quinta-feira, 18 de setembro de 2025

Por enquanto


As orcas podem viver em sossego.

Orcas ibéricas são "transeuntes". Andam pela costa portuguesa, contornam Espanha e vão até ao norte de França

Mónica Pérez/EPA

Atraídas pelo leme, abanam embarcações e já afundaram um veleiro. Porque há cada vez mais "ataques" de orcas na costa portuguesa?

MARINA FERREIRA: Texto

Casos de interacções de orcas com veleiros repetem-se, pondo em risco pessoas. Autoridades pedem que se evite locais de "ataques" prévios. Especialistas falam de "brincadeiras" de espécimes juvenis.

16 set. 2025, 22:4227

Índice

Qual é o histórico de interacções de orcas com embarcações na costa portuguesa?

Há um aumento do número de orcas a passar pela costa portuguesa?

Orcas atacam ou estão a defender-se dos barcos que abalroam?

Porque é que estes animais começaram a abalroar barcos?

As orcas atacam directamente pessoas no mar?

O que fazer perante o avistamento ou contacto das orcas com embarcações?

Negócio de observação de vida marinha ganha ou perde com a presença de orcas junto à costa?

Em menos de três dias, foram três os incidentes reportados a envolver orcas e embarcações na costa portuguesa. Primeiro no sábado, com um grupo de orcas a abalroar não um, mas dois veleiros. O primeiro, ao largo da costa de Cascais, afundou-se, e o outro, junto à praia de Fonte da Telha, apenas sofreu danos.

O caso mais recente teve lugar esta segunda-feira com a GNR a ter de socorrer um veleiro que ficou em dificuldades depois da interacção com os mesmos animais ao largo da Costa de Caparica.

Com os incidentes recentes não há registo de feridos, apenas de danos materiais avultados, sobretudo no caso da embarcação que acabou no fundo do mar. Entretanto, a notícia do incidente de sábado chegou ao Reino Unido, com o The Telegraph a mostrar em vídeo o momento em que uma orca terá batido repetidamente no iate antes deste começar a balançar e afundar-se.

Os encontros imediatos entre estes mamíferos e barcos não são uma novidade, nem sequer os danos que podem provocar às embarcações. Em maio de 2024, um iate afundou ao largo do Estreito de Gibraltar, com relatos idênticos de “abanões” no barco antes de as pessoas serem resgatadas por outro navio e o barco acabar por se afundar.

Mas é este um fenómeno em crescimento na costa portuguesa? O que se deve fazer em caso de avistamento ou interação com orcas? E os animais estão a atacar ou a defender-se dos barcos? Respondemos a sete questões sobre o tema.

Qual é o histórico de interacções de orcas com embarcações na costa portuguesa?

Em águas portuguesas, e de forma reiterada, as interacções entre orcas — animal da família dos golfinhos de maior dimensão — são registadas com frequência desde 2020, afirma ao Observador Joana Castro, investigadora na Universidade de Lisboa, que é directora da Associação para a Investigação do Meio Marinho. “Há relatos anteriores, em 2017”, ressalva, mas sem relevância pela ausência de danos.

A especialista esclarece que os animais fazem parte de uma “população de orcas ibéricas que habitam nas nossas águas portuguesas, contornam a Península Ibérica, vão até ao norte de França e andam também perto de Marrocos”.

Ao OBSERVADOR, fonte oficial da Autoridade Marítima Nacional (AMN) e da Marinha Portuguesa, informa que, em 2024, foram “emitidos 45 avisos à navegação de avistamento e interacção com orcas”. Em 2025, e até esta terça-feira, já se contavam 49 alertas deste tipo. Em relação a naufrágios provocados por estes animais, a AMN diz que aquele que aconteceu em Cascais é caso único em 2025.

Em julho de 2022 tinha sido afundado um veleiro ao largo de Sines e um barco de pesca conseguiu resgatar os cinco tripulantes.

O portal orcas.pt, que realiza também o registo de interacções entre orcas e veleiros, conta já mais de 70 interacções este ano. Independentemente da origem dos dados, é seguro dizer que se registou um aumento do número de incidentes com orcas em Portugal.

Mapa do site orcas.pt, com os "ataques" de orcas marcados a vermelho e os avistamentos a azul

ORCAS.PT

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A subida do registo de incidentes entre estes mamíferos e embarcações ao largo da costa portuguesa não determina que exista, necessariamente, mais indivíduos da espécie a passar por Portugal, concordam os vários especialistas ouvidos pelo Observador. O que terá mudado é o modo como interagem com as embarcações e o número de vezes que são avistadas.

Élio Vicente, biólogo marinho e antigo director do centro de reabilitação de animais marinhos no Zoomarine, explica ao Observador que as orcas ibéricas são transeuntes, ou seja, não têm morada fixa. “Navegam nos oceanos à procura de alimentos, essencialmente de peixe”. “Nestas alturas, em que há mais movimentação de espécies de que as orcas se alimentam, elas vão navegando e andam atrás de cardumes”, esclarece, sendo que estes mamíferos se alimentam preferencialmente de atum.

Na altura do verão, vemos mais animais porque há mais alimento abundante perto da costa, mas também porque há mais humanos nas praias: nas motas de água, nos jet skies e nos veleiros”, esclarece ainda, notando que os sons e vibrações emitidos por este meios de deslocação e entretenimento acabam por atrair os animais, o que faz com que as avistemos mais.

Orcas vivem em regime matriarcal, normalmente em grupos de mães e crias GETTY IMAGES/ISTOCKPHOTO

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Negócio de observação de vida marinha ganha ou perde com a presença de orcas junto à costa?

A investigadora Joana Castro nota também que as orcas são animais “cosmopolitas”, que “habitam em qualquer lugar e meio marinho”. “Aqui em Portugal não têm uma tendência a aproximar-se tanto da costa”, refere.

O número de espécimes a passar pela costa nacional é muito variável, sendo que não permanecem muito tempo no mesmo sítio. “Há dois animais que foram chipados em Espanha, conseguindo perceber-se onde vão estando, mas os restantes são seguidos através de relatos”, diz ainda a investigadora.

Orcas atacam ou estão a defender-se dos barcos que abalroam?

Nem uma coisa nem outra. O biólogo Élio Vicente diz “discordar veementemente” da expressão “ataque”, em relação às interacções de orcas com veleiros.O ataque pressupõe uma consciência negativa e uma motivação e não é o caso. No ambiente selvagem os animais são predadores ou estão a tentar defender-se, mas neste caso não é uma coisa nem outra”, explica.

O entendimento do especialista, e que se alinha com os restantes especialistas ouvidos pelo Observador, é de que as orcas acabam a abalroar os barcos enquanto “brincam umas com as outras”.

Acabam a brincar com o leme, que é a única parte da embarcação que é movível e que faz barulhos, duas características que lhes chamam a atenção porque são essencialmente acústicas”, nota.

A investigadora da Universidade de Lisboa, JOANA CASTRO, confirma que estas interacções estão a ocorrer mais em barcos com leme, embora já se tenham registado no passado, com menos frequência, em barcos de pesca ou a motor.

Orcas não atacam diretamente humanos em ambiente selvagem: AFP/Getty Images

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Os veleiros são também um alvo mais fácil por serem embarcações que se deslocam a velocidade mais baixa e que as orcas podem acompanhar. Ainda assim, de acordo com Élio Vicente, só uma minoria de animais desenvolve interesse por estes veleiros.

 “A grande maioria das orcas passa e ignora por completo as embarcações e os sons que elas fazem. Mesmo por questões da sua própria segurança, preferem afastar-se”, diz o biólogo.

Porque é que estes animais começaram a abalroar barcos?

A investigadora Joana Castro diz que, à luz da produção científica actual, e de um ponto de vista comportamental, estas interações com barcos estão relacionadas com a “socialização destes animais”.Estão a brincar e desenvolvem interesse em perceber o que é o leme”, esclarece.

A questão é que são animais com muitas toneladas, pelo que a brincadeira acaba por causar estragos graves no leme e pode fazer com que os barcos afundem. “Acreditamos que estas interacções têm que ver com curiosidade e brincadeira e não por defesa ou ataque”, reafirma. E explica que começaram por ser espécies juvenis a fazê-lo, sendo que os adultos já espelham o mesmo comportamento em alguns casos.

Élio Vicente diz que as orcas são muito inteligentes e que “aprendem a ver os outros animais a fazer coisas, nomeadamente a identificar e capturar alimento”. O mesmo acontece quando percebem que outro animal se está a “divertir com o leme”, vão brincando e por terem muita força acabam a destruir esse elemento do barco.

Na costa portuguesa, estes animais movimentam-se em grupos pequenos, de entre cinco a sete animais. “É raro ver grupos maiores”, diz o biólogo, que aponta que as orcas “vivem em regime de matriarcado, tal como quase todos os golfinhos”.

“A unidade base é a mãe e a cria, que é desmamada e, de acordo com o seu sexo, ou se mantém com a mãe ou afasta-se, no caso de ser macho”, explica ainda, notando que as fêmeas tendem a manter-se juntas. Podem viver em grupos de dois, mãe e cria, de três, mãe, pai e cria, e às vezes em “grupos de várias fêmeas com as suas várias crias até serem desmamadas”.

As orcas atacam directamente pessoas no mar?

Tendo em conta os comportamentos de interacção com o leme descritos, as orcas podem tornar-se um perigo para a segurança das embarcações e de quem nelas circula — que podem morrer afogadas —, mas não são um perigo directo para as pessoas quando estas se encontram no mar por terem caído, ou estarem a nadar, por exemplo.

Tanto que não mordem. Os danos que causam devem-se à força que empregam através do focinho. O biólogo Élio Vicente afirma que as orcas não olham para o ser humano como inimigo.Podem ter curiosidade de ver o que nós somos e o que estamos a fazer, mas não têm interacção connosco ou intenção para fazer algo que seja negativo para nós”.

Joana Castro diz mesmo que “não há registos de ataques de orcas a pessoas em meio selvagem e natural”. “Há, sim, de ataques a pessoas quando [as orcas] estão em cativeiro”.

E acrescenta: “Havendo mortes no contexto selvagem, não tem a ver directamente com um ataque directo da orca. É pouco provável que elas façam alguma coisa com a pessoa se ela cair dentro de água. Têm até tendência para afastar-se perante a presença de humanos dentro de água.”

O que fazer perante o avistamento ou contacto das orcas com embarcações?

“O mais importante é alertar o centro coordenador de busca e salvamento local sempre que houver uma interacção ou um avistamento de uma orca”, informa ao Observador fonte oficial da Autoridade Marítima Nacional e da Marinha Portuguesa.

A segunda recomendação das autoridades é a de alertar para a necessidade de as pessoas, antes de irem para o mar com as suas embarcações recreativas, verificarem os avisos à navegação que estão em vigor para a sua área, que podem ser consultados no site anav.net e que em circunstâncias normais são transmitidos via comunicação rádio às embarcações identificadas a navegar.

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“A embarcação que ontem esteve em dificuldades [na Costa da Caparica] estava mais ou menos na zona da interacção que houve no sábado”, relata a mesma fonte oficial da Autoridade Marítima Nacional e da Marinha Portuguesa, que diz que é determinante que se evitem “áreas em que houve interacções recentes com orcas”.

O biólogo Élio Vicente recorda que a lei portuguesa define que “não nos podemos aproximar a menos de 50 metros de golfinhos ou de cetáceos em geral”.

Se o animal se aproximar de nós devemos manter uma atitude passiva, manter os motores das embarcações em ponto morto e esperar que os animais se afastem“, aconselha. E deixa uma nota final: “É usar o bom senso e não esquecer que nós é que estamos a invadir o habitat destes animais e não o contrário.”

Negócio de observação de vida marinha ganha ou perde com a presença de orcas junto à costa?

Os passeios para observação de golfinhos na costa lisboeta são para isso mesmo: avistar golfinhos. As orcas são um bónus que normalmente podem ser vistasentre uma a duas vezes ao ano”, diz ao Observador Sidónio Paes, biólogo marinho e CEO da SeaEO Tours.

“A nossa actividade não é dirigida ao avistamento de orcas”, garante, dizendo que sempre que há presença de orcas é preciso ter atenção ao seu comportamento, “porque elas podem ser mais agressivas do que se espera”.

“Nós só temos barcos a motor e elas não mostram interesse nestes barcos. O que as atrai é as brincadeiras que podem fazer com os lemes dos barcos“, assegura o CEO da empresa turística, que diz que já teve pessoas a procurá-lo porque se interessam por estes animais. “Nós dizemos sempre que a probabilidade de encontrar orcas é muito remota. É menos de 1% dos nossos avistamentos”, garante.

Diz que os recente incidentes não lhe afectaram o negócio de passeios para ver vida marinha, mas que sabe que quem aluga veleiros já está a ser afectado pela presença das orcas, “com clientes a desistir para evitar zonas em que houve ataques”.

No domingo, Sidónio Paes seguia num barco quando recebeu a comunicação de uma embarcação a dar conta de que estavam orcas perto. “Fomos lá ter e entretanto as orcas já tinham ido embora e o barco à vela seguiu viagem”, lembrou, dando nota de um caso que acabou bem, ao contrário do naufrágio registado em Cascais, no fim de semana passado.

O biólogo entende que há dois riscos que podem estar na iminência de se concretizar em Portugal. “O de magoar um animal e o de se magoar uma pessoa“. Diz que há relatos, em Espanha, de ocupantes de um veleiro que deram tiros para a água e diz que não é uma realidade assim tão distante em Portugal.

“A maior parte dos velejadores que fazem viagens mais longas começam a preparar-se, mesmo sendo proibido levar equipamentos agressivos, como espingardas ou petardos”, relata, sendo que os animais já se encontram em risco de extinção.

Ao Observador, fonte oficial da Autoridade Marítima Nacional diz que não tem, pelo menos para já, registo da presença ou da apreensão de armas relacionadas com uma potencial defesa destes animais.

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