Se poderemos contar com uma segunda
volta. Também me lembro dessa altura da regionalização, e o quanto isso
significava para mim de abandalhamento nacional. Ainda bem que MJA o recorda e
nos diz quem foi o salvador da afronta.
Uma não surpresa (e a minha homenagem
a Ernâni Lopes)
Há grandes diferenças desta eleição,
mas não antecipo: tanto poderemos estar ainda diante de cenários que nos são há
muito familiares, como face a protagonistas que nunca imaginaríamos nesta
“pele”.
MARIA JOÃO AVILLEZ Jornalista,
colunista do Observador
OBSERVADOR, 17 set. 2025, 00:2217
1Era previsível, não poderia ser de outra
maneira.
Não percebi por isso para qual “país”
seria “mau sinal” o facto de o líder da oposição entrar na passadeira
rolante para Belém. Conforme
antecipava há dias um responsável na Convenção do Chega “a realidade diz que
não há outra solução”!
Nada que não soubéssemos: o
Chega não dispõe de quadros para empreitada. Não indo pescar fora das suas águas
territoriais – o que chegou a ser aflorado internamente –, e sabendo-se não haver por ali nenhum understudy do
líder (se houvesse já tínhamos dado por isso), nunca esteve para não ser Ventura: muitos “teatrinhos” e
ensurdecedores ruídos mediáticos depois, André Ventura subiu
para a passadeira rolante.
2Admito porém – facilmente e sem fastio –
que apesar da vozearia costumeira com que
o Chega assina tudo o que faz, a decisão não tenha sido leve: lidar com um Chega dividido entre um
“ir “ou “não ir”? Ficar “out”
roubando ao partido uma representação oficial que ninguém compreenderia num bom
momento da sua curta vida? Arriscar uma votação vexatória que carregasse de
entulho o caminho para a “estrada de S. Bento”, meta na qual Ventura aposta a
sua vida?
Sem surpresa porém, e sem novidade, ficou decidido: Ventura sempre
ele.
O que não sei é se alguém normalmente
constituído está preparado política e civicamente para o que aí vem, nas
diversas etapas daqui até Janeiro: eleições autárquicas já; consequências
do seu resultado nos partidos; pré-campanha eleitoral para Belém; campanha para
a primeira volta presidencial; e na segunda, uma divisão do país não se sabe
com que geometria política.
Não
que formalmente as coisas sejam muito diferentes – hábitos,
normas, rituais, regras – do que
vimos e vivemos durante meio século. A primeira diferença – essa sim
nova e fortíssima, é a fragmentação inaudita de todo espaço à direita
do socialismo; e, do outro lado, um PS manietado pela própria indecisão/
hesitação/fragilização/descaracterização e uma extrema-esquerda em estado
anímico e político deploráveis. A segunda diferença – mas talvez a maior diferença –
é obviamente a entrada em cena
de um outsider supostamente vindo de fora do sistema – mas só supostamente – e
militar. Isto é, educado, formado e formatado desde cedo para
outras funções que não – de todo – a política. Em cima deste bolo uma
cereja que também não sabemos se é virtuosa nem venturosa.
3E no entanto, e ao contrário do que já
se diz, todas as combinações são
possíveis – são, são – numa segunda volta. Apontei as grandes
diferenças desta eleição, mas não antecipo: tanto
poderemos estar ainda diante de cenários que nos são há muito familiares, como
face a protagonistas que nunca imaginaríamos nesta “pele” e coordenadas
políticas com as quais nunca lidámos.
Sim, falta tempo (sempre dei
tempo ao tempo), vai ser preciso olhar e ouvir. Os candidatos têm andado
por ai, percorrem o país de-lés-a-lés; intervêm
em escolas, instituições, associações, universidades, fábricas, empresas,
cantinas, encontros para todos os gostos, idades e interesses mas… falta
ir ao osso do país: o que é Portugal para cada um deles, que contam fazer com
ele e dele. E como, num tempo geopolítico de que somos os atónitos e
inquietos contemporâneos.
Em duas palavras: em nome de quê
exactamente os devemos eleger? Eis a única coisa que – julgo – verdadeiramente
interessa.
4Sobre Ernâni Lopes e o seu
livro é um costume nosso: deixar que após grandes
portugueses se terem despedido do mundo envoltos em elogiosas condolências caia
sobre eles um grande, silencioso silêncio.
Ernâni Lopes acaba de ser resgatado
desse esquecimento. Agora há “o” livro.
Em boa hora juntaram-se vontades – e como se sabe a vontade é o único motor
fidedigno de uma boa iniciativa. Um sólido e esclarecido grupo de grandes
amigos e ex-colaboradores próximos, meteram mãos à melhor das obras: recordar o cidadão Ernâni Lopes através
dele mesmo. Do
que pensou, criou, acreditou, fez, decidiu, agiu, interveio, ensinou. Do que
serviu, numa palavra, e contado por ele mesmo através do que deixou escrito. O livro
chama-se “Ernâni Lopes, Vida e
Pensamento”, é uma
magnifica Edição da Universidade Católica e ainda bem que vontades concertadas se ocuparam em trazer até nós a
memoria de um excepcional servidor.
Os livros são os melhores “aide-mémoire”
que se possa idealizar: conservam o verbo, o gesto, a iniciativa, a decisão, as
escolhas, o caminho de alguém. Ernâni está todo neste livro.
E ainda mais do que “assistir” do céu à
cerimónia digníssima da apresentação da obra; de ter ouvido um escol de inspirados oradores; o que deve ter
comovido mais este homem de fé foi ouvir um desses oradores em particular: o
seu neto Vicente, hoje Jesuíta.
A vida às vezes encena bem as coisas.
Não posso dizer que conheci
profundamente Ernâni Lopes, mas o suficiente para me aperceber com
quem me ia cruzando. O primeiro encontro constituiu em si uma surpresa para a jovem jornalista que eu era: o
embaixador de Portugal em Bona (onde
ele esteve entre 1975/1979) convidava-me para almoçar consigo na então
capital da Alemanha. Sentados apenas os dois a uma larga mesa, começou por me
parecer quase só um cavalheiro de boas
maneiras, demasiado austero, demasiado sério, demasiado rígido, mas com
pouco mais de trinta anos ainda se fazem confusões destas. Foi o caso.
Depois a vida e a
profissão – entrevistei-o para o
Expresso em 1983 entre outros vários encontros – fizeram-me alcançar o
essencial: o homem de valores.
Eram eles os seus pontos cardiais, era dessa raiz que nasciam as suas
convicções, foi com eles que oficiou o economista, o diplomata, o político, o ministro, o professor, o
pedagogo, o humanista. O
servidor ético. Sim, isto tudo. Mas “nisto tudo “ainda falta alguma
coisa – quem diria? – mas sucede que
essa “coisa” não é senão a essencial porque explica tudo o resto: falta o cristão de inabalável fé, o homem
de família, o grande patriota. E quem diz isto diz o que foi Ernâni Lopes.
Deixo a (minha) melhor recordação
para o fim: tive a honra de
ter “servido” como “soldada” de um – sério! – exército cívico do qual ele foi o
grande General. O combate era o da Regionalização,
o exército chamava-se Movimento Portugal
Único (foto em baixo) e o movimento foi um dia de Maio de 1998 lançado
em Coimbra pelo próprio Ernâni. O exército (que teve o privilégio de
contar com Vítor
Cunha Rego nas suas fileiras) bateu-se arduamente,
país fora, pelo “não” à Regionalização no referendo de 1998. O combate para Ernâni Lopes significou sempre defender a pátria. E assim o general se comportou durante
meses, guiando as tropas que que o seguiam porque o respeitavam antes do mais.
Ganhámos. Obviamente, muito graças ao
“nosso general”.
Logo
a seguir à vitória, convocou-nos para uma missa em Vila Viçosa, de acção de
graças a Nossa Senhora da Conceição, Padroeira de Portugal. Muitos de nós
foram, mas não sei quantos perceberam que ali havia qualquer coisa de místico…
Mas há algo que sei: este tempo e este combate liderado pelo Ernâni
constituem uma das minhas melhores recordações, e certamente muito mais pessoal
do que profissional ou cívica. Inesquecível. Também dou graças a Deus.
PRESIDENCIAIS 2026 ELEIÇÕES POLÍTICA
ANDRÉ VENTURA PARTIDO CHEGA
COMENTÁRIOS (de 17)
Jacinto Leite: O mundo socialista que criamos
está à beira da falência. De novo. Alexandre
Barreira: Pois. Cara MJA, O Dr. Ernâni Lopes foi Um dos grandes "obreiros" Do processo de adesão de Portugal. À Comunidade Económica
Europeia. Durante o Governo do seu "grande amigo". Dr. Mário Soares.....! Albino Mendes: Agora sim, temos um candidato
que poderá devolver a dignidade à instituição presidência da República. Ricardo Ribeiro: Belo texto e sentida e justa
homenagem a um dos melhores servidores públicos da era democrática. Parabéns! Jorge Barbosa: Homenagem muito merecida a um
dos mais notáveis professores e políticos do pós", 25 de abril". Rui Pedro Matos: Infelizmente, a falta de
quadros...coitadinhos dos outros que não estão na BOLHA da elite de lisboa (com
éle minúsculo)! Coitadinhos dos apoiantes do Partido CHEGA porque não são
urbanos e citadinos e não utilizam expressões castas! Enfim, d. Maria João....é o
que será e vamos olhar os resultados! Ricardo Ribeiro > Albino
Mendes: Embora o prefira ver como candidato a 1º ministro, para mim é claramente o
melhor candidato. Tem o meu voto. Luis Freitas: Fui agora ao YouTube relembrar
na minha opinião a melhor entrevista e a melhor avaliação de sempre da economia
portuguesa da sociedade e futuro de Portugal. Pesquisem pelo nome Ernani
Lopes e: O futuro de Portugal. Ernani Lopes foi um grande senhor, exemplar tanto na
política como na economia ou como professor tenho muitas saudades do Ernani
Lopes e muitos outros como por exemplo do Dr Medina Carreira, eles
bem avisaram as consequências da péssima gestão dos nossos governantes, da
gatunagem da corrupção etc , mas o povo continua a dar sempre o voto a quem pôs
Portugal na cauda da Europa. O povo português tem tudo o que merece. graça Dias > Jacinto
Leite: Esse "mundo" do
socialismo/ comunismo por enquanto está ao som da " Orquestra"
mas...irá mais à frente viver o seu próprio "Titanic". Baltazar Mateus: E o grande governo sombra do
Chega deixou de ser tema para os media? One men show. JOHN MARTINS: Cara Maria João, Quanto ao candidato do Chega sempre a mesma
certeza. O candidato inevitável. Como a chuva em janeiro. E o governo sombra de
Ventura, quando vê a luz do dia? Ou será que o Chega não chega para mais? Por
isso. Sempre ele!!!
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