De uma consciência
humana que é forçoso aplaudir, para isso mesmo: servir de exemplo – aos que
sofrem e aos que preferem lamentar apenas… excluindo.
Mas auxílio já será possível um pouco, por cá.
Viver com lúpus.
Não estou inválida para sentir,
pensar ou contribuir. Fui diagnosticada com lúpus aos 30 anos. Tinha
sonhos, objectivos e uma carreira pela frente. Viver com uma doença autoimune é
viver num corpo que se volta contra si próprio, todos os dias
MÓNICA REBELO Voluntária
na Associação de Doentes com Lúpus
OBSERVADOR, 04
nov. 2025, 00:091
Tenho
esta doença há vinte anos, acompanhada por outras patologias associadas,
incluindo dor crónica. Doenças e sintomas por vezes invisíveis, mas que se
fazem sentir. Muito. Acompanham-me todos os dias e obrigam-me a reajustar
constantemente aquilo que consigo ou não fazer. Mas há uma coisa que nunca me
tiraram: a vontade de continuar a ser útil. De trabalhar, contribuir, fazer
parte.
Fiquei reformada por
invalidez aos 35. Não
por ter pedido. Não por ter deixado
de ter capacidades. Mas porque, aos olhos do sistema, deixei de encaixar,
deixei de ter “valor”. E dessa forma, vi-me forçada a parar. Parar o ritmo, os
projectos pessoais, uma vida profissional que, apesar dos obstáculos, fazia
questão de manter.
Na altura do diagnóstico, estava empregada e fui transparente com a
minha entidade patronal. Falei abertamente da doença e da necessidade de,
pontualmente, faltar ao trabalho para consultas. A resposta inicial foi
tranquilizadora: “Quando estiver pior, trabalha menos e compensa nos dias em
que estiver melhor.” Acreditei. Continuei com esforço e dedicação, mesmo
quando me sentia mais doente. Tudo mudou quando precisei de
baixa prolongada. Estava quase a ficar efectiva, mas não renovaram o contrato. A razão simples e cruel: “As empresas
não querem pessoas doentes.”
Não sou ingénua. Compreendo que seja difícil para uma empresa lidar com
alguém que precisa de se ausentar, que vive com limitações físicas, que não tem
sempre a mesma energia. Mas é precisamente por isso que precisamos
de políticas públicas que apoiem as empresas e as pessoas. Ferramentas reais que permitam
conciliar produtividade com inclusão. Porque o problema não está na doença, está
na falta de soluções.
Foi um momento devastador. Empurrada
para uma reforma a meio da minha terceira década, quando estaria a crescer
profissionalmente, a consolidar a carreira, a viver em plenitude. Em vez disso, fiquei isolada
a lutar diariamente contra a doença, contra a dor constante e contra a sensação
de estar a ser posta de parte e esquecida por um sistema que devia existir para
me proteger.
Para além da dor física e da incerteza da doença, senti também o peso do estigma, do preconceito e da exclusão. Percebi que não basta querer trabalhar. Não basta ser competente. Não basta
ter vontade. Quando
se vive com doença crónica, há barreiras invisíveis que nos impedem de
continuar a ser parte activa.
A reforma antecipada pode ser, para alguns, uma “saída”. Para mim,
foi um murro no estômago. Não só pelo impacto emocional de me afastar do mundo
do trabalho, mas também pelo impacto financeiro. E não é só a pessoa que perde. O Estado também. Reformar precocemente pessoas em idade activa
é assumir um custo fixo e perder um contribuinte. É um
desperdício, humano e económico. Não seria mais benéfico adaptar os modelos
laborais para a integração de quem pode trabalhar, ainda que de forma
diferente?
Mas a minha história não acaba aqui. Não aceitei o silêncio nem a invisibilidade.
Recusei-me a ser apenas um número nas estatísticas da Segurança Social. Foi com
um sentimento de impotência, mas muita vontade de mudar as coisas, que me
tornei voluntária na Associação de Doentes com Lúpus e depois a representá-la
na plataforma SIP PT – Societal Impact of Pain Portugal. Desta forma, posso contribuir para a sociedade e a comunidade da qual
faço parte. Não me enchem os bolsos. Preenchem, talvez, parte do vazio deixado
pela carreira imaginada. Preenchem-me por poder participar, interagir,
sentir-me válida!
A
SIP-PT trabalha
precisamente para aquilo que defendo: dar visibilidade à dor e alcançar
melhores políticas de saúde. Os
seus objectivos centram-se na consciencialização sobre a dor crónica e a
realidade dos cidadãos que com ela vivem, estimulando o diálogo entre doentes,
profissionais de saúde e decisores políticos. A
plataforma acredita que é possível transformar o impacto da dor na sociedade
através de uma abordagem mais humana, participativa e baseada em evidência. É
um trabalho de cidadania e empatia, do qual me orgulho de fazer parte, pois
acredito que só com voz activa conseguimos trazer estas questões para o debate
público.
Viver com dor crónica não é apenas aguentar
fisicamente. É aguentar a invisibilidade, o julgamento, o
afastamento. Muitos
acham que exageramos, que devíamos “ser mais fortes”, que devíamos “superar”. Mas
como se supera uma dor que nunca passa? Como se supera uma condição crónica que
não escolhemos e que brinca connosco às escondidas?
O problema não é a doença. O problema é sermos
tratados como se isso nos anulasse.
Este testemunho não é apenas
meu. É o espelho de muitos que vivem com dor, com diagnósticos complexos, com
vidas partidas ao meio — mas que querem fazer parte do todo. Mesmo
com dor, continuamos aqui. A pensar, a sentir, a sonhar e a lutar por um lugar
digno nesta sociedade.
MÓNICA REBELO é voluntária na Associação
de Doentes com Lúpus. Membro do Comité Executivo da SIP-PT – Societal Impact Of Pain
Portugal, é uma das cronistas convidadas da secção Dor, dedicada
exclusivamente a temas relacionados com a dor, respetivo acompanhamento clínico
e impacto na sociedade.
Dor é uma secção do OBSERVADOR dedicada exclusivamente a temas
relacionados com a dor e respetivo acompanhamento clínico e impacto na
sociedade. Resulta de uma parceria com a FAI
Therapeutics, um
projecto da Ferraz Lynce
(Grupo Iberfar), e
tem a colaboração da Associação Portuguesa para o Estudo da Dor e da
SIP-Portugal. É
um conteúdo editorial completamente independente.
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COMENTÁRIO:
Sr Leão: Gostei muito
de ler o seu artigo. Você é talvez muito mais útil à sociedade em que vive do
que alguma vez teria sido na sua profissão anterior. Estou consigo.
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