sábado, 1 de novembro de 2025

Definitivamente

 

Sem safa, por muito que os que se julgaram ou julgam honestos e competentes na sua participação pública, sintam a injustiça do que lhes cabe no julgamento alheio.

A minhoca a que temos direito

Não sei se os políticos se intrometem na medida da nossa dependência, ou se a nossa dependência advém da intromissão dos políticos.

ALBERTO GONÇALVES Colunista do Observador

OBSERVADOR, 01 nov. 2025, 00:204

Na terça-feira, durante a votação do Orçamento do Estado, ninguém se manifestou em nenhuma cidade, vila ou aldeia portuguesas contra o crescimento da despesa pública, a perpetuação do saque fiscal ou, em geral, um OE que, com um bocadinho menos de alucinação ideológica, prossegue a gestão corrente e melancólica do PS, evita reformas com aplicado zelo e mantém a nação no rumo corajoso e determinado para a estagnação de sempre. Mas centenas de estudantes do ensino superior público manifestaram-se em Lisboa contra o aumento das propinas.

Pelos vistos, o PS, que é amigo dos estudantes e da ciência e do conhecimento, conservou o valor das propinas, que é de 697 euros, desde 2020, depois de então o ter reduzido em 35%. O PSD, que é “neoliberal” [sic] e malvado, tenciona empurrá-lo para os 710 euros. Ou seja, bolseiros à parte, estamos a falar de um acréscimo de 13 euros. Repito por extenso: treze euros (ou treuze, em lisboeta) por aluno e ano, ou 1,08 euros por mês. Não admira a indignação.

Contudo, não deixei de notar dois ou três factos que talvez mereçam atenção. O primeiro é a notícia garantir que a manifestação incluiu “alunos de todo o país”, os quais, presumo, se deslocaram à capital de carro, autocarro ou comboio. Em qualquer dos casos, se adicionarmos à viagem a merenda e o preço dos cartazes com slogans (aliás impecáveis: “A propina é para acabar, não é para aumentar”, “Bolsas sim, propinas não” ou “Aumenta tudo, aumenta a luta”), a rapaziada torrou num só dia o montante equivalente ao aumento das propinas para dois ou três anos. Boa parte das faculdades são óptimas a ensinar “interseccionalidade” e não tão óptimas no ensino de aritmética – e nem vale a pena referir a famosa literacia financeira.

O segundo facto é o custo real e anual de cada aluno: sete ou oito mil euros, que o Estado, que tem vocação de manta, “cobre”. Isto é, a propina representa no máximo uns 10% do custo total. O remanescente, que se não estou em erro ronda os 90%, pagamos nós, contribuintes, um pequeno sacrifício para garantir que os nossos jovens recebem uma educação de gabarito. Os melhores desses jovens chegam a participar em manifestações e a afirmar aos “media” o seguinte: “O governo quer dar mais um passo no caminho da elitização do ensino superior, por via do aumento das propinas.” Deduz-se daqui que os 13 euros serão decisivos para excluir da universidade inúmeros pobres, do tipo de pobres que não são pobres a ponto de obter bolsa, e restringir a academia aos milionários que conseguem desembolsar mensalmente 1,08 euros extras. Deduz-se sobretudo, e eis o terceiro facto que queria referir, que estamos tramados.

A verdade é que o investimento no dito ensino superior não justifica a definição e, na maioria das vezes, não justifica o “investimento”. Por um lado, os que frequentam cursos a sério contam, porque sabem contar, as horas que faltam para tentarem a sorte num país a sério, com oportunidades a sério e salários a sério. Por outro lado, ficamos grosso modo com as sobras, com os que dificilmente podem ambicionar uma carreira “lá fora” excepto na arrumação de veículos motorizados, os que adquirem “valências” (Deus tenha piedade de nós) desqualificadas ou que apenas os qualificam para produzir teses em volta da “opressão” e do “género”, os que acorrem a manifestações a pretexto do que calha logo que haja berreiro e convívio, os que não sabem contar. Inúteis ou daninhas, há por aí licenciaturas que, reconheça-se, deviam pagar aos alunos. Porém, esse não é o ponto.

O ponto é que, no fundo, tudo isto existe, tudo isto é triste, tudo isto bate certo com o enésimo Orçamento preguiçoso e míope, com os sucessivos poderes vendidos aos índices de “popularidade”, com os vícios que não se beliscam, com um povo resignado ao pasmo e à bola e ao TikTok, com um futuro colectivo repleto de palavras inchadas e escuridão. Não sei se não saímos da cepa, necessariamente torta, por culpa da saída dos mais competentes, ou se os mais competentes saem por não sairmos da cepa, que não há maneira de se endireitar. Não sei se os políticos se intrometem na medida da nossa dependência, ou se a nossa dependência advém da intromissão dos políticos.

Sei que, da escola à cova, cada contribuinte aspira a ser patrocinado pelos restantes e acaba a patrociná-los à força, por obra (e graça) de um Estado cuja função é pairar soberano por cima de dez milhões de passarinhos com os bicos muito abertos, e “colectar” e “redistribuir” (com desvios caseiros e esmolas da “Europa” pelo meio) e garantir-nos a minhoca a que temos direito. O nosso dever é agradecer a minhoca.

COMENTÁRIOS

Rui Lima: Hoje o Estado funciona um pouco como Deus está em todo o lado, metade da população vive dele.. Quando se fazem as contas, cerca de 70% da população é beneficiária líquida do Estado. Apenas quem recebe um salário próximo de  duas vezes  salário médio é, de facto, contribuinte líquido. Se olharmos para os salários da maioria dos imigrantes, é fácil perceber que grande parte deles também acabará por ser um peso adicional para o sistema, em vez de o financiar. O chamado “Imposto Zucman”  o imposto mais estúpido  do mundo seria um imposto que acabaria por destruir a economia, tal como um vírus que mata o seu hospedeiro.  No entanto, em França chegou a ter mais de 70% de aprovação popular. No fundo, isto faz lembrar quando se vai jantar com um grande grupo, e alguém pede uma garrafa de vinho caríssima porque sabe que será paga pelos outros, ou seja democracia distributiva matará  a galinha dos …..                    Alexandre Barreira: Pois. Caro AG, Essa de....."dar minhocas aos passarinhos". Está divinal.....!                    José Paulo Castro: Consta que a terra está seca e já não haverá mais minhocas. O PRR acaba em 2026.            Ricardo Ribeiro: Realmente o orçamento que temos é aquilo de que o povo gosta. Estabilidade (nem que seja negativa e continuarmos nesta mediocridade como país), moderação (para manter tudo na mesma) e dependência do estado "protector" (nem que para isso saia caro do bolso de quem tenta produzir riqueza). Ano após ano, eleição pós eleição, gostamos de eleger sempre os mesmos que nos garantem a continuação desta situação (com honrosas excepções, como foi o governo de Passos Coelho que apenas foi eleito para nos salvar da bancarrota). Longe vão os tempos dos governos reformistas de Cavaco Silva. Quando alguém disruptivo quer acabar com este "sistema", cai o Carmo e a Trindade e é apelidado de tudo e um par de botas. Quem confia numa mudança, ou é louco ou alucinado ou é "fascista".  Portanto, por mim, merecemos o que temos e a mais não somos obrigados...           José B Dias: A apontar o óbvio para todos os que conseguem ainda fazer contas e ter memória ...

 

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