Mas outras virão de triste feição, o
mundo avançando em perdição, sem um até quando de predição menos sombria…
E a França que amamos já tanto viveu e
esclareceu… Por vezes em crise, mas sempre brilhando no radioso do que nos deu…Não,
não pode sucumbir nem sacudir-se, a lançar clarões de destruição.
Será Paris o epicentro da próxima crise
europeia?
Uma eventual agudização da crise de
confiança em França teria impacto directo na Zona Euro e inevitavelmente em
Portugal, pela via do agravamento dos custos de financiamento.
PAULO MONTEIRO
ROSA Economista Sénior Banco Carregosa
OBSERVADOR, 13 set. 2025, 00:167
A França enfrenta um dos períodos mais delicados da sua história
recente em termos de contas públicas. A
dívida oficial atingiu 3345 mil milhões de euros no primeiro trimestre de 2025,
quase 115% do PIB nominal, segundo o critério de Maastricht, que engloba não só
as Obrigações do Tesouro a Médio e Longo Prazo (OAT), mas também os Bilhetes do
Tesouro a Curto Prazo (BTF), as emissões indexadas à inflação e a dívida da
segurança social e das administrações locais.
As OAT, por si só, somam 2557 mil
milhões de euros, de acordo com dados da Bloomberg, e a situação agrava-se com a forte
concentração de vencimentos entre 2025 e 2032, totalizando mais de 1500 mil
milhões de euros, cerca de 60% do total, que terão de ser pagos ou, muito
provavelmente, refinanciados em condições de mercado hoje bem mais exigentes do
que há poucos anos. Em 2020, o Tesouro francês chegou a
financiar-se a taxas negativas, mas atualmente o serviço da dívida absorve uma
fatia crescente do orçamento do Estado.
A instabilidade política tem-se
intensificado. Nos últimos
três anos, cinco primeiros-ministros foram afastados. Desde 1958, início da
Quinta República, raras vezes um governo caiu por rejeição de uma moção de
confiança, evidenciando a excepcionalidade, o peso político e as consequências
de uma decisão desta natureza. A despesa pública francesa é,
em grande medida, rígida: pensões, saúde, educação e salários da função pública
constituem compromissos permanentes, difíceis de cortar sem gerar forte
contestação social. Foi precisamente uma tentativa de consolidação
orçamental através de cortes de despesa que precipitou a queda do governo
Bayrou na Assembleia Nacional. Por outro lado, recorrer a aumentos
de impostos para reduzir o défice deixou há muito de ser uma solução
viável. A economia francesa parece situar-se já na parte
descendente da Curva de Laffer, onde qualquer subida adicional dos impostos não
só gera menor receita arrecadada, como também penaliza a atividade económica.
O crescimento anémico da economia
francesa limita a capacidade de arrecadação fiscal num contexto de
desaceleração estrutural e de perda gradual de relevância no panorama mundial. A este quadro interno negativo de França
junta-se um ambiente
externo igualmente desfavorável. A guerra na Ucrânia impõe a necessidade de reforçar os
orçamentos de defesa, enquanto as tensões
comerciais com os EUA acrescentam
ainda mais incerteza. Assim, a segunda maior economia da Zona Euro
encontra-se numa encruzilhada num momento em que a estabilidade é determinante
para o bloco europeu.
O
spread das obrigações francesas face às alemãs subiu de 65 para 80 pontos base
desde agosto, reflectindo maior incerteza. Poderá
alcançar os 100 pontos base se o défice se mantiver elevado e a instabilidade
política persistir. Num cenário extremo, como uma eventual demissão
presidencial, poderia mesmo subir até 150 pontos base, níveis não vistos desde
a crise da dívida soberana europeia
(2011), o que forçaria uma eventual intervenção do BCE, sobretudo se
coincidisse com uma crise mais ampla e risco de contágio.
As agências de rating acompanham de
perto a sustentabilidade das finanças públicas francesas, e não são de excluir
revisões em baixa da notação de crédito, dos actuais AA- para A+, encarecendo o
financiamento e penalizando a percepção de risco por parte dos investidores.
Uma
eventual agudização da crise de confiança em França teria impacto directo na
Zona Euro e inevitavelmente em Portugal, pela via do agravamento dos custos de
financiamento. A resposta do BCE, através de cortes nas taxas directoras
ou de novos mecanismos de apoio, seria, nesse cenário mais pessimista, crucial
para conter riscos de contágio, mas, em boa verdade, só reformas estruturais em França
garantem sustentabilidade a médio prazo.
COMENTÁRIOS:
David Pinheiro: Caro Paulo Rosa, bem-vindo ao Observador. Espero que continue
entre nós, pois os seus artigos (e respectivos gráficos) são lapidares. Luís Martins: O mundo vai acabar! São os
mísseis supersónicos do Putin, é a bancarrota francesa, são os drones na
Polónia, é o Trump e Taiwan, é o último desfile chinês com armamento com
tecnologia de ponta. Bora aproveitar os últimos dias de vida, beber um cocktail
e dar uns mergulhos!!! Kindu: Quando
foi dos Gilets Jaunes um dos cabecilhas era aquele português que ficou sem um olho.
Ouvi-o a falar para a televisão. A vida está cada vez mais cara, o gás, a
electricidade, etc, etc, e o gasóleo de aquecimento agora aumentou para €€€, é
impossível pagar isto. Com o valor que ouvi, fui comparar com o preço em
Portugal. Era pouco mais de metade do que nós pagamos. Quer dizer, os franceses
não fazem uma ideia de como se vive em Portugal, na Polónia, na Bulgária, na
Grécia. E de certeza que se vive pior do que em França. Kindu: E as oposições não propõem nada de credível, só demagogia. Hão de
chegar ao poder, e depois é que vamos ver. José Carvalho: Troika com eles. Isso não é só
para alguns. Senão que raio de Europa é esta em que uns são “penalizados”
obrigando os seus cidadãos a esforços de austeridade e outros não. Luis Nunes de Matos: No cenário actual não encontro
solução sem uma grande convulsão. Lúcia Nunes: Excelente artigo, uma análise
bem estruturada.
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