terça-feira, 16 de setembro de 2025

A leitura apressada

 

Ou mesmo a falta dessa implicam os tais fanatismos ideológicos mais inspirados numa ideia de condenação social imediata, valorativa do indivíduo condenador, que geralmente se satisfaz com o saber de experiência vivida, que não requer grande aplicação a cansativas leituras e que se traduz no blá blá da moda de momento, captada na sua prática vistosa que a imediatez dos meios de comunicação favorece, sem grande esforço para os praticantes dessa.

Um excelente análise de Patrícia Fernandes sobre o fenómeno social originário nesses países do além-atlântico, favorecidos pela sua “juventude”, na descoberta mais recente e bem-estar material captadores da atenção mundana.

O fanatismo woke

Deram-lhes telemóveis em vez de educação, sonhos cosmopolitas em vez da noção de sacrifício pelo grupo e sinalizações de virtude em vez de envolvimento comunitário. Temos falhado aos mais novos.

PATRÍCIA FERNANDES Professora na Escola de Economia e Gestão da Universidade do Minho

OBSERVADOR,15 set. 2025, 00:2030

1A nova peste

Fanatismo woke: é assim que MANUEL MARIA CARRILHO qualifica o pensamento woke no seu último livro, intitulado A NOVA PESTE: Da ideologia de género ao fanatismo woke. Dividido em oito capítulos, o livro debruça-se sobre os principais aspectos daquilo a que se tem designado como wokismo, e fá-lo com a seguinte vantagem: sem descurar as principais referências em língua inglesa, a maioria da bibliografia usada é de origem francófona. Trata-se de uma abordagem que permite colmatar uma lacuna no tratamento do tema entre nós (e de que sou também responsável), permitindo ler o fenómeno a partir da tradição continental.

É verdade que o wokismo é um fenómeno fundamentalmente norte-americano e a sua presença, em maior ou menor medida, em todos os países ocidentais é resultado de um processo de americanização. Esse processo, que começou após a II Guerra Mundial, mas que, entre nós, se tornou particularmente evidente a partir da década de 1990, tem transformado gradualmente o espaço filosófico. Hoje, os principais nomes da filosofia política vêm do mundo anglófono e o inglês é a língua com que as novas gerações se sentem mais confortáveis, o que condiciona o que é lido entre nós (como sabemos, as traduções não são abundantes).

MANUEL MARIA CARRILHO dá, nesse sentido, um contributo importante, iluminando o problema a partir de fontes habitualmente não usadas por cá e que comprovam o impacto que estas ideias têm tido também em França. É, aliás, a essa tradição filosófica que o autor recorre para qualificar o wokismo como fanatismo, recorrendo à entrada de Alexandre Deleyre, na Encyclopédie, quando define fanatismo como resultado da ignorância, como “a superstição em acção”.

Segundo Carrilho, a expressão “fanatismo” permitiria, assim, invocar uma espécie de doença do pensamento que se aproxima da irracionalidade e que conduziria a um estado de impensarum estado que reflecte bem o espírito woke se considerarmos a sua recusa de argumentação racional e de diálogo filosófico e político.

2A viragem identitária

Tenho defendido que este estado de impensar decorre, fundamentalmente, do facto de o pensamento identitário empreender aquilo que poderíamos designar como viragem identitária: a ideia de que a nossa perspectiva do mundo depende da nossa identidade ao ponto de não ser possível um olhar universal e objectivo sobre a realidade pelo que todas as políticas e filosofias seriam resultado de uma identidade específica.

Para as teorias filosóficas que dão forma ao wokismo, aquilo que designamos como liberalismo filosófico, ou Liberalismo-com-letra-maiúscula, seria assim meramente resultado de uma identidade específicaa do homem branco – e ideias como as de poder político limitado, direitos individuais e liberdades fundamentais, autonomia e consentimento, estado de direito e valorização do conhecimento científico seriam meras imposições do patriarcado ocidental e formas de poder que oprimem as restantes culturas e identidades.

Aceitar e adoptar esta hipótese identitária significa olhar para as dinâmicas sociais sempre como dinâmicas de poder e de luta pelo poder, pelo que aspectos simbólicos, como linguagem e cultura, assumem um lugar central. Mas, acima de tudo, leva-nos à conclusão de que não é possível um entendimento humano mais amplo pelo que estaríamos condenados a um conflito permanente. Perante esta consequência, a grande questão da última década tem sido a de saber se este argumento identitário irá vingar, pondo em causa os valores liberais e substituindo o paradigma liberal.

MANUEL MARIA CARRILHO não se debruça com profundidade sobre os ataques que o wokismo representa ao Liberalismo-com-letra-maiúscula, embora os resuma quando enuncia, no final do livro, os 10 mandamentos do wokismo. Mas não foge a um diagnóstico quanto ao futuro, considerando que o wokismo não é um fenómeno passageiro, o que motivou, aliás, a decisão de escrever este livro:

“[ela] resultou de um forte pressentimento de que – contrariamente ao que muitos diziam no sentido de o wokismo ser um simples e passageiro fenómeno de moda, que rapidamente desapareceria – se estava perante uma vaga de fundo, um processo de natureza social, cultural, talvez mesmo civilizacional, que iria ter muitas consequências em diversos planos das sociedades ocidentais.”

3O paradigma do ilimitado

Independentemente do que acontecerá nas próximas décadas, parece certo que vivemos um período de mudança e o autor designa essa mudança como o novo paradigma do ilimitado”. Este paradigma resultaria da conjugação de quatro elementosindividualismo, globalização, financismo e tecnologia – e coloca-nos sob a ilusão de que não há limites ao corpo humano, à acção humana, às decisões políticas com uma tradução particularmente evidente na ideia de que tudo pode ser transformado em “direito”.

E é no quadro deste paradigma do ilimitado que ganhou forma um fenómeno especialmente bem trabalhado pelo autor no seu livro: a “disseminação da vítima como categoria central da interpretação do mundo nos seus diversos planos”.

Há muitas razões para que a vitimização se tenha tornado um aspecto central das sociedades ocidentais, quase como uma consequência do espírito liberal. Afinal, e como consagrou a filósofa norte-americana Judith Shklar, a ideia fundamental do liberalismo é a de que a crueldade é a pior coisa que podemos fazer, pelo que o facto de as sociedades liberais se terem tornado sociedades centradas na vítima não é exactamente surpreendente. O problema é que as consequências têm sido desastrosas: “a partir do momento em que a vítima se define pelo sofrimento que manifesta e pela compaixão que suscita, o vitimismo não conhece, nem aceita, qualquer tipo de limites”, gerando não só o desejo de penal, como a ideia de que a justiça está ao serviço da vítima.

As implicações institucionais são enormes, em particular pela subjectividade que a vitimização consagra, levando a que “desejos ou humores, das suas pulsões ou dos seus estados de almasejam considerados como fonte de direitos.

4E a questão geracional?

Podemos usar este paradigma do ilimitado e a eliminação das referências e regras sociais para compreender o seguinte diagnóstico feito pelo autor:

“O indivíduo, uma vez liberto de todas as normas transcendentes, tem de as encontrar ou produzir por si próprio, o que não é fácil e estará na origem da contínua espiral depressiva que caracteriza a modernidade.”

Não evoluímos, de facto, para encontrar ou produzir normas a título individual. Somos seres eminentemente sociais e precisamos da vivência em comunidade para dar sentido às nossas vidas. A condição social de anomia, gerada, como ensinou Durkheim, pela falta de regras morais e sociais, deixa-nos numa condição de fragilidade emocional e não é, por isso, surpreendente que o wokismo – prometendo refúgio numa comunidade moral e identitária – tenha seduzido em particular os mais novos, que parecem especialmente dispostos a considerar que os fins justificam os meios.

É este aspecto que falta no livro de Manuel Maria Carrilho: embora o pensamento identitário conte já com várias décadas de amadurecimento, ele não se teria transformado num fenómeno com tanto peso mediático e político sem a chegada às universidades de uma geração a quem foi negada a pertença a uma comunidade de regras sociais e valores morais e a quem foi dito que certas ideias, como as de deveres, limites, obrigações e identidade nacional, não fazem sentido.

Deram-lhes telemóveis em vez de educação, sonhos cosmopolitas em vez da noção de sacrifício pelo grupo e sinalizações de virtude em vez de envolvimento comunitário. Não é assim surpreendente que se tenham tornado mais deprimidos, mais conflituosos e mais violentos. Temos falhado aos mais novos – e é esse o verdadeiro problema.

José Maria Pimentel convidou-me amavelmente para conversar com Miguel Vale de Almeida sobre wokismo no podcast 45 Graus. Podem ouvir as duas partes do episódio aqui.

A propósito da chocante e incompreensível morte do conservador norte-americano Charlie Kirk, sugiro neste vídeo três livros sobre extremismos políticos.

E não quero deixar de recordar o nosso grande João Almeida, que durante três semanas aqueceu os nossos corações. Que exemplo, sobretudo para os mais novos.

WOKISMO       CULTURA

COMENTÁRIOS (de 30)

João Floriano: A escolha da frase que introduz o artigo, não é ao acaso. Também aí se encontra parte dos problemas que afectam a nossa sociedade. Os pais, os educadores abdicaram da sua natural autoridade sobre os mais novos. Estes não sabem ouvir NÃO e os pais não sabem dizer NÃO. O crescimento dá-se mais no seio da tribo, do que no meio familiar. Os adolescentes morrem de medo perante  a perspectiva de serem cancelados no seu grupo, enquanto que nem sequer pensam duas vezes perante o desagrado dos adultos que ainda se atrevem a tentar qualquer forma de educação. Para o adolescente ou para o jovem numa adolescência tardia que não quer passar, os pais são uma caixa multibanco e um saco de pancada que culpam por tudo o que de mal lhes vai acontecendo na vida, onde as dificuldades são vistas como injustiças e não como oportunidades de amadurecimento.                       Maria Emília Ranhada Santos: Não creio que alguém dê telemóveis aos filhos por amor! Eles exigem!...Ou ameaçam!... Podem recorrer à polícia e acusar os pais de maus tratos, e de falta de liberdade!...e depois? Mesmo os melhores educadores hoje têm grandes dificuldades em educar correctamente, porque as leis não ajudam! É preciso primeiro vencer as ideologias perversas para depois se começar a pôr cada coisa no seu lugar!         Humilde Servo: Os filósofos e cientistas políticos andam à volta do problema mas, talvez por receio de serem apodados de retrógrados, não dizem o óbvio: estas ideologias cada vez mais absurdas e desligadas da estrutura da realidade só são possíveis porque a Igreja Católica (e todas as suas emanações cristãs) enfraqueceu significativamente e as pessoas abandonaram o cristianismo. A única cura para este estado de coisas é um revivalismo cristão. Alternativamente, a submissão a uma religião tosca e brutal como algum dos ramos do islamismo.        Coxinho > Maria Emília Ranhada Santos: Ora aí é que bate o ponto, Maria Emília: "É preciso primeiro vencer as ideologias perversas para depois se começar a pôr cada coisa no seu lugar!" E sendo as ideologias perversas, o que esperar dos seus prosélitos? Para nossa infelicidade, o que se verifica cada vez mais é um proselitismo em movimento acelerado para um fanatismo cego e feroz em que a própria ideia de democracia começa a ser encarada como estupidez e degeneração.        Paulo Cardoso > João Floriano: Agora fez-me lembrar da minha professora de física do 9.º, que exemplificava a acção com uma batida com a mão na secretária e a reacção com a resistência da secretária ao impacto da mão. À insana acção woke, temos a reacção do crescimento de sentimentos de rejeição, alguns deles também fanáticos verdade se diga. Mas os fofos woke, recusam-se a assumir a sua responsabilidade. Até porque são donos inquestionáveis da verdade e da elevação moral e, no fim, a culpa é sempre dos outros, dos que eles consideram deploráveis.                    José B Dias: “a partir do momento em que a vítima se define pelo sofrimento que manifesta e pela compaixão que suscita, o vitimismo não conhece, nem aceita, qualquer tipo de limites”, gerando não só o desejo de penal, como a ideia de que a justiça está ao serviço da vítima. Reflicta-se sobre a frase supra em ligação com a forma como somos diariamente bombardeados com imagens e relatos de vítimas de todas as paragens ...                 Afonso Soares: O João Almeida tem sucesso porque tem espirito de sacrifício. É isso que falta à nossa juventude. A culpa não é deles. Por muito que nos custe a culpa é dos pais mas todos estão convencidos que é dos outros. Falhamos na educação não só desta mas, também, da anterior.

 

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