quinta-feira, 11 de setembro de 2025

Lá maior ou lá menor

 

É sempre o lá adequado de MJA sobre o cá definitivamente falho de elegância no oportunismo crítico – o que, esse sim, de facto, repugna.

Crónica em dois tons

Pode perder-se esta oportunidade caída dos infernos para que desesperadamente e seja a que custo for, ganhem os que iam perder? Valerá tudo. Ardilosamente Marcelo já decidiu juntar-se aos caçadores.

MARIA JOÃO AVILLEZ Jornalista, colunista do Observador

OBSERVADOR, 10 set. 2025, 00:2546

Tom primeiro

1 – Felizmente tinha visto a Thérèse Martin horas antes, e conservava ainda a luz que de lá trouxera, quando me confrontei com a tragédia de uma Lisboa dolorosamente ainda incrédula — “Mas como fora possível?”

E no entanto… (talvez fosse a tal luz), vi uma cidade onde quem tinha de acudir, acudiu bem e depressa. Parecia uma operação coordenada, coisa em que somos pouco havidos. Foram vinte e quatro horas de luto e labor incansável de todos os chamados e depois, o vento rondou. Virou-se na direcção de uma apressada exigência de respostas que ainda não havia, explicações antes do tempo mínimo, averiguações extemporâneas. Parecia que uma grande parte do espaço de análise e comentário público se concentrava mais na indispensabilidade da procura de “culpados”, (autárquicas “oblige”?) do que na prática de uma regra não escrita: o uso da racionalidade. Averiguar causas; aguardar resultados; julgar; atribuir responsabilidades. Não aconteceu assim. Está-se perante uma duríssima tragédia num país ferido: ocorreu em Lisboa, uma cidade capital, hoje na moda; o acidente, num dos seus obrigatórios ex-libris, foi em si terrivelmente incomum; contavam-se estrangeiros entre mortos e feridos; a notícia foi manchete fora de portas, durante dias.

Ou seja a tragédia internacionalizou-se e os media, “oficializando” isso mesmo, exigiram a Carlos Moedas que estivesse à altura do patamar onde o acidente lisboeta fora mediaticamente colocado.

2 – Como toda a gente viu que Carlos Moedas foi quase ubíquo — esteve em todo o lado onde o presidente da Câmara deveria ter estado; que obviamente não viu obrigação (nem utilidade) em reunir logo o Executivo camarário que sempre lhe quis a pele e agora exigiria exaltadamente uma demissão sem  sentido, como veio a ocorrer dias depois; que foi fazendo o que lhe competia e falando com quem devia. Ou seja, tem feito o melhor que sabe mas que nunca é mediaticamente considerado suficiente pelos doutores dos media: como se Moedas nunca estivesse a altura do patamar onde foi colocada esta desgraça, embora não se perceba bem o que seria estar à altura, para além do que tem feito: demitir-se? Santo Deus! Até a sua sinceridade — real, por genuína — foi alvo de chacota, disfarçada de “análise”. (Experimentem passar pelo mesmo 30 segundas e depois acusem-no).

Tom segundo

3 – Voltarei abaixo ao tema, mas por agora regresso ao inicio com Thérèse Martin, nome civil de Santa Teresa do Menino Jesus ( 1873-1897), carmelita e doutora da Igreja, que morreu com 24 anos num Carmelo francês. Volto porque esta semana vale a pena dar nota desta personagem extraordinária, que tão decisivamente marcou a vida da Igreja e cuja grandeza foi ser sempre pequenina (“já não me inquieto por ser uma alma pequenina, pelo contrário, até me regozijo com isso”). É verdade que também não se fica incólume ao facto de — escassas horas antes da tragédia de Lisboa – ter abruptamente passado da luz da santidade para a negrura da fatalidade. Eis uma história que Lisboa irá conhecer daqui a três dias.

4 – Um dia Matilde Trocato (a inspiradíssima criadora e encenadora da parte performativa das JMJ de Lisboa em 2022), foi procurada por um enviado do Provincial da Ordem Carmelita portuguesa: poderia ela fazer em 2025 um espectáculo sobre esta figura maior de Santa Teresinha do Menino Jesus, no centenário da sua canonização?

Autora e encenadora de dezenas peças musicadas — da história do Sporting Clube de Portugal à do Papa João Paulo II, passando por “Fenix”, que há um ano esgotou em vários palcos do país — Matilde começou por meter solitariamente mãos à obra: leu, investigou, fez muitas perguntas, visitou Carmelos:De início fiquei intrigada, não entendia bem a figura, havia muitas perguntas sem resposta.. Mas se fazemos perguntas é bom sinal, alguma coisa se gera. Fui andando…”

Dos castings feitos em Maio deste ano, resultaram 24 actores — 21 mulheres, 1 homem, 2 crianças — e um conjunto de 13 músicos dirigidos por António Andrade Santos, autor da música e das canções (também escritas por Matilde) que tocarão ao vivo em cena.

Em Julho já se ensaiava: “Ia-se andando”.

Mas eis que subitamente a caminhada foi um dia muito inesperadamente “interceptada” por um vídeo de “apoio” do Papa Francisco — que ninguém ali pedira — um dos últimos vídeos que gravou, já doente. O caso é que o Cardeal Américo Aguiar, próximo do anterior Chefe da Igreja — com quem criara uma relação pessoal devido à preparação das Jornadas Mundiais da Juventude de Lisboa — sabendo da “fortíssima devoção” de Francisco a Santa Teresinha — era a sua santa de eleição — decidiu informá-lo de que estava em preparação em Portugal um “espectáculo” sobre ela. D. Américo lembra- se bem: “Quando ia ao Vaticano e me encontrava com ele, costumava de vez em quando pedir-lhe vídeos e mensagens de divulgação. Recordo-me de que no final de um dos nossos últimos encontros, o Santo Padre perguntou-me quase espantado: ‘Então hoje não me pedes nada?’ ‘Ah peço, peço, disse-lhe logo’. E quando lhe sublinhei que o espectáculo era encenado pela Matilde Trocato, o Santo Padre, que já apreciara muitíssimo a criatividade e o sentido estético de Matilde nas JMJ (especialmente a Via Sacra), ficou ainda mais feliz”.

Uma felicidade captada por um vídeo, onde o então Chefe da Igreja aconselha até que “leiam o que ele escreveu sobre a Teresita”…

5 É este pequeno mundo – “produzido” por Pedro Castro e dois assistentes multiusos, Bernardo Peixoto e João Cardoso — que já em contagem decrescente, ensaia manhã e tarde, no salão de uma igreja lisboeta. E para cuja escolha nunca entrou critério da fé. “Até hoje não sei quem é ou não católico, quem tem ou não tem fé”, diz-me Matilde. O certo é que entre o verbo, o canto e a dança, a vida e a vocação de Thérèse Martin foi ali magnificamente “ressuscitada” em toda a sua espantosa dimensão humana, religiosa e espiritual.

O Teatro Camões irá “contar” tudo isto já na próxima sexta-feira (ficarão até domingo, depois será o Porto, no Coliseu, no final de Setembro).

De novo o tom primeiro

6 Sucede que pouco depois da minha saída de um ensaio, Lisboa enlutava-se na sua tragédia e chorava os seus mortos. A luz que eu trazia da “Teresita” do Papa Francisco talvez não tenha sido suficiente para amparar, mesmo que só levemente, o misto de temor e desamparo — o que é sempre uma marca da tragédia — com que olhava, na televisão, a minha cidade em estado de choque.

Os dias passaram mas de uma forma quase geral continua a contar-se nos écrãs o desastre do elevador de modo obter efeitos desejados.

Entre acusações, suposições, suspeitas, intrigas vindas de moradas diversificadas, parece que abriu a época da caça: pode perder-se esta oportunidade caída dos infernos para que desesperadamente e seja a que custo for, ganhem os que iam perder? Valerá tudo. Ardilosamente Marcelo já decidiu juntar-se aos caçadores.

Isto dito Carlos Moedas deveria (no meu modesto “ver” político) ter obviamente seguido a estratégia oposta à que elegeu na sua última entrevista televisiva, sobrepondo-se a críticas e ignorando “caçadas”. Quanto à forma, não vi ali um “actor”, como tantos. Vi um homem sincero.

Alexandra Leitão optou pelo contrário. Escolheu habilmente mostrar-se “de confiança”, maquilhando o esquerdismo com um tom sereno e maneiras boas. Nem o tom nem as maneiras, porém, disfarçaram a ausência de conteúdo e clareza de projecto. Mas não seria isso que ali, e naquele momento, a interessava particularmente.

7O melhor mesmo ainda será ir ver a Thérese Martin. Talvez faça bem às cabeças.

LISBOA       PAÍS       SOCIEDADE       POLÍTICA

COMENTÁRIOS (de 48)

A. Samora: Descontando o universo de referentes do mundo católico, apostólico romano, que não professo, achei a sua crónica admirável. É certo que escreve do seu ponto de vista. No entanto estou em crer que ele é precisamente o mesmo da maioria dos lisboetas e dos portugueses. Não lhe deram - ao Carlos Moedas - o direito a ser simplesmente um homem simples soterrado em emoções e responsabilidades. Quiseram que ele jogasse à política presumindo-o fraco e caído. Mas ele não estava nem caído nem é fraco. A sua modesta força, que afinal é gigante, é aquela com que todos nos identificamos. Todos os que não percebem nada de política.          JOHN MARTINS: Marcelo preferiu o palco mediático à serenidade presidencial. _Carlos Moedas, sem ser perfeito, mostrou coragem e empatia e uma rara capacidade de agir sob pressão. E isso, num país tantas vezes paralisado pela burocracia e pelo medo de errar, é revolucionário. Moedas merece reconhecimento. E Marcelo, que tente ser Presidente no resto de tempo que tem em Belém. E como é católico, valha-lhe, Santa Teresinha do Menino Jesus...              Carlos Barradas: Em contagem decrescente para o cata-vento de Belém voltar para debaixo da pedra de onde nunca devia ter saído.                  Filipe Paes de Vasconcellos: AI NÃO ME TOQUES !!! 1. O PS, os seus e a outra esquerda da extrema, tornaram-se de uma sensibilidade que até faz doer e chorar as pedras da calçada. E a média alinha, na sua qualidade de mensageiro, a empolar a dor. 2. O que Carlos Moedas disse está gravado e por isso é só ir ouvir de novo. Mas não vão porque se fossem deixava de haver tema para o “drama “ porque é deste “drama “ que se alimenta esta gente baixinha e medíocre, pois relativamente ao grande Drama, pelos vistos este continua a ser tratado de forma exemplar por Carlos Moedas. 3. Como conclusão direi que os políticos que estão bem acima da média pela sua competência e integridade têm de ter todos os cuidados para não se deixarem enlamear por esta gente que tem entranhado uma mentalidade de um socialismo de 50 anos. 4. Sugiro aos gurus do comentariado que vão rever o que Moedas disse e logo de seguida vejam os comentários e análises que produziram e vejam a enorme figura triste que andam a fazer, e que não vale tudo para se tentar, felizmente só tentar, destruir o carácter de uma pessoa extraordinária. E, fico-me por aqui.             Carlos Chaves: Cara Maria João Avillez, é no que deu o socialismo do seu amado Mário Soares! E desejo-lhe longa vida pois ainda vai ver muito, mas muito pior! Quanto a Marcelo, é um caçador furtivo, um sniper que “mata” à traição os seus próprios companheiros… Outro dos seus protegidos e admirados… Isto não lhe está a correr nada bem!                  Carlos Chaves > Ruço Cascais: Caro Ruço Cascais, é isso mesmo, só faltou o Paulo Ferreira… Quanto ao Balsemão é simples, é de esquerda, quer que o PSD seja de esquerda, ele próprio o disse há pouco tempo, e o que lhe interessa é o lucro, se o comuna Ricardo dá audiências, isso é que importante! Os Iates custam a manter, e as festas ui, ui, ui…       José Ferreira: Julgo (e espero) que os lisboetas não ligam muito aos comentadores das televisões, tão desacreditados estão, na generalidade. Em geral (com honrosas exceções, naturalmente) não temos comentadores, temos oportunistas que na esperança de lhes tocar umas migalhas e de serem "conhecidos" (eu, por acaso, conheço alguns e não passam de pobres de espírito a quem deram palco) debitam as mais diversas asneiras, na esperança que quem (ainda) os ouve, seja "estúpido" e não consiga formar a sua própria opinião. Esta situação, ultrapassou todos os limites, na minha opinião. Fica evidente que o caso está muito mal parado para frente de esquerda radical liderada por Alexandra Leitão. Se assim não fosse, não teríamos visto tantas "múmias" indignadas e a levantarem-se do sarcófago. Com o apoio dos "sábios comentadores", naturalmente. Quanto ao PR, resta-nos contar os dias para nos vermos livres dele e esperar que não seja substituído por um clone.        Maria Nunes: Excelente artigo. É revoltante o aproveitamento político de uma tragédia.       Ruço Cascais:  Quanto ao primeiro tom estou perfeitamente de acordo. Além da falsa predadora Alexandra Leitão disfarçada numa pele de ovelha, também aqui pelo Observador não falta quem quer ferrar o dente no pescoço do Moedas, começando pelos habituais cromos Bruno Vieira Amaral e Judite França que inevitavelmente e por prepotência se esquecem de referir "na minha opinião" sempre que debitam censuras como se fossem os donos da verdade, e, como não podiam também faltar, o Rui Pedro Antunes e o Miguel Carrapatoso: Fica a ideia franca que a Rádio Observador está a fazer campanha pela Alexandra Leitão. Ela geriu bem a situação, gritam em uníssono, ela merece uma nota 16, ele não, o Moedas, não soube gerir a situação, foi displicente na comunicação e não sabe assumir responsabilidades gritam estes "Tysons" radialistas donos da verdade, portanto, para o Moedas um 6. Apanhar alguém numa situação frágil para o atacar é uma das grandes coragens que vou ouvindo por aqui. Tristeza, querem ajudar a eleger a Leitão para presidente da CML, a Leitão anti-iniciativa-privada que provavelmente também é anti-comunicação-social-privada como é o caso deste jornal. Têm esperança na nacionalização do Observador, só pode. Eu pergunto: tínhamos dois presidentes na CML? Um é o Carlos Moedas e o outro a Alexandra Leitão? Um geriu bem a situação e outro mal? Sejam sérios e não copiem o Ricardo Araújo Pereira. Também o CHEGA quer ferrar o dente tal e qual toda esta cambada que a única coisa que sabe fazer, ou melhor dizer, é falar mal do trabalho dos outros. Uma vergonha. O CHEGA com esta campanha anti-Moedas, perdeu, na minha opinião, muitos potenciais eleitores em Lisboa e não só. Pergunto à Maria João que conhece o Pinto Balsemão, como é que ele consegue suportar um comuna como o Ricardo Araújo Pereira que ganha a vida a malhar na direita. Há muito melhor e muito mais criativos no humor em Portugal que mereciam uma oportunidade, malta que tanto faz humor com a esquerda como com a direita, aliás, até sabe fazer humor com a figura deles próprios. Há uma moça alentejana que por vezes me aparece no TikTok, que, na minha opinião, tem muito mais piada do que o comuna. Porque o Balsemão não dá oportunidades a outros humoristas que primam pela isenção ideológica e dá tempo ao Ricardo Araújo Pereira para actuar na Festa do Avante que é onde ele genuinamente pertence. Não se percebe.        Paulo Cunha > A. Samora: Dois bons comentários, o de MJA e o seu, parabéns!!!           Luis Pombo: Muito bem. Uma contadora de histórias brilhante, envolve-nos como se de um livro se tratasse, uma analista de eleição, com uma elegância na escrita e no pensamento digna de registo. Parabéns.                    Henrique Mota > A. Samora: Parabéns. Pode ser que no afã de imitar o Chega a oposição socialista esteja a dar um tiro no pé.               Manuel Magalhaes: Marcelo foi e é das piores coisas que aconteceram neste pobre país, como tal vá de cinicamente abraçar o socialismo…

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