domingo, 28 de setembro de 2025

Netanyahu


E a sua referência, como pretexto de condenação satírica aos que apoiam o povo palestiniano, como vítima de Israel – na sátira mordaz de ALBERTO GONÇALVES.

Os 800 mil mortos de Miguel Sousa Tavares

Ao exagerar o horror, parcialmente fictício, que lhe interessa, o dr. Sousa Tavares ridiculariza o horror imensamente maior que no fundo despreza.

ALBERTO GONÇALVES Colunista do Observador

OBSERVADOR, 27 set. 2025, 00:20155

O cançonetista Salvador Sobral afirmou que nunca cantou nem cantará em Israel, anúncio que deixou inconsoláveis multidões de israelitas. Imagino que neste momento as ruas de Telavive e Jerusalém se tenham enchido de manifestantes a exigir a cabeça de Netanyahu e uma digressão urgente do sr. Sobral.

Estou a brincar. A proclamação do sr. Sobral tem o mesmo peso da minha recusa em escrever na Spectator. E uma explicação similar: como absurdamente acontece comigo na redacção da revista inglesa, o sr. Sobral nunca cantou em Israel porque em Israel ninguém sabe quem é o sr. Sobral, e é preciso uma dose muito elevada de soberba e deslumbre e chalupice para alguém achar que a sua ausência priva os outros de uma benesse sem preço. No máximo, a determinação do sr. Sobral constitui um impulso para que Israel prossiga a guerra justa e justificada que trava em Gaza. Do pouquíssimo que infeliz e inadvertidamente já ouvi da criatura, a verdadeira ameaça seria a criatura prometer cantar em Israel.

O importante é que, nos tempos que correm, e que correm de modo muito parecido ao que corriam nos anos 1930, cada um se esforce para exibir em público uma saudável e virtuosa repulsa por judeus, às vezes mal disfarçada de “anti-sionismo”, às vezes nem isso. Há governos à deriva que, face ao colapso social iminente nos seus países, condecoram as proezas do Hamas e “reconhecem” um estado que não existe. Há ociosos que participam em festivos cruzeiros no Mediterrâneo, enquanto fingem condoer-se dos que passam fome mas rejeitam a entrega dos “alimentos” que dizem transportar. Há tarados que aproveitam o espírito da época para retomar à luz do dia as velhíssimas teses conspirativas que colocam os “sábios do Sião” por detrás de todas as calamidades da Terra (incluindo, e esta é fresquinha, o assassínio de Charlie Kirk, “obviamente” cometido pela Mossad). Há o candidato presidencial António Filipe a acusar o “sabor a sangue” nas clementinas de origem israelita à venda nos supermercados (um parêntesis para recordar com nostalgia que identificar comércios de judeus é uma tradição antiga e uma transição lógica para a identificação dos judeus em si, com estrelinha na lapela, e, numa terceira fase, o seu profiláctico encarceramento; estranhamente, o flagrante humanismo do dr. Filipe não o instiga a boicotar produtos chineses, por muito que tresandem a hemoglobina os 60 milhões de mortos pelo regime). E há Miguel Sousa Tavares.

Em abono do rigor, convém notar que o dr. Sousa Tavares não adere a modas e está longe de ser um neófito na aversão a Israel. Boa parte da longa carreira dele, aliás, estrutura-se a partir do conceito de que Israel é para abater, se não literalmente pelo menos nos julgamentos e comentários que regularmente pratica. Há décadas que o dr. Sousa Tavares sabe da influência nefasta daquela desvairada nação na região e no mundo. E quando não sabe, inventa.

Em comentário televisivo recente, o dr. Sousa Tavares cita a quantidade de vítimas da guerra – ou do “genocídio”, conforme ele, aqui sem grande originalidade, designa a guerra – divulgada pelo mítico Ministério da Saúde de Gaza: 62 mil, presume-se que divididos entre 31 mil mulheres, 31 mil crianças e zero terroristas. Um instante depois, o dr. Sousa Tavares não se satisfaz com a informação inflacionada do Hamas e, de degrau em degrau, sem qualquer contraditório ou revirar de olhos do entrevistador, sobre a parada até mencionar uma “comissão da ONU para os territórios ocupados” que sugere a morte de “mais de 800 mil palestinianos em Gaza”. Repito, por extenso e para não invocarem gralhas: para o dr. Sousa Tavares, é plausível que Israel tenha matado mais de oitocentas mil pessoas em dois anos, ou seja quase 40% da população de Gaza (a qual, graças à “limpeza étnica” em curso, cresceu de 1,5 para 2,1 milhões em 20 anos). Com o dr. Sousa Tavares, tudo é plausível – logo que permita “provar” a essência maligna de Israel.

De resto, uma fracção de segundo após proferir a inanidade anterior o terreno ficara pronto a receber a inanidade seguinte: “Nós estamos a assistir ao Holocausto do século XXI”. Reparem que para o dr. Sousa Tavares não existe o Congo, o Sudão, a Nigéria, a Síria, o Iémen, o Iraque e evidentemente não existe a Ucrânia, lugares onde as lutas militares ou “civis” têm causado baixas um nadinha superiores às de palestinianos, mesmo se, à semelhança do sr. Sousa Tavares, torturarmos cruelmente os números. A maçada é que nem a imaginação do autor de “Equador” é capaz de culpar os judeus pelas referidas barbáries. E sem judeus para culpar, não há barbárie para lamentar.

Os que padecem de optimismo incurável podem talvez consolar-se com o pormenor de que, ao comparar Gaza à Shoah, ainda que com embustes e sem vergonha, o dr. Sousa Tavares não pertence à classe dos “anti-sionistas” (sic) que, de caminho, negam o Holocausto a fim de facilitar o ódio. Sucede que, num certo sentido, o dr. Sousa Tavares faz pior: ao comparar o extermínio industrial de milhões com as consequências inevitáveis de um conflito urbano em que o “invadido” fomenta o risco da própria população, o dr. Sousa Tavares não nega o Holocausto: desvaloriza-o. Ao exagerar o horror, parcialmente fictício, que lhe interessa, o dr. Sousa Tavares ridiculariza o horror imensamente maior que no fundo despreza.

Descontadas as patranhas, o dr. Tavares tem o direito de não gostar de judeus. E os que não preferem cultos da morte a sociedades civilizadas têm o dever de não gostar do dr. Sousa Tavares.

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COMENTÁRIOS (de 155)

Miguel Seabra: O MST tem de pensar que com a sharia vai ficar sem biberão escocês…               José Paulo Castro: Eu sempre cumpri o dever de não gostar de MST. Desde que ele defendia ardentemente a tese de acidente por falha de um motor em Camarate, mesmo quando Augusto Cid desmontava todos os pontos dessa tese como uma impossibilidade física face à trajectória verificada pela avioneta. Percebi aí que o homem patrocina ou é patrocinado, não pensa independente.        Carlos Quartel: O autor não parece a pessoa indicada para denunciar ninguém sobre análises independentes. Joga num campo, no campo dos bons, dos judeus, que só fazem bem, que são democráticos e cujas bombas são macias e só matam terroristas. As crianças não são atingidas e as que são é porque já indicadas como futuros terroristas. Que MST e o cantor joguem noutro campo, não tem que se admirar. Só vêem judeus assassinos de crianças, matando à bomba e pela fome gente, 800 mil ou uma só é indiferente. Quem faz os possíveis por manter uma atitude de decência sabe que ali não há inocentes. O Hamas caiu na ratoeira e deu as desculpas que Israel estava à espera para tentar acabar com aquilo. Contava que fugissem, como fizeram em 1948, mas correu mal e agora estão entalados. Vão destruindo tudo, na esperança que alguém os aceite, entretanto vão desbastando umas dezenas um centenas por dia.                   Luis Silva: A arrogância dos avençados do sionismo está a tornar-se anedótica, cansativa e nem reparam que estão quase a falar sozinhos. Tirando os EUA, cujo apoio deriva da corrupção dos congressistas, tirando os países europeus que sentem ou fingem sentir arrependimento pelas atrocidades que cometeram contra os judeus na segunda guerra mundial, tirando os lacaios fiéis dos EUA na Asia e tirando países relevantes como Ilhas Marshall, Ilhas Salomão, Micronésia, Nauru, Palau, Papua-Nova Guiné, Samoa Tonga, Tuvalu e Vanuatu. Dizia eu, tirando esses, mais ninguém apoia os criminosos genocidas sediados em Israel.          Pedra Nussapato: Este sr AG, como já está meio desesperado por ver a quase totalidade do mundo civilizado e democrático a fazer pressão sobre Israel, já não lhe resta mais nada a não ser insistir na tecla cansada de que esse mundo, ao mostrar solidariedade para com o povo Palestiniano e indignação pela sua chacina imoral, na verdade está a mostrar a sua repulsa secular por judeus. Até me admira não ter insistido que esse mesmo mundo é apoiante dos terroristas do Hamas, que é também outro argumento lindo e do mesmo calibre.                  MariaPaula Silva: p u x a....««tá mesmo tudo maluco. Não há pachorra para tanta desinformação e a facilidade + falta de vergonha com que se invertem as coisas! Essa de chamar à guerra de Gaza o "novo holocausto" não lembra nem ao diabo... é uma inversão muito desonesta. Enquanto a Mossad mata estudantes que fazem palestras e Israel treme de alto a baixo pela falta da presença do Salvador, a longa-metragem "O Bote" brindou-nos hoje com um episódio do salvamento de uma tartaruga envolta em plástico (o que fizeram muito bem), mas nós continuamos ansiosamente à espera dos episódios com as Orcas. É que nestes tempos meio esquizóides, só as Orcas nos podem salvar. Obrigada, AG.                    Luis Silva: Os sionistas denunciaram-me a mensagem, aqui vai outra vez. A arrogância dos avençados do sionismo está a tornar-se anedótica, cansativa e nem reparam que estão quase a falar sozinhos. Tirando os EUA, cujo apoio deriva da corrupção dos congressistas, tirando os países europeus que sentem ou fingem sentir arrependimento pelas atrocidades que cometeram contra os judeus na segunda guerra mundial, tirando os lacaios fiéis dos EUA na Ásia e tirando países relevantes como Ilhas Marshall, Ilhas Salomão, Micronésia, Nauru, Palau, Papua-Nova Guiné, Samoa Tonga, Tuvalu e Vanuatu. Dizia eu, tirando esses, mais ninguém apoia os criminosos genocidas por esse mundo fora.      Luis Silva > Hugo Silva: Sempre os mesmo bots defeituosos a contra atacar.                      Rui Lima: Miguel Tavares não escreve, decreta que Trump é peste, a ruína … exalta Putin como czar iluminado, acaricia o Hamas como resistência pura, amaldiçoa Israel com fúria profética. Clama por fronteiras abertas, prega o abraço universal, mas vive num palacete isolado onde não entra refugiado nem por milagre .              Novo Assinante: Continua o genocídio do povo palestiniano. Mais vinte e seis palestinianos hoje barbaramente executados a tiro pelo criminoso de guerra e assassino em massa de mulheres, crianças e bebés Benjamin Nethanyau, o novo Hitler, a juntar aos mais de sessenta e cinco mil já assassinados pelo criminoso de guerra Benjamin Nethanyau, tal como o Observador noticia no Em Directo de hoje.      Mario Guimaraes: Confundes Israel com Netanyahu. O povo de Israel vai votar e vai encarcerar o Netanyahu. Não tenhas dúvidas.                  Novo Assinante: "O voo do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu para os Estados Unidos seguiu uma rota tortuosa, num aparente esforço para evitar países que pudessem fazer cumprir um mandado de captura pendente contra ele por crimes de guerra." - In CNN Portugal de 25.09.2025                   Pedra Nussapato: Será que se eu comentar que não entendo as razões dos meus comentários estarem a ir para moderação, este meu comentário também vai para moderação? Se calhar estou só a ser vítima de cancelamento por parte daqueles que volta e meia rasgam as vestes em prol da liberdade de expressão...            Novo Assinante: Notícia de 18.09.2025 deste nosso jornal o Observador: "Concluímos a fase de demolição. Agora é hora de construir". Ministro israelita diz haver uma potencial "bonança imobiliária" em Gaza" Bezalel Smotrich, titular da pasta das Finanças, diz que já foi concluída "demolição" do enclave e que o plano de divisão para a "renovação urbana" inclui os EUA e está na mesa de Trump. ...Estes planos são a base da “Riviera do Médio Oriente” desenhada por Donald Trump e apoiada pela extrema-direita israelita ... Concluímos a demolição, a primeira fase da renovação da cidade. Agora só precisamos de construir..." - Confirma-se o que aqui já escrevi centenas de vezes: o assassino em massa de mulheres, crianças e novo Hitler, Benjamin Nethanyau, assassinou mais de sessenta e cinco mil palestinanos em Gaza porque Donald Trump e o seu o genro Jared Kushner querem lá fazer fortuna construindo a Riviera do Médio Oriente, um conjunto de um ressorts de luxo. Foi por isso, e também para não ser preso após ser condenado por corrupção, que o criminoso de guerra com mandado de detenção internacional emitido pelo TPI Benjamin Nethanyau assassinou em Gaza mais de setenta mil palestinianos.            Novo Assinante: O assassino em massa de mulheres, crianças e bebés Benjamin Nethanyau está a violar o direito internacional ao atacar uma embarcação portuguesa que se dirige para Gaza, um território que NÃO pertence a Israel e que está situado a uma enorme distância de Israel. Mas que esperar de um assassino em massa que acabou com a democracia em Israel e converteu o país numa ditadura ao impor uma lei que permite ao parlamento anular decisões do Supremo Tribunal apenas para que ele, assassino em massa Benjamin Nethanyau, não seja preso após ter sido condenado por corrupção, tal como este jornal o Observador noticiou?                       Novo Assinante: Que direito terá o assassino em massa de mulheres, crianças e bebés Benjamin Nethanyau, acusado de crimes de guerra e de crimes contra a humanidade pelo TPI e com o respectivo mandado de captura internacional emitido, tal como este jornal o Observador noticiou, de anexar um território que não pertence a Israel, de o continuar a arrasar todos os dias implodindo edifícios de grande porte e ocupar esse mesmo território de forma ilegal e não reconhecida pela comunidade internacional, só para que Donald Trump e o seu o genro Jared Kushner lá façam fortuna construindo a Riviera do Médio Oriente, um conjunto de um resorts de luxo?                Rita Salgado: MST é um senador da superioridade moral da esquerda. Reclama a autoridade de ser filho de quem é, para não admitir ser contrariado. E não esconde o desdém! Com a idade, tornou-se mais amargo e cínico com “certezas” cada vez mais esdrúxulas…                 Miguel Azevedo: Até sou apreciador do humor seco e ácido de Alberto Goncalves e presumo ter elevada comunhão ideológica com o mesmo, mas tentar branquear o horror que a população de Gaza está a viver é profundamente errado.         A Sameiro: Nas opiniões do Dr.Tavares cabe tudo e o seu contrário!!! Um xuxa disfarçado de independente!!!!!          Miguel Vilaverde: O Miguel Sousa Tavares está cada vez mais ignorante, maldoso e senil. Ontem no comentário residente que faz na CNN fez referência às resoluções ridículas e absurdas da ONU contra Israel e aos funcionários da ONU assassinados por Israel, o anti-semita Sousa Tavares devia estar a referir-se seguramente aos terroristas do Hamas travestidos de funcionários da ONU e que participaram no 7 de Outubro. Ridículo e asqueroso.         Carlos Chaves: Obrigado, caro Alberto, é sempre um prazer ler alguém sem papas na língua, mais uma vez tudo certo de cima a baixo nesta sua crónica... Não se enxergam mesmo!                   Luis Silva > João Floriano: Faz sentido, ele é sionista e tem ascendência de judeus                  José Silva: Já sabemos que Israel mata mais que o DUM-DUM mata insectos voadores e rastejantes! Mas já sabemos que em Gaza os gazeteiros morrem aos milheiros e na seguinte proporção: Crianças morrem sete vezes! Mulheres, - cinco vezes! Velhos e velhas: - três vezes! Homens adultos só uma vez! Turras do Hamas: _Esses raramente morrem e só no Qatar!            Alcides Longras: O grave é que a opinião pública alimenta-se destas mentes brilhantes e visionárias que, a milhares de quilómetros de distância e dentro da sua bolha de conforto e (ai credo!) privilégio, decretam, pelos seus próprios critérios super-hiper-mega humanistas do tamanho do seu umbigo, que há mauzões vestidos com uma estrela a chacinar, torturar e destruir inocentes mulheres e crianças vestidas de crescente aos magotes. Factos para quê se a narrativa é tão mais aconchegante?                    Jorge Lopes: Sarcasmo do melhor ! Muito obrigado, AG!                   Ruço Cascais: Dizem que o Whisky deixa ver a dobrar. Não é bem assim, depende da marca, da idade, da origem e do hábito. Tenho uma moça minha amiga que bebe todos os dias meia garrafa de Gant e a única diferença que lhe provoca é no hálito. Ela não vê a dobrar a triplicar ou a quadruplicar, porque, o estado adulterado da visão tornou-se o normal. Antes ou depois do Gant, a visão é a mesma. Não quero com isto dizer que o Miguel Sousa Tavares é alcoólico. Nada disso. O exemplo que dei é uma analogia com a ideologia quando esta se transforma numa droga. MST sofre efectivamente da droga ideológica contra os judeus. Para quem acredita na reencarnação, MST numa vida passada, pode ter sido um guarda alemão das SS durante a 2ª guerra mundial num dos campos de concentração na Polónia, ou um devoto cristão da Idade Média que não aceitava a descrença em Jesus Cristo como o Messias. Há também quem ande por aí a dizer que o Miguel do Equador dá mesmo na pinga. Eu não acredito. As pessoas que bebem muito percebe-se bem pelas feições.                 Rosa Graça: Excelente, como sempre.                Carlos F. Marques: O Tavares critica tudo e um par de botas, desde que o assunto não traga à baila o compadre Salgado. João Floriano > Ruço Cascais: Sem qualquer margem para dúvidas. Aquelas olheiras, olhos arremelgados, papudos e vermelhos (será que tenho o televisor avariado?), a voz por vezes mais pastosa e arrastada do que é costume, são devidas ao facto de MST estar até às tantas da manhã a ler os nossos comentários no Observador e a tirar notas.                

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