quarta-feira, 12 de novembro de 2025

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Tudo o que pode elevar, afinal. Faz parte da nossa condição de queixosos preguiçosos e ingratos, justificativo apenas de uma formação já antiga, de pequena elevação espiritual, imposta pela própria governação, desde os reis primeiros, indiferentes ao aculturamento do povo, e preferindo o carisma educacional a partir das classes religiosas, que impunham uma cultura pedagógica de devoção bíblica, preferentemente a um conhecimento do avanço e modernização progressiva, esclarecedores dos sucessivos enriquecimentos ao sabor das descobertas científicas, apesar da formação de uma classe burguesa aparentemente mais esclarecida e ambiciosa. Sei quanto as propinas dos estudantes pesam no bolso dos pais, (tenho a certeza de que eu nunca teria vindo estudar para cá, sem a bolsa que as médias razoáveis do meu 7º ano (11º de hoje) mereceram, por insuficiente que fosse, todavia, ao ordenado de fiel de armazém do meu pai). Mas julgo que o que provoca as iras sobre o custo elevado das propinas, hoje, talvez, nem tenha tanto a ver com o seu custo excessivo, habituados que estamos a um viver de objectos - formativos ou menos – bem caros e variados. Do que gostamos pouco, com efeito, é de estudar.

Síndrome Lisboa: a patologia dos universitários portugueses sobre as propinas?

A distorção moral começa cedo — nota-se já nos recreios do pré-escolar — e é amplificada por uma comunicação social que dramatiza o quotidiano com zelo quase apocalíptico.

SANDRA FIGUEIREDO Professora Associada do Departamento de Psicologia da Universidade Autónoma. Investigadora-coordenadora (Ph. D em Psicologia e pós-doutoramento – Fundação para a Ciência e Tecnologia) da CIP/UAL

OBSERVADOR, 11 nov. 2025, 00:033

Os estudantes universitários estão a reclamar, sem intervalo aparente, sobre as propinas elevadas. Fá-lo-ão por convicção moral ou por preguiça intelectual? Acho que sobretudo por falta de noção da inflação e pela ingratidão perante a mesma: será a propina actualmente (até mesmo no privado) uma das pouquíssimas coisas que a inflação não ‘atingiu’. Em 2001 pagávamos mais propina mensal do que actualmente, na universidade pública.

Se o pão, o azeite, as castanhas e quase tudo, em Portugal, subiu ao cume do euro, então a educação académica superior ficou protegida. Diria, até, empobrecida. A pretexto das propinas universitárias, que muitos classificam de “excessivas”, brotam textos inflamados sobre a alegada elitização do ensino superior público. Ora, a verdade é outra, e menos cómoda: as propinas estão praticamente congeladas, então, há mais de duas décadas, e a universidade pública, em termos reais, nunca foi tão acessível.

O discurso da desigualdade, pelo menos neste domínio, tornou-se um dogma conveniente — repete-se sem exame, e consome-se sem digestão. Tudo isto não é mais do que inauguro como o “síndrome Lisboa”– não é o síndrome de Estocolmo (em que o refém ou vítima passam a vincular-se e a ‘apaixonar-se pelo raptor ou refém) que é bem conhecido – mas é mesmo um novo síndrome: os portugueses estão reféns da tristeza saliente que vem da noção de uma vida custosa (e injusta) face ao que auferem mensalmente e que sobretudo Lisboa impõeMas, ao mesmo tempo, Lisboa conseguiu fazer dos seus reféns e vítimas (portugueses e não os turistas!) também os amantes da sua causa: considerar que tudo é muito caro e então também a Educação Superior o éUma mistura sem nexo, como o amor cego que se desenvolve pelo seu agressor (neste caso o capitalismo em devaneio que se vive na capital portuguesa, já considerada uma das mais caras do mundo – para quem nela vive como nativo ou imigrante).

É curioso, porém, como poucos olham para os factos. Não é o preço da universidade que separa classes, mas a persistência, o esforço e a capacidade de cada um em vencer as suas circunstâncias. Paupérrimo não é quem paga propinas; é quem as paga e não se esforça por as fazer valer (estudando e não faltando). É quem, desde os seis anos não tinha os lápis e os recursos todos dentro da mochila, mas mesmo assim enfrentou dificuldades e não fez beicinho. Eu própria o fiz — e, contra as probabilidades, fui das melhores alunas em todos os momentos de escola e sobretudo na universidade. Porque sabia eu e sabem muitos outros portugueses estudantes que a única sobra para nós é: estudar para ser o melhor (num plural bendito) e chegar à vitória. Fracassar nunca me foi permitido (ninguém me orientou) como sequer uma opção. A pobreza, percebo hoje, não me definiu; apenas me testou. É daí que vem a riqueza, não só a financeira, mas a moral e a ética. E nem sempre se tem de emigrar, não ouçam o sequestro lisboeta.

E, sobre a riqueza moral (a qual nem sempre cresce com a nossa riqueza na conta bancária), é uma ‘história barata’. A distorção moral começa cedo — nota-se já nos recreios do pré-escolar — e é amplificada por uma comunicação social que dramatiza o quotidiano com zelo quase apocalíptico. Veja-se: é muito caro estar na universidade pública, assim consideram, mas ter o último iphone é algo ‘necessário’? É que o preço dele é maior que a propina de um ano completo. Mas, estes reféns do ‘Síndrome Lisboa’ andam a gravar as suas queixas sobre as propinas em ecrãs iphone, de última geração. Lisboa é tão atraente quanto sequestradora, afinal.

PROPINAS      EDUCAÇÃO       UNIVERSIDADES

 

COMENTÁRIOS

Paulo Borges: " Não é o preço da universidade que separa classes, mas a persistência, o esforço e a capacidade de cada um em vencer as suas circunstâncias. Paupérrimo não é quem paga propinas; é quem as paga e não se esforça por as fazer valer (estudando e não faltando)". Vivemos numa época de facilitismo generalizado, todos querem comer "lagosta ao pequeno almoço", mas sem esforço algum... apenas com o milagre da multiplicação dos pães. Tempos difíceis criam homens fortes, homens fortes criam tempos fáceis, tempos fáceis criam homens fracos, homens fracos criam tempos difíceis. Estamos no tempo de haver "demasiados" "homens fracos".... os chamados "copinhos de leite", e vamos sofrer as consequências a médio prazo. Quem frequenta uma universidade consegue perceber algo que nos deve fazer pensar... o exemplo dos estudantes orientais: são trabalhadores "até dizer chega", educados, correctos com o seu semelhante e não "perdem tempo", têm sucesso escolar e é por isso que o Oriente está a dominar o mundo. Gostava muito que fosse possível educar os jovens Portugueses, mas para o fazer é preciso (também) "inventar novos pais" como diz o livro de Daniel Sampaio, escrito há uns bons anos e que se torna cada vez mais actual.          Zé da Esquina: bem!          Antonio Coelho: Parabéns pelo artigo. Deveria ser de leitura obrigatória nas universidades públicas e em casa de muitas famílias

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