domingo, 23 de novembro de 2025

Simpatia


Já antiga, na parte que me toca, pois costumava ler na HOLA, dos empréstimos da minha irmã, ou mesmo em outra imprensa, referências à Casa Real Espanhola. Também nunca esqueci a reacção emotiva de uma irmã de Juan Carlos, num estádio espanhol, perante uma qualquer proeza desportiva do irmão, o que me fez irmanar-me nessa sensibilidade familiar idêntica à nossa, e por tal, sempre gostei da família real espanhola. Os considerandos do P. GONÇALO PORTOCARRERO atestam virtudes desse Rei Emérito em gentil biografia romanesca, e fundamentada, a que o nosso país não foi alheio. Gostei a valer do seu texto de real simpatia.

O Mérito do Rei Emérito (*)

Espanha deve muito ao seu Rei emérito, pois teve o mérito de converter a ditadura franquista num regime democrático.

P. GONÇALO PORTOCARRERO DE ALMADA Colunista

OBSERVADOR, 22 nov. 2025, 00:177

Precisamente hoje, 22 de Novembro de 2025, faz cinquenta anos que D. Juan Carlos de Bourbon e Bourbon foi proclamado Rei de Espanha, dois dias depois da morte de Francisco Franco, que o tinha instituído como seu sucessor à frente do Estado espanhol.

A sua proclamação como monarca aconteceu quase cinquenta anos depois de o seu avô, o Rei Afonso XIII, ter deixado Espanha, por ocasião da proclamação da segunda República, tendo-se esta caracterizado por uma terrível perseguição religiosa, que culminou com três anos de impiedosa guerra civil. Seguiu-se a ditadura de Franco, que concluiu com a restauração da monarquia na pessoa de D Juan Carlos I, ao qual coube a difícil tarefa de transformar o herdado regime autoritário numa democracia pluralista.

Juan Carlos de Bourbon é alguém muito próximo de Portugal, porque aqui residiu durante uma parte importante da sua vida, quando no Estoril estava exilada a Família Real espanhola. Aqui morreu também, em condições trágicas, o seu único irmão, Alfonso, e casaram as suas duas irmãs, as Infantas Pilar e Margarida.

Não era óbvio que Juan Carlos viesse a ser o Rei de Espanha, porque o seu pai, D. Juan de Bourbon, Conde de Barcelona, era o terceiro filho varão do Rei Afonso XIII e da Rainha Vitória Eugénia de Battenberg, ou Mountbatten, que era neta da homónima soberana inglesa. No entanto, devido à renúncia dos seus dois irmãos mais velhos, a chefia da Família Real espanhola veio a recair em D. Juan.

Se, do ponto de vista dinástico, não restavam dúvidas quanto à legitimidade de Juan Carlos para suceder ao seu avô, Afonso XIII, no trono espanhol, a questão nem sempre foi pacífica, por interferência de outros pretendentes.

Um deles, D. Carlos Hugo de Bourbon Parma, casado com a Princesa Irene da Holanda, intitulava-se chefe do ramo tradicionalista, ou carlista, que apoiara, no século XIX, as pretensões ao trono do Infante D. Carlos. Extinto esse ramo da Família Real, a sua representação coube a Juan Carlos, o que explica o seu segundo nome próprio. Por outro lado, Carlos Hugo não estava a par do que se passava em Espanha, onde nunca viveu, nem era conhecido.

O outro pretendente era D. Afonso de Bourbon Dampierre, primogénito do segundo filho de Afonso XIII. Para este efeito, alegou que a renúncia de seu pai não era válida e, portanto, era a ele, e não a Juan Carlos, que cabia a chefia da Casa Real espanhola. Mais terá pesado, ainda, o seu casamento com Carmen Martínez-Bordiú, a neta mais velha de Franco. Consta que a mulher do ditador tudo terá feito para que o seu marido, em vez de restaurar a monarquia no filho primogénito do Conde de Barcelona, o fizesse neste D. Afonso de Bourbon, Duque de Cádis, em cujo caso a neta de ambos seria Rainha de Espanha. Os franquistas, que desconfiavam do filho do Conde de Barcelona, viam nesta união a continuidade do regime, mas Franco, honra lhe seja feita, nunca favoreceu esta hipótese, até porque já estava comprometido com D. Juan Carlos.

Terminada a guerra civil, houve quem alimentasse a esperança de que Franco restaurasse a monarquia na pessoa de D. Juan, pai de D. Juan Carlos. No entanto, o apego do ‘Caudilho’ pelo poder e as simpatias liberais do Conde de Barcelona frustraram essa expectativa, e a Família Real espanhola viu-se obrigada a viver no estrangeiro. Para esse efeito, escolheu o Estoril, onde também estavam exiladas outras famílias reais.

Não obstante a tensão entre Franco e o Conde de Barcelona, que considerava que o General tinha usurpado as funções que dinasticamente lhe correspondiam, ambos chegaram a um acordo em relação à educação de Juan Carlos. Em função deste pacto, o futuro Rei de Espanha foi enviado para o país vizinho, para que aí adquirisse uma formação adequada à sua condição. Para o pequeno príncipe foi penosa a saída de casa de seus pais e irmãos, bem como a relação com Francisco Franco que, embora gentil com a sua pessoa, era afinal quem impedia que seu pai acedesse ao trono a que tinha direito.

Terminada a formação académica e militar de Juan Carlos, Franco fez questão de o manter a seu lado e de o indigitar seu sucessor na chefia do Estado, com o título de Rei. Esta tomada de posição gerou uma situação de grande tensão com o Conde de Barcelona, que se sentiu traído pelo seu filho primogénito. Juan Carlos, já casado com a Princesa Sofia da Grécia, recebeu então um título inédito: Príncipe de Espanha.

Depois da morte de Franco, a 20 de Novembro de 1975, Don Juan Carlos foi proclamado, a 22, Rei de Espanha e passou a reinar num país dividido por vários nacionalismos e por grandes tensões políticas: enquanto os franquistas pretendiam que o monarca, que viam sobretudo como herdeiro do ‘Caudilho’, desse continuidade ao franquismo, outros desejavam, nomeadamente os principais representantes da hierarquia católica, que o filho dos Condes de Barcelona fosse o motor da democratização do país. Foi esta segunda opção que triunfou, sobretudo quando, durante a tentativa de golpe de Estado de Tejero Molina, o Rei Juan Carlos se pôs do lado do regime democrático. Pode-se dizer que, nessa hora dramática, a monarquia restaurada acrescentou, à continuidade dinástica, a legitimidade democrática, suprindo assim o défice decorrente da sua ligação ao ditador. Se, até então, os partidos de esquerda manifestavam algumas reticências em relação à instituição real, depois dessa decisiva actuação do Rei converteram-se, senão em monárquicos, pelo menos em juancarlistas

Ultrapassadas as últimas resistências à monarquia, nomeadamente com a aprovação plebiscitária da Constituição e a criação das regiões autónomas, Juan Carlos tinha todas as condições para ser, efectivamente, o Rei de todos os espanhóis, como símbolo de um Estado de direito democrático e plurinacional.

Infelizmente, já na recta final do seu longo reinado, Juan Carlos I cometeu algumas faltas de especial gravidade. Para além de uma vida privada escandalosa que, pela sua infeliz participação num safari, em África, foi do domínio público, a existência, em seu nome, de avultados fundos monetários de desconhecida proveniência, obrigaram à sua abdicação, passando à sua actual condição de Rei emérito. A sua presença em solo espanhol deixou de ser bem-vista e, por isso, viu-se obrigado a percorrer, de novo, o caminho do exílio. A Rainha Sofiaa qual, por ser filha, irmã, mulher e mãe de reis é um caso raro nas actuais monarquias europeiasmanteve-se, contudo, em Madrid, pois é muito respeitada e querida por todos os espanhóis, prestando um extraordinário serviço a Espanha, ao seu filho, o Rei Filipe VI, à sua nora, a Rainha Letícia, e às suas netas, que muito têm a aprender do seu inegável exemplo e “savoir faire”.

Não obstante estes últimos episódios, cuja gravidade não pode ser subestimada, Espanha deve muito ao seu Rei emérito. Graças à sua determinação, converteu pacificamente a ditadura franquista num regime democrático. Sofreu pelo seu país os anos vividos no exílio, a separação de seus pais e irmãos quando foi estudar para Espanha e, sobretudo, a enorme tensão sofrida no seio da sua família quando Franco, desrespeitando a ordem dinástica, o instituiu como seu sucessor, com o título de Rei. Foi hostilizado pelos franquistas, que desconfiavam das suas intenções; pelos socialistas e comunistas, que eram tradicionalmente republicanos; e, até, pelos monárquicos, que não aceitavam que ocupasse o trono que era, de jure, de seu pai. Não obstante, Juan Carlos I teve o inegável mérito de, pacificamente, ultrapassar essas clivagens políticas e ideológicas e manter a sua pátria unida, apesar das tensões independentistas e dos ataques terroristas.

É provável que tenha sido graças à formação recebida de seu pai e à sua fé católica que Juan Carlos fez do seu país a pátria de todos os espanhóis, sem discriminar ninguém. Se é verdade que errou no último período do seu reinado – errare humanum est! – também é certo que reconheceu as suas culpas e, tendo como motivação suprema o bem de Espanha, deixou de livre vontade o trono, com a mesma dignidade com que, desde a primeira hora, faz hoje precisamente meio século, o assumiu.

Por tudo isto e o mais que fica por dizer, a História dirá de Juan Carlos I o que hoje, nas bodas de ouro da sua entronização, se pode e deve antecipar, com sincera convicção: Obrigado, Majestade!

(*) O autor, que dedica esta crónica ao Senhor Embaixador José de Bouza Serrano, autor de uma óptima biografia do Rei emérito, viveu em Madrid de 1975 a 1980, onde o seu pai era ministro-conselheiro da Embaixada de Portugal. Aí se licenciou em Direito na Universidade de Madrid (Complutense) e foi correspondente do semanário Tempo.

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COMENTÁRIOS (de 7)

maria santos: Senhor Padre, muito obrigado por lembrar quem e o que nos recorda. Francisco Almeida: O Pe. Gonçalo, visconde por mérito próprio mais do que por direito nobiliárquico, não esconde nesta crónica as suas simpatias monárquicas. Também sou monárquico mas por adesão racional e não por herança familiar. Dito isto, não tenho muita admiração pelo rei emérito mas enorme admiração pela instituição monárquica que funcionou exemplarmente com Juan Carlos. Antes do mais, Juanito, ao contrário do malogrado irmão Alfonso, nada tinha de inteligente. Com exagero e (muita) maldade, dizia-se do então parceiro de ténis na Parada de Cascais de Francisco Balsemão que a sua maior qualidade era fazer Balsemão parecer inteligente.  Por decisão de Franco, foi preparado para rei, tendo frequentado academias dos três ramos das forças armadas, o que lhe permitiu conhecer pessoalmente futuros oficiais dos três ramos. Na revolta de Tejero de Molina, alegadamente feita em nome do rei, depois de chamado pela rainha de onde não devia estar, telefonou para as unidades cruciais, falando com os que conhecia pessoalmente a quem garantiu que não aprovava a revolta. Isso impediu efectivamente diversos quartéis de saírem (acho que ninguém acredita que Tejero de Molina agiu sozinho). É a mesma razão que levou a infanta Leonor a frequentar academias militares. Também a ir para um colégio na Escócia, pois um colégio em Espanha, dar-lhe-ia amizades que mais tarde poderiam levar a favorecimentos. Um rei não precisa de ser inteligente. Pode ser uma pessoa banal. Mas dá a garantia de ser bem-educado, de não andar a despir calções azuis nas praias ou a dizer mal do filho a jornalistas estrangeiros ou a ser brejeiro com decotes de jovens. Acrescento que a educação de Juan Carlos, foi imperfeita por tardia. Deu-se e acompanhou o então playboy Balsemão, conhecido pelo Porsche e pelas namoradas. O seu pai, o conde de Barcelona, além de beber demais o que forçosamente prejudicou o ambiente familiar, não soube manter uma neutralidade política. O Pe. Gonçalo, caridosamente, chamou-lhe liberal mas ele era claramente esquerdista e apoiava os socialistas. Mas creio que Balsemão terá exercido enorme influência em Juan Carlos, quer nos maus hábitos quer na opção pela democracia com que efectivamente se comprometeu e levou a cabo com êxito apoiando o primeiro-ministro Adolfo Suárez, a quem depois concedeu o título de duque e grande de Espanha.      Manuel Magalhaes: Aplaudo sinceramente este artigo do sr. Padre, pois relata com enorme honestidade a grande figura que foi e é, apesar de tudo, o Senhor Don João Carlos, sr. Don Juanito como lhe chamávamos e como ele ainda hoje assina quando troca mensagens com amigos, pessoa que tive e tenho o enorme prazer de ter conhecido e que em mais novo conviveu assiduamente com a minha família, para além do descrito neste texto, devo de dizer que é uma pessoa de enorme simpatia e de enorme coração, nunca esquecendo os seus amigos !!!                    João Floriano: Juan Carlos foi adúltero, tinha na sua posse avultadas quantias de proveniência duvidosa, mas o que a opinião pública nunca lhe perdoou foi aquela caçada ao elefante e a foto triunfal do animal morto amparado numa árvore para uma captação em melhor ângulo. E sabe-se lá que outros caprichos semelhantes terá Juan Carlos realizado sem testemunhas por perto. Fala-se pouco de quintas de leões criados exclusivamente para serem caçados. Mas essas quintas vergonhosamente existem. Recentemente passaram duas excelentes séries na RTP2. Uma sobre a juventude de Juan Carlos desde o Estoril até  à morte de Franco, onde o acidente que matou o irmão Afonso tem a ver com o disparo acidental de uma arma oferecida pelo caudillo a Juan Carlos. Temos um relato fiel da amargura do duque de Barcelona e o noivado com Sofia, que não era do gosto de Franco. A outra série acompanha o reinado de Afonso XIII desde o casamento com Victoria, que trouxe a hemofilia para os homens da família real espanhola, o exílio e a morte do rei, sendo que a Guerra Civil de Espanha vem logo de seguida. Virtudes Públicas, vícios privados, como na vida dos mortais mais comuns. Só que os reis não são comuns.           Américo Silva: Acabaram os sermões, os verdadeiros, nos quais um pregador subia ao púlpito, acima dos fiéis, talvez por falta de pregadores, uma homilia diferente: há dezenas de anos que não ouço nem vejo um sermão, e quem hoje não teria medo de falar contra ladrões, assassinos, opressores, os que não pagam a quem trabalha, e muito mais.                  António Dias > Américo Silva: Faltam sermões porque o inimigo é dissimulado, faz-nos crer que nada podemos fazer contra a nossa natureza, não li o artigo, presumo que se desenvolva na parcialidade em volta de um sujeito, uma espécie de ganhar o jogo na secretaria, quando na realidade não existe um meio termo neste assunto, pode juntar muito mas no final acaba por espalhar muito mais. Rama, muita rama adicionada pelo bem parecer aos outros. Pois os outros são o nosso menor problema, o problema está dentro de cada um. E eu cá comigo e com os comigos de mim como dizia Fernando Pessoa.         Jorge Barbosa: Apreciando mais este excelente artigo do Padre Gonçalo, permito-me deixar uma nota que naturalmente decorre tão só da minha percepção : "errare humanum est" tão só em pessoas comuns, logo sem as gigantescas responsabilidades  públicas como é o caso do rei emérito.

 

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