“Pela retina dos meus olhos Porque não vos
fixais?”
Não, eu não poderia afirmar o que escreveu Camilo Pessanha, sobretudo
num tempo de imagens passadas no écran televisivo, na solidão do sofá, para nós,
os do sofá, que vamos reconstituindo o passado, no egotismo não presunçoso mas
de uma sabedoria limitada às vivências pessoais e a tudo isso que foi, no filme
de cada vida. Sim, o Homem é um ser admirável, como o resto da Criação, que nos
arrasta a uma consciência de Algo Superior, criador do Céu e da Terra, e nos
deixa, de facto, plenos de espanto, nos porquês do que somos e do que nos
rodeia. Também dos sentimentos, é claro, que nos percorrem e definem, de
alegrias e mágoas e saudades e memórias, oh! as memórias! E os porquês, na
cambulhada dessas evocações que se fixaram, sempre vivas e espantosamente
evocadas por essa tal memória de afectividades ou apenas de actividades ou
mesmo de intelectualidades que o tempo dilui, todavia, nos seus contornos.
Estranho, estranhas vidas, estranha a vida, estranhos mundos dos nossos porquês
definitivamente sem resposta.
Vou comprar um bolo de anos para os 65 da Paula, que nos espantos dos seus
dois, e mais os do Ricardo com os seus cinco, me perguntaram, as caritas
erguidas, logo à porta que a Isaura abriu, da casa da Belegardo da Silva, quando
entrei, regressada do Hospital Miguel Bombarda, com o João de três dias, na
trouxa do seu invólucro: “Que é isso?” – frase
das imagens fixadas pela “retina dos meus
olhos” e da minha memória inapagável até um dia. Parabéns à Paulinha, pelo
dia de hoje, que talvez faça ainda a mesma pergunta – sobre o “isso” que se é e
o porquê de se ser.
Ela recomeça hoje os seus trabalhos na Escola e por isso, talvez, não
atendeu o meu telefonema, como o Ricardo logo pela manhã me pediu, dizendo que
ele já o fizera. As nossas pieguices nas banalidades existenciais, também
fazendo parte dessas memórias sem importância. E sem romance, mas os sentimentos de sempre.
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