quarta-feira, 26 de novembro de 2025

Memórias

 

Para a História Nacional, acerca de um Homem com H maiúsculo. Não esquecerei nunca que estava a dar uma aula quando o soube, e a aula parou, durante longos momentos, na estupefacção de tal notícia, paralela, para nós, – embora de inferior dimensão, é claro - àquela outra sobre os aviões da Al-Kaeda que atravessaram as Torres Gémeas, no momento em a Ilda e eu chegávamos ao Café do Luís, e a que assistimos pela televisão do seu Café, anos depois… Uma escola e um café, os espaços horrorizados dessas minhas vivências sem história, mas inesquecíveis também, como tantas mais, que por aí passam, visíveis hoje, contrariamente a um ontem sem iguais meios de recuperação. Pergunto-me como será amanhã, nesta questão informativa,,,

 

Sá Carneiro: e já passaram 45 anos...

Sá Carneiro é menos definido por uma bíblia ideológica ou pela ciência política do que pelo facto de ter sido sempre ele próprio, com uma vontade própria, antes de ser o que quer que fosse.

MARIA JOÃO AVILLEZ Jornalista, colunista do Observador

OBSERVADOR, 26 nov. 2025, 00:22

Foi com um misto de surpresa e enorme gosto que recebi o convite do editor da D. Quixote, Duarte Bárbara, para reeditar o livro que há décadas fiz com Francisco Sá Carneiro. Aqui ficam as breves palavras que escrevi para uma nota prévia da presente edição.

1Sá Carneiro… hoje? A dúvida estimulou-me: porque não? É sempre tempo para alguém que apesar de uma vida breve e um percurso interrompido, tem um lugar cativo na memória de milhares de portugueses e, sem sombra de dúvida, o seu nome já inscrito na história recente do país.

Conheci-o bem. O que começou por uma relação meramente profissional foi andando até um porto feito de um entendimento mútuo: tínhamos ambos a mesmíssima vontade de que as coisas (lhe) saíssem bem. Ele porque trazia consigo o futuro com que sonhava para a sua pátria; eu porque queria que fosse ele a tomar conta dela.

Foto Inacio Ludgero [Esta foto foi tirada no Palácio Dom Manuel em Évora, no dia 1 de Dezembro de 1980. O semblante fechado de Francisco Sá Carneiro revelava já – ou assim me pareceu nessa mesma tarde — uma imensa amargura. Silencioso, tenso, o olhar no longe dali, percebi que tudo nele antecipava que iria ocorrer o que ele sempre recusara que pudesse ocorrer: a derrota do seu candidato presidencial, General Soares Carneiro, nas eleições presidenciais de 7 de Dezembro desse mesmo ano. E de repente de novo o ‘refrão’que lhe costumava ouvir: “Você tem escrito muito mais sobre mim do que sobre o Soares Carneiro, tem que falar mais dele e menos de mim,  não interessa nada… O que interessa é  ele.” Repeti que ao fim de dias e dias naquela campanha, só havia uma pessoa que contava: ele próprio. Era por ele que as pessoas acorriam, era ele que elas queriam. O resto…? Não havia resto. E naquela tarde, naquele lugar, também não havia nada a reter de Francisco Sá Carneiro senão um esfíngico sabor amargo da derrota. Mas os deuses foram ainda mais cruéis: 4 dias depois decretaram-lhe o destino, encenando eles próprios o encontro da morte com o líder da Aliança Democrática. Certamente por terem percebido que no auge do desespero político, no auge da solidão pela sua própria escolha presidencial, no auge do abandono dessa escolha pelo povo; no auge da descoberta da paixão, no auge da certeza que o seu futuro político passaria a ser incognitamente diferente, quem senão a morte como único e último destino?]

2Foi sempre preciso fazer caso dele – não era igual aos outros – e já o escrevi por me parecer uma boa definição. Para o país “d’avant la révolution”, Francisco Sá Carneiro estava a mais, não era dali; e para os que habitando esse mesmo país esperavam por outro, o rebelde deputado da Ala Liberal foi para os primeiros um sinal de aviso e, para os segundos, um sinal de esperança: é que mesmo que pudesse não parecer, vivia-se já, no início de 1970, entre dois “estados de coisas” políticos: o que existia e o que estava prestes a chegar.

3Em ambos foi preciso fazer caso da assinatura que Sá Carneiro deixou num e noutro. Continua a perguntar-se hoje quem era Sá Carneiro politicamente? Esta reedição contém a minha tentativa de resposta, no prefácio escrito para a primeira vida deste livro. Mas a verdade – e agora o digo – é que me interpelaram sempre mais as qualidades, idiossincrasias e características de Francisco Sá Carneiroe o que ele era politicamente capaz de fazer com elas – do que explicá-lo ideologicamente. Sá Carneiro é menos definido por uma bíblia ideológica ou pela ciência política do que pelo facto de ter sido sempre ele próprio, com uma vontade própria, antes de ser o que quer que fosse. Ele próprio? Sim alguém persistente, ambicioso e de grande, enorme, vontade política. Tão capaz da mudança como da ruptura.

Por inveja, ou despeito, confundiam-lhe permanentemente a persistência com teimosia, a mudança com instabilidade, a ruptura com capricho. Não percebendo que eram virtudes que o tornavam diferente dos portugueses novos e velhos de então e de agora. Não teve importância. Foi sempre “contra” que venceu.

4Portugal deve muitíssimo ao PSD e aquela sua tão sui-generis transversalidade interclassista. Uma singularidade que desde 1974 é única na mesa de jogo dos partidos políticos portugueses: cabe lá tudo. Como é próprio da natureza humana – e das navegações políticas – houve rosas como houve espinhos. Mas havia Sá Carneiro: dizendo tudo antes de todos. Capaz de percepcionar e agir antes de outros; de ser impopular no auge da popularidade dos adversários ou inimigos; pioneiro na invenção, em 1979, de uma vencedora aliança entre três formações políticas, que ganhou contra militares, partidos, jornais e ventos: sopravam todos contra.

5O PSD deu ao país excelentes Primeiros-Ministros, e muito diferentes uns dos outros. O país devia de resto de agradecer melhor a alguns deles. Após o convite da D. Quixote-Leya ocorreu-me pedir a esses mesmos chefes de Governo algumas linhas sobre Sá Carneiro: quem fora o fundador do PSD para todos eles? E que relação mantinham com ele? E é assim que a reedição deste livro – ao qual não alterei uma simples vírgula – pôde contar com cinco excelentes contributos*, no final deste ano de 2025. Quando nem a vida, nem o mundo, nem o país são em quase nada o mesmo que nos dias de Sá Carneiro. Nem a política: que hoje, para o bem e para o mal, se pensa, entende e faz de maneira a que não estávamos tão habituados.

E porque os últimos serão os primeiros, como agradecer a Francisco Sá Carneiro filho, de quem há muito sou grande amiga e muito admiradora. Dizer-lhe obrigado pela sua imensa delicadeza para comigo e pela sensibilidade e generosidade postas no texto que me enviou, depois de um dia lhe ter pedido que escrevesse sobre o seu pai e não foi bem isso que ele fez…?

E muito obrigado a Francisco Balsemão*, Aníbal Cavaco Silva, José Manuel Durão Barroso, Pedro Passos Coelho, e ao Primeiro Ministro em exercício, Luís Montenegro. A todos agradeço muitíssimo o tempo que talvez tenham perdido com este pedido mas cujo vosso assentimento tanto me orgulha.

* Quando por mail expus a Francisco Balsemão o meu gosto e empenho de poder contar neste livro com a memória dos ex-Primeiros Ministros do PSD sobre Francisco Sá Carneiro, recebi de volta um mail encorajador. Não se sentindo nas melhores condições físicas para escrever, mas não recusando a sua participação, propôs-me então através de um mail que procurasse no livro das suas “Memórias” as muitas referências a Sá Carneiro, que as escolhesse e lhe enviasse para aprovação. (E como não me lembrar, naquele momento, dos muitos e magníficos anos de trabalho comum no Expresso e do que aprendi com o seu director e proprietário. Que época! E que saudosa e grata é a memória que guardo dela.)

Seleccionei então o que me pareceu mais interessante e integrei todas essas “passagens” nesta reedição tal e qual as li no livro de Francisco Balsemão: embora não inédito, considero absolutamente o que aqui fica, como uma parte da história recente do país.

PS. Pedro Santana Lopes recusou participar nesta minha homenagem aos que lideraram governos com a marca PSD, por entender ter já escrito sobre Francisco Sá Carneiro num anterior livro meu. Tive pena.

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