Para a História Nacional,
acerca de um Homem com H maiúsculo. Não esquecerei nunca que estava a dar uma
aula quando o soube, e a aula parou, durante longos momentos, na estupefacção
de tal notícia, paralela, para nós, – embora de inferior dimensão, é claro -
àquela outra sobre os aviões da Al-Kaeda que atravessaram as Torres Gémeas, no
momento em a Ilda e eu chegávamos ao Café do Luís, e a que assistimos pela televisão
do seu Café, anos depois… Uma escola e um café, os espaços horrorizados dessas minhas
vivências sem história, mas inesquecíveis também, como tantas mais, que por aí
passam, visíveis hoje, contrariamente a um ontem sem iguais meios de
recuperação. Pergunto-me como será amanhã, nesta questão informativa,,,
Sá Carneiro: e já passaram 45 anos...
Sá Carneiro é menos definido por uma
bíblia ideológica ou pela ciência política do que pelo facto de ter sido sempre
ele próprio, com uma vontade própria, antes de ser o que quer que fosse.
MARIA JOÃO AVILLEZ
Jornalista, colunista do Observador
OBSERVADOR, 26 nov. 2025, 00:22
Foi com um misto de surpresa e enorme gosto que recebi o convite do editor da D. Quixote, Duarte Bárbara, para reeditar o
livro que há décadas fiz com Francisco
Sá Carneiro. Aqui ficam as breves palavras que escrevi para uma
nota prévia da presente edição.
1Sá Carneiro… hoje? A dúvida
estimulou-me: porque não? É sempre tempo para alguém que apesar de uma vida
breve e um percurso interrompido, tem um lugar cativo na memória de milhares de
portugueses e, sem sombra de dúvida, o seu nome já inscrito na história recente
do país.
Conheci-o bem. O que começou por uma relação meramente
profissional foi andando até um porto feito de um entendimento mútuo: tínhamos
ambos a mesmíssima vontade de que as coisas (lhe) saíssem bem. Ele porque
trazia consigo o futuro com que sonhava para a sua pátria; eu porque queria que
fosse ele a tomar conta dela.
Foto Inacio Ludgero [Esta foto foi tirada no Palácio Dom
Manuel em Évora, no dia 1 de Dezembro de 1980. O semblante fechado
de Francisco Sá Carneiro revelava já – ou assim me pareceu nessa mesma tarde —
uma imensa amargura. Silencioso, tenso, o olhar no longe dali, percebi que tudo
nele antecipava que iria ocorrer o
que ele sempre recusara que pudesse ocorrer: a derrota do seu candidato
presidencial, General Soares Carneiro, nas eleições presidenciais de 7 de Dezembro
desse mesmo ano. E de repente de novo o ‘refrão’que lhe costumava
ouvir: “Você tem escrito muito mais sobre
mim do que sobre o Soares Carneiro, tem que falar mais dele e menos de
mim, não interessa nada… O que interessa é ele.” Repeti que ao
fim de dias e dias naquela campanha, só havia uma pessoa que contava: ele
próprio. Era por ele que as pessoas acorriam, era ele que elas queriam. O
resto…? Não havia resto. E naquela tarde, naquele lugar, também não havia nada a reter de Francisco
Sá Carneiro senão um esfíngico sabor amargo da derrota. Mas os deuses foram ainda mais cruéis: 4
dias depois decretaram-lhe o destino, encenando eles próprios o encontro da
morte com o líder da Aliança Democrática. Certamente por terem percebido que no
auge do desespero político, no auge da solidão pela sua própria escolha
presidencial, no auge do abandono dessa escolha pelo povo; no auge da
descoberta da paixão, no auge da certeza que o seu futuro político passaria a
ser incognitamente diferente, quem senão a morte como único e último destino?]
2Foi sempre preciso fazer caso
dele – não era igual aos outros – e já o escrevi por me parecer uma boa
definição. Para o país “d’avant la révolution”,
Francisco Sá Carneiro estava a mais, não era dali; e para os que habitando
esse mesmo país esperavam por outro, o rebelde deputado da Ala Liberal foi para
os primeiros um sinal de aviso e, para os segundos, um sinal de esperança: é
que mesmo que pudesse não parecer, vivia-se já, no início de 1970, entre dois “estados
de coisas” políticos: o que existia e o que estava prestes a chegar.
3Em ambos foi preciso fazer
caso da assinatura que Sá Carneiro deixou num e noutro. Continua
a perguntar-se hoje quem era Sá Carneiro politicamente? Esta
reedição contém a minha tentativa de resposta, no prefácio escrito para a
primeira vida deste livro. Mas a verdade – e agora o digo – é que me
interpelaram sempre mais as qualidades, idiossincrasias e características de
Francisco Sá Carneiro – e o que
ele era politicamente capaz de fazer com elas – do que explicá-lo
ideologicamente. Sá Carneiro é menos definido por uma bíblia ideológica ou pela
ciência política do que pelo facto de ter
sido sempre ele próprio, com uma vontade própria, antes de ser o que quer que
fosse. Ele próprio? Sim alguém persistente, ambicioso e de grande, enorme, vontade
política. Tão capaz da mudança como da ruptura.
Por inveja, ou despeito,
confundiam-lhe permanentemente a persistência com teimosia, a mudança com
instabilidade, a ruptura com capricho. Não percebendo que eram virtudes que o tornavam diferente dos
portugueses novos e velhos de então e de agora. Não teve importância. Foi
sempre “contra” que venceu.
4Portugal deve muitíssimo ao PSD e
aquela sua tão sui-generis transversalidade interclassista. Uma singularidade
que desde 1974 é única na mesa de jogo dos partidos políticos portugueses: cabe
lá tudo. Como é próprio da natureza humana – e das
navegações políticas – houve rosas como houve espinhos. Mas havia
Sá Carneiro: dizendo
tudo antes de todos. Capaz de
percepcionar e agir antes de outros; de ser impopular no auge da popularidade
dos adversários ou inimigos; pioneiro na invenção, em 1979, de uma vencedora
aliança entre três formações políticas, que ganhou contra militares, partidos,
jornais e ventos: sopravam todos contra.
5O PSD deu ao país excelentes
Primeiros-Ministros, e muito diferentes uns dos outros. O
país devia de resto de agradecer melhor a alguns deles. Após o convite da D.
Quixote-Leya ocorreu-me pedir a esses mesmos chefes de Governo algumas
linhas sobre Sá Carneiro: quem fora o fundador do PSD para todos eles? E que
relação mantinham com ele? E é assim que a reedição deste livro – ao
qual não alterei uma simples vírgula – pôde contar com cinco excelentes
contributos*, no final deste ano
de 2025. Quando nem a vida, nem o mundo, nem o país são em quase nada o
mesmo que nos dias de Sá Carneiro. Nem
a política: que hoje, para o bem e para o mal, se pensa, entende e faz de
maneira a que não estávamos tão habituados.
E porque os últimos serão os
primeiros, como agradecer a Francisco
Sá Carneiro filho, de quem há muito sou grande amiga e muito
admiradora. Dizer-lhe obrigado pela sua imensa delicadeza para comigo e pela
sensibilidade e generosidade postas no texto que me enviou, depois de um dia
lhe ter pedido que escrevesse sobre o seu pai e não foi bem isso que ele fez…?
E muito obrigado a Francisco Balsemão*, Aníbal Cavaco Silva,
José Manuel Durão Barroso, Pedro Passos Coelho, e ao Primeiro Ministro em
exercício, Luís Montenegro. A todos agradeço muitíssimo o tempo que
talvez tenham perdido com este pedido mas cujo vosso assentimento tanto me
orgulha.
* Quando por mail expus a Francisco
Balsemão o meu gosto e empenho de poder contar neste livro com a memória
dos ex-Primeiros Ministros do PSD sobre Francisco Sá Carneiro, recebi de volta um
mail encorajador. Não se sentindo nas melhores condições físicas para
escrever, mas não recusando a sua participação, propôs-me então através de um
mail que procurasse no livro das suas
“Memórias” as muitas referências a Sá Carneiro, que as escolhesse e lhe
enviasse para aprovação. (E como não me lembrar, naquele momento, dos muitos e magníficos anos de trabalho
comum no Expresso e do que aprendi com o seu director e proprietário. Que
época! E que saudosa e grata é a memória que guardo dela.)
Seleccionei então o que me
pareceu mais interessante e integrei todas essas “passagens” nesta reedição tal
e qual as li no livro de Francisco Balsemão: embora não inédito, considero
absolutamente o que aqui fica, como uma parte da história recente do país.
PS. Pedro
Santana Lopes recusou participar nesta minha homenagem aos
que lideraram governos com a marca PSD, por entender ter já escrito sobre
Francisco Sá Carneiro num anterior livro meu. Tive pena.
Francisco Sá
Carneiro Política Livros Literatura Cultura
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