Da alegria que senti por essa altura, com a inesperada “vitória” de SALAZAR, estando convicta de que ele iria perder - para outros gloriosos da nossa História pátria - julgando até que o próprio EUSÉBIO lhes serviria, a esses, para o desfecho de nos governar – já que, por um triz, não desfizeram os alicerces do que fora o nosso país, bastante amplo e disperso, como a HISTÓRIA NACIONAL ensinara, grandeza e feitos que a mesma HISTÓRIA, por essa altura, omitia, dos próprios livros escolares, segundo tive ocasião de observar, em explicações que dei aos netos, o que me levou a lê-los, os livros escolares da actualidade de então. Mas é inútil referir tais alegrias, que alguns comentadores também tiveram, sem pejo de o salientar. Fiquei a saber hoje o promotor de tal vitória de SALAZAR. BEM HAJA, JAIME NOGUEIRA PINTO, uma vez mais, pelo seu arrojo de então e o de hoje, trazendo-o à nossa memória, de alegrias sentidas, no meio dos pesadelos do chuto sofrido na altura.
Um só Salazar em três pessoas distintas
Quando alguém por provocação e porque
sabe para quem fala se mostra imune ao Salazar’s Derangement Syndrome,
rasgam-se vestes, fazem-se exaltadas referências de inconstitucionalidade,
evoca-se Hitler…
JAIME NOGUEIRA PINTO Colunista do
Observador
OBSERVADOR, 08
nov. 2025, 00:1772
Em 25 de Março de 2007 teve lugar a finalíssima do concurso da
RTP Os Grandes Portugueses. Era uma data importante para a estação pública
de televisão, que fazia meio século. Para a comemoração, que coincidia com o
final do programa, estava previsto um banquete. A mesa estava posta nos
estúdios e era farta… até que se soube o resultado do concurso. Então,
apagaram-se os holofotes, desceu sobre a festa uma cortina de incrédulo
desconcerto, mergulhando-a como que numa longa noite de clandestinidade, e o
banquete para ali ficou, suponho que intocado.
Os finalistas do concurso incluíam reis, como o fundador D. Afonso
Henriques ou D. João II, o Príncipe Perfeito, Nun’Álvares Pereira, o
Condestável, figuras de proa da expansão marítima, como o Infante D. Henrique e
Vasco da Gama, grandes poetas, como Luís de Camões e Fernando Pessoa, e
estadistas controversos, como o marquês de Pombal.
Mas apesar do peso histórico de todos esses grandes portugueses, os
primeiros três entre os dez que ficaram das sucessivas eliminatórias eram todos
do século XX e todos “políticos”: SALAZAR, da direita nacional, conservadora e autoritária, ÁLVARO
CUNHAL, da esquerda comunista, internacionalista e totalitária e ARISTIDES
SOUSA MENDES, um centrista, celebrado pela sua acção humanitária, ao facilitar,
no consulado de Portugal em Bordéus, passaportes portugueses para judeus
perseguidos.
Ganhou Salazar, com 41% dos votos,
seguido por Álvaro Cunhal, com 19,1%, e Aristides Sousa Mendes, com 13%. Sousa Mendes era defendido pelo José
Miguel Júdice, Cunhal pela deputada Odete Santos, e Salazar por mim.
Diga-se que, na altura, mais ainda do
que agora, não havia quem quisesse dar-se
ao trabalho de defender Salazar fora do aconchego do lar ou de um táxi – onde
geralmente se optava pela modalidade “um Salazar em cada esquina”, então em
voga (o Salazar em três pessoas distintas, dois para se contradizerem e um
para desempatar, ainda não tinha cá chegado). Por isso,
quando me convidaram, perguntei se esperavam que o defendesse como advogado ou
como historiador. Disseram-me
que devia defender Salazar como advogado, ou seja, podendo valorizar os
aspectos positivos do meu “cliente” e justificar, sem os omitir, os negativos.
A vitória do “ditador,” do
“fascista” ANTÓNIO DE OLIVEIRA SALAZAR[*] – um candidato só admitido a concurso à
última hora e por força dos protestos contra a sua ausência da lista dos
elegíveis – deveu-se a um fenómeno muito português de reacção ao silenciamento
e à manipulação ideológica, que encontrava no concurso uma brecha para se
expressar. Não era, evidentemente, uma apreciação serena da História de
Portugal, em que o FUNDADOR e o CONDESTÁVEL, por
exemplo, essenciais à independência do país, ou o INFANTE D. HENRIQUE, D. JOÃO II e VASCO DA GAMA, figuras-chave
da expansão que deu massa crítica ao Reino para escapar à atracção centralista
de Castela-Espanha, assumiriam maior
importância.
O que estava em jogo era um jogo. E o
jogo era político. Talvez por isso, tal como na América, em França e em
Inglaterra (onde ganharam REAGAN,
DE GAULE E CHURCHILL), aqui as
personagens do século XX dominaram. E houve também um alinhamento
ideológico à volta de dois “extremos” que, nalgumas coisas, se tocavam – "SALAZAR
e CUNHAL eram dois homens inteligentes, convictos e coerentes
nas suas convicções, muito diferentes entre si, mas também muito diferentes, para o bem e para o mal, dos
“moderados”, dos “rolhas”, dos pequenos, grandes
e médios corruptores activos ou passivos que muita gente via e vê no grosso da
classe política.
Essa vitória de Salazar, do “fascismo”, ainda que só num concurso,
foi talvez o primeiro balde de água fria que inesperadamente caiu sobre os
“fazedores de opinião”, uma premonitória surpresa desagradável, que receberam
com a incredulidade ofendida de quem está perante uma vil traição.
Ao
contrário dos “fazedores de opinião”, cuja opinião contribuíra para manipular com grande sucesso o Dr.
Cunhal, quando usava para os seus fins e para os da União
Soviética o ardil do “nazi-fascismo de Hitler, Mussolini, Franco e Salazar”, sabia bem que aquela sua via rápida de
Auschwitz à António Maria Cardoso não passava de um ardil. E que não
eram minimamente comparáveis, até em número relativo de presos políticos, a
repressão do Estado Novo e o holocausto hitlerista; e muito menos os desmandos e sevícias do Estado Novo e
as carnificinas comunistas do maoismo e do sovietismo. Respeito
quem é coerente e se bate pelos seus ideais até à prisão e à morte, mas os
“excessos” do Estado Novo e do hitlerismo ou do comunismo soviético e chinês
não são nem podem ser realidades comparáveis. Tentei explicá-lo quando defendi
Salazar. E não tendo
sido salazarista no tempo de Salazar, tendo combatido o marcelismo e tendo
vivido toda a minha vida consciente na oposição, antes e depois do 25 de Abril,
achei que podia fazê-lo com independência e à vontade.
Mas
em Portugal, onde o golpe militar de Abril, o PREC e o domínio dos instrumentos
culturais e mediáticos pela Esquerda condicionaram a percepção da História do
século XX, estipulou-se que o
lugar de Salazar era na galeria dos horrores; e para
que os figurantes da galeria continuem a desempenhar o conveniente papel de
espantalhos ou papões que a Esquerda lhes atribuiu, carrega-se-lhes nas cores
até à caricatura e enxota-se toda a vontade de distância crítica, de análise,
de verdade, com esperança de que o povo ignore as tristezas do presente e vá
atrás.
Entretanto, quando alguém, por provocação e porque sabe para quem fala, se
mostra subitamente imune ao Salazar’s Derangement Syndrome (SDS) – um reflexo
local do famoso Trump’s Derangement Syndrome (TDS), que alastra pela
Euro-América e acomete o entendimento e a capacidade de análise e de
relativização –, rasgam-se vestes, fazem-se exaltadas referências à
inconstitucionalidade das “apologias do fascismo”, esconjura-se a suposta
beatificação de uma qualquer trindade salazarista, evoca-se Hitler…
É, infelizmente, o que tem vindo a
acontecer a muitos dos que, atingidos cumulativamente pelo SDS e pelo TDS, têm
a nobre missão de nos informar: à menção do nome-gatilho, vai-se-lhes
abaixo o entendimento e entram em falência interna e externa, ignorando
supostas objectividades e amalgamando atabalhoadamente passado, presente e futuro,
muitas vezes sem que se dêem conta.
Nesse Domingo de Março de 2007,
quando ainda não havia Trump e Salazar era um só, o choque era mais
compreensível. Tanto que,
quando ODETE SANTOS, desolada perante a “vitória do fascismo”, invocou o
anti-fascismo da Constituição, tive de ser eu a acalmá-la, dizendo-lhe que o
regime não tinha caído, que era apenas um concurso.
[*] Os que chamam a Salazar “fascista” só me
lembram os que chamavam “comuna” ao Dr. Soares. José Luís Andrade escreveu
recentemente um ensaio sobre o “fascismo” de Salazar que vale a pena ler (J.
Luís Andrade, Era Salazar Fascista?, The Note Book Series, Amazon, 2025)
A SEXTA
COLUNA HISTÓRIA CULTURA SALAZAR PAÍS SOCIEDADE
COMENTÁRIOS (de 72)
Nuno Abreu: Muito Bom. A história tem de se sobrepor à
ideologia.
SDC Cruz: Caro
Jaime Nogueira Pinto, o seu excelente artigo transportou-me para as minhas
memórias. Nós, que estivemos
em África, não sentimos em nada o "fascismo" do "ditador"
Salazar. Nós vivíamos no progresso e
na vanguarda de África. Para mim e demais família e todo o nosso círculo de
amigos, foram os melhores anos da nossa infância e adolescência, vividos com os
excessos próprios da juventude, mas em plena liberdade de funções. Foi preciso
uma revolução na Metrópole para que os nossos sonhos fossem desfeitos. De um
dia para outro, tudo se desmoronou. A solução foi fugir do nosso País, deixando
tudo em que acreditávamos, para regressarmos, praticamente sem nada, à
Metrópole. Àquela Metrópole que nos tinha espoliado de quase tudo. Mais
uma vez íamos recomeçar tudo de novo dando asas à nossa indescritível
resiliência. Obrigado, Jaime Nogueira Pinto.
Luis Silva > Manuel Almeida Gonçalves: Um acéfalo primário entrou no relvado. Francisco Figueiredo > Manuel Almeida Gonçalves: Não lemos o mesmo artigo! Américo Silva: Não se assustem, Salazar não volta, a independência de
Portugal também não, antes venham mais euros da união. Jorge Carvalho: Obrigado JNP pela sua colaboração inestimável na
reposição da verdade HISTÓRICA com a sua honestidade e coragem intelectual e
raro saber de experiências feito. klaus muller: Nunca percebi por que razão, quando alguém da
Direita ou da Esquerda fala do Cunhal, acrescenta sempre que era um homem muito
inteligente. É que se tivesse sido minimamente inteligente nunca
teria sido comunista, pois os resultados estão à vista ...
Francisco RamosTristão: Eu penso que discutir, se Salazar foi ou
não, fascista, é uma pura perda de tempo. O que é que isso adianta? Talvez
seja mais proveitoso discutir o que ele fez, ou não fez, pelo país. Para mim
fez muita coisa. Retirou o país da bancarrota, e daquela perigosa trapalhada
que foi a primeira república. Poupou Portugal à segunda guerra. Tem uma lista
de realizações materiais de fazer inveja aos pigmeus oportunistas que nos têm
governado no pós 25 de Abril. Deu provas duma competência e integridade à prova
de bala. As vulnerabilidades são: A PIDE Destinou-se fundamentalmente
a combater o comunismo. Sem ela talvez tivéssemos sido confrontados com uma
guerra civil. Em 1975, já sem PIDE, estivemos mesmo, mesmo à beira de uma. Os
mais velhos lembram-se. A censura: Não foi por
causa dela que Miguel Torga, Aquilino Ribeiro, Alves Redol, Sttau Monteiro,
Cardoso Pires e tantos outros desenvolveram a sua actividade. A guerra do Ultramar. Aqui fico-me apenas por uma pergunta.
Qual era a solução ideal?
José Silva > klaus muller: O Álvaro Barreirinhas do Cunhal nunca passou dum
burguês travestido de proletário a trabalhar para o PCUS da União Soviética,
com ordenado e regalias inerentes aos caciques soviéticos que nunca se
misturaram com o povo e que usufruíam as mordomias herdadas dos czares. Manuel F: É sempre bom lembrar as lições
que o povo por vezes dá, mas há quem não aprenda nem queira aprender. Francisco
Ramos: Ainda bem que há pessoas com esta coragem. Caso contrário seria uma completa
selva, só habitável por quadrúpedes.
Glorioso SLB: Portas e Santana, fascismo à paisana. Passos era
fascista. Até ao Pinheiro de Azevedo chamaram fascista. Ao q ele respondeu: vão
barda…. mais o fascista. Maria
Nunes: A verdade histórica acima de tudo. Muito bem JNP. Miguel
Macedo: Muito bem!
Como sempre! José B
Dias > Francisco Figueiredo: Já me tenho apercebido da existência de alguns por
aqui que demonstram uma estranha tendência para "lerem" o que mais
jeito lhes daria que estivesse escrito, em lugar do que efectivamente foi ... António Costa e Silva: Lembro-me bem deste concurso e do gosto de poder votar pela primeira vez em alguém
decente, em vez de ter que escolher entre os pulhas e trafulhas que nos
apresentavam nas eleições. Maria
Correia: tive de ser
eu a acalmá-la, dizendo-lhe que o regime não tinha caído, que era apenas um
concurso. AAHHAHA Muito bom. Obrigada. Alexandre
Barreira: Pois. Caro
Jaime. Concordo. Mas acho que......meio Salazar....chegava....! Carlos
Chaves: Soares não
era comuna, mas aceitou com satisfação os seus votos (os comunas até tiveram de
fechar os olhos quando punham a cruz no boletim de voto), e aprovaria a
geringonça com muita satisfação! E no 25 de Novembro de 1975 combateu-os, para
não ser o primeiro a ser engaiolado, não pelas razões que nos tentam vender! Ou
seja não era comuna, mas servia-se deles! Caríssimo Jaime Nogueira Pinto,
agradeço a sugestão de leitura, mas acho que já sei a resposta antes de ler o
livro. JM
Azevedo: É sempre
bom acordar e ler um artigo com o seu, JNP. Parece que o dia vai correr melhor.
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