E sobretudo por escrito, para resistir ao Tempo, é que os factos acontecidos nesta TERRA – e no caso presente neste PAÍS – perdurarão, na sua importância histórica, apesar da aparente banalidade do acto comensal. É este caso da CIP, cujo relevo por altura dos entusiasmos de um país laracheiro, a contas com os arroubos da sua destruição pátria, MARIA JOÃO AVILLEZ expõe com a harmonia habitual, recordando, assim a HISTÓRIA nacional - na estranheza ofendida de muitos, no regozijo imaculado da maioria.
“Nada acontece até ser contado”
(Virginia Woolf)
Não podem passar incólumes algumas datas recentes do país. Os 50 anos da CIP exibem-na no mapa de Portugal: nasceu, enfrentou, resistiu, durou. Deve- se-lhe muito.
MARIA JOÃO AVILLEZ Jornalista, colunista do Observador
OBSERVADOR, 12
nov. 2025, 00:226
1Gosto de contar e depois dizer que contei. Sempre foi assim. O título desta crónica é uma inspiradora frase roubada há muito a Virginia Woolf e por mim citada vezes sem conta, em textos e livros. Como um propósito, lema, ex-libris. E vem hoje muito a calhar.
O caso é que por razões que em nada se prendem com a minha vida profissional,
estive na celebração dos cinquenta
anos da Confederação
da Indústria Portuguesa (CIP) e
não me consta que alguém a tenha contado. Talvez por a organização da efeméride ter preferido assim,
porventura por ser uma festa para a grande “família-CIP,” não vi por lá – ou
não me pareceu ver – a grande animação mediática das grandes datas. Contarei
eu por justamente me parecer data
obrigatória e basta pensar na quase heroicidade da sua criação em Junho de 1974.
Nos anos que
entretanto passaram – cinquenta! – sobre
a sua criação, a CIP foi
constantemente decisiva no desenvolvimento do país, no devolver de oxigénio,
primeiro e robustez depois, a um sector empresarial moribundo devido às
nacionalizações; na reorganização económica e social da vida nacional. No
significado da sua própria história no mapa do país: nasceu, enfrentou,
resistiu, durou.
Eis o que
não tem preço nem teve substituto (apenas arremedos de substitutos).
2Começou por ser um feito, repito, criá-la em Junho de 1974 – e “ampará-la” durante o “processo revolucionário em curso, com Portugal em estado de sítio. De início eram apenas três ou quatro patriotas e uma decisão: salvar os restos das empresas do incêndio ateado por revolucionários fardados e civis radicais. E radicalmente ignorantes do que era um país cujo destino parecia por um fio mas a eles não.
E depois… continuou-”se”. O verbo é mais simples do que foi a realidade mas foi isso: nunca se desistiu. E se naquelas cerca de 300 pessoas que há dias festejavam este cinquentenário numa sala lisboeta, estavam muitíssimas a quem era impossível conceber a violência do ar do tempo de 1975 e a “manutenção” de “uma” CIP em tão adversas condições, o que se ouvia na sala era uma vibração comum a todos: a de um íntimo orgulho e um sonoro aplauso pelos frutos colhidos. Semeados em duro solo, e crescidos numa caminhada quase sempre mais hostil do que amena.
3-“É um momento histórico” dizia sério o Presidente da República que já colecciona alguns e os sabe distinguir. Talvez por isso, certamente por isso, entre os convidados de Armindo Monteiro, Presidente da CIP – contava-se uma considerável parte do melhor do país: na capacidade de decisão; criação de riqueza; inovação; desenvolvimento; oportunidades; futuro.
Estamos em época de comemorações, ainda bem, não se deve passar incólume por algumas datas recentes do país. Esta foi – é – uma delas. Sem o eco e os tambores de outras, fica a sua assinatura num insubstituível serviço a Portugal.
O CHEFE DE ESTADO percebeu-o muito bem — e disse-o — numa intervenção pensada para sinalizar isso mesmo. E o MINISTRO DA ECONOMIA fez o mesmo, num discurso que ultrapassou - em assertivo empenho e convicção – as boas intenções do “costume”. Oxalá se encontrem, uns e outros e se entendam uns com os outros. Só havia um ganhador se tal acontecesse: o país.
4Há cerca de
um ano e meio ou mais, tive o privilégio de fazer a primeira entrevista ao
recém chegado à (gigantesca) Diocese de Lisboa como Patriarca
da cidade, D. Rui Valério, então Bispo das Forças Armadas.
A dado passo – e apanhando-me
semi-desprevenida face ao tema – falou com dor e amargura do Sudão e do
ininterruptamente trágico horror que lá se vive: à margem da Europa, do mundo,
da vida, dos outros. À margem
de tudo. Muito pouco tempo depois, a coincidência de
uma nova entrevista, desta vez ao vivo, e a pedido da Paróquia de S. Isabel,
levou-me pela segunda vez a sentar-me diante do Patriarca de Lisboa. E de novo ele quis que o Sudão,
através das suas magoadas palavras de alerta, ali tivesse presença. O que sucedeu perante uma plateia talvez
surpreendida com um tema que não vinha no telejornal e quando a sua atenção era
então quase exclusivamente interpelada pelo
drama da Ucrânia. Demorou – e a demora foi
inexplicavelmente longa – até surgirem outros interlocutores disponíveis, tal
como este servidor da Igreja, a lidar com o Sudão
como uma prioridade. Hoje parece que finalmente o Sudão começou,
primeiro capítulo, a ser “contado.” Faltam
os restantes, de um livro que no fim não seja negro.
5Após a sua
derrota nas eleições do Benfica, Noronha
e Costa lamentou não ter sido capaz de explicar ou transmitir (cito de
memória), a ideia de “ mudança” ao mundo benfiquista. Eu
percebo. Mas espanto-me: o Benfica – clube
da minha devoção – é feito de portugueses e os portugueses
rarissimamente gostam de ser levados por trilhos novos. Vão vivendo com o que há, mesmo que na
rua ou na media, se lamuriem e queixem. Vão andando, governantes e governados,
por trilhos arqui-gastos. Os primeiros enfeitam-se ciclicamente com medidas
parecidas com “mudanças”. Mas só parecidas; os
segundos temem, reagem ou preguiçam face
aos salutares pressupostos de uma mudança digna desse nome: ambição, risco ,
“desinstalação”. Um trabalhão ou uma chatice, em resumo. Melhor
ir-se vivendo, assim, como estamos: nem mal mas também não bem. Antes meia coisa, meia medida, meia
velocidade.
Eis uma história que embora já algumas
vezes contada, o deveria ser muito mais.
PS: A única
surpresa relativa ao sismo da BBC traduz-se numa simples pergunta: só agora?
COMENTÁRIOS (de 5)
Carlos Chaves: Muito obrigado, Maria João Avillez, por nos contar (e dizer que contou), sobre
este evento de comemoração de 50 anos de vida de uma organização fundamental, a
CIP, para o nosso país! Felizmente não lhe chamou associação do
“grande capital”, como ontem a Helena Garrido denominou no Contra Corrente da rádio Observador, quando se referiu ao tema da quebra do
acordo, da descida do IRC, entre o PS do Seguro, e o governo da PaF de
Pedro Passos Coelho, eu também gosto de contar para que fique registado! Seguro o quebra-acordos, sim esse,
que quer ser Presidente! P.S. Sim, só agora (BBC) 4 anos depois, mas temos aqui no
Burgo o canal NOW, que está a fazer o mesmo (à nossa escala)!
Filipe Paes de Vasconcellos: Certamente que por decoro não falou (mencionou) daqueles
homens valentes que por serem empreendedoras, construtores de riqueza,
criadores de empregos e pagadores de impostos sustentaram e sustentam este país
contra o socialismo que se entranhou em Portugal. Viva a CIP. Quanto à BBC foi óptimo o que aconteceu para que os
jornalistecos militantes percebam que o que fazem não é Jornalismo. Francisco Almeida: Jornalista de crónicas ou cronista de notícias, hoje MJA esteve muito bem, Só discordo do "sismo"
na BBC que foi apenas uma decapitação. Sem uma limpeza em editores e
jornalistas, não é sismo nenhum. Seria como despedir Nicolau Santos na RTP e
deixar o resto como está.
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