segunda-feira, 8 de setembro de 2025

“Imagens que passais”

 

“Pela retina dos meus olhos Porque não vos fixais?”

Não, eu não poderia afirmar o que escreveu Camilo Pessanha, sobretudo num tempo de imagens passadas no écran televisivo, na solidão do sofá, para nós, os do sofá, que vamos reconstituindo o passado, no egotismo não presunçoso mas de uma sabedoria limitada às vivências pessoais e a tudo isso que foi, no filme de cada vida. Sim, o Homem é um ser admirável, como o resto da Criação, que nos arrasta a uma consciência de Algo Superior, criador do Céu e da Terra, e nos deixa, de facto, plenos de espanto, nos porquês do que somos e do que nos rodeia. Também dos sentimentos, é claro, que nos percorrem e definem, de alegrias e mágoas e saudades e memórias, oh! as memórias! E os porquês, na cambulhada dessas evocações que se fixaram, sempre vivas e espantosamente evocadas por essa tal memória de afectividades ou apenas de actividades ou mesmo de intelectualidades que o tempo dilui, todavia, nos seus contornos. Estranho, estranhas vidas, estranha a vida, estranhos mundos dos nossos porquês definitivamente sem resposta.

Vou comprar um bolo de anos para os 65 da Paula, que nos espantos dos seus dois, e mais os do Ricardo com os seus cinco, me perguntaram, as caritas erguidas, logo à porta que a Isaura abriu, da casa da Belegardo da Silva, quando entrei, regressada do Hospital Miguel Bombarda, com o João de três dias, na trouxa do seu invólucro: “Que é isso?” – frase das imagens fixadas pela “retina dos meus olhos” e da minha memória inapagável até um dia. Parabéns à Paulinha, pelo dia de hoje, que talvez faça ainda a mesma pergunta – sobre o “isso” que se é e o porquê de se ser.

Ela recomeça hoje os seus trabalhos na Escola e por isso, talvez, não atendeu o meu telefonema, como o Ricardo logo pela manhã me pediu, dizendo que ele já o fizera. As nossas pieguices nas banalidades existenciais, também fazendo parte dessas memórias sem importância. E sem romance, mas os sentimentos de sempre.

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