sábado, 15 de novembro de 2025

Por tudo isto

 

De uma Exposição de excelência, como sempre, de JAIME NOGUEIRA PINTO, concordo com a indignação de ANDRÉ VENTURA, quando acusa MARCELO de ter escutado impassível as referências vilipendiosas e ingratas do Presidente da República de Angola, JOÃO LOURENÇO, ao domínio colonialista  português, cinicamente esquecido de que, não foram os portugueses, talvez Angola e os outros actuais países, hoje independentes, se mantivessem ainda na obscura humildade dos seus povos, ignorados do mundo.

Nos 50 Anos do Fim do Império

Foi há cinquenta anos que acabou o primeiro e último império europeu. Primeiro por vontade do Infante D. Henrique, último por vontade de Salazar. Um feito para um pequeno país da periferia ocidental.

JAIME NOGUEIRA PINTO Colunista do Observador

OBSERVADOR, 15 nov. 2025, 00:184

No dia 11 de Novembro, passou meio século sobre o fim do império português. Para o comemorar, ficámos a saber que, pelo menos num dos antigos territórios portugueses, se fez mais pelo bem comum e pela prosperidade do povo nestes últimos cinquenta anos do que nos 500 anos de “opressão, escravatura e humilhação” imperialistaSerá, talvez, a mais longa “longa noite” da História; e nada como as “longas noites”, com os seus convenientes breus de séculos ou meios séculos, para justificar as décadas de demora das prometidas madrugadas, dos dias “limpos e inteiros” que, vá-se lá a saber porquê, insistem teimosamente em não chegar.

De qualquer forma, foi há cinquenta anos que acabou o primeiro e último império europeu ultramarino; primeiro por vontade do Infante D. Henrique, último por vontade de Salazar. Um feito para um pequeno país da periferia ocidental.

Durou 560 anos: de 1415, com a conquista de Ceuta, a 1975, com a independência de Angola.  Determinou países, que se tornaram nações e construíram identidades, e foi essencial, quer para os seus fundadores, quer para os seus defensores finais, para a independência nacional.

Porque a nacionalidade envolve uma identidade continuada, rica e complexa, não é um bem que deva ser desbaratado por razões de conveniência económica ou retórica política. É certo que a nação surge quase sempre por obra de um Estado, e que os Estados, na generalidade dos países europeus, nasceram por vontade e ambição de príncipes que quiseram libertar-se dos seus suseranos, e que, juntando a sua vontade política à vontade dos grandes e do povo, souberam usar uma dissensão, uma humilhação até, para a secessão. E quebraram as regras e a ordem vigente, a soberania de um império ou de um outro reino. É essa vontade de liberdade e de não-sujeição que, em todos os quadrantes e pontos geográficos, cria e legitima a independência.

Foi essa vontade que, na crise e na guerra da independência, nos finais do século XIV, levou o mestre de Avis, Nun’Álvares e João das Regras a guiar os nobres, burgueses e populares que não queriam ser mandados pelo rei de Castela.

Do Oriente ao Brasil

Mas nesses princípios do século XV, o rectângulo independente, comprimido por um vizinho mais poderoso, precisava de massa crítica e não ia encontrá-la em terra. Restava-nos, do outro lado, o mar.  E partimos para o mar aberto, pioneiros de uma aventura atlântica, quando outros europeus, como os venezianos ou os genoveses, se ficavam pelo mar fechado, pelo Mediterrâneo.

Como tudo na vida e na História, a grande aventura portuguesa teve uma causalidade plural: a vontade política de expandir e exportar o Estado, a certeza do ganho, a cobiça das especiarias do Oriente e do ouro do Brasil, mas também o ideal cristão.

Para Tucídides, a natureza humana e os seus motores de acçãoo medo e a procura da glória e do lucro – não mudam muito. E as comunidades políticas são também assim: os reis e os seus conselheiros tinham medo do vizinho, do castelhano soberbo, que, mais tarde ou mais cedo, ia unir a Espanha; os capitães e os missionários queriam a glória do Reino e do reino de Deus; os mercadores queriam os negócios, os tráficos, a fortuna. Por isso, ao contrário dos ensinamentos pré-abrilinos, não foram só “a cruz e a espada” que nos guiaram; mas tão pouco foram só “a glória de mandar” e a “vã cobiça” que nos motivaram, como quiseram depois os abrilinos.

Foi tudo e uma mistura de tudo. Foi assim que o Império, tão bem cantado e criticamente contado por grandes poetas como Camões e Pessoa, cresceu e se expandiu com visão geopolítica e estratégia: Albuquerque percebeu, antes dos almirantes da Royal Navy, que Ormuz, Goa e Malaca eram as chaves do Índico. Como também foi entendido que, no Brasil e em África, a relação com as populações e os seus chefes era importante. E como os portugueses, para lá do estreito de Malaca, sem a Coroa, também acharam por bem tomar conta do que puderam por sua conta e risco.

Com a ocupação do trono por Filipe II, com a Monarquia Dual dos Áustrias, os inimigos de Espanha – holandeses, ingleses e franceses – passaram a nossos inimigos. E os espanhóis trataram mais de defender os seus domínios do que os portugueses. E assim se perdeu muita coisa, sobretudo no Oriente; e fomos para o ciclo brasileiro, onde reconquistámos – ou os portugueses do Brasil reconquistaram – o que fora perdido para os holandeses. E também Luanda.

O Brasil foi um outro Eldorado, com o açúcar, os diamantes e o ouro a alinharem nas fortunas coloniais, depois da pimenta da Índia; mas no circuito do valor perdíamos, ao deixar parte da distribuição para as cidades flamengas. E grande parte da receita ficou nos barcos e fortalezas para defender o Império e, sobretudo no tempo do Magnânimo, em muita igreja e capela de Roma.

África Nossa

O Brasil também se foi quando a Corte – o poder político – para lá emigrou para não ficar refém do invasor francês. Mesmo assim, a economia e as finanças portuguesas continuaram muito dependentes do Brasil. E, na segunda metade do século XIX, chegou a vez do que ficara, a África, para a partilha da qual avançaram os poderes europeus em Berlim. E para defender a África, sobretudo Moçambique, houve uma geração notável de militares, com um civil à frente: foram os “Africanos”, Caldas Xavier, Paiva Couceiro, Mouzinho de Albuquerque, reunidos e guiados por António Enes. Depois do Ultimato de 1890, em 1895, ano dos combates de Marracuene, Magul e Coolela, que Mouzinho fechou com a sua investida audaciosa, capturando, em Chaimite, o rei dos vátuas e de Gaza, o Gungunhana.

O Ultimato e a subsequente humilhação foram importantes porque acordaram a consciência nacional da Geração de Setenta, que tivera os seus devaneios cosmopolitas, europeus e iberistas, olhando para o país como um povo de saloios e beatas, pastoreado por padres concupiscentes, como o padre Amaro de Eça e governado pelos Gouvarinhos e pelos Abranhos com a burocracia dos Acácios. E no Ultimato os republicanos ganharam algum crédito por serem – eles, a Esquerda – os patriotas, patriotas e ultramarinistas.

Depois da Segunda Guerra Mundial, a Europa passou, política e militarmente, para as potências de segunda categoria. E a ordem internacional, imposta a partir de Ialta pelos grandes vencedores da Guerra, americanos e soviéticos, foi também a condenação dos impérios europeus.

Entre Diên Biên Phu e Suez, foi assim. Tal como os “Africanos” de 1895 e os republicanos da Rotunda, Salazar era um essencialista do Império. Não por razões de pele, pelo “feitiço africano” que tomou conta dos  que conheceram a terra quente e o cacimbo, dos “Africanos” à nossa geração, mas por razões de Estado.  Salazar nunca pôs os pés no então Ultramar porque não gostava de andar de avião e achava que, indo de barco, ficava muito tempo fora do rectângulo; mas entendia que, sem império, Portugal ou acabaria por ser absorvido pela Espanha (a Espanha franquista dos anos 60, autoritária e em pleno desenvolvimento económico-social), ou ficaria uma nação periférica, pouco importante. Por isso escolheu defender o império, contra os ventos da História. Como António Enes em Moçambique, como os republicanos em 1916, como Gomes da Costa e Norton de Matos, verdadeiros “coloniais” que tinham conhecido a terra e a guerra de África.

Como explicariam Kennan e Kissinger, conservadores realistas, as guerras ditas “coloniais” ou “subversivas” tinham um problema para os que estavam na defesa: quem defendia, tinha de ganhar sempre; uma brecha era o fim de tudo. E também, como provaram os ingleses (vencedores das guerras subversivas do Quénia e da Malásia), era melhor fazê-las com tropas profissionais e não como o “contingente geral”.

Salazar acabou por criar um regime que só funcionava com ele e que era “exótico”, politicamente, numa Europa dividida entre democracias ocidentais e ditaduras comunistas orientais, de partido único. O regime desinteressou-se da “guerra cultural” e as ideias dominantes já eram as dos “ventos da História”. Por isso, o descontentamento corporativo que explodiu na Primavera de 1974, no Corpo de Oficiais, levou ao desmoronamento do Império em velocidade-relâmpago.

Na Pátria de novo pequena

Nesse império, havia dissidentes que, tal como os nossos fundadores e refundadores, queriam criar um Estado, queriam ser independentes e aproveitaram o vento da História e a circunstância do golpe de Lisboa para realizar os seus objectivos.

Não ficámos nem vamos ficar espanhóis, porque a Espanha da transição democrática acordou os separatismos catalão e basco, que vão dar muito trabalho a controlar, para que em Madrid haja tempo e força para pensar em anexações.

Os Estados que saíram do Império português tiveram e têm os problemas dos Estados novos: depois da guerra da independência, vem a guerra civil, depois o vencedor (se é sábio e tem senso político) faz a reconciliação; mas o patrimonialismo e a corrupção podem ser fatais.

O império acabou há 50 anos. Defendemo-lo, querendo transformá-lo numa nação integrada racial e culturalmente. Não nos envergonhamos disso. Mais, devemos olhar para o que, no antigo império e nos seus povos, ficou de nós e o que deles ficou em nós.

Infelizmente não tem sido a prática seguida.  A “Europa” e a sua incerta árvore das patacas e das contrapartidas sobrepuseram-se à secular dimensão lusófona e atlântica. Era bom que voltássemos a olhar para outros horizontes.

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COMENTÁRIOS

SDC Cruz: A nossa História, contada pela excelência de José Nogueira Pinto, é uma ode à Portugalidade. 

Nesses 500 anos de “opressão, escravatura e humilhação” que as ex-colónias sofreram impiedosamente do subjugo imperialista português, resultaram em crescimento e desenvolvimento económico

Nestes últimos 50 anos, esses países, com Angola e Moçambique à cabeça, tornaram-se em caricaturas de ditaduras de partido único em que a corrupção e o compadrio partidário subjugam a população cada vez mais empobrecida. 

No fundo, tenho alguma nostalgia, já em parte esbatida por esse tempo, porque vivi lá os melhores anos da minha infância e adolescência. 

Por duas vezes regressei à "minha" terra de Moçambique e por duas vezes partiu-se-me o coração. Não foi este Moçambique que abandonei há 50 anos… 

Mas a história é assim, não se compadece com estes fragmentos de memórias…        

 

 

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