A nossa actividade não é
dirigida ao avistamento de orcas”, garante, dizendo que sempre que há presença
de orcas é preciso ter atenção ao seu comportamento, “porque elas podem ser
mais agressivas do que se espera”.
“Nós só temos barcos a motor e
elas não mostram interesse nestes barcos. O que as atrai é as brincadeiras que
podem fazer com os lemes dos barcos“, assegura o CEO da empresa
turística, que diz que já teve pessoas a procurá-lo porque se interessam por
estes animais. “Nós dizemos sempre que a probabilidade de
encontrar orcas é muito remota. É menos de 1% dos nossos avistamentos”, garante.
Diz
que os recente incidentes não lhe afectaram o negócio de passeios para ver vida
marinha, mas que sabe que quem aluga veleiros já está a ser afectado pela
presença das orcas, “com clientes a desistir para evitar zonas em que houve
ataques”.
No
domingo, Sidónio Paes seguia num barco quando recebeu a comunicação de uma
embarcação a dar conta de que estavam orcas perto. “Fomos lá ter e entretanto
as orcas já tinham ido embora e o barco à vela seguiu viagem”, lembrou, dando
nota de um caso que acabou bem, ao contrário do naufrágio registado em Cascais,
no fim de semana passado.
O biólogo entende que há dois riscos
que podem estar na iminência de se concretizar em Portugal. “O de magoar um animal e o de se magoar uma
pessoa“. Diz que há relatos, em Espanha, de ocupantes de um veleiro que deram
tiros para a água e diz que não é uma
realidade assim tão distante em Portugal.
“A
maior parte dos velejadores que fazem viagens mais longas começam a
preparar-se, mesmo sendo proibido levar equipamentos agressivos, como
espingardas ou petardos”, relata, sendo que os animais já se encontram em risco
de extinção.
Ao Observador, fonte oficial da
Autoridade Marítima Nacional diz que não tem, pelo menos para já, registo da
presença ou da apreensão de armas relacionadas com uma potencial defesa destes
animais.
NATUREZA AMBIENTE CIÊNCIA LISBOA PAÍS SOCIEDADE MAR MARINHA DEFESA
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