Quem dera que se fossem
publicando, pelo menos, excertos desses LIVROS DE LINHAGENS – e outros das
antiguidades – ainda que nas imprensas a que temos mais acesso, numa idade
pouco propícia a andanças. A própria juventude poderia despertar mais para o
significado desse mundo em que se vive e em que já se viveu de formas bem
diversas. Esses LIVROS DE LIHNAGENS tornariam mais acessível um passado que é
focado esporadicamente, e cuja revelação nos vai sendo proporcionada em textos
como este, de MIGUEL TAMEN, com a expressividade do seu humor e do seu saber
clássico.
Plano Nacional de
Leitura (XL)
O Livro de Linhagens consiste quase
só na identificação minuciosa de pessoas. A pergunta prática que
interessava mais a D. Pedro é: ‘De quem
era ele filho?’
MIGUEL TAMEN Colunista do Observador, Professor (e
director do Programa Teoria da
Literatura), na Universidade de Lisboa
OBSERVADOR, 23
nov. 2025, 00:153Registar
Quando lemos no maravilhoso Livro de
Linhagens de D. Pedro, Conde de Barcelos, (1287-1354) que um certo Fernão Mendes,
genericamente conhecido como O Bravo, “foi o
que meteu a sua mãe na pele da ursa e pôs-lhe os cães” percebemos a frase
mas não percebemos bem a situação. É-nos dito logo a seguir que a mãe Mendes não gostava da namorada do
filho e tentou fazer intrigas; mas isso não ajuda a explicar aquele castigo
particular. O filho Mendes, entretanto, seria também o que “cortou o dedo porque errou o urso com a
ascuma” (uma ascuma é uma lança). O nexo entre todos estes
factos é difuso, apesar de haver na altura muitos ursos.
Não há razão para pensar que o
Conde de Barcelos achasse que tudo neste mundo tinha de estar ligado; a sua preocupação era a de identificar pessoas
particulares que tinham já morrido há muito tempo.
Fernão Mendes, por exemplo, é possivelmente a única
pessoa que existiu a respeito da qual se pode afirmar com verdade que vestiu a
mãe de ursa e não conseguiu caçar um urso (com probabilidade um outro urso).
O Livro de Linhagens consiste quase só na identificação minuciosa de
pessoas. A pergunta prática que interessava
mais a D. Pedro é: ‘De quem era ele filho?’ Reconhecemos
com uma certa trepidação nessa pergunta o Portugal subsequente; o Portugal de quem acha que um
país é uma família.
D. Pedro não era porém snob ou sentimental; tinha uma
teoria política. A teoria aparece no Prólogo do seu livro.
A sua premissa maior é atribuída a Aristóteles (o Conde de Barcelos foi a
primeira pessoa que escreveu ‘Aristóteles’ em português); tem a forma de um raciocínio que Aristóteles reconheceria sem
dificuldade. Aristóteles terá
dito que “se homens houvessem entre si amizade verdadeira [viveriam] seguramente.”
Mas, observa
D. Pedro, não há amizade tão pura como a “daqueles que descendem de um [mesmo]
sangue.”
Segue-se que para que possamos viver seguramente é
muito importante identificar quem é do nosso sangue.
O Livro
de Linhagens serve para, informadas as pessoas “de quais
descenderam de padre a filho,” se passar a ser “de um coração,” mesmo com primos
afastados. Torna-se
assim possível fazer em segurança combinações e contratos. No entanto, apesar da sua teoria política, o livro de
D. Pedro ilustra repetidamente o princípio contrário.
O sangue
comum aos Mendes não parece ter impedido o filho de ser ríspido com a mãe; e as
histórias de sangue passam-se quase sempre entre pessoas do mesmo sangue.
A mais impolítica de todas, que D. Pedro conta em vinte linhas, é a história do Rei Lear: a filha mais nova dissera-lhe que “o amava tanto como deve d’amar a filha a um
padre;” o pai, observa Barcelos secamente, “quis-lhe mal, porém;” e pô-la na rua, onde veio a casar com
um estrangeiro.
COMENTÁRIOS
Francisco Almeida: Infelizmente o Livro de Linhagens do conde
D. Pedro é pouco fiável. Mattoso, Sotto-Mayor Pizarro e Carvalho Homem,
identificaram muitos dos seus erros.
Américo Silva: Conhecem
o que gosta muito de fotocópias?, o que fez um banco para os contribuintes
pagarem?, o que matou a Rosalina?, a que deu o pacote por milhões?, o que não é
filho do pai?
Luis Silva: E
depois? Quando sai o segundo fascículo?
NOTAS DA INTERNET:
Os livros de linhagens, também
designados nobiliários, são
livros que apresentam as relações genealógicas de
membros de famílias
nobres. Foram comuns no passado medieval da Europa,
particularmente na península Ibérica
A função dos livros de linhagens era
prática, servindo
para regular casamentos consanguíneos e assegurando os direitos hereditários
dos membros de uma família nobre e dos seus descendentes, além de conservar a
memória dos antigos feitos dos fidalgos (filhos
d'algo). Muitos destes livros transmitem um importante legado
histórico, cultural e literário.
Em Portugal conservam-se
quatro livros de linhagem da época medieval: o Primeiro Livro de Linhagens (ou Livro
Velho de Linhagens), compilado
por volta de 1270, o Segundo Livro de Linhagens (também Livro
de Linhagens do Deão), de
cerca de 1340, o Nobiliário
da Ajuda e
finalmente o Livro de Linhagens do conde D.
Pedro. Este
último é o mais importante do ponto de vista literário, tendo sido compilado
por Pedro Afonso, conde de Barcelos, entre 1340 e 1344. Pedro Afonso não só incorporou a
genealogia das famílias nobres portuguesas, peninsulares e europeias como
também relata episódios históricos e narrativas fantásticas relacionadas à
origem das famílias que são de muito interesse histórico e literário.
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