sábado, 15 de novembro de 2025

Estranha-se

 

A BBC, afinal, parece aceitar sabiamente, também, as novidades – e necedades - do que por esse mundo vai, no mesmo repúdio pelas velharias dos preceitos clássicos, que se vai generalizando, para mostrarmos subserviente zelo modernizador. Não, não tem esse direito, como farol da Humanidade que sempre se revelou… Fora os ameaços, é certo …

O rigor mortis da BBC

O problema não se esgota na BBC, no fundo um (grande) rolamento numa monumental traquitana de falcatruas. O problema é os “media” terem decidido que lhes compete educar as massas.

ALBERTO GONÇALVES Colunista do Observador

OBSERVADOR, 15 nov. 2025, 00:224

Sabiam que, em 2014, a BBC relatou as violações de Rotherham chamando aos muçulmanos paquistaneses que as perpetraram “gangues asiáticos”? Sabiam que, em 2024, a BBC revelou uma discriminação racial no preço do seguro dos carros que afinal não existia? Sabiam que, em 2008, a BBC censurou uma ligeiríssima alusão a Maomé (e à montanha) na série “Blackadder” enquanto permitia abundantes piadas alusivas ao cristianismo? Sabiam que, em 2025, a BBC transmitiu um documentário sobre Gaza em que o narrador era filho de um dirigente do Hamas? Sabiam que, de 2023 a 2025, a BBC evitou reportagens que pudessem beliscar o movimento “trans? Sabiam que, em 2012, a BBC acusou um “lord” conservador de abusar sexualmente de crianças em “contexto de racismo” e em que o desgraçado era completamente inocente? Sabiam que, em 2014, a BBC eliminou do programa “Free Speech” (ai, a ironia pesada) a questão “Será possível ser muçulmano e gay?” Sabiam que, em 2020 e 2021, a BBC calou, distorceu, exagerou e, sim, mentiu em tudo o que pôde de modo a alimentar a cantilena oficial em volta da Covid? Sabiam que, em 2012, a BBC produziu uma história acerca do “racismo estrutural” no futebol europeu através de manipulação de dados com “racistas” interpretados por figurantes? Sabiam que, em Julho de 2024 e em Novembro de 2025, a BBC repreendeu formalmente duas “pivots” que exibiram desdém pela expressão “pessoas que engravidam”? Sabiam que, em 2021, a BBC cobriu o assalto anti-semita a um autocarro em Londres e apresentou como “atenuante” (?) o pormenor de o áudio do incidente incluir “insultos anti-muçulmanos”, de facto o som de uma criança judia a gritar por socorro em hebraico? Sabiam que, em 2022 e com repetição em 2024, a BBC mutilou severamente um discurso de Donald Trump para dar a entender que ele apelara à invasão do Capitólio?

Desta última manigância vocês sabiam. E sabem quem sabia de todas, estas e outras, desde sempre, embora fingissem o contrário? As cúpulas e as tutelas da BBC. O estratagema é similar vai para 20 anos, pelo menos. A BBC falsifica notícias, inventa “casos”, difunde patranhas convenientes às “causas” que serve, suprime informação comprometedora para essas “causas” e, em suma, esforça-se por aldrabar tanto quanto possível os espectadores que, por ingenuidade ou perversão, ainda consomem semelhante miséria.

Se uma determinada aldrabice suscita excessivo escândalo, a BBC invariavelmente adopta o código de honra do larápio que só se arrepende quando o roubo é descoberto. Primeiro, lança um pedido de desculpas mais esfarrapado que as bandeiras portuguesas após o Euro 2004. De seguida, demite ou aceita a demissão de um director ou dois e troca-os por criaturas igualmente devotas ao viés em voga e empenhadas em perpetuar a fraude, uma fraude que anualmente custa seis mil milhões, e que, de tão preocupada em não ofender “sensibilidades”, ofende brutalmente o bom senso.

Sucede que, por incúria do Todo Poderoso, o bom senso não é distribuído com equidade – o bom senso e a vergonha na cara. Mesmo confrontada com a infantil truncagem do discurso de Trump, houve muita gente a relativizar o episódio, que em última instância não teria passado de um erro jornalístico ou, vá lá, de um exemplo reprovável e inconsequente de mau jornalismo. Até eu, que levo a sério o Efeito Borboleta, acho extraordinário acreditar-se que colar frases soltas e escolhidas à medida do que se pretendia dizer que Trump disse é um “erro”, no sentido de lapso. E acho abusivo que se fale em “mau jornalismo”. O que a BBC tem andado a fazer, com Trump, Gaza, o “racismo”, o Islão, o “transgenderismo” e o que lhe apetece, não é nada que se pareça com jornalismo, bom, sofrível, mau ou péssimo. Aquilo é propaganda, o exacto tipo de propaganda que se espera das televisões da Venezuela, de Cuba e da Rússia. E que já ninguém se espanta por encontrar nas televisões do Reino Unido e do Ocidente em geral.

Claro que hoje o problema não se esgota na BBC, no fundo um (grande) rolamento numa monumental traquitana de falcatruas. O problema também não se prende com o engajamento ideológico dos “media”, que era comum com maior ou menor franqueza à direita e à esquerda e ao centro. O problema é os “media”, quase todos os “media”, terem decidido que lhes compete educar as massas, e educá-las num sentido bastante específico, invariavelmente subjugado às directivas dos governos que, com raras e odiadas excepções, mandam na Europa e arredores. É possível discutir quem manda nos governos. É impossível negar que, por fragilidade, anacronismo e ideologia, o “quarto poder” aliou-se aos restantes e, em vez de escrutínio, desatou a promover a bajulice. Uma considerável parte dos jornalistas actuais não são jornalistas, mas cortesãos. E se os “jornalistas” defendem a corte, é natural que a corte ampare os “jornalistas”. Em ambas as esferas, já demasiado misturadas, adoptou-se esta semana a cartilha habitual com o habitual descaramento: a BBC e o jornalismo e a democracia e quiçá o sistema solar estão sob ataque cerrado de “radicais”, fatalmente de “extrema-direita”. Por sorte, temos os moderados para nos proteger – da “desinformação” e do resto.

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COMENTÁRIOS:

Miguel Santos: Por cá é ainda pior - pelo menos a BBC sabe que está a aldrabar. O jornalismo por cá copia cegamente as aldrabices sem sequer pensar.  Reflexos pavlovianos de um jornalismo largamente composto de gente de extrema-esquerda, fã do LIVRE, BE ou PCP, incapaz de discernir a realidade 2 palmos à frente do nariz, se isso contrariar o mantra do partido.                      Maria Paula Silva: "Cortesãos  copy-pasters  avençados". É caso para perguntar quais são, hoje em dia, os meios de Comunicação Social isentos que honrem os Princípios básicos do Jornalismo? Mesmo o Observador deixa muito a desejar, à excepção de meia dúzia de cronistas que justificam, por enquanto, o pagamento da assinatura. O Observador devia divorciar-se da Lusa e livrar-se de alguns infiltrados que por aqui navegam e que não dignificam o verdadeiro Jornalismo.  p.s. - escreve-se os Media  e deve ler-se  "média" e não "midia",  já que a palavra é latina.                            Maria Eduarda Vaz Serra: Obrigada por mais um bom artigo.           Joana Quintela: Bravo!!!!          Paulo Maio: Quantas BBCs desta vida não existem por este (ainda) nosso Portugal.

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