terça-feira, 4 de novembro de 2025

Um tema folclórico

 

Da nossa perplexidade também, de longa data, perante a acusação absurda, de que foram vítimas os ultramarinos, conhecendo todos quanto a violência das distinções sociais é coisa comum a todos os povos – o que não implica malvadez social a não ser nos seres malvados, entre os quais se contariam desses acusadores…

Perplexidade na sala de aula

“Não percebo Sôtora. Se Portugal foi o que mais traficou e se a prosperidade das potências está relacionada com o tráfico de seres humanos e com a escravidão, como é que Portugal é o país mais pobre?”

JOÃO PEDRO MARQUES Historiador e romancista

OBSERVADOR, 03 nov. 2025, 00:1728

Desde o início do ano lectivo de 2026-27 que a Dra. Olímpia Xis se esforçava por respeitar o novo programa – da disciplina de História e por corresponder às directivas emanadas do Ministério da Educação. Aquele era o seu primeiro ano como professora, mas aprendera rapidamente a disfarçar a sua insegurança atrás da forma briosa e cumpridora como desempenhava a sua função naquela escola na periferia. Ainda assim era sempre com uma pontinha de apreensão que entrava na turma A do 10º ano. Não que os alunos que dela faziam parte fossem indisciplinados ou agressivos, pelo contrário. O leve problema é que um deles era invulgarmente atento e informado. A Joana – era esse o seu nome – era positivamente brilhante, extraordinariamente arguta, tão arguta que parecia ter vindo de outro planeta. Não raro essa aluna fazia-lhe perguntas que a deixavam embaraçada. Desta vez, porém, a professora Olímpia Xis estava menos inquieta do que era costume, ia menos de pé atrás, pois naquela tarde iria falar de escravatura. O novo programa exigia explicitamente que os alunos fossem capazes de “relacionar a prosperidade das potências coloniais com o tráfico de seres humanos e a escravidão, nomeadamente no espaço transatlântico”, e isso parecia-lhe tão óbvio, e a reparação desse horrendo facto histórico tão moralmente justa, que não antevia perguntas incómodas ou inesperadas.

Foi, por isso, de peito aberto que expôs a matéria, projectando, até, a imagem de uma tabela actualizada das viagens dos navios negreiros das várias nações ocidentais, tendo um prazerzinho masoquista que lhe vinha da sua costela woke, em acentuar a responsabilidade portuguesa:

Como podem ver – referiu, apontando para a tabela – Portugal levou quase 6 milhões de pessoas escravizadas para a América. Para sermos mais precisos, Portugal transportou um pouco mais de 5,8 milhões.

Enquanto continuava a exposição reparou, com uma pontinha de inquietação, que Joana escrevia qualquer coisa no seu caderno de apontamentos e essa sua inquietação cresceu quando a aluna pôs um braço no ar para lhe fazer uma pergunta:

– Sôtora, desculpe, mas a tabela diz Portugal e Brasil. Esses quase 6 milhões são só de Portugal ou são de dois países juntos?

Olímpia Xis parou de falar. Olhando com atenção para a tabela verificou que a aluna tinha razão, e assumiu-o de imediato enquanto ia tentando fazer contas de cabeça:

– Sim, é verdade, Joana. A partir de 1822 é claro que é responsabilidade do Brasil já independente, não é? Ora deixa cá subtrair a parte do Brasil… alguém me ajude, por favor, que eu não sou brilhante em Matemática…

A Joana, que já fizera as contas, informou-a de que, a partir de 1822, o Brasil importou cerca de 1,3 milhões de escravos e a professora agradeceu, sorrindo e sentindo que obtivera, apesar daquela correcção, a confirmação do que ensinara:

– Portanto, Portugal transportou os outros 4,5 milhões não é? Ou seja – concluiu, triunfante –, foi ainda assim o país ocidental que mais traficou em negros escravizados.

E já se preparava para prosseguir com a matéria da aula quando Joana levantou novamente o braço:

- Mas então eu não percebo, Sôtora. Se Portugal foi o que mais traficou, e se a prosperidade das potências coloniais está relacionada com o tráfico de seres humanos e com a escravidão, como é que Portugal é o país mais pobre?

A Dra. Olímpia Xis engoliu em seco. A verdade é que não sabia. Aliás nunca tinha pensado nisso, mas era óbvio que havia ali qualquer coisa que não batia certo. Como era humilde confessou a sua ignorância e prometeu à Joana e ao resto da turma que iria investigar o assunto e que logo que possível lhes diria o que concluíra.

Chegou a casa tão irritada que se cortou a descascar uma maçã e nessa noite dormiu mal. No dia seguinte, como a irritação não passasse e continuasse sem saber onde procurar informação, atreveu-se a telefonar a Leonardo Ípsilon, um velho professor universitário, especialista na matéria, com quem mantivera algum contacto depois de concluir a licenciatura, e expôs-lhe o que se passara e as suas perplexidade e desorientação.

O Professor Ípsilon ouviu-a atentamente e depois explicou-lhe, num longo telefonema que demorou quase meia-hora, que essa ideia de grande riqueza associada ao sistema escravista vinha de Capitalism and Slavery, um livro de historiador negro das Caraíbas, Eric Williams, publicado em 1944. Todavia, segundo ele, essa ideia não era mais do que uma interpretação, uma teoria. Williams quis demonstrar, entre outras coisas, que o capitalismo mercantil europeu teria criado um sistema de plantação muito lucrativo nas Américas, alimentado pelo tráfico transatlântico de escravos. Para Williams os lucros desse tráfico e do sistema de plantação teriam assegurado a maior parte do capital que viria a financiar a Revolução Industrial Inglesa. Ora, em anos mais recentes, vários historiadores económicos tinham-se encarregado de desmantelar essa teoria, mostrando que o tráfico negreiro e o sistema escravista de plantação forneceram apenas uma parte limitada do capital que alimentou a industrialização inglesa.

– É, portanto, falso – concluiu – que o tráfico e o sistema de plantação tenham sido os causadores da riqueza e do domínio dos ocidentais sobre os outros povos. E se isso é falso para a Inglaterra, com maior força de razão o será para Portugal. Ainda há meia dúzia de anos o Nuno Palma e o Jaime Reis mostraram indirectamente isso.

– Ou seja, se bem percebi, apresentam-se opiniões e interpretações como se fossem factos históricos ou científicos incontestáveis.

– Isso mesmo, Olímpia. É claro que o trabalho escravo foi indispensável para a rápida fixação e exploração europeia das Américas, e é também claro que contribuiu para o crescimento económico da Europa, mas não ao ponto que se diz.

Mas uma vez que assim é, como se explica este programa da disciplina de História que exige aos professores que façam os alunos relacionar a prosperidade das potências coloniais com o tráfico de seres humanos e a escravidão, nomeadamente no espaço transatlântico?

– Não lhe sei dizer, Olímpia, não sei o que se passa no Ministério da Educação, mas pode estar relacionado com as guerras culturais e com a vontade política e ideológica de criar entre os jovens uma certa inclinação para virem a aceitar ou, até, a defender, a ideia de reparações às Caraíbas, ao Brasil e a vários países africanos. Em tempos li que aquela exposição sobre o colonialismo que esteve ou ainda está, já não sei bem, no Museu de Etnologia, aquela em que se afirmava que a sociedade portuguesa se caracteriza pelo racismo sistémico, imagine, e que tinha como principal objectivo descolonizar as mentes dos portugueses, lembra-se?

– Sim, sim.

– Pois li que andou a ser mostrada, em versão reduzida, pelas escolas e instituições do país. Pelos vistos o governo da AD apoia ou faz de conta que não vê estas farras ideológicas. Bom, mas voltando ao assunto: pelo que me vou apercebendo nos jornais, a gente woke não abre mão da tese simplista de Eric Williams sobre o enriquecimento do Reino Unido e da Europa, e não cessa de a difundir. E porquê? Porque só ela justifica que a sua sanha incida em exclusivo num tipo específico de tráfico de escravos, isto é, no tráfico transatlântico feito pelos europeus, e não, por exemplo, no tráfico feito pelos muçulmanos através do deserto do Sara. Só assim se explica, também, que os pedidos de reparações se circunscrevam aos ocidentais, e não abranjam todos os outros povos – os árabes, por exemplo – que traficaram escravos em África e noutras partes do mundo. Mas isto, claro, é off the record. Escuso de lhe recomendar que não diga isto aos seus alunos.

Olímpia Xis agradeceu penhorada ao seu antigo professor e nessa noite já não teve dificuldade em conciliar o sono. Na manhã seguinte entrou sorridente na sala de aula da turma A do 10º ano e explicou aquilo que aprendera na conversa com o Professor Leonardo Ípsilon. Acrescentou, da sua própria lavra, que as razões do enriquecimento e empobrecimento das nações são várias e complexas, e que não se deve apontar apenas, ou principalmente, a um único factor, como era o caso do sistema escravista. No final da explicação os alunos olharam-na entre a indiferença e o agradecimento, como era costume. Todavia, Joana voltou a esticar o braço direito para fazer uma pergunta:

– Desculpe Sôtora, mas assim sendo que andam essas pessoas do ministério a fazer? Querem meter ideias de culpa e de responsabilidade histórica nas nossas cabeças?

E a Dra. Olímpia Xis tornou a engasgar-se e não se atreveu a responder-lhe.

COMENTÁRIOS

Nuno Alves: Muito bem. Antes era o PS que enfiava ideologia de esquerda nos currículos da escola. Muitos votaram no PSD-CDS para acabar com essa praga. Mas acho que no fundo até gostam, ou são cobardes. Que outras razões pode haver para esses e outros conteúdos continuarem a fazer parte dos currículos?               João Santos: O wokismo está de tal modo enraizado nos sectores da cultura, da educação e da comunicação social que extirpá-lo é uma verdadeira guerra civil cultural...                 Carlos Chaves: Genial caro João Pedro Marques, simplesmente genial! Obrigado! É caso para dizer, então, mas vira o disco e toca o mesmo? Esta equipa ministerial da AD não entrou no ministério ontem, o que esperam para honrarem os votos de quem os elegeu? A escola é para se ensinar a verdade conhecida e comprovada, não é espaço para a mentira e para manipulação! Exigimos a retirada imediata de todo e qualquer pensamento/programa, “woke”, das escolas Portuguesas! E já agora do imposto Mortágua também! Um grande bem-haja ao João Pedro Marques.          Maria Nunes: Este Governo devia estar mais atento a este problema. É inadmissível que, por motivos ideológicos, a História do nosso país seja manipulada. Haja coragem para repor a verdade dos factos históricos                  Meio Vazio: E a professora Xis vai conseguir evitar um processo disciplinar? Vai ser preventiva e higienicamente suspensa? Vai directamente para a fogueira, acordados que terão sido os "activistas" dos "observatórios" iscteanos? Espero pelos próximos episódios, Sr. Marques.                José B Dias: Pena que existam cada vez menos "Joanas" com a coragem de questionar o que é apresentado como a verdade inquestionável ... E a cada dia é necessária mais coragem para enfrentar as turbas que se deliciam com o conforto dos dogmas e a protecção dos números no seio das massas alienadas do pensamento de sentido único. E que adoram sinalizar virtudes que de facto nunca possuíram...                  Manuel Lisboa: Gostei da parábola. Moral: a manipulação histórica é muito feia...e estúpida. Constate-se, porém, que se revela tão antiga como a própria História. Haja persistência e muita paciência para desmontar, repetida e insistentemente, fantasias e aleivosias como o autor da crónica procura fazer.              graça Dias: Senhor Professor João Pedro Marques:  Manifesto desde já a pertinência deste artigo tão relevante, que deveria despertar "mentes adormecidas" ou desatentas, para com a insanidade do activismo WOKE, que deverá ser combatido. Um artigo que o Senhor Ministro Fernando Alexandre deveria ler e tomar decisões no que concerne ao ensino básico, como igualmente interferir nas universidades (pagas com os dinheiros dos contribuintes), onde o activismo cultural marxista é difundido até à náusea. Mas, tudo indica que este governo de Luís Montenegro não só interiorizou, como validou o activismo Woke, evidenciado na extinção do Ministério da Cultura, passando tão relevante área para o desenvolvimento económico, cultural e social, a estar sob a alçada da ignorância WOKE!... Este abominável activismo cultural marxista, exige ser combatido,através de vozes como a do Senhor Professor Pedro Marques, mas também através de políticas por parte deste governo AD. Caso o 1° Ministro Luís Montenegro não tome decisões determinadas e firmes, iremos continuar com as políticas do seu antecessor / AC !... O que se passa no ensino, nas universidades e na Cultura, é uma política de cancelamento: apagar; reescrever; alterar a História; negar a Ciência... Este activismo de fervor paranóico e de perfil quase religioso conduz a humanidade ao obscurantismo.  Ao Senhor Professor João Pedro Marques o meu obrigada pela pertinência do tema.                Pobre Portugal: Custa muito dizer a verdade aos nossos alunos, caro Primeiro-Ministro Luís Montenegro? Deixa que se lhes minta por medo do BE e do Livre? É isso? Assim, só nos resta votar no Chega.                Maria João Pestana: Quando aqueles em quem confiamos ignoram a mentira por comodismo …. Talvez seja o princípio do seu fim….         Meio Vazio Meio Vazio: E a pobre da Joana? O tribunal de menores/CPCJ vai demorar a resgatá-la, evitando, se não a perdição do seu corpo, pelo menos a danação da sua alma? Que purgatório, perdão, reformatório a poderá acolher? Aguardemos, pois.                 Rosa Graça: Obrigada. Excelente, mais uma vez. Como professora de História há mais de trinta anos, continuo a aprender consigo.             Sr Leão Sr Leão: Seja como for, o JPM revela neste artigo uma faceta que não lhe conhecíamos -- o senso de humor -- e que só lhe acrescenta valor.            Sr Leão: A grande dificuldade é que após as eleições em que o povo pode manifestar a sua vontade já não tem mais nenhuma oportunidade de se manifestar senão nas próximas eleições.            Maria: Não dúvida a sabedoria do povo é soberana "O que se estraga num minuto pode levar uma eternidade a consertar"       Miguel Santos: As Joanas da sociedade são rapidamente apelidados de *f@scistas*, que é o insulto corrente dos trolls de extrema-esquerda quando lhes falta a lógica e os factos do seu lado, ou seja, quase sempre.

 

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