Tudo o que pode elevar, afinal. Faz parte
da nossa condição de queixosos preguiçosos e ingratos, justificativo apenas de
uma formação já antiga, de pequena elevação espiritual, imposta pela própria
governação, desde os reis primeiros, indiferentes ao aculturamento do povo, e
preferindo o carisma educacional a partir das classes religiosas, que impunham
uma cultura pedagógica de devoção bíblica, preferentemente a um conhecimento do
avanço e modernização progressiva, esclarecedores dos sucessivos enriquecimentos
ao sabor das descobertas científicas, apesar da formação de uma classe burguesa
aparentemente mais esclarecida e ambiciosa. Sei quanto as propinas dos
estudantes pesam no bolso dos pais, (tenho a certeza de que eu nunca teria
vindo estudar para cá, sem a bolsa que as médias razoáveis do meu 7º ano (11º
de hoje) mereceram, por insuficiente que fosse, todavia, ao ordenado de fiel de
armazém do meu pai). Mas julgo que o que provoca as iras sobre o custo elevado
das propinas, hoje, talvez, nem tenha tanto a ver com o seu custo excessivo,
habituados que estamos a um viver de objectos - formativos ou menos – bem caros
e variados. Do que gostamos pouco, com efeito, é de estudar.
Síndrome Lisboa: a patologia dos
universitários portugueses sobre as propinas?
A distorção moral começa cedo — nota-se já nos recreios do
pré-escolar — e é amplificada por uma comunicação social que dramatiza o
quotidiano com zelo quase apocalíptico.
OBSERVADOR, 11 nov. 2025, 00:033
Os estudantes universitários estão a reclamar, sem intervalo
aparente, sobre as propinas elevadas. Fá-lo-ão por convicção moral ou por
preguiça intelectual? Acho que sobretudo por falta de noção da
inflação e pela ingratidão perante a mesma: será a propina actualmente (até
mesmo no privado) uma das pouquíssimas coisas que a inflação não ‘atingiu’.
Em 2001 pagávamos mais propina mensal
do que actualmente, na universidade pública.
Se o pão, o azeite, as castanhas e
quase tudo, em Portugal, subiu ao cume do euro, então a educação académica superior ficou protegida. Diria, até, empobrecida. A pretexto das propinas universitárias,
que muitos classificam de “excessivas”, brotam textos inflamados sobre a
alegada elitização do ensino superior público. Ora, a verdade é
outra, e menos cómoda: as
propinas estão praticamente congeladas, então, há mais de duas décadas, e a
universidade pública, em termos reais, nunca foi tão acessível.
O discurso da desigualdade, pelo menos neste domínio, tornou-se um
dogma conveniente — repete-se sem exame, e consome-se sem digestão. Tudo isto
não é mais do que inauguro como o “síndrome Lisboa”– não é o
síndrome de Estocolmo (em que o
refém ou vítima passam a vincular-se e a ‘apaixonar-se pelo raptor ou refém)
que é bem conhecido – mas é mesmo um novo síndrome: os
portugueses estão reféns da tristeza saliente que vem da noção de uma vida
custosa (e injusta) face ao que auferem mensalmente e que sobretudo Lisboa
impõe. Mas,
ao mesmo tempo, Lisboa conseguiu fazer dos seus reféns e vítimas (portugueses e
não os turistas!) também os amantes da sua causa: considerar que tudo é muito
caro e então também a Educação Superior o é. Uma mistura sem
nexo, como o amor cego que se desenvolve pelo seu agressor (neste caso o
capitalismo em devaneio que se vive na capital portuguesa, já considerada uma
das mais caras do mundo – para quem nela vive como nativo ou imigrante).
É
curioso, porém, como poucos olham para os factos. Não é
o preço da universidade que separa classes, mas a persistência, o esforço e a
capacidade de cada um em vencer as suas circunstâncias. Paupérrimo não é quem paga propinas; é
quem as paga e não se esforça por as fazer valer (estudando e não faltando). É
quem, desde os seis anos não tinha os lápis e os recursos todos dentro da
mochila, mas mesmo assim enfrentou dificuldades e não fez beicinho. Eu própria
o fiz — e, contra as probabilidades, fui das melhores alunas em todos os
momentos de escola e sobretudo na universidade. Porque sabia eu e sabem muitos
outros portugueses estudantes que a única sobra para nós é: estudar para ser o
melhor (num plural bendito) e chegar à vitória. Fracassar nunca me foi
permitido (ninguém me orientou) como sequer uma opção. A
pobreza, percebo hoje, não me definiu; apenas me testou. É daí que vem a
riqueza, não só a financeira, mas a moral e a ética. E nem sempre se tem de
emigrar, não ouçam o sequestro lisboeta.
E, sobre a riqueza moral (a qual nem
sempre cresce com a nossa riqueza na conta bancária), é uma ‘história barata’. A distorção moral começa cedo — nota-se
já nos recreios do pré-escolar — e é amplificada por uma comunicação social que
dramatiza o quotidiano com zelo quase apocalíptico. Veja-se:
é muito caro estar na universidade pública, assim consideram, mas ter o
último iphone é algo ‘necessário’? É que o preço dele é maior que a
propina de um ano completo. Mas, estes
reféns do ‘Síndrome Lisboa’ andam a gravar as suas queixas sobre as propinas em
ecrãs iphone, de última geração. Lisboa é tão atraente quanto sequestradora,
afinal.
PROPINAS EDUCAÇÃO UNIVERSIDADES
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