Ou desejo de tudo pôr em causa, mesmo a
Educação, que pode favorecer um melhor emprego, o emprego que nos deixa viver
em relativa paz, goste-se ou não do que se faz. Como seria, se não
trabalhássemos, e sobretudo sem os estudos favorecedores de um aumento de
opções de trabalho, em busca – porque não? – do sonho de um melhor ganho?
Afinal, mesmo que o não tenhamos, esse ganho, poderemos sentir-nos mais felizes
com os estudos que abrem espaços de harmonia, até mesmo para melhor podermos
ironizar sobre isso, ingratos que somos. Ou pedantes...
O mistério da educação (XXIII)
O emprego que me acontece ter escusa
de ser uma coisa que exerço mal ou contra-vontade; mas, e mais frequentemente
do que se imagina, é o modo que arranjei para pagar as contas.
Miguel Tamen Colunista do Observador, Professor(e director
do Programa em Teoria da Literatura) na Universidade de Lisboa
OBSERVADOR, 14 set. 2025, 00:152
É nesta altura
do ano que se garante que a educação serve para garantir empregos; e empregos
melhores do que os que se teriam se a educação não tivesse tido lugar. A
garantia é falsa: ninguém numa sociedade razoável está em condições de a dar, e
justamente porque essa sociedade é razoável. Mas a segunda frase é verdadeira.
As pessoas que estudaram têm em geral empregos mais bem pagos que as pessoas
que não estudaram.
Não se segue
porém que tenham empregos mais bem pagos por causa daquilo que estudaram. Com
efeito, quase nunca as pessoas arranjam empregos que correspondem ao que estudaram.
Quem estudou física ou literatura grega raramente arranjará um emprego
relacionado com o que estudou; e mesmo a economia real em que algumas pessoas
trabalham nem sempre corresponde à economia que estudaram, não porque a vida
seja mais real que as aulas mas porque raramente se reconhecem nela as
personagens dos livros de economia.
Não basta esta
discrepância para concluir pela inutilidade da física, da literatura grega e da
economia. Essas três coisas têm valor independente dos empregos que criam.
Podíamos imaginar um mundo em que ninguém as estudasse, e elas ainda seriam
coisas importantes. Mas se desaparecessem a Engenharia da Hospitalidade, a
Gestão de Hospitais e as Ciências da Comunicação, a única coisa que deixaríamos
de poder imaginar seria Portugal.
As pessoas
estudam o que estudam e têm os empregos que arranjam, por vezes mas não
forçosamente relacionados com aquilo que estudaram. No entanto, mais importante
que aquilo que estudaram ou os empregos que têm é aquilo que fazem. Aquilo que
alguém faz nem sempre corresponde ao seu emprego; e muitas vezes o emprego,
exercido com método e diligência, pode ser a condição para se fazer o que
realmente interessa a quem trabalha; embora, bem entendido, nem sempre.
A maior parte
das pessoas foi habituada desde pequeno a definir-se ou pelas habilitações ou
pela profissão. Alguém é considerado um físico porque estudou física, apesar de
ser professor de física ou ter uma garagem; ou alguém é considerado dono de uma
garagem porque tem uma garagem, embora a garagem seja aquilo que lhe permite
arranjar unhas, tocar clavicórdio, ou estudar física à noite. Considerá-lo
empresário do ramo garagístico é compreensível; mas não capta o que o faz
feliz.
A relação entre
o meu emprego e aquilo que eu faço é ainda mais ténue que a relação entre a
minha educação formal e o emprego que tenho. Pode haver alguma relação, mas não
tem de haver. O emprego que me acontece ter escusa de ser uma coisa que exerço
mal ou contra-vontade; mas, e mais frequentemente do que se imagina, é o modo
que arranjei para pagar as contas e poder continuar interessado naquilo que uma
vez estudei, que nunca estudei, em que não trabalho, ou em que não consegui
deixar de pensar.
ERRO EXTREMO OBSERVADOR EDUCAÇÃO LITERATURA CULTURA
COMENTÁRIOS
Francisco Almeida: O autor deve estar bem. Nem pôs a hipótese do emprego
já não permitir pagar as contas.
Américo Silva: Gerou-se entre sábios
controvérsia sobre o órgão do corpo de maior renda, disse Heitor: - Com as mãos
cultivo a terra e ergo a habitação. - Pobre de ti, retorquiu Dídimo, a língua
muito mais me vale perante o povo e os juÍzes. - Não, acrescentou André, pela
mente me fluem os negócios e faço fortuna. Isto só se esclarece com uma tese de doutoramento,
digo eu.
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