Já
antiga, na parte que me toca, pois costumava ler na HOLA, dos
empréstimos da minha irmã, ou mesmo em outra imprensa, referências à Casa Real
Espanhola. Também nunca esqueci a reacção emotiva de uma irmã de Juan Carlos, num estádio
espanhol, perante uma qualquer proeza desportiva do irmão, o que
me fez irmanar-me nessa sensibilidade familiar idêntica à nossa, e por tal, sempre
gostei da família real espanhola. Os considerandos do P. GONÇALO PORTOCARRERO
atestam virtudes desse Rei Emérito em gentil biografia romanesca, e fundamentada,
a que o nosso país não foi alheio. Gostei a valer do seu texto de real
simpatia.
O Mérito do Rei
Emérito (*)
Espanha deve muito ao seu Rei emérito, pois teve o mérito de
converter a ditadura franquista num regime democrático.
P. GONÇALO
PORTOCARRERO DE ALMADA Colunista
OBSERVADOR, 22
nov. 2025, 00:177
Precisamente hoje, 22 de Novembro de
2025, faz cinquenta anos que D.
Juan Carlos de Bourbon e Bourbon foi proclamado Rei de Espanha, dois
dias depois da morte de Francisco Franco, que o tinha instituído como seu
sucessor à frente do Estado espanhol.
A sua proclamação como monarca aconteceu
quase cinquenta anos depois de o seu avô,
o Rei Afonso XIII, ter deixado Espanha, por ocasião da proclamação da segunda
República, tendo-se esta caracterizado por uma terrível perseguição religiosa,
que culminou com três anos de impiedosa guerra civil. Seguiu-se
a ditadura de Franco, que concluiu
com a restauração da monarquia na pessoa de D Juan Carlos I, ao qual coube a
difícil tarefa de transformar o herdado regime autoritário numa democracia
pluralista.
Juan Carlos de Bourbon é alguém muito próximo de Portugal,
porque aqui residiu durante uma parte importante da sua vida, quando no Estoril
estava exilada a Família Real espanhola. Aqui morreu também, em condições
trágicas, o seu único irmão,
Alfonso, e casaram as suas duas irmãs, as Infantas Pilar e Margarida.
Não
era óbvio que Juan
Carlos viesse a
ser o Rei de Espanha, porque o seu
pai, D. Juan de Bourbon, Conde de
Barcelona, era o terceiro
filho varão do Rei Afonso
XIII e da Rainha Vitória Eugénia de Battenberg, ou Mountbatten, que era
neta da homónima soberana inglesa.
No entanto, devido à renúncia
dos seus dois irmãos mais velhos, a
chefia da Família Real espanhola veio a recair em D. Juan.
Se, do ponto de vista dinástico, não
restavam dúvidas quanto à legitimidade de Juan Carlos para
suceder ao seu avô, Afonso XIII, no trono espanhol, a questão nem sempre foi pacífica, por interferência
de outros pretendentes.
Um deles, D. Carlos Hugo de Bourbon Parma, casado com a Princesa Irene da Holanda,
intitulava-se chefe do ramo tradicionalista, ou carlista, que apoiara, no
século XIX, as pretensões ao trono do Infante D. Carlos. Extinto esse ramo da Família Real, a sua
representação coube a Juan Carlos, o que explica o seu segundo nome próprio. Por
outro lado, Carlos
Hugo não
estava a par do que se passava em Espanha, onde nunca viveu, nem era conhecido.
O outro pretendente era D. Afonso de
Bourbon Dampierre, primogénito
do segundo filho de Afonso XIII. Para este efeito, alegou que a renúncia de seu pai não era válida e, portanto, era a ele, e não a Juan Carlos, que cabia a chefia da
Casa Real espanhola. Mais terá pesado, ainda, o seu casamento com Carmen Martínez-Bordiú, a neta mais velha de Franco. Consta que a mulher do ditador tudo terá
feito para que o seu marido, em vez de restaurar a monarquia no filho
primogénito do Conde de Barcelona, o fizesse neste D. Afonso de Bourbon, Duque
de Cádis, em cujo caso
a neta de ambos seria Rainha de Espanha. Os franquistas, que
desconfiavam do filho do Conde de Barcelona, viam nesta união a continuidade do
regime, mas Franco, honra
lhe seja feita, nunca favoreceu esta hipótese, até porque já estava comprometido com D. Juan Carlos.
Terminada a guerra civil, houve quem
alimentasse a esperança de que Franco restaurasse a monarquia na pessoa de D.
Juan, pai de D. Juan Carlos. No entanto,
o apego do ‘Caudilho’ pelo poder e as simpatias liberais do Conde de Barcelona
frustraram essa expectativa, e a Família Real espanhola viu-se obrigada a viver
no estrangeiro. Para esse efeito, escolheu o Estoril, onde
também estavam exiladas outras famílias reais.
Não obstante a tensão entre
Franco e o Conde de Barcelona, que
considerava que o General tinha usurpado as funções que dinasticamente lhe
correspondiam, ambos
chegaram a um acordo em relação à educação de Juan Carlos. Em função deste pacto, o futuro Rei de Espanha foi
enviado para o país vizinho, para que aí adquirisse uma formação adequada à sua
condição. Para
o pequeno príncipe foi penosa a
saída de casa de seus pais e irmãos, bem como a relação com Francisco Franco
que, embora gentil com a sua pessoa, era afinal quem impedia que seu pai
acedesse ao trono a que tinha direito.
Terminada a formação académica e militar
de Juan Carlos, Franco fez questão de o
manter a seu lado e de o indigitar seu sucessor na chefia do Estado, com o
título de Rei. Esta
tomada de posição gerou uma situação de grande tensão com o Conde de Barcelona,
que se sentiu traído pelo seu filho primogénito. Juan Carlos, já casado com a
Princesa Sofia da Grécia, recebeu então um título inédito: Príncipe de Espanha.
Depois da morte de Franco, a 20 de
Novembro de 1975, Don Juan Carlos foi proclamado, a 22, Rei de Espanha e passou
a reinar num país dividido por vários nacionalismos e por grandes tensões
políticas: enquanto os franquistas
pretendiam que o monarca, que viam sobretudo como herdeiro do ‘Caudilho’, desse
continuidade ao franquismo, outros desejavam, nomeadamente os principais
representantes da hierarquia católica, que o filho dos Condes de Barcelona
fosse o motor da democratização do país. Foi esta
segunda opção que triunfou, sobretudo quando, durante a tentativa de golpe de
Estado de Tejero Molina, o Rei Juan Carlos se pôs do lado do regime democrático. Pode-se
dizer que, nessa hora dramática, a monarquia restaurada acrescentou, à
continuidade dinástica, a legitimidade democrática, suprindo assim o défice
decorrente da sua ligação ao ditador. Se, até então, os partidos de esquerda
manifestavam algumas reticências em relação à instituição real, depois
dessa decisiva actuação do Rei converteram-se, senão em monárquicos, pelo menos
em juancarlistas.
Ultrapassadas
as últimas resistências à monarquia, nomeadamente com a aprovação plebiscitária
da Constituição e a criação das regiões autónomas, Juan Carlos tinha todas as
condições para ser, efectivamente, o Rei de todos os espanhóis, como símbolo de
um Estado de direito democrático e plurinacional.
Infelizmente,
já na recta final do seu longo reinado, Juan
Carlos I cometeu
algumas faltas de especial gravidade.
Para além de uma vida privada escandalosa que, pela sua infeliz participação
num safari, em África, foi do domínio público, a existência, em seu nome, de
avultados fundos monetários de desconhecida proveniência, obrigaram à sua abdicação,
passando à sua actual
condição de Rei emérito. A sua presença em solo espanhol deixou de ser
bem-vista e, por isso, viu-se obrigado a percorrer, de novo, o caminho do
exílio. A Rainha Sofia – a qual, por ser filha, irmã, mulher e mãe de reis é um caso raro nas
actuais monarquias europeias – manteve-se, contudo, em Madrid, pois é muito
respeitada e querida por todos os espanhóis, prestando um extraordinário serviço
a Espanha, ao seu filho, o Rei Filipe VI, à sua nora, a Rainha Letícia, e às
suas netas, que muito têm a aprender do seu inegável exemplo e “savoir
faire”.
Não obstante estes últimos episódios,
cuja gravidade não pode ser subestimada, Espanha deve
muito ao seu Rei emérito. Graças à sua
determinação, converteu pacificamente a ditadura franquista num regime
democrático. Sofreu pelo
seu país os anos vividos no exílio, a separação de seus pais e irmãos quando
foi estudar para Espanha e, sobretudo, a enorme tensão sofrida no seio da sua
família quando Franco, desrespeitando a ordem dinástica, o instituiu como seu
sucessor, com o título de Rei. Foi hostilizado pelos franquistas, que desconfiavam das suas
intenções; pelos socialistas e comunistas, que eram tradicionalmente
republicanos; e, até, pelos monárquicos, que não aceitavam que ocupasse o trono
que era, de jure, de seu pai. Não obstante, Juan Carlos I teve o
inegável mérito de, pacificamente, ultrapassar essas clivagens políticas e
ideológicas e manter a sua pátria unida, apesar das tensões independentistas e
dos ataques terroristas.
É provável que tenha sido graças à
formação recebida de seu pai e à sua fé católica que Juan Carlos fez do seu
país a pátria de todos os espanhóis, sem discriminar ninguém. Se é
verdade que errou no último período do seu reinado – errare humanum est! – também
é certo que reconheceu as suas culpas e, tendo como motivação suprema o bem de
Espanha, deixou de livre vontade o trono, com a mesma dignidade com que, desde
a primeira hora, faz hoje precisamente meio século, o assumiu.
Por tudo isto e o mais que fica por
dizer, a História dirá de Juan
Carlos I o que hoje, nas bodas de ouro da sua entronização, se pode e deve
antecipar, com sincera convicção: Obrigado,
Majestade!
(*) O
autor, que dedica esta crónica ao Senhor Embaixador José de Bouza Serrano,
autor de uma óptima biografia do Rei emérito, viveu em Madrid de 1975 a 1980,
onde o seu pai era ministro-conselheiro da Embaixada de Portugal. Aí se
licenciou em Direito na Universidade de Madrid (Complutense) e foi
correspondente do semanário Tempo.
JUAN CARLOS ESPANHA EUROPA
MUNDO
COMENTÁRIOS (de 7)
maria santos: Senhor Padre, muito
obrigado por lembrar quem e o que nos recorda. Francisco
Almeida: O Pe. Gonçalo, visconde por mérito próprio mais do que
por direito nobiliárquico, não esconde nesta crónica as suas simpatias
monárquicas. Também sou monárquico mas por adesão racional e não
por herança familiar. Dito isto, não tenho muita admiração pelo rei emérito mas
enorme admiração pela instituição monárquica que funcionou exemplarmente com
Juan Carlos. Antes do mais, Juanito, ao contrário do malogrado
irmão Alfonso, nada tinha de inteligente. Com exagero e (muita) maldade,
dizia-se do então parceiro de ténis na Parada de Cascais de Francisco Balsemão
que a sua maior qualidade era fazer Balsemão parecer inteligente. Por decisão de Franco,
foi preparado para rei, tendo frequentado academias dos três ramos das forças
armadas, o que lhe permitiu conhecer pessoalmente futuros oficiais dos três
ramos. Na revolta de Tejero de Molina, alegadamente feita
em nome do rei, depois de chamado pela rainha de onde não devia estar,
telefonou para as unidades cruciais, falando com os que conhecia pessoalmente a
quem garantiu que não aprovava a revolta. Isso impediu efectivamente diversos
quartéis de saírem (acho que ninguém acredita que Tejero de Molina agiu
sozinho). É a mesma razão que levou a infanta Leonor a frequentar academias
militares. Também a ir para um colégio na Escócia, pois um colégio em Espanha,
dar-lhe-ia amizades que mais tarde poderiam levar a favorecimentos. Um rei não
precisa de ser inteligente. Pode ser uma pessoa banal. Mas dá a garantia de ser
bem-educado, de não andar a despir calções azuis nas praias ou a dizer mal do
filho a jornalistas estrangeiros ou a ser brejeiro com decotes de jovens. Acrescento
que a educação de Juan Carlos, foi imperfeita por tardia. Deu-se e acompanhou o
então playboy Balsemão, conhecido pelo Porsche e pelas namoradas. O seu pai, o
conde de Barcelona, além de beber demais o que forçosamente prejudicou o
ambiente familiar, não soube manter uma neutralidade política. O Pe. Gonçalo,
caridosamente, chamou-lhe liberal mas ele era claramente esquerdista e
apoiava os socialistas. Mas creio que Balsemão terá exercido enorme
influência em Juan Carlos, quer nos maus hábitos quer na opção pela democracia
com que efectivamente se comprometeu e levou a cabo com êxito apoiando o
primeiro-ministro Adolfo Suárez, a quem depois concedeu o título de duque e
grande de Espanha. Manuel Magalhaes: Aplaudo sinceramente
este artigo do sr. Padre, pois relata com enorme honestidade a grande figura
que foi e é, apesar de tudo, o Senhor Don João Carlos, sr. Don Juanito como lhe
chamávamos e como ele ainda hoje assina quando troca mensagens com amigos,
pessoa que tive e tenho o enorme prazer de ter conhecido e que em mais novo
conviveu assiduamente com a minha família, para além do descrito neste texto,
devo de dizer que é uma pessoa de enorme simpatia e de enorme coração, nunca
esquecendo os seus amigos !!! João
Floriano: Juan Carlos foi adúltero, tinha na sua posse avultadas
quantias de proveniência duvidosa, mas o que a opinião pública nunca lhe
perdoou foi aquela caçada ao elefante e a foto triunfal do animal morto
amparado numa árvore para uma captação em melhor ângulo. E sabe-se lá que outros
caprichos semelhantes terá Juan Carlos realizado sem testemunhas por perto.
Fala-se pouco de quintas de leões criados exclusivamente para serem caçados.
Mas essas quintas vergonhosamente existem. Recentemente passaram duas excelentes
séries na RTP2. Uma sobre a juventude de Juan Carlos desde o Estoril até
à morte de Franco, onde o acidente que matou o irmão Afonso tem a ver com o
disparo acidental de uma arma oferecida pelo caudillo a Juan Carlos. Temos
um relato fiel da amargura do duque de Barcelona e o noivado com Sofia, que
não era do gosto de Franco. A outra série acompanha o reinado de Afonso
XIII desde o casamento com Victoria, que trouxe a hemofilia para os homens da
família real espanhola, o exílio e a morte do rei, sendo que a Guerra Civil
de Espanha vem logo de seguida. Virtudes Públicas, vícios privados, como
na vida dos mortais mais comuns. Só que os reis não são comuns. Américo Silva: Acabaram os sermões,
os verdadeiros, nos quais um pregador subia ao púlpito, acima dos fiéis, talvez
por falta de pregadores, uma homilia diferente: há dezenas de anos que não ouço
nem vejo um sermão, e quem hoje não teria medo de falar contra ladrões,
assassinos, opressores, os que não pagam a quem trabalha, e muito mais. António
Dias > Américo
Silva: Faltam sermões porque o inimigo é dissimulado, faz-nos
crer que nada podemos fazer contra a nossa natureza, não li o artigo, presumo
que se desenvolva na parcialidade em volta de um sujeito, uma espécie de ganhar
o jogo na secretaria, quando na realidade não existe um meio termo neste
assunto, pode juntar muito mas no final acaba por espalhar muito mais. Rama,
muita rama adicionada pelo bem parecer aos outros. Pois os outros são o nosso
menor problema, o problema está dentro de cada um. E eu cá comigo e com os
comigos de mim como dizia Fernando Pessoa. Jorge Barbosa: Apreciando mais este
excelente artigo do Padre Gonçalo, permito-me deixar uma nota que naturalmente
decorre tão só da minha percepção : "errare humanum est" tão só em
pessoas comuns, logo sem as gigantescas responsabilidades públicas como é o caso do rei emérito.
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