Que não vale a pena desmascarar. É jeito nosso, justificador da
presunção do nosso saber superior.
Lisboa: depois da tragédia, a farsa
Acredita que o elevador nunca teria
caído se estivesse pintado com as cores da Palestina? Porque deve haver na
candidatura socialista alternativa a Moedas quem seja capaz de acreditar nisso.
OBSERVADOR, 12 set. 2025, 00:257
Depois da tragédia, a farsa. A tragédia
foi o desastre do elevador da Glória, os mortos e feridos. A farsa foi
proporcionada pela classe política. Não, não falo das exigências de explicações
e de apuramento dos factos: tudo isso compete aos políticos. Falo do debate sobre a demissão do
presidente da câmara de Lisboa, a um mês de eleições. Se isso não é o que se
chama “aproveitamento político”, não sei o que é.
Quando abandonou o governo depois da
queda da ponte de Entre-os-Rios, Jorge
Coelho criou inadvertidamente a lenda de que, sempre que há um desastre, a “demissão” é
a única opção digna de um governante, o modo adequado de reconhecer a sua
“responsabilidade política”. Ficou a ser, desde aí, a primeira coisa que as oposições exigem e com que o jornalismo
especula. Faz sentido? Não. Perante um acidente, a
responsabilidade de um governante é acorrer às vítimas e minorar as consequências;
é esclarecer causas; é reforçar a prevenção. A sua primeira opção não pode ser
demitir-se: isso não é assumir responsabilidades, é fugir delas. A demissão só faz sentido quando na
origem da catástrofe estiver a incúria ou o erro pessoal ou de serviços sob a
sua tutela. Caso contrário, exigir e dar a demissão é apenas teatro. Precisamos
desse teatro?
É claro que o Partido Socialista
nunca esperou que Carlos
Moedas se demitisse. Este é o mesmo partido que em 2017,
com 115 mortos e provas aflitivas de desorganização e imprevidência do Estado,
continuou impavidamente no governo. E mortes em incêndios ao nível de 2017 são
um caso em que se justifica exigir demissões. A recorrência anual dos fogos impõe ao governo o dever de preparar o
país para evitar as suas piores consequências (mortes, cortes de comunicações e
de circulação, etc.). É legítimo considerá-lo culpado, para além da genérica
“responsabilidade política”, se, tendo tido o devido tempo, falhar nessa missão.
Os elevadores não caem regularmente em Lisboa para se aplicar o mesmo
raciocínio. Ou melhor: quando um elevador caiu, em 2018, ninguém soube, porque
a vereação socialista terá guardado segredo.
Quis-se apenas aproveitar o acidente
para abalar Carlos Moedas em véspera de eleições. Mas é racional para um
lisboeta decidir o seu voto em função de quem esteve pior ou melhor neste
teatrinho? Lisboa, pela dimensão e simbolismo da câmara, é demasiado importante
para essa leviandade. Em Lisboa, não estão em causa personalidades, mas as
mesmas grandes opções políticas que dividiram o país nas últimas eleições
nacionais. Carlos Moedas podia, em toda esta história, ter mostrado mais
segurança e menos disponibilidade para o palco televisivo. Durante o seu
mandato, talvez também pudesse ter percebido mais cedo que o país e Lisboa
estavam a mudar. Mas um candidato nunca deve ser avaliado sem considerar a
alternativa. Só Carlos Moedas, devido
ao sistema eleitoral, pode evitar que a maior câmara do país caia sob a
influência de quem acha que o problema da habitação é haver proprietários
privados, que o problema da segurança é haver demasiado policiamento, que
controlar as migrações é racismo, ou que a nossa história e as nossas tradições
são para ser repudiadas.
Acredita
que o elevador da Glória nunca teria caído se estivesse pintado com as cores da
Palestina? Porque deve haver na candidatura socialista alternativa a Moedas
quem seja capaz de acreditar nisso. Para
que haja uma maioria de bom senso e para impedir que Lisboa seja reduzida a uma
comuna woke, é possível — e até talvez recomendável — votar em outras listas
que não a do PSD e dos seus aliados para a Assembleia Municipal. Mas para a
presidência da câmara, só é possível votar em Carlos Moedas.
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COMENTÁRIOS:
José Paulo Castro: É triste perceber que o sistema eleitoral à direita
não permite alternativas. Eduardo Cunha: Excelente crónica. Parabéns. Eduardo
Russo: Tudo dito!
Creio que a Frente Popular vai ter uma grande surpresa dentro de um mês... graça Dias: Caríssimo Rui Ramos: Um artigo que sublinha a
realidade dos factos com uma análise de muita lucidez. Transcrevo do texto 1
frase: “Só Carlos Moedas, devido ao sistema eleitoral, pode evitar que a
maior câmara do país caia sob a influência de quem acha que o problema da
habitação é haver proprietários privados, que o problema da segurança é haver
demasiado policiamento, que controlar as migrações é racismo, ou que a nossa
História e as nossas tradições são para serem repudiadas “ Rui Ramos, excelente no superlativo. Obrigada .
A Sameiro: O crime é
curial se for canhoto!!! In-Natalia
Correia Epístola aos Lamitas Alexandra Ferraz: Rui Ramos sempre a bombar no lado correcto da História
🙏🙏🙏 Sempre grata
pelos seus artigos e podcasts 🙌🙌 Jorge
Barbosa: Mais uma
lufada de ar fresco num país onde a incompetência e a mentira grassa na
liderança política (refiro-me obviamente ao excelente artigo).
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