A excelência deste estudo de PATRÍCIA FERNANDES, naturalmente assente
numa análise de modernidade social que os estudos científicos e sociológicos
favorecem, o sentimento que esses provocam em mim são os de aversão e repugnância
contra o que me parece resultar antes, de um pedantismo rebuscado e diferenciador,
tendente a desvirtuar uma realidade única, mau grado as anomalias ocasionais,
que as movimentações de gente esfomeada em Gaza, ou outras provocadas pelos
traços de um poder ditado por deformações da moral tornam irrisório, num mundo
de contrastes e diversidades mas seguidores de uma natureza ordeira sem a participação
humana prévia, na sua formulação inicial. Todos estes maquiavelismos que falseiam
a realidade – como essa frase exibicionista de Simone de Beauvoir, chamariz imediato da atenção universal (tant mieux pour
elle, que bem merece a fama) – “On ne
naît pas femme on le devient” – pela responsabilização social na construção
dos sexos, contrariando uma realidade biológica que, essa sim, ditou a
diferenciação dos comportamentos, me fazem pensar que, mau grado a evolução nos
conceitos, a realidade da Criação é uma só, para a qual o Homem não foi tido
nem achado. A Esse cabe apenas o papel de intérprete, segundo parâmetros que a
sua inteligência formula, sem bem ter a certeza do que propõe, os conceitos evoluindo,
em espiral, talvez.
Um género de atirador
Não deve ser usada a palavra
“atiradora” para descrever um rapaz – cujos problemas mentais foram, muito
provavelmente, negligenciados com a cobertura da identidade de género.
PATRÍCIA FERNANDES Professora na
Escola de Economia e Gestão da Universidade do Minho
OBSERVADOR, 01 set. 2025, 00:1722
1. A ilusão da utopia
É possível que a palavra que melhor
enforma o espírito da modernidade e a sua ampla confiança na ideia de progresso
seja a palavra utopia. Não foi
ela criada no início do século XVI
por Thomas More para retratar
a ambição humana de criar um lugar que, dotado de instituições justas e
perfeitas, garantiria a felicidade dos homens? E não constitui este ensejo o
propósito da modernidade?
É
verdade que muitos recuam até Platão para traçar uma tradição utópica, encontrando n’A Repúblicaum exemplo mais antigo de utopia. Mas mesmo aqui, a sofiocracia – o melhor dos governos, que seria, para
Platão, o governo dos sábios – acabaria
por degenerar em outras formas menos boas, de acordo com o espírito cíclico do
pensamento grego. Os modernos são diferentes.
Para
o pensamento moderno, a utopia seria um estádio final – aquele para o qual
devemos gradual ou revolucionariamente caminhar e cuja distância é medida pela
noção de progresso. Seria
possível, assim, aperfeiçoar continuamente as instituições até acabar com as
injustiças e as desigualdades. E perante as vozes cépticas que
questionavam se uma natureza decaída e imperfeita poderia garantir a utopia
(dúvida que o próprio More expressou com a palavra u-topos, não lugar), começou a
germinar a ideia de que não haveria uma
natureza humana e que, por isso, não haveria limites nem condicionamentos
ao que podemos fazer.
Ao longo do século XX, estas ideias
foram amadurecidas pelo princípio de que
tudo é construção social,
o que significaria que
nasceríamos como páginas em branco – a chamada teoria da
“blank slate” ou tábua rasa – e tudo
seria resultado de socialização.
O mesmo é dizer: todos os problemas
do mundo resultariam de formas de socialização erradas, instituições mal
organizadas e políticas públicas insuficientes. Mas todos esses males poderiam
ser resolvidos politicamente.
2. A ilusão da construção social
Como
acontece frequentemente com as ideias filosóficas, o seu
problema reside no facto de serem interessantes no mundo das ideias, mas
falharem no mundo real. Neste caso, não
só os grandes projectos utópicos que foram tentados falharam em toda a linha,
como o conhecimento que temos adquirido sobre o homem, o modo como pensamos e
por que razão agimos como agimos – e que vem de áreas como a antropologia, a
biologia, a psicologia e o pensamento evolutivo – tem demonstrado que “a página
em branco” não existe.
É verdade que não estamos totalmente determinados pelas condições naturais e
evolutivas e parecemos ter algum espaço para o
livre-arbítrio – ao contrário
do que defende, por exemplo, Robert Sapolsky. Mas
estamos, sem dúvida, condicionados não só por um corpo que resultou de um processo adaptativo, como
também o modo como obtemos informação, pensamos e decidimos resulta de
mecanismos evolutivos e traços de personalidade que não escolhemos.
Os vieses cognitivos – amplamente estudados pela psicologia
cognitiva – demonstram precisamente isso: são
resultado de mecanismos adaptativos para aumentarmos a nossa probabilidade de
sobrevivência e reprodução. (Não deixa de ser curioso como tantos crentes na
construção social insistem em recomendar livros como Os
perigos da percepção, a quem discorda de si, sem reconhecer que este tipo de leituras
desmonta precisamente a teoria de que tudo é construção social.)
Como quase sempre acontece na
história do conhecimento humano, a resposta parece encontrar-se a meio: para
melhor compreendermos os humanos e a sua relação com o mundo deveríamos pensar
nos homens como “folhas rascunhadas”, para
usar a expressão de Jonathan Haidt. Não somos um produto pré-determinado, mas estamos condicionados
por um conjunto de factores, que resultam da biologia e da
psicologia e, em larga
medida, esses factores podem ser explicados com recurso ao pensamento
evolutivo.
É verdade que isto significa
aceitar a existência de um conceito absolutamente antimoderno: a ideia de limites. Na realidade,
e contra o que Manuel Maria Carrilho denuncia como
o paradigma do ilimitado, há
limites ao que podemos fazer social e politicamente – não é tudo
construção social – e se
insistirmos em desprezar essa realidade e o conhecimento que fomos acumulando a
esse respeito, ficamos condenados a falhar repetidamente e a criar situações
particularmente perversas. E nos últimos anos, em nenhuma área
isso se tornou tão evidente como na discussão em torno do sexo.
3. A ilusão
do género
Quando, a meio do século XX, se
popularizou a ideia de Simone de Beauvoir
de que não se nasce mulher, mas nos
tornamos mulheres, inaugurou-se o
princípio da construção social aplicada ao sexo. A
ideia seria a de que não nascemos nem homens nem mulheres, mas que nos tornamos
socialmente homens ou mulheres em resultado de regras e condicionamentos
sociais que levam a que homens e mulheres se comportem de acordo com códigos de conduta distintos. A palavra
“género” em
muitas línguas passou, assim, a ser usada para afastar a realidade biológica (o sexo) e consagrar a ideia de que não há qualquer
relação entre sexo biológico e modos de pensamento e acção tipicamente
femininos ou masculinos. E ao longo da segunda metade do século XX, esta
ideia foi-se expandindo com a introdução da noção de performatividade: tudo seria construção social e performance
(como um papel que desempenhamos socialmente) e, em última instância, caberia
ao indivíduo, dentro do seu espaço de decisão e liberdade, escolher a sua
identidade de género (numa versão pop do pensamento mais complexo de Judith
Butler). Contra este argumentário, muitas pessoas têm apelado, e bem, ao bom senso como estratégia política. Mas bastaria usar argumentos científicos. Como
explicam aqui os biólogos Richard Dawkins e Colin Wright, não
falamos em dois sexos de forma arbitrária: nas espécies que se reproduzem
sexualmente, existem apenas dois tipos de gâmetas ou células sexuais (é um sistema binário); um é de
maior dimensão (nos humanos, óvulos que
determinam o sexo feminino), outro de menor dimensão (nos humanos,
espermatozoides que determinam
o sexo masculino). É um padrão binário que se repete no mundo dos animais
e das plantas, sem que haja um terceiro
sexo. No contexto moderno, marcado pela liberdade
individual e pela dificuldade em lidar com a ideia de limites, não é
fácil aceitar que há coisas que não resultam da nossa escolha. Mas isso não
altera a realidade: a identidade sexual não é uma escolha nossa e não pode ser
alterada; mais do que isso, essa identidade sexual condiciona o modo como nos
comportamos (v. Diana
Fleischman, Steven Pinker, Jared Diamond). Não
estamos totalmente determinados por ela (vale sempre a regra da distribuição normal), mas ela condiciona-nos em múltiplos aspetos
e, nessa medida, o género não é só uma construção social: os nossos comportamentos sociais, aquilo que
valorizamos e o modo como reagimos e tomamos decisões são condicionados pela nossa identidade sexual. E como sexo e género estão interrelacionados (de
formas diferentes em cada pessoa), é importante não nos deixarmos enveredar por
narrativas ficcionais da identidade de género: elas impedem-nos de compreender
o mundo, identificar problemas e tentar, na medida do possível, resolvê-los.
A verdade é que homens e mulheres
tendem a comportar-se de maneiras diferentes e a cometer, nessa medida, tipos
diferentes de criminalidade e violência – o que é particularmente evidente no
caso dos “mass shootings”
(dados dos Estados Unidos,
onde o fenómeno é pungente).
É por essa razão que não deve ser usada a palavra “atiradora”,
como aconteceu com algumas peças jornalísticas, para descrever um rapaz
– cujos problemas mentais foram, muito provavelmente, negligenciados com a
cobertura da identidade de género. Não estamos apenas a faltar à verdade
factual, mas estamos, sobretudo, a impedir uma correcta compreensão deste tipo
de violência e do modo como alguns grupos
tendem a ser instrumentalizados por certos movimentos. Em
particular, não nos permite pensar em medidas que possam, de modo eficaz,
evitar que mais crianças sejam mortas em circunstâncias semelhantes.
IDENTIDADE DE GÉNERO SOCIEDADE
FILOSOFIA CULTURA
COMENTÁRIOS (de 24)
Carlos Chaves:
Nisto, os
“Putins” e os fundamentalistas islâmicos têm razão, uma grande parte das
sociedades ocidentais estão doentes, e gravemente doentes! Hugo
França: Uma excelente abordagem ao tema e com a maior lucidez possível acerca do
mesmo. Gostava no entanto de acrescentar apenas uma nota. Na natureza e no que toca a biologia, existem de facto
seres hermafroditas, portanto, portadores dos dois órgãos sexuais. O que é
essencial para certas espécies se reproduzirem, sejam elas plantas ou animais,
mas não tanto para o ser humano. Ou seja, enquanto essas espécies utilizam essa
condição como modo de sobrevivência e desenvolvimento, o hermafrodita humano
não tem essa capacidade, daí se atribuir o termo "intersexo". Onde
eu quero chegar com isto, é que por norma não são esses casos raros, raríssimos
da genética humana, que vemos justificados na praça pública na defesa de todas
estas "pseudo-condicionantes", como tão bem afirma a cronista. Mas
esses sim, os menos raros e que padecem de interpretações tão angelicais, deveriam
ser a prioridade no que toca ao acompanhamento médico psicológico e
psiquiátrico, diria eu, subscrevendo as palavras da caríssima Patrícia Fernandes. Jorge Espinha: Envie
a crónica aos analfabetos que trabalham na redacção do Observador. Diga-lhes
que alguém com testículos não pode ser uma pessoa que menstrua Luis
Fernandes Machado: A propósito,
há um outro ponto relevante que é da linguagem e de que para ela serve. Há dias, o Observador publicou um artigo sobre este
atirador/atiradora que se tornou difícil de ler porque, sabendo eu que se
tratava de um "atirador", o jornalista designou-a sempre por
"atiradora" o que foi extramente confuso até ao último parágrafo
em que, realmente, o jornalista explicou o contexto. Ora, a linguagem é um
desenvolvimento (e até ver, uma exclusividade e uma vantagem competitiva) do
ser humano para se conseguir entender e agir em conjunto. Se caçarmos em grupo,
precisamos todos estar a alinhados que vamos atrás do búfalo e isso é possível
porque todos lhe chamam o mesmo. Porém, se uns lhe chamam bufalo, outros pato,
outros sobreiro, vai ser impossível percebermos do que estamos a falar. (Para quem
é vegetariano, pode substituir caça ao búfalo por apanhar bagas, que dá no
mesmo). Ora, a linguagem é essencial para nos entendermos: ela vem
jantar, eles vão lá ter, elas vieram à festa, ela sabe isso, permite-nos não só
saber o quê, mas identificar quem e isso é fundamental na nossa vida. Se me
disserem "faz conta com ele" é diferente de dizer "faz conta com
elas". São de um género diferente, são quantidades diferentes, são
contextos diferentes, podem até ser acções diferentes - eu sei que ele vem hoje
jantar mas que elas vêm para a semana na viagem. Infelizmente, como já o foram
no passado os trabalhadores ou os "só" homossexuais ou a globalização, a transsexualidade, a palestina, o clima, etc, há
uma franja política que procura avidamente todos os assuntos que lhe permitam
gerar desestabilização para que, desprezando os verdadeiros interessados ou
mesmo vitimas, possam seguir a sua agenda ideológica. D. Garcia: Sinceramente não me afecta nada o facto de o rapaz se
sentir rapariga ou vice versa. Isso para mim é absolutamente secundário embora
respeite e entenda que há casos que têm que haver ajuda psicológica . O que me afecta muito é o rapaz/rapariga entender que
podia resolver o seu problema existencial gritando para crianças dos 8 aos 12
anos católicas : «Israel têm que cair» para depois se suicidar ... Isso sim, afecta-me muito, porque se calhar não teve
nada a ver com disforia sexual mas antes com lavagens de cérebro
politico/religiosas actuais...
Paul C. Rosado: Excelente.
A roçar a perfeição, como síntese deste problema. A Biologia e Psicologia
Evolutivas deveriam ser ensinadas nas escolas, para que se entendesse como o
mundo de facto funciona, em vez do lixo que é a disciplina de
"cidadania", ou a psicologia mainstream, e os pós modernismos, que
enxameiam tudo e trazem a mentira e a miséria às sociedades. Óscar
gomes: Muito bem escrito, fundamentado
e analisado. Pena é que muitos nos queiram
impingir conceitos sociais e, lembrando VPV, - a sociologia é uma mistura de
socialismo com astrologia - e não discutir conceitos biológicos conhecidos e reconhecidos
há milhares de anos fundados na ciência - a biologia. Querem-nos impingir que a
minoria é igual á maioria...Só os Totós acreditam. Carlos
Chaves > Luís Fernandes: Caro Luís Fernandes, é claro
que sim tem toda a razão, longe de mim defender terroristas e ditadores
sanguinários! Só quis dar o exemplo de como estamos errados na nossa sociedade
ocidental, em relação ao assunto em discussão, e acrescento que é urgente
atalhar caminho! Daniel
José > D. Garcia: os país deviam ser
responsabilizados GateKeeper: Top 20. José
Paulo Castro: Só conheço dois géneros
arquétipos de atirador - evidentemente sujeitos a uma distribuição normal - que
são 1) os que acertam e 2) os que
não acertam. Quanto ao género sexual associado
à condição de se ser atirador de tiroteio em massa, esse é estatisticamente um
só e apenas masculino. Não é opinião: são os dados. Dentro desses dados temos como exemplo limite de
tipo 1) alguém que acerta na orelha de Trump. Exemplo máximo é, naturalmente,
Jack Ruby. De tipo 2) temos alguns exemplos
que nunca saberemos. Só se ouviram tiros.
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