Um discurso a parecer equilibrado, a
lembrar a cartilha… Não a Maternal, é claro, mas a useira e vezeira na
expressão do gosto pelo próprio “ego” sapiente, contrariamente ao conveniente desgosto pelo
ego alheio, mais distraído, ou menos aplicado. Também ouvi.
Marques Mendes aponta riscos da
inexperiência de Gouveia e Melo: "Cada vez que fala fico mais
preocupado"
Em entrevista, Marques Mendes
falou da importância da ética na sua candidatura, atacou Gouveia e Melo e
rejeitou "confusão" de Ventura. Daria posse a Governo Chega, mas com
garantias constitucionais.
OBSERVADOR, 24 set. 2025, 22:50 8
Já
sem o fato de comentador, mas falando num tom pedagógico semelhante ao que
costumava usar, LUÍS MARQUES MENDES voltou à SIC para dar uma entrevista
no
papel de candidato “experiente” e “independente” à Presidência da República. A
pedagogia serviu-lhe, de resto, tanto para explicar as vantagens dessa
experiência como para detalhar porque é que a
ausência de experiência de Henrique Gouveia e Melo é um problema — tendo
mesmo chegado a dizer que fica “mais preocupado” cada vez que o rival abre a
boca para falar.
De baterias apontadas a Gouveia e
Melo — começou, aliás, a entrevista por frisar que as sondagens começaram por colocá-lo 21
pontos atrás do almirante, e que agora está a apenas dois — Marques
Mendes colocou-se, sempre que possível, em
contraste com o candidato mais bem colocado nos estudos de opinião.
Por isso, pegou na ideia de GOUVEIA E MELO, que diz que seria possível
dissolver o Parlamento se o Governo incumprisse gravemente uma promessa de base
do seu programa, para dizer que este é um erro “político e constitucional” sério.
“Alguém que admita essa hipótese já está a criar instabilidade. O PR deve ser factor de estabilidade, nunca
de instabilidade”, disparou.
Pelo meio, aproveitou para deixar uma
farpa educativa a Gouveia e Melo, lembrando que desde a revisão constitucional
de 1982 que o Governo depende do Parlamento, e não do Presidente, e que se deve
“estudar” as matérias.
E acrescentou que um dos possíveis
exemplos em que Gouveia e Melo “admitiu” que poderia haver caso para dissolver
— a subida dos impostos do Governo de
Pedro Passos Coelho, depois de ter prometido que não o faria — traria
ao país uma crise e provavelmente um segundo resgate financeiro. Depois, o
remate: “Isto é uma irresponsabilidade.
É por isso que sempre que Gouveia e Melo fala fico mais preocupado. Isto só
acontece porque lhe falta experiência”.
Voltando várias vezes por iniciativa
própria ao tema dos perigos de uma Presidência do militar, Marques Mendes chegou mesmo a considerar
que o candidato, só por admitir situações destas, já é um “factor de
instabilidade”. “Já tivemos dissoluções a mais. Um Presidente não deve
inventar mais instrumentos para dissoluções. As crises evitam-se. Ou
pelo menos tenta-se evitar. Quando não se evita, a solução é a bomba
atómica. Mas é importante um Presidente experiente e independente para evitar
as crises”.
Haveria ainda mais uma farpa guardada para Gouveia e Melo: aproveitando a polémica sobre o almoço
entre André Ventura e Gouveia e Melo, na quinta de Mário Ferreira, Marques
Mendes fez questão de associar os dois ao campo do populismo, dizendo que não
teria “nada a conversar” com André Ventura e de desmentir que tenha, como
Gouveia e Melo disse, almoçado com o militar, excepto num almoço alargado no São
João, a convite de Rui Moreira, “com mais trezentas pessoas”. “Muito convenientemente ele omitiu esta
parte” quando disse numa entrevista já ter almoçado com Marques Mendes,
atirou.
Por isso, Marques Mendes arrumou
desde logo André Ventura num campo à parte, não directamente seu concorrente — “Entre Ventura e eu próprio há modelos
completamente diferentes. Toda a gente percebeu que é uma jogada meramente
tática. Ele assumiu que não quer ser Presidente, quer criar confusão,
ruído, provocação. Ele quer destruir o sistema, eu quero reformá-lo. Ele é o
candidato do radicalismo, eu da moderação. Ele quer representar parte dos
portugueses, eu todos. Portanto são campos diferentes” — para atingir
Gouveia e Melo: só um candidato que tivesse características em comum com
Ventura poderia querer conversar com ele.
Posse ao Chega sim, mas com documento
escrito
Quanto
à pergunta mais colocada aos candidatos nos últimos tempos, sobre se daria
posse a um Governo do Chega caso seja o partido mais votado, Marques Mendes
disse que “claro” que o faria — fazer algo diferente seria um “golpe de Estado
constitucional” — mas com uma nuance: poderia exigir um documento escrito
de garantias constitucionais, se visse que do programa eleitoral resultavam
“medidas manifestamente contrárias à Constituição”, explica. Por exemplo: se o
programa incluir a prisão perpétua ou pena de morte, a Constituição não o
permite.
Se o documento não for respeitado,
“não há posse”, frisou. “Um Presidente
e um primeiro-ministro são as primeiras pessoas interessadas em cumprir a
Constituição”.
MARQUES MENDES deu, de resto, vários
exemplos concretos sobre a forma como quer exercer o papel de Presidente, o
cargo “mais político de Portugal”. Por um lado, aproveitando a sua experiência para negociar, colocar temas na agenda e
fazer “pontes” entre partidos; por outro, deixando clara a sua
independência, que disse ter ficado provada nas críticas que foi fazendo ao
longo dos anos a elementos do seu partido (como RUI RIO, hoje mandatário nacional de GOUVEIA E MELO) ou na retirada
do apoio a Isaltino Morais quando era presidente do PSD (decisão que hoje voltaria a tomar, ao
contrário do próprio partido, frisou).
A
ética voltou, assim, a ser apontada como uma das suas
principais bandeiras: apesar de um Presidente não governar — como alguns dos
seus adversários parecem pensar, sugeriu repetidamente — deve promover causas e a ética seria
uma delas, com Marques Mendes a recuperar a sua antiga proposta de compor uma
comissão de ética recheada de senadores no Parlamento ou comissões de ética
dentro dos partidos.
Há
outras bandeiras que tentaria, com a sua magistratura de influência, colocar na
agenda, como o Ensino
Superior — está preocupado porque, como os últimos dados
mostram, há mais vagas do que
candidatos e quem perde mais são as universidades e politécnicos do interior.
Também usaria a sua influência para
resolver impasses como o da sempre adiada reforma
da Justiça. E a prioridade actual, defendeu, é resolver os
problemas da Saúde, Educação e Habitação e pôr a economia a crescer.
A este propósito, pronunciou-se sobre as
medidas para promover o arrendamento a preços moderados anunciados por Luís
Montenegro no Parlamento: “Fico contente de hoje serem apresentadas finalmente
algumas medidas para o arrendamento, mas
faz falta dar garantias de que durante dez anos os benefícios não são revogados,
porque sem previsibilidade não há arrendamento”.
Também
disse ansiar por medidas na reforma do Estado, mais do que “proclamações”,
mesmo que o ministro seja “muito bem intencionado”. E é preciso “mais exigência
e firmeza no combate à corrupção”. Tudo exemplos da sua vontade de “reformar” e
não “destruir” o sistema.
Nova lei dos estrangeiros é “mais
digna”
Outra questão actual que Marques Mendes
comentou foi a lei dos estrangeiros, dizendo acreditar que a nova versão, alterada
perante o chumbo do Tribunal Constitucional, é “mais digna” e que o chumbo até
acabou por ser bom para o Governo, apesar de este ter inicialmente “reagido um
pouco mal disposto”.
Quanto ao Chega, atribuiu-lhe o “mérito”
de ter introduzido o tema da imigração na agenda — “mas o seu mérito fica por aqui, porque tem a perspectiva menos construtiva
que é possível ter, porque usa
imigrantes para obter votos”, acusou. “Perante um problema na Saúde, Educação e
Habitação a culpa é sempre dos imigrantes? Não é verdadeiro nem justo”.
Marques Mendes foi ainda questionado
sobre temas internacionais, considerando o reconhecimento
do Estado da Palestina uma medida “simbólica mas importante” e recusando dizer,
como jurista, se está a acontecer um genocídio em Gaza — mas há um “massacre
intolerável”. Quanto ao prometido investimento
de 5% em Defesa no âmbito da NATO, considerou
que o acordo será difícil de cumprir mas é de “importância capital” que tenha
existido, se não ia-se discutir “a
implosão da NATO, uma catástrofe” — e o Kremlin iria “abrir garrafas de
champanhe”.
Com a candidatura apresentada e
apoios recolhidos no PSD, PS e CDS, falta ainda perceber se terá o apoio de
algumas das figuras maiores do próprio partido — e o candidato assegurou não estar preocupado
com isso. Por um lado, Cavaco Silva veio defender a eleição de alguém
experiente mas sem apontar directamente a Marques Mendes — que elogiou o artigo
do “amigo”, cujo apoio gostará de ter, mas
estará “confortável” se não tiver. Quanto
a Passos Coelho, que elogiou profusamente (“digno de estima e admiração,
patriótico, corajoso” e mencionado por Ventura por “jogada política”), se
acabar por não o apoiar será apenas por estar afastado da política, sugeriu.
PRESIDENCIAIS
2026 ELEIÇÕES POLÍTICA
COMENTÁRIOS (de 8):
Abilio Silva: Quando o Snr Marques Mendes fala, mudo logo de canal. Vasco Esteves: Modelo MRS 2.0 Nano
version Antonio
C.: E nós ficamos
preocupados porque tu não te calas. Aliás a "entrevista" suou mais a
comentário versão extra-longo. Mais um MRS , não obrigado!
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