segunda-feira, 15 de setembro de 2025

Insatisfação sempre

 

Ou desejo de tudo pôr em causa, mesmo a Educação, que pode favorecer um melhor emprego, o emprego que nos deixa viver em relativa paz, goste-se ou não do que se faz. Como seria, se não trabalhássemos, e sobretudo sem os estudos favorecedores de um aumento de opções de trabalho, em busca – porque não? – do sonho de um melhor ganho? Afinal, mesmo que o não tenhamos, esse ganho, poderemos sentir-nos mais felizes com os estudos que abrem espaços de harmonia, até mesmo para melhor podermos ironizar sobre isso, ingratos que somos. Ou pedantes...

O mistério da educação (XXIII)

O emprego que me acontece ter escusa de ser uma coisa que exerço mal ou contra-vontade; mas, e mais frequentemente do que se imagina, é o modo que arranjei para pagar as contas.

Miguel Tamen Colunista do Observador, Professor(e director do Programa em Teoria da Literatura) na Universidade de Lisboa

OBSERVADOR, 14 set. 2025, 00:152

É nesta altura do ano que se garante que a educação serve para garantir empregos; e empregos melhores do que os que se teriam se a educação não tivesse tido lugar. A garantia é falsa: ninguém numa sociedade razoável está em condições de a dar, e justamente porque essa sociedade é razoável. Mas a segunda frase é verdadeira. As pessoas que estudaram têm em geral empregos mais bem pagos que as pessoas que não estudaram.

Não se segue porém que tenham empregos mais bem pagos por causa daquilo que estudaram. Com efeito, quase nunca as pessoas arranjam empregos que correspondem ao que estudaram. Quem estudou física ou literatura grega raramente arranjará um emprego relacionado com o que estudou; e mesmo a economia real em que algumas pessoas trabalham nem sempre corresponde à economia que estudaram, não porque a vida seja mais real que as aulas mas porque raramente se reconhecem nela as personagens dos livros de economia.

Não basta esta discrepância para concluir pela inutilidade da física, da literatura grega e da economia. Essas três coisas têm valor independente dos empregos que criam. Podíamos imaginar um mundo em que ninguém as estudasse, e elas ainda seriam coisas importantes. Mas se desaparecessem a Engenharia da Hospitalidade, a Gestão de Hospitais e as Ciências da Comunicação, a única coisa que deixaríamos de poder imaginar seria Portugal.

As pessoas estudam o que estudam e têm os empregos que arranjam, por vezes mas não forçosamente relacionados com aquilo que estudaram. No entanto, mais importante que aquilo que estudaram ou os empregos que têm é aquilo que fazem. Aquilo que alguém faz nem sempre corresponde ao seu emprego; e muitas vezes o emprego, exercido com método e diligência, pode ser a condição para se fazer o que realmente interessa a quem trabalha; embora, bem entendido, nem sempre.

A maior parte das pessoas foi habituada desde pequeno a definir-se ou pelas habilitações ou pela profissão. Alguém é considerado um físico porque estudou física, apesar de ser professor de física ou ter uma garagem; ou alguém é considerado dono de uma garagem porque tem uma garagem, embora a garagem seja aquilo que lhe permite arranjar unhas, tocar clavicórdio, ou estudar física à noite. Considerá-lo empresário do ramo garagístico é compreensível; mas não capta o que o faz feliz.

A relação entre o meu emprego e aquilo que eu faço é ainda mais ténue que a relação entre a minha educação formal e o emprego que tenho. Pode haver alguma relação, mas não tem de haver. O emprego que me acontece ter escusa de ser uma coisa que exerço mal ou contra-vontade; mas, e mais frequentemente do que se imagina, é o modo que arranjei para pagar as contas e poder continuar interessado naquilo que uma vez estudei, que nunca estudei, em que não trabalho, ou em que não consegui deixar de pensar.

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COMENTÁRIOS

Francisco Almeida: O autor deve estar bem. Nem pôs a hipótese do emprego já não permitir pagar as contas.

Américo Silva: Gerou-se entre sábios controvérsia sobre o órgão do corpo de maior renda, disse Heitor: - Com as mãos cultivo a terra e ergo a habitação. - Pobre de ti, retorquiu Dídimo, a língua muito mais me vale perante o povo e os juÍzes. - Não, acrescentou André, pela mente me fluem os negócios e faço fortuna. Isto só se esclarece com uma tese de doutoramento, digo eu.

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