quinta-feira, 13 de novembro de 2025

CHINA

 

Em destaque, a submissão só aparente…

O anúncio oficial ainda não foi feito, mas Paddy Cosgrave já abriu o jogo nas redes: o futuro da tecnologia joga-se na China, e o da Web Summit também. Na 10.ª edição lisboeta até teve palco próprio.

CÁTIA ROCHA Texto

ANA SANLEZ Texto

OBSERVADOR, 11 nov. 2025, 21:1812

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China passou de “seguidora rápida a inovadora” e Europa está entre dois pólos

“A China não é uma concorrente, é uma professora”, diz fundador da ‘super app’ do Qatar

Durou apenas algumas horas, mas teve direito a inauguração pelo próprio CEO da Web Summit. À décima edição em Lisboa, o evento de tecnologia dedicou um palco à China. Ao início da tarde desta terça-feira, empreendedores, investidores e economistas debateram na China Summit a presença tecnológica chinesa, tarifas e inovação. Até figuras ligadas ao Ministério de Comércio da China e ao Gabinete de Cooperação Internacional da Administração do Ciberespaço vieram a Portugal fazer promessas sobre cooperação e transformação digital.

 Acho que é difícil negar ou ignorar as conquistas da China, não só na última década, mas até no último ano”, afirmou Cosgrave já em cima do palco. “É muito importante que a Web Summit dê a todos os participantes a oportunidade para se reunirem com os que estão a desenvolver as empresas de tecnologia de ponta na China, mas também oportunidades para ouvirem oradores com visões diferentes sobre a razão para a China estar a conquistar o que está a conquistar”.

Quem já tinha ouvido Paddy Cosgrave na noite de abertura da Web Summit não estranhou o destaqueQuando subiu ao palco esta segunda-feira para as tradicionais boas vindas aos milhares de participantes da Web Summit, foi menos efusivo do que é costume. Deixou de lado o número que repete há anos, no qual pede a quem está na plateia que se apresente a quem está à sua volta. E também não se estendeu nos elogios a Portugal, país que acolhe a cimeira desde 2016 e onde vai continuar até, pelo menos, 2028. Nos últimos dias, aliás, as palavras sobre Portugal têm sido pouco amigáveis, desde a polémica sobre a escassez de slots para jactos privadosque motivou uma resposta dura do ministro das Infraestruturas, às queixas sobre o aumento dos preços dos hotéis nos dias do evento.

A aparição de Paddy na abertura da Web Summit 2025 será, em vez disso, lembrada pelos avisos que deixou: o domínio tecnológico do Ocidente está em declínio. É a China que vai ganhar a corrida pela inteligência artificial, acredita.

 A explicação para a viragem no discurso e a rendição ao oriente é simples. Quem já ganhou a corrida ao investimento chinês foi a própria Web Summit. O anúncio surgiu discreto no LinkedIn de Paddy Cosgrave há cerca de um mês. E não foi bem um anúncio. “China + Web Summit = 2027. Que cidade chinesa escolherias para a Web Summit”? perguntou aos seus seguidores na rede social.

Essa mesma publicação de outubro (em plena guerra de tarifas entre a China e os EUA), na qual revelava que ia passar 10 dias na China a visitar “grandes cidades” e a manter encontros com “oficiais do Governo, fundadores e media para decidir onde organizar a Web Summit na China em 2027”, foi o primeiro sinal de que a cimeira com origem irlandesa (e que já tem edições no Rio de Janeiro, no Qatar e em Vancouver) estava de olhos postos no oriente.

Seguiram-se, na mesma rede social de Cosgrave, vários posts sobre o périplo no gigante asiático e considerações sobre como a Europa está “condenada”. Uma entrevista à televisão em Pequim com “muitas questões sobre as diferenças entre a inovação no Ocidente e na China”. Uma fotografia no Ministério chinês do Comércio com a promessa de um anúncio “grande” para “breve”. Uma visita ao maior centro de conferências do mundo, em Guangzhou. E paragens na Alibaba, na BYD, na Tencent e na Baidu, algumas das maiores empresas chinesas, assim como na sede da Unitree,a startup de robótica mais importante do mundo”, que deixou Paddy Cosgrave “de boca a aberta”.

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“A China não é uma concorrente, é uma professora”, diz fundador da ‘super app’ do Qatar

No final da visita à China, em outubro, o fundador da Web Summit não tinha dúvidas. “A China ganhou o século XXI. Não há competição entre grandes potências. Acabou”, escreveu no LinkedIn, numa espécie de prólogo do discurso que fez esta segunda-feira em Lisboa. “A China criou um sistema de inovação sem paralelo na história mundial. A lição não é que o Ocidente precisa de startups melhores ou de investidores mais ousados, mas que o Ocidente precisa de um sistema de inovação melhor”, defendeu Cosgrave.

Para o “pai” da Web Summit,sem uma mudança radical e abrangente, o fosso entre as startups chinesas e europeias na próxima década vai explodir a favor da China”, dando como exemplo a indústria automóvel europeia, que está “condenada sem uma mudança radical”. Mas “o mesmo aplica-se a quase todos os outros sectores”. “Mais do mesmo na Europa vai condenar-nos a ficar cada vez mais para trás. As nossas empresas não serão competitivas”.

Avançando no tempo até esta segunda-feira e no espaço até Lisboa, a mensagem de Paddy Cosgrave foi repetida quase ipsis verbis. Desta vez, perante milhares de pessoas na Meo Arena, incluindo o Governo português, que acredita que Portugal pode ser “líder mundial na IA”.

Nos próximos dias vão conhecer os robôs humanóides mais avançados do mundo. Não são europeus, não são norte-americanos, são chineses”. São os robôs da Unitree que Paddy conheceu na viagem à China, e que passeiam pelo pavilhão 1 da FIL. São desenvolvidos na China mas estão a ser apresentados em Lisboa por uma empresa baseada na capital portuguesa, e são os campeões das selfies entre os participantes da cimeira. Numa das passagens pelo pavilhão da FIL foi possível encontrar o robô humanóide G1 no centro de uma roda, a cumprimentar os participantes da cimeira.

Índice: China passou de “seguidora rápida a inovadora” e Europa está entre dois pólos “A China não é uma concorrente, é uma professora”, diz fundador da ‘super app’ do QatarTambém vão ouvir sobre os modelos de IA mais avançados do mundo. Não são americanos. Desde as últimas semanas que são quase todos chineses”, declarou ainda Cosgrave na cerimónia de abertura. E são gratuitos e de código aberto, ao contrário dos norte-americanos, enfatizou. “Isto era inimaginável há 12 meses”.

O discurso da “Europa condenadacontinuou, com o fundador da Web Summit a defender que a cimeira já não é uma competição entre as tecnológicas ocidentais e as startups, mas um espelho de que a “era do domínio tecnológico do Ocidente está a terminar”.

Na China Summit falou-se sobre o ciberespaço, a “influência discreta” da China na inovação global, sobre o plano económico do país a cinco anos e sobre tarifasPaddy Cosgrave faz esta quarta-feira a habitual conferência de imprensa de balanço do evento, e não será de estranhar que anuncie a cidade chinesa escolhida para acolher a cimeira em 2027. As sessões sobre a China também vão continuar ao longo da semana.

Esta quarta-feira, por exemplo, o palco dedicado à política recebe uma palestra sobre a abordagem chinesa à IA, mais focada nas possibilidades da tecnologia no curto prazo do que a concorrência norte-americana de Silicon Valley, que investe no potencial a longo prazo da IA geral. Para o último dia da cimeira está ainda reservada uma sessão sobre como a China se posicionou na liderança do mercado de carros eléctricos.

China passou de “seguidora rápida a inovadora” e Europa está entre dois pólos

Na China, “parece que estão a viver noutra época, em 2050.” É assim que Eszter Takács, natural da Hungria, resume a experiência de viver em Chengdu, a quarta cidade mais populosa da China. Esta terça-feira, enquanto demonstrava o modelo generativo Hunyuan3D AI, uma “espécie de ChatGPT para a impressão 3D”, desenvolvido pela gigante chinesa Tencent, tinha vista para o palco China Summit. Não acompanhou as sessões, mas defende a sua relevância para se ter “mais informação sobre a China”.

A localização do palco não terá sido deixada ao acaso: encaixado num dos cantos do pavilhão 1 da FIL e próximo dos stands da Alibaba Cloud, dos robôs dançarinos da Unitree e ainda de um atarefado espaço da também chinesa Manus, que este ano deu cartas por desenvolver um “agente geral de IA”.

Ao Observador, Eszter Takács explica que a adaptação à China não está a ser difícil, apesar de reconhecer as diferenças culturais. “A vida é muito fácil devido à tecnologia”, refere. O trabalho desta responsável de eventos passa justamente pela promoção da ligação cultural entre Europa e China, através da GoGoLocal, uma organização não governamental sediada em Pequim e que pretende promover a colaboração entre startups e empresas. A organização tanto ajuda empresas europeias a entrar no mercado chinês como o inverso. Admite que há “empresas ainda algo assustadas com a China”. É uma questão de regulação? “A forma como a China faz negócios é muito específica. É preciso dar mais informação”, explica.

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Parece ter sido esse o objetivo das horas de programação dedicada à China na Web Summit. Numa das sessões, quis quebrar-se a ideia de que “os EUA inventavam e a China copiava”. Agora já não é bem assim, afirmou Joleen Liang, co-fundadora da Squirrel AI, uma plataforma educativa com IA, que da China quer agora saltar para os EUA. “Há dez anos não tínhamos tantos cientistas de IA na China, era preciso contratá-los nos EUA. Agora isso mudou”, diz a empreendedora.

 A China era uma seguidora rápida, mas agora é inovadora”, completou no mesmo painel o norte-americano Ben Harburg, managing partner da capital de risco Novo Capital, que também já passou pelo mercado chinês. Em parte, essa mudança está ligada a “talento que foi obrigado a regressar a casa por más decisões de imigração dos EUA”, defendeu.

 

“A batalha pelo talento é tudo”, acrescentou. “Pessoas como Sam Altman [CEO da OpenAI] fizeram um desserviço ao fazer uma digressão a dizer que não era possível competir com eles”, afirmou. “Depois deu-se o que chamo de momento Sputnik da DeepSeek, referindo-se à empresa chinesa que desenvolve modelos de IA de código aberto, de forma mais rápida e supostamente com menos recursos financeiros do que as rivais norte-americanas Além do talento, o que Harburg considera ser uma “bem definida guerra fria tecnológica” entre EUA e a China também “forçou” as empresas chinesas a “desenvolverem os seus próprios sistemas, hardware e chips”.

No meio desta “guerra fria”, Ben Harburg afirmou que “há quem não queira ter de escolher um lado, mas vão ser forçadas a fazê-lo”. Para já, admitiu que há uma figura relativamente “diplomática” entre os dois extremos. “Jensen Huang [o CEO da gigante de chips de IA Nvidia] é uma espécie de diplomata tecnológico, que tenta conciliar a China, a Coreia [do Sul] e vender os seus produtos.”

 A sessão seguinte no palco China Summit deu mais força à ideia de divisão do panorama tecnológico entre EUA e China. E, de alguma forma, foi ao encontro das afirmações de Paddy Cosgrave sobre o “declínio” do Ocidente.

No tema da guerra comercial, o economista Philip Pilkington acredita que um braço de ferro entre China e EUA pode vir a terminar “com uma capitulação do Ocidente em todas as frentes”. Após um pedido para especificar, preferiu manter a generalização. “De todo o Ocidente. A Europa e a América vão capitular nesta guerra comercial.”

As tarifas são uma ferramenta que está numa caixa para proteger sectores. Mas as tarifas não são mágicas, não vão criar magicamente uma indústria. O mundo não funciona assim”, declarou Philip Pilkington, economista do Hungarian Institute for International Affairs.

“A administração Trump tentou lançar uma guerra comercial e os chineses limitaram as terras raras”, referindo-se aos metais que são usados numa vasta gama de produtos e sectores, incluindo nos semicondutores que fazem mexer a indústria tecnológica. “Nem sequer os restringiram, puseram-nos apenas numa potencial lista de restrições. E todas as empresas relevantes chegaram à administração Trump e disseram ‘não podemos sobreviver, a economia americana iria basicamente colapsar se fizer isto’. E então voltaram atrás”, exemplificou.

E a Europa?Fica algures no meio entre os dois pólos”, completou Einar Tangen do Centre for International Governance Innovation na mesma sessão. “A Europa agarra-se ao seu passado colonial e acredita que, de alguma forma, pode existir em ambos os lados.” O velho continente “vai ter de perceber não para que lado saltar, porque isso não é solução”. “A solução é ter uma Europa forte e independente, que se afirme, em vez de estar a desempenhar um papel secundário em relação aos EUA.”

“A China não é uma concorrente, é uma professora”, diz fundador da ‘super app’ do Qatar

Fora da programação da China Summit também se falou sobre o gigante asiático. O nome da sessão poderia levar ao engano: “Defender os nossos mercados durante a era da China”. Tinha apenas uma pessoa como interveniente, Hamad Al-Hajri, o fundador e CEO da Snoonu.

A Snoonu, apresentada como uma “super aplicação” para pedir comida, compras de supermercado ou até serviços de lavandaria, está a caminho de se tornar no primeiro unicórnio do Qatar. Um país onde a Web Summit já tem uma cimeira tecnológica e que tem uma presença crescente no espaço de exposição da edição lisboeta.

 Paddy Cosgrave, fundador da Web Summit, abriu o palco dedicado à China. Sportsfile

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“Se calhar em breve vamos passar a dizer ni hao [olá em mandarim]”, declarou o empreendedor ao chegar ao palco. “Como vemos na Web Summit, há uma conversa frequente sobre a China e sobre a inovação vinda da China”, notou o empreendedor. Al-Hajri deixou claro em vários pontos da intervenção que a China “não deve ser subestimada”. “Vamos aprender com eles”, pediu, “têm cinco mil anos de história de inovação”, dando como exemplo a pólvora ou o papel. “A China não é um concorrente, é um professor, aprendam com eles.”

“Alguns pontos do mundo pensam que a China está a copiar, mas estão errados. Já estão dez anos à frente na inovação”, reforçou. A startup do Qatar aprendeu a olhar para os casos de sucesso da China. “Há apenas seis meses enviei uma equipa de mais de 15 gestores de produto para a China, para que aprendessem com empresas chinesas.”

Uma das lições mais relevantes e “um ponto de diferença em relação ao Ocidente” é que “a China não constrói startups, constrói ecossistemas”, dando como exemplo a Alibaba ou o WeChat, da Tencent. A Meituan [outro exemplo de ‘super-app’ chinesa] tem mais de 120 serviços”, acrescentou.

Para se defender da concorrência chinesa, o fundador que ambiciona ter um unicórnio decidiu replicar uma ‘super-app’, agrupando vários serviços, mas adaptados às preferências do Qatar — como os serviços de lavagem de roupa e engomadoria com entrega em poucas horas. Mas deixou uma lição final: “Nunca, nunca entrem numa guerra de preços com a China. É o jogo deles. Nós focámos-nos na experiência.

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COMENTÁRIOS:

Mario Figueiredo: Ainda bem. Os irlandeses também não o quiseram. E a Web Summit é um evento essencialmente ignorado e sem qualquer importância no contexto global. Nem Paddy Cosgrave é uma figura reconhecida na indústria e com as qualificações ou créditos para se pôr a pontificar sobre o desenvolvimento tecnológico. A sua única criação foi o Web Summit. Não participa das indústrias e resume o seu currículo a organizador de eventos. O que fica perfeitamente evidente quando lança postas como o desenvolvimento tecnológico do Ocidente estar a perder para a China (na verdade, assédio ao governo chinês). Ele é bem conhecido aqui na Irlanda, por todas as más razões. Não é difícil ir à internet procurar sobre o currículo desta personagem. Faça boa viagem.                    Alex Name: Quanto é que a web summit pagou para escreverem este artigo que mais parece um guião de um thriller?                    Maria Gingeira: Já vai tarde, China com ele!                Jose Nunes: Sempre teve a mão chinesa por trás. Nada de surpresa até agora!                Luis Silva: O futuro está na IA e a Europa é um zero à esquerda. A IA exige grandes fontes de energia, e os EUA e a China investem fortemente em novas centrais nucleares. A Europa fecha centrais nucleares e enche a paisagem de inúteis geradores eólicos e painéis solares.                      Pertinaz: Goste-se ou não, o “cigano irlandês” tem faro para o negócio… e o negócio está na China pois a Europa está falida… síndrome da aristocracia falida…                     Luis Freitas > Luis Silva: Os painéis solares europeus são importados da China, carros elétricos europeus com baterias chinesas e terras raras chinesas, a Europa fecha as centrais nucleares e tem a energia mais cara do planeta Terra e arredores, a China está a construir uma carrada de centrais nucleares assim como os EUA que vão copiar a China e sem electricidade barata ninguém quer carros eléctricos e não é possível a Europa entrar na corrida para a IA. Os custos energéticos assim como as leis ambientais europeias estão a assassinar o que resta da indústria europeia.                       Df: O nosso problema é a burrice. E burrice cara. Pagamos 100 milhões ao homem para vir para cá fazer a propaganda da China...                Nuno Filipe: O pai da web summit a validar a escravatura (dissimulada) é certo e dar graxa ao dono. Vá para a China e não volte. Na Europa queremos quem queira progredir e avançar. Velhos do Restelo temos cá muitos e podem morrer todos (longe daqui), se não estão na Europa para ajudar então estão contra nós e nesse caso podem ir embora (digo ir embora porque se fosse na China e forem contra o regime são mortos…)                David Pinheiro: Portugal está no meio, entre o liberalismo irlandês e o comunismo chinês. Portanto fez todo o sentido, como passo intermédio. 

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