De glórias passadas, por gente de valor real, marginalizada, nesse mundo
bem nosso, pequenino, de mesquinha ingratidão a condizer, o reconhecimento póstumo,
quando poderá valorizar sem traumas, trazendo orgulho… “Acontece”.
Afonso de Albuquerque para o Panteão,
já!
Se houve injustiças na Índia de
Afonso de Albuquerque, não foi por sua culpa, porque “nunca consentiu que os
seus homens oprimissem” os naturais.
P. GONÇALO
PORTOCARRERO DE ALMADA Colunista
OBSERVADOR, 2025, 00:1616
Afonso
de Albuquerque (1453-1515) passou à História com o cognome de terrível,
que é também o título de uma sua recente
biografia, de que é
autor José Manuel Garcia. Porém, uma tal alcunha não deve levar
a esquecer que foi, sem exagero, uma
das figuras maiores da nossa História e que, pelos seus feitos, bem merecia
receber a honra de ser trasladado para o Panteão Nacional, que ficaria
dignificado por uma tão ilustre presença, decerto mais honrosa do que a de
outros que, sem méritos análogos, aí jazem indevidamente.
A sua vida, que não cabe no muito limitado espaço de uma crónica, foi narrada, com evidente admiração,
pela historiadora francesa
Elaine Sanceau (Editora
Civilização, Barcelos 1983). Que uma investigadora estrangeira dedique um seu
estudo a um vulto da nossa História é prova da sua importância, não apenas
nacional, mas mundial. Também por esta justíssima razão, Fernando Pessoa, na Mensagem, não esqueceu Afonso de Albuquerque,
precisamente porque a sua bravura moldou, de algum modo, a alma portuguesa.
Bom seria que também hoje os alunos das nossas escolas conhecessem a vida deste
e de outros heróis pátrios, porque os seus feitos e grandeza, mais do que
pretexto para estéreis vaidades nacionalistas ou ridículas supremacias étnicas,
deve ser estímulo para a virtude que fez grandes e exemplares aqueles nossos
egrégios avós, que tanto contribuíram para a glória de Portugal.
A história de Afonso de
Albuquerque começa com um drama que o precedeu e que predeterminou o seu nome
familiar. Com efeito, por linha de varonia, era bisneto de Gonçalo
Lourenço de Gomide, 1º Senhor de Vila Verde dos Francos, que foi casado com
Inês Leitão, sendo pais de João
Gonçalves de Gomide, 2º Senhor de Vila Verde dos Francos, Alcaide-mór de Óbidos
e Escrivão da Puridade de D. João I, ou seja, uma espécie de chefe de gabinete,
ou secretário, do primeiro monarca da dinastia de Aviz.
Este João Gonçalves de Gomide matou sua mulher, Leonor de
Albuquerque, sendo posteriormente degolado. Por este motivo, a sua
descendência, nomeadamente o pai de
Afonso, trocaram o Gomide da
sua ascendência paterna pelo apelido de
sua mãe, em homenagem à vítima de tão horrível crime e manifesto
repúdio, não apenas do ominoso assassino, mas também do seu nome e
família que, entretanto, se extinguiram. Se
um tal crime não tivesse acontecido, hoje, em vez de se celebrar Afonso de
Albuquerque, festejar-se-ia Afonso de Gomide …
A malograda avó paterna do famoso Governador da Índia, Leonor de Albuquerque, era filha de
Gonçalo Vaz de Melo, Senhor de Castanheira, e de Isabel de Albuquerque, a qual
descendia, por varonia de sua mãe, Teresa de Albuquerque, de um filho bastardo de el-Rei D. Dinis, que casou com D. Teresa Martins de Menezes, 5ª Senhora de
Albuquerque, que, por sua mãe, era
neta do Rei Sancho IV de Castela
e, por varonia, terceira neta de Afonso Teles, 1º Senhor de Albuquerque, e de
sua mulher Teresa Sanches, filha de el-Rei D. Sancho I. Acrescente-se
ainda que a infeliz Leonor de Albuquerque era irmã de Teresa de Albuquerque,
mãe de Catarina de Albuquerque, que casou com Nuno da Cunha, sendo pais de Tristão da Cunha, que conviveu com seu primo Afonso de
Albuquerque – suas avós eram irmãs – e descobriu, no hemisfério sul, as
ilhas que têm o seu nome.
Apesar de terrível, Afonso de Albuquerque foi, na insuspeita
opinião de Elaine Sanceau, um
excelente governante, pois, “entre os
indígenas de Goa, a opinião era unânime. Adoravam-no como raras vezes se
adora um conquistador. Governava-os
com justiça rigorosa, cuidava do seu bem-estar, socorria-lhes os pobres e nunca
consentiu que os seus homens os oprimissem.”Se é verdade que nos
descobrimentos portugueses houve, como é óbvio, excessos, também é certo que muitos vultos dessa epopeia se destacaram pela
sua humanidade, tendo pautado a sua actuação pelos princípios da moral cristã.
E, portanto, se houve injustiças na Índia
de Afonso de Albuquerque, não foi decerto por sua culpa, porque “nunca
consentiu que os seus homens oprimissem” os naturais, o que não quer dizer,
como é óbvio, que não tenha havido, mais por via de excepção do que por
regra, injustiças, mas sem o seu conhecimento, nem consentimento.
A este propósito, Elaine Sanceau narra um episódio, decerto comovedor,
da humanidade de Afonso de Albuquerque: “Conta-se que na ocasião em que naufragou a Frol de la Mar, uma
rapariguinha assustada, filha de uma cativa, se lhe agarrou à mão. Os
prisioneiros de guerra de qualquer idade ou sexo eram apenas parte da presa a
dividir entre os vencedores e a vender depois como escravos. Em desastres no
mar, deixavam-nos sempre ir ao fundo ou salvar-se a nado. Mas Albuquerque ergueu a pequena nos braços e
aí a conservou. De todos os
ricos despojos de Malaca, foi esta criança a única coisa que salvou do
naufrágio.”
Não se pense, contudo, que esta
sua enternecedora solicitude para com aquela criança, que logrou salvar de uma
morte certa, foi um caso único porque, como governante, sempre manifestou predilecção
pelos mais novos, sobretudo se desvalidos. É ainda a historiadora francesa quem dá conta de que Albuquerque, “em
Goa, reuniu todas as crianças órfãs de pai e enjeitadas que havia na cidade –
Gaspar Correia declara que eram muitas, na sua maioria órfãs de portugueses
falecidos – e instituiu um fundo para as sustentar. Alimentavam-nas e vestiam-nas, e as que
já tinham idade para isso aprendiam a ler e a escrever e a recitar o catecismo,
e mais tarde forneciam-lhes os meios de ganharem a vida. Todas as multas
impostas por diversos delitos revertiam para essa boa obra, bem como parte do
valor das presas tomadas no mar. Uma quota de dotação das capelas construídas
por Albuquerque após o regresso do mar Vermelho foi também reservada para esta
obra de caridade. Quaisquer saldos que houvesse das despesas da igreja tinham
de ser entregues ao fundo dos órfãos.”
Também no seu testamento, apesar
de não ter morrido rico, não esqueceu os mais novos: deixou legados a sua
afilhada Ximena Gomes, uma rapariga indígena, e a um tal Álvaro, filho de um
mouro de Goa, “morto per justiça”, que “eu cryey de meu moço pequeno”.
Afonso de Albuquerque não foi apenas
grande na glória, mas também na desventura. Não
obstante os seus inegáveis méritos e a sua inexcedível dedicação ao Rei e à
pátria, nem aquele, nem esta souberam reconhecer e retribuir os seus feitos.
Morre a bordo da nau que o leva, por última vez, a Goa, onde já desembarca
cadáver. Esgotadas as suas forças até ao extremo do heroísmo, soube então que
tinha sido destituído do seu cargo.
Nas últimas palavras do grande Afonso de Albuquerque, que bem podiam
ser o seu epitáfio, há alguma tristeza, devida à ingratidão do seu monarca
e de alguns dos seus subalternos, embora prevaleça a atitude cristã de quem
perdoa os seus inimigos e é consciente de que não foi em vão o sacrifício da
sua vida, por ter sempre servido, em primeiro lugar, a Deus: “mal ante elle [el-Rei] por amor dos homens,
e mal com os homens por amor d’elle [el-Rei], compreme acolher à igreja.”Como
resposta à injustiça humana, a Afonso de Albuquerque só lhe resta o justo juízo
de Deus, que é misericordioso, e compensa e supera as ingratidões humanas.
Afonso de Albuquerque jaz nas dependências da Igreja da Graça, numa
sepultura armoriada em que, curiosamente, em vez de constarem as armas dos
Albuquerques, cujo nome usou e tanto engrandeceu, foram esculpidas as armas dos
Gomides, da sua ascendência paterna, como que numa derradeira tentativa de
expiar e redimir a criminosa memória do avô homicida.
Portugal deve a Afonso de Albuquerque o reconhecimento de quanto fez
pelo nosso país e império. Embora ele já não careça desse tributo, é justo e
necessário que lhe seja dada a honra de jazer no Panteão Nacional.
HISTÓRIA CULTURA ÍNDIA ÁSIA MUNDO DESCOBRIMENTOS
COMENTÁRIOS (de 16):
Ricardo Pinheiro Alves: A minha dúvida é se o Panteão Nacional é um
lugar suficientemente digno para receber Afonso de Albuquerque. A começar pela
companhia em que ficaria.
Manuel Ribeiro: O panteão é um lugar muito mal frequentado.
Afonso de Albuquerque devia ser trasladado para os Jerónimos.
NOTAS DA INTERNET:
FERNANDO
PESSOA
A
Outra Asa do Grifo: AFONSO DE ALBUQUERQUE
A Outra Asa do Grifo
AFONSO DE ALBUQUERQUE
De pé,
sobre os países conquistados
Desce
os olhos cansados
De ver
o mundo e a injustiça e a sorte.
Não
pensa em vida ou morte,
Tão
poderoso que não quer o quanto
Pode,
que o querer tanto
Calcara
mais do que o submisso mundo
Sob o
seu passo fundo.
Três
impérios do chão lhe a Sorte apanha.
Criou-os
como quem desdenha.
26-9-1928
Mensagem.
Fernando Pessoa. Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1934 (Lisboa: Ática,
10ª ed. 1972).
Comentários:
O
poema centra-se no desempenho de Afonso de Albuquerque na Ásia, por
contrapartida com o seu descrédito na corte de Lisboa motivado por invejas.
"tão
poderoso que não quer o quanto pode, que o querer tanto calcara mais do que o
mundo sob o seu passo"- Albuquerque podia até ter-se proclamado
imperador, mas sempre foi súbdito fiel do Rei D.Manuel. Não queria o quanto
podia porque o seu sucesso lhe pesava mais sobre os ombros (por ter perdido o
favor real) do que a conquista pesara aos povos submetidos.
"três
impérios lhe a Sorte apanha"- refere-se às conquistas de Goa (na
Índia), Malaca (na Malásia) e Ormuz, no Golfo Pérsico.
"apanha-os
como quem desdenha"- submete-os como se isso fosse coisa de pouca monta.
DA INTERNET:
Figuras que jazem no Panteão
Manuel de
Arriaga (Presidente da República)
Teófilo Braga
(Presidente da República)
Sidónio Pais
(Presidente da República)
Óscar Carmona
(Presidente da República)
Almeida
Garrett (Escritor e dramaturgo)
Aquilino
Ribeiro (Escritor)
Guerra
Junqueiro (Poeta, jornalista e político)
João de Deus
(Escritor)
Amália
Rodrigues (Fadista)
Humberto
Delgado (General e político)
Sophia de
Mello Breyner Andresen (Poetisa)
Eusébio da
Silva Ferreira (Futebolista)
Eça de
Queiroz (Escritor, jornalista e diplomata)
Lista de personalidades homenageadas
Luís Vaz de
Camões (Poeta)
Pedro Álvares
Cabral (Navegador)
Infante D.
Henrique (Navegador)
Vasco da Gama
(Navegador)
Afonso de
Albuquerque (Político, vice-rei e governador da Índia Portuguesa)
D. Nuno
Álvares Pereira (Cavaleiro militar, o Santo Condestável)
Aristides de
Sousa Mendes (Diplomata)
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