segunda-feira, 24 de novembro de 2025

Ler para crer


Quem dera que se fossem publicando, pelo menos, excertos desses LIVROS DE LINHAGENS – e outros das antiguidades – ainda que nas imprensas a que temos mais acesso, numa idade pouco propícia a andanças. A própria juventude poderia despertar mais para o significado desse mundo em que se vive e em que já se viveu de formas bem diversas. Esses LIVROS DE LIHNAGENS tornariam mais acessível um passado que é focado esporadicamente, e cuja revelação nos vai sendo proporcionada em textos como este, de MIGUEL TAMEN, com a expressividade do seu humor e do seu saber clássico.

Plano Nacional de Leitura (XL)

O Livro de Linhagens consiste quase só na identificação minuciosa de pessoas.   A pergunta prática que interessava mais a D. Pedro é: ‘De quem era ele filho?’

MIGUEL TAMEN Colunista do Observador, Professor  (e director do Programa Teoria da Literatura), na Universidade de Lisboa

OBSERVADOR, 23 nov. 2025, 00:153Registar

Quando lemos no maravilhoso Livro de Linhagens de D. Pedro, Conde de Barcelos, (1287-1354) que um certo Fernão Mendes, genericamente conhecido como O Bravo, “foi o que meteu a sua mãe na pele da ursa e pôs-lhe os cães” percebemos a frase mas não percebemos bem a situação.    É-nos dito logo a seguir que a mãe Mendes não gostava da namorada do filho e tentou fazer intrigas; mas isso não ajuda a explicar aquele castigo particularO filho Mendes, entretanto, seria também o que “cortou o dedo porque errou o urso com a ascuma” (uma ascuma é uma lança).   O nexo entre todos estes factos é difuso, apesar de haver na altura muitos ursos.

Não há razão para pensar que o Conde de Barcelos achasse que tudo neste mundo tinha de estar ligado; a sua preocupação era a de identificar pessoas particulares que tinham já morrido há muito tempo.   Fernão Mendes, por exemplo, é possivelmente a única pessoa que existiu a respeito da qual se pode afirmar com verdade que vestiu a mãe de ursa e não conseguiu caçar um urso (com probabilidade um outro urso). Livro de Linhagens consiste quase só na identificação minuciosa de pessoas.   A pergunta prática que interessava mais a D. Pedro é: ‘De quem era ele filho?’  Reconhecemos com uma certa trepidação nessa pergunta o Portugal subsequente; o Portugal de quem acha que um país é uma família.

D. Pedro não era porém snob ou sentimental; tinha uma teoria política.   A teoria aparece no Prólogo do seu livroA sua premissa maior é atribuída a Aristóteles (o Conde de Barcelos foi a primeira pessoa que escreveu ‘Aristóteles’ em português); tem a forma de um raciocínio que Aristóteles reconheceria sem dificuldadeAristóteles terá dito que “se homens houvessem entre si amizade verdadeira [viveriam] seguramente.”   Mas, observa D. Pedro, não há amizade tão pura como a “daqueles que descendem de um [mesmo] sangue.”  Segue-se que para que possamos viver seguramente é muito importante identificar quem é do nosso sangue.

Livro de Linhagens serve para, informadas as pessoas “de quais descenderam de padre a filho,” se passar a ser “de um coração,” mesmo com primos afastadosTorna-se assim possível fazer em segurança combinações e contratos.  No entanto, apesar da sua teoria política, o livro de D. Pedro ilustra repetidamente o princípio contrário.  O sangue comum aos Mendes não parece ter impedido o filho de ser ríspido com a mãe; e as histórias de sangue passam-se quase sempre entre pessoas do mesmo sangue.   A mais impolítica de todas, que D. Pedro conta em vinte linhas, é a história do Rei Lear: a filha mais nova dissera-lhe que “o amava tanto como deve d’amar a filha a um padre;” o pai, observa Barcelos secamente, “quis-lhe mal, porém;” e pô-la na rua, onde veio a casar com um estrangeiro.

ERRO EXTREMO        OBSERVADOR

COMENTÁRIOS

Francisco Almeida: Infelizmente o Livro de Linhagens do conde D. Pedro é pouco fiável. Mattoso, Sotto-Mayor Pizarro e Carvalho Homem, identificaram muitos dos seus erros.         Américo Silva: Conhecem o que gosta muito de fotocópias?, o que fez um banco para os contribuintes pagarem?, o que matou a Rosalina?, a que deu o pacote por milhões?, o que não é filho do pai?                   Luis Silva: E depois? Quando sai o segundo fascículo?

 

NOTAS DA INTERNET:

Os livros de linhagens, também designados nobiliários, são livros que apresentam as relações genealógicas de membros de famílias nobres. Foram comuns no passado medieval da Europa, particularmente na península Ibérica

A função dos livros de linhagens era prática, servindo para regular casamentos consanguíneos e assegurando os direitos hereditários dos membros de uma família nobre e dos seus descendentes, além de conservar a memória dos antigos feitos dos fidalgos (filhos d'algo). Muitos destes livros transmitem um importante legado histórico, cultural e literário.

Em Portugal conservam-se quatro livros de linhagem da época medieval: o Primeiro Livro de Linhagens (ou Livro Velho de Linhagens), compilado por volta de 1270,Segundo Livro de Linhagens (também Livro de Linhagens do Deão), de cerca de 1340, o Nobiliário da Ajuda e finalmente o Livro de Linhagens do conde D. Pedro. Este último é o mais importante do ponto de vista literário, tendo sido compilado por Pedro Afonso, conde de Barcelos, entre 1340 e 1344. Pedro Afonso não só incorporou a genealogia das famílias nobres portuguesas, peninsulares e europeias como também relata episódios históricos e narrativas fantásticas relacionadas à origem das famílias que são de muito interesse histórico e literário.

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