Ou mesmo a falta dessa implicam os tais fanatismos ideológicos mais inspirados numa ideia de condenação social imediata, valorativa do indivíduo condenador, que geralmente se satisfaz com o saber de experiência vivida, que não requer grande aplicação a cansativas leituras e que se traduz no blá blá da moda de momento, captada na sua prática vistosa que a imediatez dos meios de comunicação favorece, sem grande esforço para os praticantes dessa.
Um excelente análise de Patrícia Fernandes sobre o fenómeno social originário
nesses países do além-atlântico, favorecidos pela sua “juventude”, na
descoberta mais recente e bem-estar material captadores da atenção mundana.
O fanatismo woke
Deram-lhes telemóveis em vez de
educação, sonhos cosmopolitas em vez da noção de sacrifício pelo grupo e
sinalizações de virtude em vez de envolvimento comunitário. Temos falhado aos
mais novos.
PATRÍCIA FERNANDES
Professora na Escola de Economia e Gestão da Universidade do Minho
OBSERVADOR,15 set.
2025, 00:2030
1A nova peste
Fanatismo woke: é assim
que MANUEL MARIA CARRILHO qualifica o pensamento woke no seu
último livro, intitulado A NOVA PESTE: Da ideologia de género ao fanatismo woke. Dividido
em oito capítulos, o livro debruça-se
sobre os principais aspectos daquilo a que se tem designado como wokismo, e fá-lo com a seguinte
vantagem: sem descurar as principais referências em língua inglesa, a
maioria da bibliografia usada é de origem francófona. Trata-se de
uma abordagem que permite colmatar uma lacuna no tratamento do tema entre nós
(e de que sou também responsável), permitindo ler o fenómeno a partir da
tradição continental.
É verdade que o wokismo é um
fenómeno fundamentalmente norte-americano e a sua presença, em maior ou
menor medida, em todos os países ocidentais é resultado de um processo de
americanização. Esse processo, que começou após a II Guerra Mundial, mas
que, entre nós, se tornou particularmente evidente a partir da década
de 1990, tem transformado
gradualmente o espaço filosófico. Hoje, os principais nomes da filosofia
política vêm do mundo anglófono e o inglês é a língua com que as novas gerações
se sentem mais confortáveis, o que condiciona o que é lido entre nós (como sabemos, as traduções não são
abundantes).
MANUEL MARIA CARRILHO dá, nesse sentido, um contributo
importante, iluminando o problema a partir de fontes habitualmente não usadas
por cá e que comprovam o impacto que estas ideias têm tido também em França.
É, aliás, a essa tradição filosófica que o autor
recorre para qualificar o wokismo como fanatismo, recorrendo à entrada de Alexandre Deleyre, na Encyclopédie, quando define fanatismo como
resultado da ignorância, como “a superstição em acção”.
Segundo Carrilho, a expressão
“fanatismo”
permitiria, assim, invocar uma espécie de doença do pensamento que se aproxima da irracionalidade e que
conduziria a um estado de impensar– um estado que reflecte bem o espírito
woke se considerarmos a sua recusa de argumentação racional e de diálogo
filosófico e político.
2A viragem identitária
Tenho defendido que este estado de
impensar decorre, fundamentalmente, do facto de o pensamento identitário
empreender aquilo que poderíamos designar como viragem identitária: a ideia de que a nossa
perspectiva do mundo depende da nossa identidade
ao ponto de não ser possível um olhar universal e objectivo
sobre a realidade pelo que
todas as políticas e filosofias seriam resultado de uma identidade específica.
Para as teorias filosóficas que dão
forma ao wokismo, aquilo que designamos como liberalismo filosófico,
ou Liberalismo-com-letra-maiúscula, seria assim
meramente resultado de uma identidade específica – a do homem
branco – e ideias
como as de poder político limitado, direitos individuais e
liberdades fundamentais, autonomia e consentimento, estado de direito e
valorização do conhecimento científico
seriam meras imposições do patriarcado ocidental e formas de poder que
oprimem as restantes culturas e identidades.
Aceitar e adoptar esta hipótese
identitária significa olhar
para as dinâmicas sociais sempre como dinâmicas de poder e de luta pelo poder, pelo que aspectos simbólicos, como linguagem e
cultura, assumem um lugar central. Mas, acima de tudo, leva-nos à
conclusão de que não é possível um entendimento humano mais amplo pelo
que estaríamos condenados a um conflito permanente. Perante
esta consequência, a grande
questão da última década tem sido a de saber se este argumento identitário irá
vingar, pondo em causa os valores liberais e substituindo o paradigma liberal.
MANUEL MARIA CARRILHO não se
debruça com profundidade sobre os ataques que o wokismo representa ao
Liberalismo-com-letra-maiúscula, embora os resuma quando enuncia, no final do
livro, os 10
mandamentos do wokismo. Mas não foge a um diagnóstico quanto ao futuro,
considerando que o wokismo não é um fenómeno passageiro, o que motivou,
aliás, a decisão de escrever este livro:
“[ela]
resultou de um forte pressentimento de que – contrariamente ao que muitos
diziam no sentido de o wokismo ser um simples e passageiro fenómeno de moda,
que rapidamente desapareceria – se estava perante uma vaga de fundo, um
processo de natureza social, cultural, talvez mesmo civilizacional, que iria
ter muitas consequências em diversos planos das sociedades ocidentais.”
3O paradigma do ilimitado
Independentemente
do que acontecerá nas próximas décadas, parece certo que vivemos um período de
mudança e o autor designa essa mudança como o novo “paradigma
do ilimitado”. Este paradigma resultaria da conjugação de quatro
elementos – individualismo,
globalização, financismo e tecnologia – e coloca-nos sob a ilusão de que não há
limites ao corpo humano, à acção humana, às decisões políticas – com uma tradução particularmente evidente
na ideia de que tudo pode ser transformado em “direito”.
E é no quadro deste paradigma do
ilimitado que ganhou forma um fenómeno especialmente bem trabalhado pelo autor
no seu livro: a “disseminação da vítima como categoria central da
interpretação do mundo nos seus diversos planos”.
Há
muitas razões para que a vitimização se tenha tornado um aspecto central das sociedades
ocidentais, quase como uma consequência do espírito liberal. Afinal, e
como consagrou a filósofa norte-americana Judith
Shklar, a ideia
fundamental do liberalismo é a de que a crueldade
é a pior coisa que podemos fazer,
pelo que o facto de as sociedades liberais se terem tornado sociedades
centradas na vítima não é exactamente surpreendente. O
problema é que as consequências têm sido desastrosas: “a partir do momento em que a vítima se
define pelo sofrimento
que manifesta e pela compaixão que suscita, o
vitimismo não conhece, nem aceita, qualquer tipo de limites”, gerando não só o
desejo de penal, como a ideia de que a justiça está ao serviço da vítima.
As implicações institucionais são
enormes, em particular pela subjectividade
que a vitimização consagra, levando a que “desejos
ou humores, das suas pulsões ou dos seus estados de alma” sejam considerados como fonte de direitos.
4E a questão geracional?
Podemos usar este paradigma do ilimitado
e a eliminação das referências e regras sociais para compreender o seguinte
diagnóstico feito pelo autor:
“O indivíduo, uma vez liberto de
todas as normas transcendentes, tem de as encontrar ou produzir por si próprio,
o que não é fácil e estará na origem da contínua espiral depressiva que
caracteriza a modernidade.”
Não
evoluímos, de facto, para encontrar ou produzir normas a título individual.
Somos seres eminentemente sociais e precisamos da vivência em comunidade para
dar sentido às nossas vidas. A condição social de anomia, gerada,
como ensinou Durkheim, pela falta de regras morais e sociais,
deixa-nos numa condição de fragilidade emocional e não é, por isso,
surpreendente que o wokismo – prometendo refúgio numa comunidade moral e
identitária – tenha
seduzido em particular os mais novos,
que parecem especialmente dispostos a considerar que os fins justificam os meios.
É
este aspecto que falta no livro de Manuel Maria Carrilho: embora o pensamento
identitário conte já com várias décadas de amadurecimento, ele não se teria
transformado num fenómeno com tanto peso mediático e político sem a chegada às
universidades de uma geração a quem foi negada a pertença a uma comunidade de
regras sociais e valores morais e a quem foi dito que certas ideias, como as de
deveres, limites, obrigações e identidade nacional, não fazem sentido.
Deram-lhes telemóveis em vez de educação, sonhos cosmopolitas em vez
da noção de sacrifício pelo grupo e sinalizações de virtude em vez de
envolvimento comunitário. Não é assim
surpreendente que se tenham tornado mais deprimidos, mais conflituosos e mais
violentos. Temos falhado aos mais novos – e é esse o verdadeiro
problema.
José Maria Pimentel convidou-me amavelmente para conversar
com Miguel Vale de Almeida sobre wokismo no podcast 45 Graus. Podem ouvir as
duas partes do episódio aqui.
A propósito da chocante e
incompreensível morte do conservador norte-americano Charlie
Kirk, sugiro neste vídeo
três livros sobre extremismos políticos.
E não quero deixar de recordar o nosso
grande João Almeida, que
durante três semanas aqueceu os nossos corações. Que exemplo, sobretudo para os
mais novos.
COMENTÁRIOS (de
30)
João Floriano: A escolha da frase que
introduz o artigo, não é ao acaso. Também aí se encontra parte dos problemas
que afectam a nossa sociedade. Os pais, os educadores abdicaram da sua natural autoridade sobre os mais
novos. Estes não sabem ouvir NÃO e os
pais não sabem dizer NÃO. O crescimento dá-se mais no seio da tribo, do que no
meio familiar. Os adolescentes morrem de medo perante a perspectiva de serem cancelados no seu
grupo, enquanto que nem sequer pensam duas vezes perante o desagrado dos
adultos que ainda se atrevem a tentar qualquer forma de educação. Para o
adolescente ou para o jovem numa adolescência tardia que não quer passar, os
pais são uma caixa multibanco e um saco de pancada que culpam por tudo o que de
mal lhes vai acontecendo na vida, onde as dificuldades são vistas como
injustiças e não como oportunidades de amadurecimento. Maria
Emília Ranhada Santos: Não creio que alguém dê telemóveis aos filhos por amor! Eles exigem!...Ou ameaçam!... Podem
recorrer à polícia e acusar os pais de maus tratos, e de falta de
liberdade!...e depois? Mesmo os melhores educadores hoje têm grandes
dificuldades em educar correctamente, porque as leis não ajudam! É preciso
primeiro vencer as ideologias perversas para depois se começar a pôr cada coisa
no seu lugar! Humilde
Servo: Os filósofos e cientistas políticos andam à volta do problema mas, talvez
por receio de serem apodados de retrógrados, não dizem o óbvio:
estas ideologias cada vez mais absurdas e desligadas da estrutura da realidade
só são possíveis porque a Igreja Católica (e todas as suas emanações cristãs)
enfraqueceu significativamente e as pessoas abandonaram o cristianismo. A única cura para este estado
de coisas é um revivalismo cristão. Alternativamente, a submissão a uma religião tosca e brutal como algum dos
ramos do islamismo. Coxinho > Maria Emília Ranhada Santos: Ora aí é que bate o ponto,
Maria Emília: "É preciso primeiro vencer as ideologias perversas para
depois se começar a pôr cada coisa no seu lugar!" E sendo as
ideologias perversas, o que esperar dos seus prosélitos? Para nossa
infelicidade, o que se verifica cada vez mais é um proselitismo em movimento
acelerado para um fanatismo cego e feroz em que a própria ideia de
democracia começa a ser encarada como estupidez e degeneração. Paulo
Cardoso > João Floriano: Agora fez-me lembrar da minha professora de física do
9.º, que exemplificava a acção com uma batida com a mão na secretária e a reacção com
a resistência da secretária ao impacto da mão. À insana acção woke, temos a reacção do crescimento
de sentimentos de rejeição, alguns deles também fanáticos verdade se diga.
Mas os fofos woke, recusam-se a assumir a sua responsabilidade. Até porque são
donos inquestionáveis da verdade e da elevação moral e, no fim, a culpa é
sempre dos outros, dos que eles consideram deploráveis. José B
Dias: “a partir do
momento em que a vítima se define pelo sofrimento que manifesta e pela
compaixão que suscita, o vitimismo não conhece, nem aceita, qualquer tipo de
limites”, gerando não só o desejo de penal, como a ideia de que a justiça está
ao serviço da vítima. Reflicta-se sobre a frase supra em ligação com a forma como somos
diariamente bombardeados com imagens e relatos de vítimas de todas as paragens
... Afonso Soares: O João Almeida tem sucesso porque tem espirito de sacrifício. É isso que
falta à nossa juventude. A culpa não é deles. Por muito que nos custe a culpa é
dos pais mas todos estão convencidos que é dos outros. Falhamos na educação não
só desta mas, também, da anterior.
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