sábado, 13 de setembro de 2025

Registos de um Mundo vário

 

De bons e maus momentos, de alegrias e pesadelos. Para nós, de momento, de alegrias apenas, no retorno de JAIME NOGUEIRA PINTO ao palco da “Lucidez precisa-se”, de MARIA JOÃO PIRES ao da glória reconhecida que nos enche de orgulho pátrio.

I TEXTO

MARIA JOÃO PIRES

Vencedora do Prémio Europeu Helena Vaz da Silva 2025

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Pianista Maria João Pires vence Prémio Europeu Helena Vaz da Silva 2025

"Além de ser uma extraordinária intérprete, Maria João é uma educadora visionária, uma pensadora cultural e uma revolucionária silenciosa", diz a presidente do Centro Nacional da Cultura.

AGÊNCIA LUSA, Texto

OBSERVADOR, 12 set. 2025, 07:45

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A pianista Maria João Pires é a vencedora da edição de 2025 do Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural, anunciou esta sexta-feira o Centro Nacional de Cultura (CNC), promotor da iniciativa.

 “Este reconhecimento europeu presta homenagem à excepcional contribuição de uma das maiores pianistas do nosso tempo para a promoção do património cultural e dos valores europeus“, justifica o CNC, em comunicado.

De acordo com a decisão do júri, presidido por Maria Calado, presidente do CNC, “Maria João Pires é uma das pianistas mais poéticas e influentes da Europa. Além de ser uma extraordinária intérprete, é uma educadora visionária, uma pensadora cultural e uma revolucionária silenciosa no domínio do património musical”.

O júri reconhece na carreira da pianista, “profundamente enraizada nos valores da empatia, da inclusão e da excelência artística“, a essência da “missão do Prémio Helena Vaz da Silva: sensibilizar o público para o património cultural europeu através de um envolvimento humanista e de impacto”.

Maria João Pires, numa reacção ao prémio, citada pelo comunicado do CNC, disse: “Ter um prémio corresponde a ter uma honra. Ter uma honra e tomar consciência dela, é lembrar ao pormenor todas as pessoas que deram do seu tempo, colaboraram e ajudaram a que essa honra fosse atribuída. Por isso a minha primeira reacção será sempre dizer ‘muito obrigado’ a todos por esta oportunidade.”

A pianista, que nasceu em Lisboa em 1944, tornou-se numa das “artistas mais destacadas internacionalmente”, escreve o CNC, recordando o percurso de Maria João Pires desde a sua primeira actuação em público, aos quatro anos, até à consagração nas décadas de 1980-1990.

Após a conquista do primeiro prémio do concurso internacional Beethoven, em 1970, o seu nome tornou-se recorrente nos programas das principais salas de concerto a nível mundial e nos catálogos das maiores editoras de música clássica: a Denon, primeiro, para a qual gravou a premiada integral das Sonatas de Mozart (1974); a Erato, a seguir, nos anos de 1980, onde deixou Bach, Mozart e uma das mais celebradas interpretações das Cenas Infantis, de Schumann; e depois aDeutsche Grammophon, em 1989.

Nesse ano, fundou o Centro Belgais para o Estudo das Artes, em Escalos de Baixo, Castelo Branco, projeto educativo, pedagógico e cultural dedicado à música, onde oferece workshops interdisciplinares, concertos e gravações que, no futuro, segundo o CNC, podem vir a ser “partilhados com a comunidade digital”.

Em 2012, na Bélgica, iniciou dois projetos complementares: os Partitura Workshops e os Partitura Choirs, destinados a coros infantis de crianças oriundas de ambientes desfavorecidos, como o Hesperos Choir.

De acordo com o CNC, “todos estes projetos têm como objetivo criar uma dinâmica altruísta entre artistas de diferentes gerações, propondo uma alternativa a uma realidade demasiado focada na competitividade”.

No passado mês de junho MARIA JOÃO PIRES anunciou um afastamento dos palcos “por algum tempo”, devido a um “problema de saúde cerebrovascular”. Na altura, cancelou concertos e recitais que tinha agendados para Portugal e para diversas salas europeias e do Japão.

Em agosto, em nova mensagem, mostrou entusiasmo “com a ideia de dar de novo aulas online”: “Dar aulas […] é muito mais do que isso, é uma forma de diálogo através da música, ‘um dar e receber’, uma troca de impressões, uma aprendizagem partilhada na arte de ouvir, uma procura de equilíbrio… Procurar em conjunto obriga a um acordo na experiência. Um trabalho sobre nós próprios, que nos dará certamente mais lucidez”.

Ao longo da carreira, MARIA JOÃO PIRES recebeu o prémio do Conselho Internacional da Música, da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO, 1970), o Prémio Pessoa (1989), a Medalha de Mério Cultural do Governo português e o Prémio Personalidade do Ano/Martha de la Cal da Associação da Imprensa Estrangeira em Portugal (2019), o Praemium Imperiale (2024), da Associação de Arte do Japão.

A nível discográfico, foi distinguida quatro vezes pela Academia Charles Cross, nomeada regularmente para os Grammy e recebeu um prémio Gramophone, destacando-se as suas interpretações de Sonatas e dos “Impromptus”, de Schubert, dos “Nocturnos”, de Chopin, e de Concertos de Mozart e Beethoven.

O Prémio Europeu Helena Vaz da Silva foi instituído em 2013 pelo CNC, com a organização Europa Nostra e o Clube Português de Imprensa, com apoio dos ministérios da Cultura, Juventude e Desporto, e dos Negócios Estrangeiros, da Fundação Calouste Gulbenkian e do Turismo de Portugal.

Além de Maria Calado, o júri foi composto por Francisco Pinto Balsemão, fundador do grupo Impresa, Piet Jaspaert, vice-presidente da Europa Nostra, João David Nunes, pelo Clube Português de Imprensa, Guilherme d’Oliveira Martins, administrador da Fundação Gulbenkian, Irina Subotic, presidente da Europa Nostra Sérvia, e Marianne Ytterdal, do Conselho da Europa Nostra.

A entrega do prémio a Maria João Pires realizar-se-á na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, em 1 de novembro, às 17h.

A primeira edição do Prémio Europeu Helena Vaz da Silva, em 2013, distinguiu o escritor italiano Claudio Magris. No ano passado o vencedor foi o fotógrafo alemão Thomas Struth.

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II TEXTO:

Do lado errado da História

Charlie Kirk era um combatente das ideias, era civilizado, inteligente, tranquilo. Morreu “a combater o bom combate” ao serviço da sua fé, do seu país, das suas convicções – e da sua e nossa liberdade

JAIME NOGUEIRA PINTO Colunista do Observador

OBSERVADOR, 13 set. 2025, 00:186

CHARLIE KIRK, um intelectual americano de 31 anos, cristão evangélico, fundador do movimento nacional-conservador Turning Point USA, foi assassinado na quarta-feira, quando falava na Utah Valley University. KIRK derivava das suas convicções religiosas os valores e princípios éticos, com implicações políticas, que eram o centro da sua militância. Tinha 7,3 milhões de seguidores no TikTok, mais de 5 milhões na plataforma X, 6,9 milhões no Instagram e 3,8 no Youtube. Era convicto e eficaz. Gostava de debater com civilidade, de trocar ideias, de ouvir, de responder a perguntas, num país dividido onde já quase ninguém quer saber o que “a outra metade” pensa.

Começara a sua militância aos 18 anos, uma militância patriótica e cristã de alguém que achava que a América era “o melhor país do mundo” e a Constituição americana “o melhor documento político”.

As reacções à sua morte não se fizeram esperar. A crer em grande parte da comunicação social, Kirk, “o aliado de Trump”, era um proeminente emissor de discurso de ódio, que defendia o direito dos cidadãos americanos a usar armas e criticava a ideologia libertária da Esquerda; enfim, alguém que, tendo semeado ventos, acabaria inevitavelmente por colher tempestades (tal como, por aqui, para alguns “animalistas”, o jovem forcado que morreu no Campo Pequeno só teve o que merecia).

Não surpreende. A Esquerda – e parte do Centrão – tendem a barricar-se num mundo cada vez mais cheio de “outros”, mas onde “os outros”, aparentemente, não existem ou não deviam existir. Para esses “outros” não há inclusão possível. A vaga eleitoral que cada vez mais tende a ser-lhes desfavorável é puro fruto da manipulação das “forças do mal”. Não tem razão de existir e não devia existir. O voto do “povo”, que outrora era quem mais ordenava, já conta pouco, dada “a alienação” do povo. De um lado e de outro sucedem-se as teorias da conspiração. É assim nos Estados Unidos, onde, “incompreensivelmente” e apesar da “boa opinião”, governa Trump.

Na Europa o panorama não é muito diferente. Na Alemanha, a AFD, no Reino Unido, o Reform Party, em França, o Rassemblement National são os primeiros partidos em caso de eleições gerais. Em Itália, os Fratelli de Meloni já governam; como na Hungria governa o Fidezs e na Eslováquia o SMER-SD. Nas eleições na Noruega, o Partido do Progresso ficou em segundo lugar, tendo dobrado a votação; e de acordo com o El Mundo de Domingo passado, em Espanha, se as eleições fossem agora, o Vox já passaria os 15%, reduzindo a distância que o separa do Partido Popular. Para completar o quadro, em França, uma convergência de votos da direita e da esquerda radicais levou à queda do Governo Bayrou, e o presidente Macron, apesar da sua agitação internacional, não parece capaz de arrumar a casa. Entretanto, neste nosso “país de Abril”, o Chega fica pela primeira vez à frente nas intenções de voto, segundo o barómetro DN/Aximage – uma verdadeira “happy meal” para Ventura, esta preferência dos concidadãos, e um grande amargo de boca para a generalidade dos mediadores de opinião. Porque tudo isto perturba os eleitos do sistema, a classe dirigente, a classe dominante, os seus intelectuais, os seus comunicadores, os seus comentadores, os seus atarantados e exaltados pivots.

E perante o que se vê (ou se dá a ver) como o perigo existencial das sucessivas vitórias das direitas nas urnas, que fazer? Recorre-se a estratagemas alternativos: aos tribunais, com julgamentos políticos, como em França e no Brasil, ou à anulação e repetição de eleições, como na Roménia. E vai-se insistindo no discurso de ódio dos “outros”, e só dos “outros”, no perigo fascista, na reencarnação de Hitler no Presidente dos Estados Unidos, na ameaça à democracia e às instituições que “os outros”, e só “os outros”, representam… terreno fértil para que radicais e paranoicos se achem investidos de uma missão secreta de salvação da humanidade e da democracia e passem a “formas superiores de luta”. Donald Trump sofreu um atentado e só não morreu por uma orelha negra.

Charlie Kirk não teve essa sorte. Era um combatente das ideias, um homem civilizado, inteligente, tranquilo. Morreu “a combater o bom combate”, ao serviço da sua fé, do seu país, da sua família e das suas convicções – e também da sua e da nossa liberdade.

Mas como era um “activista de direita”, um “aliado de Trump” facilmente se conclui que “estava a pedi-las”, de onde a tácita absolvição do assassino, quem quer que ele seja. Kirk tinha-se “posto a jeito”. Como? Apresentando-se indecorosamente no espaço público com ideias provocatórias, contraditórias e pouco recatadas, exibindo despudoradamente a sua capacidade argumentativa em plena universidade e cometendo vários delitos de opinião, entre eles, o de querer debater opiniões e o de ganhar debates. O que é que ele queria?

Calaram-no para sempre. Estava do lado errado da História.

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COMENTÁRIOS

klaus muller: Essa da "agitação internacional de Macron" está óptima. Gostei mesmo.          António Costa e Silva: Durante muito tempo, a imprensa e as televisões nas mãos certas eram poderosos instrumentos de propaganda e controle das populações. Com a net e as redes descentralizadas, o sistema perdeu a exclusividade da informação e da comunicação e começou a perder o domínio da situação. Para controlar os danos, os tribunais são utilizados como expediente de recurso, com juízes que são funcionários e às vezes parecem agentes de uma polícia política. Quando falham todos os meios e o poder lhes escapa, o assassinato, promovido e legitimado pelo discurso de ódio de jornalistas activistas e comentadores avençados, (fanatizando, manipulando e instrumentalizando peões disponíveis), é o último argumento. É sinal de desespero, de fraqueza e anuncia a sua derrota.                     Carlota Pereira dos Santos: Sempre muito lúcido e clarividente. Bem-vindo!                    Riaz Carmali: Bem-vindo de volta ao seu espaço de comentário. Quanto à morte do sr Kirk, todos os assassinatos, são de lamentar. O Ser Humano deve saber respeitar quem pensa diferente. Só assim podemos construir uma Sociedade de Paz. Deixo aqui as minhas condolências à família, amigos e seguidores do sr Kirk. Que a Paz esteja com todos os que lerem este humilde texto.                        Joana Fernandes: Freedom!!! Dizia a T-shirt de Kirk!! Não o vão silenciar! Não se pode aceitar! Freedom, é o valor core do Ocidente, se o deixamos abater deste modo vil, profano, amoral, abatemos todos os nossos valores fundacionais e com eles o humanismo que nos libertou da era medieval! Freedom, fight for it!                        António Rocha Pinto: Ele estava do lado certo. E não o calaram, pelo contrário, precisamos de heróis e de mártires para entendermos os limites da realidade

 

 

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