Apontadas com humor sadio. Pela Ana Margarida, sempre sóbria e graciosa
nos seus gestos, imagem de doçura e eficácia, os filhos mais pequenos – Manuel
e João – muitas vezes pendurados nela, que os mantém juntos a si enquanto conversa
e vai tricotando as suas malhas, o fio da lã ao pescoço para maior segurança no
equilíbrio necessário, aparentemente serena nas demonstrações do seu afecto,
mas que os filhos sentem real. O texto que segue, que me veio parar ao
gmail é bem demonstrativo de uma personalidade inteligente e segura de si, sem
lamechice, por vezes mesmo crítica, mas de carinho seguro e risonho.
Gostei a valer do seu texto, retrato, afinal, da sua inteligência de
conceito e de vida, a que o sentido de humor acrescenta em subtileza e arte.
publicação de Ana Margarida Lacerda
«Em setembro começo a riscar
listas distribuídas por dias da semana. Pedaços de palavras incompreensíveis,
depois de uma certa distância temporal. “Resp CML”, “Orç CMO”, “Plan MRA”,
“Sacar smile”, “Arr. Papoilas”, “Prep BCS”. Riscas cruéis, espartanas,
decididas, que deixam à vista o que rejeitam, sem apagar. Colocam no passado os
termos mais etéreos e os termos mais mundanos, ideias sagradas e documentos
financeiros, todos tratados por igual.
Setembro traz também dezenas de
páginas de cinco riscas paralelas, também elas espartanas e sagradas à sua
maneira. Riscas que quando saem pelas nossas vozes, dirigidas a outros seres,
já não são riscas. São ondas invisíveis.
Riscas e riscas até chegar a
maio. Em maio, as folhas esvaziam-se. Já está tudo na memória, caminha-se em
linha reta. Até voltar setembro.
As riscas não são ciclos. Seguem
a direito, sem fim à vista. Mas estas riscas específicas, as das camisolas, são
entrelaçados bem redondos, se olharmos de perto. Trabalham-se, aliás, em
espiral (nem sempre, quase sempre). Não riscaram nada. Serviram o propósito de
guiar caminhos e experimentar. De brincar. De vestir. De aquecer.
Fica a promessa de que passarão
para o papel.»
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