Da nossa perplexidade também, de longa data, perante a acusação
absurda, de que foram vítimas os ultramarinos, conhecendo todos quanto a
violência das distinções sociais é coisa comum a todos os povos – o que não
implica malvadez social a não ser nos seres malvados, entre os quais se
contariam desses acusadores…
Perplexidade na sala de aula
“Não
percebo Sôtora. Se Portugal foi o que mais traficou e se a prosperidade das
potências está relacionada com o tráfico de seres humanos e com a escravidão,
como é que Portugal é o país mais pobre?”
JOÃO PEDRO MARQUES Historiador e romancista
OBSERVADOR, 03
nov. 2025, 00:1728
Desde o início do ano lectivo de 2026-27
que a Dra. Olímpia Xis se esforçava por
respeitar o novo programa – da disciplina de História e por corresponder às directivas emanadas
do Ministério da Educação. Aquele era o seu primeiro ano como
professora, mas aprendera rapidamente a disfarçar a sua insegurança atrás da
forma briosa e cumpridora como desempenhava a sua função naquela escola na
periferia. Ainda assim era sempre com uma pontinha de apreensão que entrava na turma
A do 10º ano. Não que os alunos que dela faziam parte fossem indisciplinados
ou agressivos, pelo contrário. O leve problema é que um deles era invulgarmente
atento e informado. A Joana – era esse o seu nome – era positivamente
brilhante, extraordinariamente arguta, tão arguta que parecia ter vindo de
outro planeta. Não raro essa aluna fazia-lhe perguntas que a deixavam
embaraçada. Desta vez, porém, a professora Olímpia Xis estava menos inquieta do
que era costume, ia menos de pé atrás,
pois naquela tarde iria falar de escravatura. O novo programa exigia explicitamente que os alunos fossem
capazes de “relacionar a prosperidade das potências coloniais com o tráfico
de seres humanos e a escravidão, nomeadamente no espaço transatlântico”,
e isso parecia-lhe tão óbvio, e a reparação desse horrendo facto histórico tão
moralmente justa, que não antevia perguntas incómodas ou inesperadas.
Foi, por isso, de peito aberto que expôs
a matéria, projectando, até, a imagem de uma tabela actualizada das
viagens dos navios negreiros das várias nações ocidentais, tendo um prazerzinho
masoquista que lhe vinha da sua costela woke, em acentuar a
responsabilidade portuguesa:
– Como
podem ver – referiu, apontando para a tabela – Portugal levou quase 6 milhões de pessoas escravizadas para a
América. Para sermos mais precisos, Portugal transportou um pouco mais de 5,8
milhões.
Enquanto continuava a exposição reparou,
com uma pontinha de inquietação, que Joana escrevia qualquer coisa no seu
caderno de apontamentos e essa sua inquietação cresceu quando a aluna pôs um
braço no ar para lhe fazer uma pergunta:
– Sôtora, desculpe, mas a tabela diz Portugal e Brasil. Esses quase 6 milhões são só de Portugal
ou são de dois países juntos?
Olímpia Xis parou de falar. Olhando com
atenção para a tabela verificou que a aluna tinha razão, e assumiu-o de
imediato enquanto ia tentando fazer contas de cabeça:
– Sim, é verdade, Joana. A partir de
1822 é claro que é responsabilidade do Brasil já independente, não é? Ora deixa
cá subtrair a parte do Brasil… alguém me ajude, por favor, que eu não sou
brilhante em Matemática…
A Joana, que já fizera as contas,
informou-a de que, a partir de 1822, o
Brasil importou cerca de 1,3 milhões de escravos e a professora agradeceu, sorrindo
e sentindo que obtivera, apesar daquela correcção, a confirmação do que
ensinara:
–
Portanto, Portugal transportou os outros 4,5 milhões não é? Ou seja – concluiu,
triunfante –, foi ainda assim o país ocidental que mais traficou em negros
escravizados.
E já se preparava para prosseguir com a
matéria da aula quando Joana levantou novamente o braço:
- Mas
então eu não percebo, Sôtora. Se Portugal foi o que mais traficou, e se a
prosperidade das potências coloniais está relacionada com o tráfico de seres
humanos e com a escravidão, como é que Portugal é o país mais pobre?
A Dra. Olímpia Xis engoliu em seco. A
verdade é que não sabia. Aliás nunca tinha pensado nisso, mas era óbvio que
havia ali qualquer coisa que não batia certo. Como era humilde confessou a sua
ignorância e prometeu à Joana e ao resto da turma que iria investigar o assunto
e que logo que possível lhes diria o que concluíra.
Chegou a casa tão irritada que se cortou
a descascar uma maçã e nessa noite dormiu mal. No dia seguinte, como a
irritação não passasse e continuasse sem saber onde procurar informação,
atreveu-se a telefonar a Leonardo Ípsilon, um velho professor universitário,
especialista na matéria, com quem mantivera algum contacto depois de concluir a
licenciatura, e expôs-lhe o que se passara e as suas perplexidade e
desorientação.
O Professor Ípsilon ouviu-a atentamente
e depois explicou-lhe, num longo telefonema que demorou quase meia-hora, que essa ideia de grande riqueza
associada ao sistema escravista vinha de Capitalism and Slavery, um livro
de historiador negro das Caraíbas, Eric Williams, publicado em 1944. Todavia, segundo ele, essa ideia não era
mais do que uma interpretação, uma teoria. Williams quis demonstrar, entre
outras coisas, que o capitalismo mercantil europeu teria criado um sistema de
plantação muito lucrativo nas Américas, alimentado pelo tráfico transatlântico
de escravos. Para Williams os
lucros desse tráfico e do sistema de plantação teriam assegurado a maior parte
do capital que viria a financiar a Revolução Industrial Inglesa. Ora,
em anos mais recentes, vários historiadores económicos tinham-se encarregado de
desmantelar essa teoria, mostrando que o tráfico negreiro e o sistema
escravista de plantação forneceram apenas uma parte limitada do capital que
alimentou a industrialização inglesa.
–
É, portanto, falso – concluiu – que o
tráfico e o sistema de plantação tenham sido os causadores da riqueza e do domínio dos ocidentais sobre os
outros povos. E se isso é falso para a Inglaterra, com maior força de razão o
será para Portugal. Ainda há meia dúzia de anos o Nuno Palma e
o Jaime Reis mostraram indirectamente isso.
–
Ou seja, se bem percebi, apresentam-se opiniões e interpretações como se fossem
factos históricos ou científicos incontestáveis.
–
Isso mesmo, Olímpia. É claro que o trabalho escravo foi indispensável para a
rápida fixação e exploração europeia das Américas, e é também claro que
contribuiu para o crescimento económico da Europa, mas não ao ponto que se diz.
– Mas
uma vez que assim é, como se explica este programa da disciplina de História
que exige aos professores que façam os alunos relacionar a prosperidade das
potências coloniais com o tráfico de seres humanos e a escravidão, nomeadamente
no espaço transatlântico?
– Não lhe sei dizer, Olímpia, não sei
o que se passa no Ministério da Educação, mas pode estar relacionado com as
guerras culturais e com a vontade política e ideológica de criar entre os jovens
uma certa inclinação para virem a aceitar ou, até, a defender, a ideia de
reparações às Caraíbas, ao Brasil e a vários países africanos. Em tempos li que
aquela exposição sobre o colonialismo que
esteve ou ainda está, já não sei bem, no Museu de Etnologia, aquela em que se
afirmava que a sociedade portuguesa se caracteriza pelo racismo sistémico,
imagine, e que tinha como principal objectivo descolonizar as mentes dos
portugueses, lembra-se?
– Sim, sim.
– Pois li que andou a ser mostrada, em versão reduzida, pelas
escolas e instituições do país. Pelos vistos o governo da AD apoia ou faz de
conta que não vê estas farras ideológicas. Bom, mas voltando ao assunto: pelo que
me vou apercebendo nos jornais, a gente woke não abre mão da tese simplista
de Eric Williams sobre o enriquecimento do Reino Unido e da Europa, e não cessa
de a difundir. E porquê?
Porque só ela justifica que a sua sanha incida em exclusivo num tipo específico
de tráfico de escravos, isto é, no tráfico transatlântico feito pelos europeus,
e não, por exemplo, no tráfico feito pelos muçulmanos através do deserto do
Sara. Só assim se explica, também, que os pedidos de reparações se
circunscrevam aos ocidentais, e não abranjam todos os outros povos – os árabes,
por exemplo – que traficaram escravos em África e noutras partes do mundo. Mas
isto, claro, é off the record. Escuso de lhe recomendar que não diga isto
aos seus alunos.
Olímpia Xis agradeceu penhorada ao seu
antigo professor e nessa noite já não teve dificuldade em conciliar o sono. Na
manhã seguinte entrou sorridente na sala de aula da turma A do 10º ano e
explicou aquilo que aprendera na conversa com o Professor Leonardo Ípsilon.
Acrescentou, da sua própria lavra, que as razões do enriquecimento e
empobrecimento das nações são várias e complexas, e que não se deve apontar
apenas, ou principalmente, a um único factor, como era o caso do sistema
escravista. No final da explicação os alunos olharam-na entre a indiferença e o
agradecimento, como era costume. Todavia, Joana voltou a esticar o braço
direito para fazer uma pergunta:
–
Desculpe Sôtora, mas assim sendo que andam essas pessoas do ministério a fazer?
Querem meter ideias de culpa e de responsabilidade histórica nas nossas
cabeças?
E
a Dra. Olímpia Xis tornou a engasgar-se e não se atreveu a responder-lhe.
COMENTÁRIOS
Nuno Alves: Muito bem. Antes era o PS que enfiava
ideologia de esquerda nos currículos da escola. Muitos votaram no PSD-CDS para
acabar com essa praga. Mas acho que no fundo até gostam, ou são cobardes. Que
outras razões pode haver para esses e outros conteúdos continuarem a fazer
parte dos currículos? João Santos: O
wokismo está de tal modo enraizado nos sectores da cultura, da educação e da comunicação
social que extirpá-lo é uma verdadeira guerra civil cultural... Carlos Chaves: Genial caro João Pedro Marques, simplesmente genial! Obrigado! É caso para dizer, então, mas vira o disco e toca o mesmo? Esta
equipa ministerial da AD não entrou no ministério ontem, o que esperam para
honrarem os votos de quem os elegeu? A escola é para se ensinar a verdade
conhecida e comprovada, não é espaço para a mentira e para manipulação!
Exigimos a retirada imediata de todo e qualquer pensamento/programa, “woke”,
das escolas Portuguesas! E
já agora do imposto Mortágua também! Um
grande bem-haja ao João Pedro Marques.
Maria Nunes: Este Governo devia estar mais atento a este problema. É
inadmissível que, por motivos ideológicos, a História do nosso país seja manipulada.
Haja coragem para repor a verdade dos factos históricos. Meio Vazio: E a professora Xis vai conseguir evitar
um processo disciplinar? Vai ser preventiva e higienicamente suspensa? Vai
directamente para a fogueira, acordados que terão sido os
"activistas" dos "observatórios" iscteanos? Espero pelos próximos episódios, Sr. Marques. José B Dias: Pena que existam cada vez menos "Joanas" com a coragem
de questionar o que é apresentado como a verdade inquestionável ... E a cada
dia é necessária mais coragem para enfrentar as turbas que se deliciam com o
conforto dos dogmas e a protecção dos números no seio das massas alienadas do
pensamento de sentido único. E
que adoram sinalizar virtudes que de facto nunca possuíram... Manuel Lisboa: Gostei da parábola. Moral: a manipulação histórica é muito
feia...e estúpida. Constate-se, porém, que se revela tão antiga como a própria
História. Haja persistência e muita paciência para desmontar, repetida e
insistentemente, fantasias e aleivosias como o autor da crónica procura fazer. graça Dias: Senhor Professor João Pedro Marques: Manifesto desde já a pertinência deste artigo tão relevante, que
deveria despertar "mentes adormecidas" ou desatentas, para com a
insanidade do activismo WOKE, que deverá ser combatido. Um artigo que o Senhor Ministro Fernando Alexandre deveria ler e
tomar decisões no que concerne ao ensino básico, como igualmente interferir nas
universidades (pagas com os dinheiros dos contribuintes), onde o activismo
cultural marxista é difundido até à náusea. Mas, tudo indica que este governo de Luís Montenegro não só
interiorizou, como validou o activismo Woke, evidenciado na extinção do
Ministério da Cultura, passando tão relevante área para o desenvolvimento
económico, cultural e social, a estar sob a alçada da
ignorância WOKE!... Este
abominável activismo cultural marxista, exige ser combatido,através de
vozes como a do Senhor Professor Pedro Marques, mas também através de políticas
por parte deste governo AD. Caso
o 1° Ministro Luís Montenegro não tome decisões determinadas e firmes, iremos
continuar com as políticas do seu antecessor / AC !... O que se passa no ensino, nas universidades e na Cultura, é uma
política de cancelamento: apagar;
reescrever; alterar a História; negar a Ciência... Este
activismo de fervor paranóico e de perfil quase religioso conduz a
humanidade ao obscurantismo. Ao
Senhor Professor João Pedro Marques o meu obrigada pela pertinência do tema. Pobre Portugal: Custa muito dizer a verdade aos nossos
alunos, caro Primeiro-Ministro Luís Montenegro? Deixa que se lhes minta por
medo do BE e do Livre? É isso? Assim, só nos resta votar no Chega. Maria
João Pestana: Quando
aqueles em quem confiamos ignoram a mentira por comodismo …. Talvez seja o
princípio do seu fim…. Meio
Vazio Meio Vazio: E a pobre da Joana? O tribunal de menores/CPCJ vai demorar a
resgatá-la, evitando, se não a perdição do seu corpo, pelo menos a danação da
sua alma? Que purgatório, perdão, reformatório a poderá acolher? Aguardemos, pois. Rosa Graça: Obrigada. Excelente, mais uma vez. Como
professora de História há mais de trinta anos, continuo a aprender consigo. Sr Leão Sr Leão: Seja como for, o JPM revela neste artigo uma faceta que não lhe
conhecíamos -- o senso de humor -- e que só lhe acrescenta valor. Sr Leão: A
grande dificuldade é que após as eleições em que o povo pode manifestar a sua
vontade já não tem mais nenhuma oportunidade de se manifestar senão nas
próximas eleições.
Maria: Não dúvida a sabedoria do povo é soberana
"O que se estraga num minuto pode levar uma eternidade a consertar" Miguel Santos: As Joanas da sociedade são rapidamente apelidados de
*f@scistas*, que é o insulto corrente dos trolls de extrema-esquerda quando
lhes falta a lógica e os factos do seu lado, ou seja, quase sempre.
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