Sem safa, por muito que os que se
julgaram ou julgam honestos e competentes na sua participação pública, sintam a
injustiça do que lhes cabe no julgamento alheio.
A minhoca a que
temos direito
Não sei se os políticos se intrometem
na medida da nossa dependência, ou se a nossa dependência advém da intromissão
dos políticos.
ALBERTO GONÇALVES Colunista
do Observador
OBSERVADOR, 01
nov. 2025, 00:204
Na terça-feira, durante a votação do
Orçamento do Estado, ninguém se manifestou em nenhuma cidade, vila ou aldeia
portuguesas contra o crescimento da despesa pública, a perpetuação do saque
fiscal ou, em geral, um OE que, com um bocadinho menos de alucinação
ideológica, prossegue a gestão corrente e melancólica do PS, evita reformas com
aplicado zelo e mantém a nação no rumo corajoso e determinado para a estagnação
de sempre. Mas
centenas de estudantes do ensino superior público manifestaram-se em Lisboa
contra o aumento das propinas.
Pelos
vistos, o PS, que é amigo dos estudantes e da ciência e do conhecimento,
conservou o valor das propinas, que é de 697 euros, desde 2020, depois de então
o ter reduzido em 35%. O PSD, que é “neoliberal” [sic] e malvado, tenciona
empurrá-lo para os 710 euros. Ou seja, bolseiros à parte, estamos a falar de um
acréscimo de 13 euros. Repito por extenso: treze euros (ou treuze, em lisboeta)
por aluno e ano, ou 1,08 euros por mês. Não admira a indignação.
Contudo, não deixei de notar dois ou
três factos que talvez mereçam atenção. O primeiro é a notícia
garantir que a manifestação incluiu “alunos de todo o país”, os quais, presumo,
se deslocaram à capital de carro, autocarro ou comboio. Em
qualquer dos casos, se adicionarmos à viagem a merenda e o preço dos cartazes
com slogans (aliás impecáveis: “A
propina é para acabar, não é para aumentar”, “Bolsas sim, propinas não”
ou “Aumenta tudo, aumenta a luta”),
a rapaziada torrou num só dia o
montante equivalente ao aumento das propinas para dois ou três anos.
Boa parte das faculdades são óptimas a ensinar “interseccionalidade” e não tão
óptimas no ensino de aritmética – e nem vale a pena referir a famosa
literacia financeira.
O segundo facto é o custo real e anual de cada aluno:
sete ou oito mil euros, que o Estado, que tem vocação de manta, “cobre”. Isto
é, a propina representa no máximo uns 10% do custo total. O
remanescente, que se não estou em erro ronda os 90%, pagamos nós,
contribuintes, um pequeno sacrifício para garantir que os nossos jovens recebem
uma educação de gabarito. Os melhores desses jovens chegam a participar em
manifestações e a afirmar aos “media” o seguinte: “O governo quer dar mais um passo no
caminho da elitização do ensino superior, por via do aumento das propinas.”
Deduz-se daqui que os 13 euros serão decisivos para excluir da universidade
inúmeros pobres, do tipo de pobres que não são pobres a ponto de obter bolsa, e
restringir a academia aos milionários que conseguem desembolsar mensalmente
1,08 euros extras. Deduz-se sobretudo, e eis o terceiro
facto que queria referir, que
estamos tramados.
A
verdade é que o investimento no dito ensino superior não justifica a definição
e, na maioria das vezes, não justifica o “investimento”. Por um
lado, os que frequentam cursos a sério
contam, porque sabem contar, as horas que faltam para tentarem a sorte num país
a sério, com oportunidades a sério e salários a sério. Por outro lado, ficamos
grosso modo com as sobras, com os que dificilmente podem ambicionar uma
carreira “lá fora” excepto na arrumação de veículos motorizados, os que
adquirem “valências” (Deus tenha piedade de nós) desqualificadas ou que apenas
os qualificam para produzir teses em volta da “opressão” e do “género”, os que
acorrem a manifestações a pretexto do que calha logo que haja berreiro e
convívio, os que não sabem contar. Inúteis ou daninhas, há por aí
licenciaturas que, reconheça-se, deviam pagar aos alunos. Porém, esse não é o
ponto.
O ponto é que, no fundo, tudo isto
existe, tudo isto é triste, tudo isto bate certo com o enésimo
Orçamento preguiçoso e míope, com os sucessivos poderes vendidos aos índices de
“popularidade”, com os vícios que não se beliscam, com um povo resignado ao
pasmo e à bola e ao TikTok, com um futuro colectivo repleto de palavras
inchadas e escuridão. Não sei se
não saímos da cepa, necessariamente torta, por culpa da saída dos mais
competentes, ou se os mais competentes saem por não sairmos da cepa, que não há
maneira de se endireitar. Não sei se os políticos se intrometem na medida da
nossa dependência, ou se a nossa dependência advém da intromissão dos
políticos.
Sei que, da escola à cova, cada
contribuinte aspira a ser patrocinado pelos restantes e acaba a patrociná-los à
força, por obra (e graça) de um Estado cuja função é pairar soberano por cima
de dez milhões de passarinhos com os bicos muito abertos, e “colectar” e
“redistribuir” (com desvios caseiros e esmolas da “Europa” pelo meio) e
garantir-nos a minhoca a que temos direito. O nosso dever é agradecer a
minhoca.
COMENTÁRIOS
Rui Lima: Hoje o Estado
funciona um pouco como Deus está em todo o lado, metade da população vive
dele.. Quando se
fazem as contas, cerca de 70% da população é beneficiária líquida do Estado.
Apenas quem recebe um salário próximo de duas vezes salário médio
é, de facto, contribuinte líquido. Se
olharmos para os salários da maioria dos imigrantes, é fácil perceber que
grande parte deles também acabará por ser um peso adicional para o sistema, em
vez de o financiar. O chamado
“Imposto Zucman” o imposto mais estúpido do mundo seria um imposto
que acabaria por destruir a economia, tal como um vírus que mata o seu
hospedeiro. No entanto,
em França chegou a ter mais de 70% de aprovação popular. No fundo, isto faz
lembrar quando se vai jantar com um grande grupo, e alguém pede uma garrafa de
vinho caríssima porque sabe que será paga pelos outros, ou seja democracia
distributiva matará a galinha dos ….. Alexandre Barreira: Pois. Caro AG, Essa de....."dar minhocas aos
passarinhos". Está divinal.....! José Paulo Castro: Consta que a terra está seca e já não haverá mais
minhocas. O PRR acaba
em 2026. Ricardo
Ribeiro: Realmente o
orçamento que temos é aquilo de que o povo gosta. Estabilidade (nem que seja
negativa e continuarmos nesta mediocridade como país), moderação (para manter
tudo na mesma) e dependência do estado "protector" (nem que para isso
saia caro do bolso de quem tenta produzir riqueza). Ano após ano, eleição pós
eleição, gostamos de eleger sempre os mesmos que nos garantem a continuação
desta situação (com honrosas excepções, como foi o governo de Passos Coelho que
apenas foi eleito para nos salvar da bancarrota). Longe vão os tempos dos
governos reformistas de Cavaco Silva. Quando alguém disruptivo quer acabar com
este "sistema", cai o Carmo e a Trindade e é apelidado de tudo e um
par de botas. Quem confia numa mudança, ou é louco ou alucinado ou é
"fascista". Portanto, por
mim, merecemos o que temos e a mais não somos obrigados... José B Dias: A apontar o óbvio para todos os que conseguem ainda
fazer contas e ter memória ...
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