quarta-feira, 3 de setembro de 2025

Não obstante


A excelência deste estudo de PATRÍCIA FERNANDES, naturalmente assente numa análise de modernidade social que os estudos científicos e sociológicos favorecem, o sentimento que esses provocam em mim são os de aversão e repugnância contra o que me parece resultar antes, de um pedantismo rebuscado e diferenciador, tendente a desvirtuar uma realidade única, mau grado as anomalias ocasionais, que as movimentações de gente esfomeada em Gaza, ou outras provocadas pelos traços de um poder ditado por deformações da moral tornam irrisório, num mundo de contrastes e diversidades mas seguidores de uma natureza ordeira sem a participação humana prévia, na sua formulação inicial. Todos estes maquiavelismos que falseiam a realidade – como essa frase exibicionista de Simone de Beauvoir, chamariz imediato da atenção universal (tant mieux pour elle, que bem merece a fama) – “On ne naît pas femme on le devient” – pela responsabilização social na construção dos sexos, contrariando uma realidade biológica que, essa sim, ditou a diferenciação dos comportamentos, me fazem pensar que, mau grado a evolução nos conceitos, a realidade da Criação é uma só, para a qual o Homem não foi tido nem achado. A Esse cabe apenas o papel de intérprete, segundo parâmetros que a sua inteligência formula, sem bem ter a certeza do que propõe, os conceitos evoluindo, em espiral, talvez.

Um género de atirador

Não deve ser usada a palavra “atiradora” para descrever um rapaz – cujos problemas mentais foram, muito provavelmente, negligenciados com a cobertura da identidade de género.

PATRÍCIA FERNANDES Professora na Escola de Economia e Gestão da Universidade do Minho

OBSERVADOR, 01 set. 2025, 00:1722

1. A ilusão da utopia

É possível que a palavra que melhor enforma o espírito da modernidade e a sua ampla confiança na ideia de progresso seja a palavra utopia. Não foi ela criada no início do século XVI por Thomas More para retratar a ambição humana de criar um lugar que, dotado de instituições justas e perfeitas, garantiria a felicidade dos homens? E não constitui este ensejo o propósito da modernidade?

É verdade que muitos recuam até Platão para traçar uma tradição utópica, encontrando n’A Repúblicaum exemplo mais antigo de utopia. Mas mesmo aqui, a sofiocraciao melhor dos governos, que seria, para Platão, o governo dos sábiosacabaria por degenerar em outras formas menos boas, de acordo com o espírito cíclico do pensamento grego. Os modernos são diferentes.

Para o pensamento moderno, a utopia seria um estádio final – aquele para o qual devemos gradual ou revolucionariamente caminhar e cuja distância é medida pela noção de progresso. Seria possível, assim, aperfeiçoar continuamente as instituições até acabar com as injustiças e as desigualdades. E perante as vozes cépticas que questionavam se uma natureza decaída e imperfeita poderia garantir a utopia (dúvida que o próprio More expressou com a palavra u-topos, não lugar), começou a germinar a ideia de que não haveria uma natureza humana e que, por isso, não haveria limites nem condicionamentos ao que podemos fazer.

Ao longo do século XX, estas ideias foram amadurecidas pelo princípio de que tudo é construção social, o que significaria que nasceríamos como páginas em branco – a chamada teoria da “blank slate” ou tábua rasa – e tudo seria resultado de socialização.

O mesmo é dizer: todos os problemas do mundo resultariam de formas de socialização erradas, instituições mal organizadas e políticas públicas insuficientes. Mas todos esses males poderiam ser resolvidos politicamente.

2. A ilusão da construção social

Como acontece frequentemente com as ideias filosóficas, o seu problema reside no facto de serem interessantes no mundo das ideias, mas falharem no mundo real. Neste caso, não só os grandes projectos utópicos que foram tentados falharam em toda a linha, como o conhecimento que temos adquirido sobre o homem, o modo como pensamos e por que razão agimos como agimos – e que vem de áreas como a antropologia, a biologia, a psicologia e o pensamento evolutivo – tem demonstrado quea página em branconão existe.

É verdade que não estamos totalmente determinados pelas condições naturais e evolutivas e parecemos ter algum espaço para o livre-arbítrioao contrário do que defende, por exemplo, Robert Sapolsky. Mas estamos, sem dúvida, condicionados não só por um corpo que resultou de um processo adaptativo, como também o modo como obtemos informação, pensamos e decidimos resulta de mecanismos evolutivos e traços de personalidade que não escolhemos.

Os vieses cognitivosamplamente estudados pela psicologia cognitivademonstram precisamente isso: são resultado de mecanismos adaptativos para aumentarmos a nossa probabilidade de sobrevivência e reprodução. (Não deixa de ser curioso como tantos crentes na construção social insistem em recomendar livros como Os perigos da percepção, a quem discorda de si, sem reconhecer que este tipo de leituras desmonta precisamente a teoria de que tudo é construção social.)

Como quase sempre acontece na história do conhecimento humano, a resposta parece encontrar-se a meio: para melhor compreendermos os humanos e a sua relação com o mundo deveríamos pensar nos homens como folhas rascunhadas”, para usar a expressão de Jonathan Haidt. Não somos um produto pré-determinado, mas estamos condicionados por um conjunto de factores, que resultam da biologia e da psicologia e, em larga medida, esses factores podem ser explicados com recurso ao pensamento evolutivo.

É verdade que isto significa aceitar a existência de um conceito absolutamente antimoderno: a ideia de limites. Na realidade, e contra o que Manuel Maria Carrilho denuncia como o paradigma do ilimitado, há limites ao que podemos fazer social e politicamentenão é tudo construção social – e se insistirmos em desprezar essa realidade e o conhecimento que fomos acumulando a esse respeito, ficamos condenados a falhar repetidamente e a criar situações particularmente perversas. E nos últimos anos, em nenhuma área isso se tornou tão evidente como na discussão em torno do sexo.

3. A ilusão do género

Quando, a meio do século XX, se popularizou a ideia de Simone de Beauvoir de que não se nasce mulher, mas nos tornamos mulheres, inaugurou-se o princípio da construção social aplicada ao sexo. A ideia seria a de que não nascemos nem homens nem mulheres, mas que nos tornamos socialmente homens ou mulheres em resultado de regras e condicionamentos sociais que levam a que homens e mulheres se comportem de acordo com códigos de conduta distintos. A palavra “género” em muitas línguas passou, assim, a ser usada para afastar a realidade biológica (o sexo) e consagrar a ideia de que não há qualquer relação entre sexo biológico e modos de pensamento e acção tipicamente femininos ou masculinos. E ao longo da segunda metade do século XX, esta ideia foi-se expandindo com a introdução da noção de performatividade: tudo seria construção social e performance (como um papel que desempenhamos socialmente) e, em última instância, caberia ao indivíduo, dentro do seu espaço de decisão e liberdade, escolher a sua identidade de género (numa versão pop do pensamento mais complexo de Judith Butler). Contra este argumentário, muitas pessoas têm apelado, e bem, ao bom senso como estratégia política. Mas bastaria usar argumentos científicos. Como explicam aqui os biólogos Richard Dawkins e Colin Wright, não falamos em dois sexos de forma arbitrária: nas espécies que se reproduzem sexualmente, existem apenas dois tipos de gâmetas ou células sexuais (é um sistema binário); um é de maior dimensão (nos humanos, óvulos que determinam o sexo feminino), outro de menor dimensão (nos humanos, espermatozoides que determinam o sexo masculino). É um padrão binário que se repete no mundo dos animais e das plantas, sem que haja um terceiro sexo. No contexto moderno, marcado pela liberdade individual e pela dificuldade em lidar com a ideia de limites, não é fácil aceitar que há coisas que não resultam da nossa escolha. Mas isso não altera a realidade: a identidade sexual não é uma escolha nossa e não pode ser alterada; mais do que isso, essa identidade sexual condiciona o modo como nos comportamos (v. Diana Fleischman, Steven Pinker, Jared Diamond). Não estamos totalmente determinados por ela (vale sempre a regra da distribuição normal), mas ela condiciona-nos em múltiplos aspetos e, nessa medida, o género não é só uma construção social: os nossos comportamentos sociais, aquilo que valorizamos e o modo como reagimos e tomamos decisões são condicionados pela nossa identidade sexual. E como sexo e género estão interrelacionados (de formas diferentes em cada pessoa), é importante não nos deixarmos enveredar por narrativas ficcionais da identidade de género: elas impedem-nos de compreender o mundo, identificar problemas e tentar, na medida do possível, resolvê-los. A verdade é que homens e mulheres tendem a comportar-se de maneiras diferentes e a cometer, nessa medida, tipos diferentes de criminalidade e violência – o que é particularmente evidente no caso dos “mass shootings” (dados dos Estados Unidos, onde o fenómeno é pungente). É por essa razão que não deve ser usada a palavra “atiradora”, como aconteceu com algumas peças jornalísticas, para descrever um rapazcujos problemas mentais foram, muito provavelmente, negligenciados com a cobertura da identidade de género. Não estamos apenas a faltar à verdade factual, mas estamos, sobretudo, a impedir uma correcta compreensão deste tipo de violência e do modo como alguns grupos tendem a ser instrumentalizados por certos movimentos. Em particular, não nos permite pensar em medidas que possam, de modo eficaz, evitar que mais crianças sejam mortas em circunstâncias semelhantes.                

IDENTIDADE DE GÉNERO       SOCIEDADE       FILOSOFIA        CULTURA

COMENTÁRIOS (de 24)

 Carlos Chaves: Nisto, os “Putins” e os fundamentalistas islâmicos têm razão, uma grande parte das sociedades ocidentais estão doentes, e gravemente doentes!               Hugo França: Uma excelente abordagem ao tema e com a maior lucidez possível acerca do mesmo. Gostava no entanto de acrescentar apenas uma nota. Na natureza e no que toca a biologia, existem de facto seres hermafroditas, portanto, portadores dos dois órgãos sexuais. O que é essencial para certas espécies se reproduzirem, sejam elas plantas ou animais, mas não tanto para o ser humano. Ou seja, enquanto essas espécies utilizam essa condição como modo de sobrevivência e desenvolvimento, o hermafrodita humano não tem essa capacidade, daí se atribuir o termo "intersexo". Onde eu quero chegar com isto, é que por norma não são esses casos raros, raríssimos da genética humana, que vemos justificados na praça pública na defesa de todas estas "pseudo-condicionantes", como tão bem afirma a cronista. Mas esses sim, os menos raros e que padecem de interpretações tão angelicais, deveriam ser a prioridade no que toca ao acompanhamento médico psicológico e psiquiátrico, diria eu, subscrevendo as palavras da caríssima Patrícia Fernandes.            Jorge Espinha: Envie a crónica aos analfabetos que trabalham na redacção do Observador. Diga-lhes que alguém com testículos não pode ser uma pessoa que menstrua                  Luis Fernandes Machado: A propósito, há um outro ponto relevante que é da linguagem e de que para ela serve. Há dias, o Observador publicou um artigo sobre este atirador/atiradora que se tornou difícil de ler porque, sabendo eu que se tratava de um "atirador", o jornalista designou-a sempre por "atiradora" o que foi extramente confuso até ao último parágrafo em que, realmente, o jornalista explicou o contexto. Ora, a linguagem é um desenvolvimento (e até ver, uma exclusividade e uma vantagem competitiva) do ser humano para se conseguir entender e agir em conjunto. Se caçarmos em grupo, precisamos todos estar a alinhados que vamos atrás do búfalo e isso é possível porque todos lhe chamam o mesmo. Porém, se uns lhe chamam bufalo, outros pato, outros sobreiro, vai ser impossível percebermos do que estamos a falar. (Para quem é vegetariano, pode substituir caça ao búfalo por apanhar bagas, que dá no mesmo). Ora, a linguagem é essencial para nos entendermos: ela vem jantar, eles vão lá ter, elas vieram à festa, ela sabe isso, permite-nos não só saber o quê, mas identificar quem e isso é fundamental na nossa vida. Se me disserem "faz conta com ele" é diferente de dizer "faz conta com elas". São de um género diferente, são quantidades diferentes, são contextos diferentes, podem até ser acções diferentes - eu sei que ele vem hoje jantar mas que elas vêm para a semana na viagem. Infelizmente, como já o foram no passado os trabalhadores ou os "só" homossexuais ou a globalização, a transsexualidade, a palestina, o clima, etc, há uma franja política que procura avidamente todos os assuntos que lhe permitam gerar desestabilização para que, desprezando os verdadeiros interessados ou mesmo vitimas, possam seguir a sua agenda ideológica.                 D. Garcia: Sinceramente não me afecta nada o facto de o rapaz se sentir rapariga ou vice versa. Isso para mim é absolutamente secundário embora respeite e entenda que há casos que têm que haver ajuda psicológica . O que me afecta muito é o rapaz/rapariga entender que podia resolver o seu problema existencial gritando para crianças dos 8 aos 12 anos católicas : «Israel têm que cair» para depois se suicidar ... Isso sim, afecta-me muito, porque se calhar não teve nada a ver com disforia sexual mas antes com lavagens de cérebro politico/religiosas actuais...                 Paul C. Rosado: Excelente. A roçar a perfeição, como síntese deste problema. A Biologia e Psicologia Evolutivas deveriam ser ensinadas nas escolas, para que se entendesse como o mundo de facto funciona, em vez do lixo que é a disciplina de "cidadania", ou a psicologia mainstream, e os pós modernismos, que enxameiam tudo e trazem a mentira e a miséria às sociedades.                      Óscar gomes: Muito bem escrito, fundamentado e analisado. Pena é que muitos nos queiram impingir conceitos sociais e, lembrando VPV, - a sociologia é uma mistura de socialismo com astrologia - e não discutir conceitos biológicos conhecidos e reconhecidos há milhares de anos fundados na ciência - a biologia. Querem-nos impingir que a minoria é igual á maioria...Só os Totós acreditam.                       Carlos Chaves > Luís Fernandes: Caro Luís Fernandes, é claro que sim tem toda a razão, longe de mim defender terroristas e ditadores sanguinários! Só quis dar o exemplo de como estamos errados na nossa sociedade ocidental, em relação ao assunto em discussão, e acrescento que é urgente atalhar caminho!                  Daniel José > D. Garcia: os país deviam ser responsabilizados                       GateKeeper: Top 20.               José Paulo Castro: Só conheço dois géneros arquétipos de atirador - evidentemente sujeitos a uma distribuição normal - que são 1) os que acertam e 2) os que não acertam. Quanto ao género sexual associado à condição de se ser atirador de tiroteio em massa, esse é estatisticamente um só e apenas masculino. Não é opinião: são os dados. Dentro desses dados temos como exemplo limite de tipo 1) alguém que acerta na orelha de Trump. Exemplo máximo é, naturalmente, Jack Ruby. De tipo 2) temos alguns exemplos que nunca saberemos. Só se ouviram tiros.

 

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