É sempre o lá adequado de MJA sobre o cá definitivamente falho de
elegância no oportunismo crítico – o que, esse sim, de facto, repugna.
Crónica em dois tons
Pode perder-se esta oportunidade caída dos infernos para que
desesperadamente e seja a que custo for, ganhem os que iam perder? Valerá tudo.
Ardilosamente Marcelo já decidiu juntar-se aos caçadores.
MARIA JOÃO AVILLEZ Jornalista, colunista
do Observador
OBSERVADOR, 10 set. 2025, 00:2546
Tom primeiro
1 – Felizmente tinha visto a Thérèse Martin horas antes, e conservava ainda a luz
que de lá trouxera, quando me confrontei com a tragédia de uma Lisboa
dolorosamente ainda incrédula — “Mas como
fora possível?”
E no entanto… (talvez fosse a tal luz), vi uma cidade onde quem tinha de acudir,
acudiu bem e depressa. Parecia uma operação coordenada, coisa em que
somos pouco havidos. Foram vinte e
quatro horas de luto e labor incansável de todos os chamados e depois, o vento
rondou. Virou-se na direcção
de uma apressada exigência de respostas que ainda não havia, explicações antes
do tempo mínimo, averiguações extemporâneas. Parecia que uma grande
parte do espaço de análise e comentário público se concentrava mais na
indispensabilidade da procura de “culpados”, (autárquicas “oblige”?) do que na
prática de uma regra não escrita:
o uso da racionalidade. Averiguar
causas; aguardar resultados; julgar; atribuir responsabilidades. Não
aconteceu assim. Está-se perante
uma duríssima tragédia num país ferido: ocorreu em Lisboa, uma cidade capital,
hoje na moda; o acidente, num dos seus obrigatórios ex-libris, foi em si
terrivelmente incomum; contavam-se estrangeiros entre mortos e feridos; a
notícia foi manchete fora de portas, durante dias.
Ou seja a tragédia internacionalizou-se
e os media, “oficializando” isso mesmo, exigiram a Carlos Moedas que estivesse
à altura do patamar onde o acidente lisboeta fora mediaticamente colocado.
2 – Como toda a gente viu que Carlos Moedas
foi quase ubíquo — esteve em todo o lado onde o presidente
da Câmara deveria ter estado; que obviamente não viu obrigação (nem utilidade)
em reunir logo o Executivo camarário que sempre lhe quis a pele e agora
exigiria exaltadamente uma demissão sem sentido, como veio a ocorrer dias
depois; que foi fazendo o que lhe competia e falando com quem devia. Ou seja, tem feito o melhor que sabe
mas que nunca é mediaticamente considerado suficiente pelos doutores dos media:
como se Moedas nunca estivesse a altura do patamar onde foi colocada esta
desgraça, embora não se perceba bem o que seria estar à altura, para além do
que tem feito: demitir-se?
Santo Deus! Até a sua sinceridade — real, por genuína — foi alvo de chacota,
disfarçada de “análise”. (Experimentem passar pelo mesmo 30 segundas e depois
acusem-no).
Tom segundo
3 – Voltarei abaixo ao tema, mas por
agora regresso ao inicio com Thérèse
Martin, nome civil de Santa
Teresa do Menino Jesus ( 1873-1897), carmelita e doutora da Igreja, que
morreu com 24 anos num Carmelo francês. Volto
porque esta semana vale a pena dar nota desta personagem extraordinária, que
tão decisivamente marcou a vida da Igreja e cuja grandeza foi ser sempre
pequenina (“já não me inquieto
por ser uma alma pequenina, pelo contrário, até me regozijo com isso”). É
verdade que também não se fica incólume ao facto de — escassas horas antes da
tragédia de Lisboa – ter abruptamente passado da luz da santidade para a
negrura da fatalidade. Eis uma história que Lisboa irá conhecer daqui a três
dias.
4 – Um dia Matilde Trocato (a inspiradíssima
criadora e encenadora da parte performativa das JMJ de Lisboa em 2022), foi
procurada por um enviado do Provincial da Ordem Carmelita portuguesa: poderia ela fazer em 2025 um espectáculo
sobre esta figura maior de Santa Teresinha do Menino Jesus, no centenário da
sua canonização?
Autora e encenadora de dezenas peças
musicadas — da história do Sporting Clube de Portugal à do Papa João Paulo II,
passando por “Fenix”, que há um ano esgotou em vários palcos do país — Matilde começou
por meter solitariamente mãos à obra: leu, investigou, fez muitas perguntas, visitou
Carmelos: “De início fiquei intrigada, não entendia bem a figura, havia
muitas perguntas sem resposta.. Mas se fazemos perguntas é bom sinal, alguma
coisa se gera. Fui andando…”
Dos castings feitos em Maio deste
ano, resultaram 24 actores — 21 mulheres, 1 homem, 2 crianças — e um conjunto
de 13 músicos dirigidos por António Andrade Santos, autor da música e das
canções (também escritas por Matilde) que tocarão ao vivo em cena.
Em Julho já se ensaiava: “Ia-se andando”.
Mas eis que subitamente a caminhada foi
um dia muito inesperadamente “interceptada” por um vídeo de “apoio” do Papa
Francisco — que ninguém ali pedira — um dos últimos vídeos que gravou, já
doente. O caso é que o Cardeal Américo Aguiar, próximo do anterior Chefe da
Igreja — com quem criara uma relação pessoal devido à preparação das Jornadas
Mundiais da Juventude de Lisboa — sabendo da “fortíssima devoção” de Francisco
a Santa Teresinha — era a sua santa de eleição — decidiu informá-lo de que
estava em preparação em Portugal um “espectáculo” sobre ela. D. Américo lembra-
se bem: “Quando ia ao Vaticano e me encontrava com ele, costumava de vez em
quando pedir-lhe vídeos e mensagens de divulgação. Recordo-me de que no final
de um dos nossos últimos encontros, o Santo Padre perguntou-me quase espantado:
‘Então hoje não me pedes nada?’ ‘Ah
peço, peço, disse-lhe logo’. E quando lhe sublinhei que o espectáculo era encenado pela
Matilde Trocato, o Santo Padre, que já apreciara muitíssimo a criatividade e o
sentido estético de Matilde nas JMJ (especialmente a Via Sacra), ficou ainda
mais feliz”.
Uma felicidade captada por um vídeo,
onde o então Chefe da Igreja aconselha até que “leiam o que ele escreveu sobre
a Teresita”…
5 – É
este pequeno mundo – “produzido” por Pedro Castro e dois assistentes multiusos,
Bernardo Peixoto e João Cardoso — que já em contagem decrescente, ensaia manhã
e tarde, no salão de uma igreja lisboeta. E para cuja escolha nunca entrou
critério da fé. “Até hoje não sei quem é ou não católico, quem tem ou não tem
fé”, diz-me Matilde. O certo é que entre o verbo, o canto e a dança, a vida e a
vocação de Thérèse Martin foi ali magnificamente “ressuscitada” em toda a sua
espantosa dimensão humana, religiosa e espiritual.
O Teatro Camões irá “contar” tudo
isto já na próxima sexta-feira (ficarão até domingo, depois será o Porto, no
Coliseu, no final de Setembro).
De novo o tom primeiro
6 – Sucede
que pouco depois da minha saída de um ensaio, Lisboa enlutava-se na sua
tragédia e chorava os seus mortos. A luz que eu trazia da “Teresita” do Papa
Francisco talvez não tenha sido suficiente para amparar, mesmo que só
levemente, o misto de temor e desamparo — o que é sempre uma marca da tragédia
— com que olhava, na televisão, a minha cidade em estado de choque.
Os dias passaram mas de uma forma
quase geral continua a contar-se nos écrãs o desastre do elevador de modo obter
efeitos desejados.
Entre acusações, suposições,
suspeitas, intrigas vindas de moradas diversificadas, parece que abriu a época
da caça: pode perder-se esta oportunidade caída dos infernos para que
desesperadamente e seja a que custo for, ganhem os que iam perder? Valerá tudo.
Ardilosamente Marcelo já decidiu
juntar-se aos caçadores.
Isto dito Carlos
Moedas deveria (no meu modesto “ver” político) ter
obviamente seguido a estratégia oposta à que elegeu na sua última entrevista
televisiva, sobrepondo-se a críticas e ignorando “caçadas”. Quanto à forma, não
vi ali um “actor”, como tantos. Vi um homem sincero.
Alexandra Leitão optou pelo contrário. Escolheu habilmente
mostrar-se “de confiança”, maquilhando o esquerdismo com um tom sereno e
maneiras boas. Nem o tom nem as maneiras, porém, disfarçaram a ausência de
conteúdo e clareza de projecto. Mas não seria isso que ali, e naquele momento,
a interessava particularmente.
7 – O
melhor mesmo ainda será ir ver a Thérese Martin. Talvez faça bem às cabeças.
LISBOA PAÍS SOCIEDADE POLÍTICA
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