sexta-feira, 21 de novembro de 2025

Entrevistas


Aos candidatos à Presidência da República. Por cá. Continuam os debates logo após as entrevistas, em descritivo comportamental imediato, favorito da nossa percepção indolente, assim enriquecida dos pareceres e dos saberes da perspicácia alheia, que vai impondo os figurinos do nosso mundo social: GOUVEIA E MELO e JOÃO COTRIM FIGUEIREDO, os candidatos do confronto de hoje. 

Falaram, e muito, de independência. E lá pelo meio veio a maçonaria e as alterações à Constituição. Depois divergiram na TAP, na lei laboral e até nas prioridades da NATO. De acordo, só na Justiça.

OBSERVADOR: Texto

20 nov. 2025, 23:015

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A esperada entrada no teatro de guerra dos debates televisivos do almirante Gouveia e Melo aconteceu frente a João Cotrim de Figueiredo: foi assim um confronto entre o candidato que está em queda nas sondagens contra aquele que mais tem surpreendido nas subidas. Num ritmo de permanente troca de respostas, o primeiro tema foi sobre o nível de independência de cada um a propósito da frase do almirante de que não haveria “ninguém mais independente” do que ele. Cotrim não só garantiu ter “capacidade para resistir a interesses e influências” como confrontou Gouveia e Melo: “Acha que sou um cavalo de Tróia do meu partido?”.

O tema dominou a parte inicial do debate, com Gouveia e Melo a dizer a Cotrim Figueiredo que oslíderes partidários têm um conjunto de ligações anteriores que os condicionam, até em termos de interessese o ex-líder da IL a responder de forma dura: primeiro sublinhando que “não é cadastro ter passado partidário” e depois dizendo, num novo ataque directo a Gouveia e Melo, e ao facto deste insistir que é suprapartidário, que as máquinas partidárias “também se vêem pelos que rodeiam” as candidaturas, confrontando o almirante com os líderes do PSD que o apoiam e também pelas estruturas dentro da candidatura que “foram responsáveis pela máquina de propaganda de José Sócrates — referindo-se ao director de comunicação, Luís Bernardo, ex-assessor de Sócrates.

Ainda sobre apoios, Gouveia e Melo teve de voltar a repetir que não é “maçon”, porque Cotrim foi sarcástico ao dizer que lhe “ficou na cabeça: porque é que os maçons tinham interesse na sua candidatura tão cedo?”, a propósito do grupo que tentou apoiar o almirante e do qual teve de se distanciar. Gouveia e Melo atirou-lhe depois, em resposta, com a defesa da alteração da Constituição, acusando-o de querer “poder absoluto do veto”. Cotrim defendeu que apenas propôs debater e que o tema era o “veto inultrapassável”, mas garantiu que cumprirá a Constituição em vigor se for eleito.

A TAP também os dividiu: Gouveia e Melo admite a privatização, mas com condições (“hub em Lisboa e ligações estratégicas) e Cotrim acha que “não faz qualquer sentido Estado ter companhias de aviação”. Sobre a lei laboral, não se sabe bem se estão de acordo, já que o eurodeputado da IL defende a reforma, que acha “favorável” para empresas e trabalhadores, e o almirante recusou dizer se promulgava ou vetava as alterações na legislação. E mesmo sobre a possibilidade de enviar tropas para o terreno, Cotrim foi mais afirmativo, defendendo que será necessário “honrar os compromissos que temos com a NATO”, enquanto Gouveia e Melo, embora também falasse em respeitar acordos, apontou antes  para a necessidade de nos afirmarmos “noutra vocação, a Atlântica”.

De acordo, só num ponto: mais escrutínio à Justiça. Pelo que aconteceu nas últimas buscas à TAP. E pela notícia do Diário de Notícias sobre escutas ao primeiro-ministro António Costa. Cotrim defendeu que seja “revisitado o funcionamento do sistema de justiça e dos conselhos superiores do MP” e Gouveia e Melo disse mesmo que “quando a justiça aparece em determinados momentos, permite a leitura de que é uma justiça de pelourinho”. Ambos falaram de um caso grave e pediram esclarecimentos.”

Na declaração final, Cotrim voltou a provocar o almirante e disse ser “a verdadeira vacina contra o pessimismo e o medo do futuro”, enquanto Gouveia e Melo disse que a pior mentira que disseram sobre ele foi que “um ex-militar era um perigo para a democracia”.

Gouveia e Melo, 12 – Cotrim Figueiredo, 14,5

Helena Matos — O que eu esperavaEm primeiro lugar espero ter tempo para dormir. A sério. Amanhã de manhã tenho Contra Corrente logo não posso ficar a burilar um texto sobre o debate porque preciso de dormir umas horas sob risco de Cotrim e Gouveia e Melo se me atravessarem no pensamento amanhã de manhã. (Na verdade não é apenas por causa do tempo de sono, mas também por causa da Filomena Martins, que faz questão de por todos os meios conhecidos e por conhecer me lembrar que está na hora de entregar o texto.)

Em resumo, o que tem de ser tem muita força e a mim só me restou arranjar um formato de texto que me permita entregar a prosa a tempo e horas. E foi assim que cheguei a este modelo em que detalho primeiro o que eu espero do debate e depois aquilo que, na minha perspectiva, aconteceu.

Mas até recorrendo a essa táctica a coisa é difícil porque no ponto em que estamos não é de uma campanha com os diferentes candidatos tratando de mobilizar os seus respectivos apoiantes que estamos a falar, mas sim uma espécie de fotografia desfocada em que ninguém está no local antecipadamente reservado: os passistas não apoiam Marques Mendes; já boa parte dos socialistas foge de António José Seguro e o grupo outrora conhecido como apoiantes do almirante agora parece não saber literalmente para onde ir. Enquanto isto os candidatos correm atrás dos eleitores, não dos seus mas sim daqueles que não sendo por agora os seus poderão vir a sê-lo daqui a umas semanas: António José Seguro faz tudo e também o seu contrário para não irritar os eleitores de direita de quem precisa; Marques Mendes não se pronuncia sobre nada enquanto fala sobre tudo porque acredita que assim captará eleitorado do almirante;o almirante vai da esquerda à direita como se fosse o carreto duma antiga máquina de escrever…

Enfim, há excepções claro. E uma delas é Cotrim de Figueiredo (André Ventura também, mas esse é outro assunto e tem outras nuances). Para o caso que hoje tratamos, o do debate Cotrim de Figueiredo-Gouveia e Melo, o líder da IL conta com várias vantagens: é um bom orador, está testado em debates e, não menos importante, não está a fugir do seu eleitorado, nem à procura dele.

Portanto, retoricamente falando, eu espero ver Cotrim de Figueiredo a vencer quiçá esmagar Gouveia e Melo. E espero ver Gouveia e Melo irritado com Cotrim e a perder o foco no debate. O almirante está habituado a falar e a fazer intervenções, mas olha para os jornalistas que o entrevistam e, antecipo eu, para as pessoas com quem tem de debater com o ar de quem está farto de tanta impertinência.

O facto que acho que pode desequilibrar o debate a favor de Gouveia e Melo: a vaidade de Cotrim.

O que aconteceu: Para já, perdi: não aconteceu quase nada do que eu antecipei. Para começar, Gouveia e Melo não foi tão mau quanto eu esperava. Ou mais correctamente foi melhor do que eu antecipava. Cotrim de Figueiredo é sem dúvida melhor comunicador, nem sequer descurou o detalhe da gravata em tons de verde e vermelho. Mas percebeu que não ganhava nada em hostilizar Gouveia e Melo.

O que interessa é se Gouveia e Melo foi ou não eficaz para o seu potencial eleitorado?  E aí acho que é cedo para responder. Para já o almirante não se espalhou. Cotrim ganhou, mas Gouveia e Melo não se espalhou.

Luís Rosa — Havia uma grande expectativa sobre o primeiro debate de Henrique Gouveia e Melo e o melhor que se pode dizer do ex-chefe de Estado-Maior da Armada é que as piores expectativas se confirmaram: não tem jeito para debates televisivos. Não é gralha. É mesmo “o melhor” que se pode dizer sobre a sua primeira prestação. Porquê? Porque Cotrim Figueiredo poderia ter esmagado Gouveia e Melo e, de forma piedosa (algo pouco habitual em política), optou por não fazê-lo. Porquê? Não sei responder. Espero que não seja influência de um determinado e conhecido eucalipto da política portuguesa.

Em termos gerais, Cotrim Figueiredo apareceu com pose de Almirantee uma gravata republicana, em vez do azul marinho. Gouveia e Melo parecia um soldado raso do Exército, com posse titubeante, a olhar para a mesa e com uma voz que fazia transparecer todo o seu nervosismo. Aquele militar que, quando ia para o mar, fazia tremer os adversários em exercícios militares não se viu nos estúdios da RTP. Exemplo concreto? Logo ao início quando Cotrim o desafiou a dizer que ele, o candidato liberal, não era independente por ser um antigo líder partidário. “Não me vai dizer que ter passado partidário é cadastro” ou “um candidato presidencial não poder ter passado por um partido” — são duas boas frases que destruíram a ideia de Gouveia e Melo como “candidato suprapartidárioCotrim foi muito assertivo e eficaz. Já Gouveia e Melo respondeu com voz trémula e um olhar fixo que variava entre o foco na mesa e um olhar suplicante para o adversário que o olhava fixamente. Se estivesse a usar a farda, Gouveia e Melo teria ainda menos autoridade. Esse foi um momento que definiu o debate.

O problema é que Cotrim poderia ter continuado na mesma senda para ganhar por uma goleada das antigas mas resolveu não o fazer. Quando Vítor Gonçalves traz para o debate uma notícia das últimas horas sobre a Operação Influencer e as escutas ao ex-primeiro-ministro António Costa, Cotrim teve uma oportunidade de ouro para fazer xeque-mate. Poderia ter criticado o Ministério Público (como o fez, e bem) mas devia ter falado dos 75.800 euros no gabinete de Vítor Escária para chegar a Isaltino Morais (apoiante de primeira linha de Gouveia Melo) que também teve sacos com dezenas de milhares de euros no seu gabinete de presidente da Câmara de Oeiras. Ou para mostrar a diferença sobre as ideias de Rui Rio sobre o controle político do Ministério Público e das magistraturas judiciais. Cotrim não o fez porque sempre teve complexos com a Justiça e a luta contra a corrupção — um calcanhar de Aquiles da sua liderança na Iniciativa Liberal.

Gouveia e Melo marcou os seus pontos ao atacar a ideia de Cotrim Figueiredo sobre o debate de um veto absoluto do Presidente da República — que colocaria em causa a natureza semi-presidencial do nosso regime democrático e, já agora, seria um foco de instabilidade e de guerra entre o Presidente, por um lado, e o Governo e o Parlamento, por outro lado. Ou quando criticou Cotrim pela sua posição confortável de quando o “mercado resultado está tudo bem; quando o mercado não resulta, está lá o Estado”. É uma frase feita, um pouco demagógica mas que é eficaz num eleitorado pouco dado a liberalismos.

Contudo, e voltando ao princípio, o principal problema do candidato Gouveia e Melo é a sua falta de identidade política — coisa de que não se pode assacar a Cotrim Figueiredo. O segmento da legislação laboral evidenciou isso mesmo. Enquanto Cotrim tem uma posição clara: está a favor da proposta do Governo porque é a favor da flexibilização das regras laborais para termos um mercado mais dinâmico e ágil. Gouveia e Melo demonstra o vazio das suas ideias políticas. Exemplo? É só citar: “Tem que se ter cuidado para não colocar o núcleo muito especial e muito restrito dos direitos dos trabalhadores. Porquê? Porque a economia são as pessoas. E a economia sem coesão é uma má economia”, diz o ex-militar. Tendo em conta que tinha antes defendido a flexibilização laboral, o que significa isto? Nada. Pior: imediatamente a seguir, fala das “receitas do Estado” (deduzo que sejam receitas fiscais) que servem, diz, para “garantir a coesão”. Repito: o que significa isto? O que tem o Código do Trabalho a ver com as receitas dos diferentes impostos? Conclusão: pressionado por Cotrim, Gouveia e Melo lá admite que não tem a certeza se promulgaria o novo Código do Trabalho. E a seguir refere-se à violência doméstica para falar dos mais fracos e mais desprotegidos… Que grande confusão vai na cabeça de Gouveia e Melo!

Na questão da Ucrânia, Cotrim voltou a perdoar a Gouveia e Melo a contradição, tendo em conta que o então almirante chegou a dizer em maio de 2024 quese a Europa for atacada e a NATO nos exigir, vamos morrer onde tivermos de morrer para a defender”. Agora, já não fala “em morrer” no leste europeu mas sim em defender o Atlântico. Cotrim bem pode prometer a “verdadeira vacina contra o pessimismo e o medo do futuro” mas hoje decidiu não injetar a vacina junto dos eleitores contra a candidatura de Gouveia e Melo. Poderia tê-lo feito para demonstrar que é o melhor candidato contra aquele que parece ser o ex-favorito nesta corrida presidencial.

Miguel Santos Carrapatoso — A1, submarino atingido. A2, submarino ao fundo. Henrique Gouveia e Melo entrou neste debate a tentar provar que o facto de ser apartidário faz dele o mais impoluto dos candidatos. João Cotrim Figueiredo disparou logo dois torpedos: o almirante está rodeado de staff socrático (facto); o almirante foi apoiado pela maçonaria no início da campanha (facto). Não é necessariamente um cadastro; mas quem tem telhados de vidro, deveria ter mais cuidado quando atira pedras. Gouveia e Melo partia para este debate com dois desafios: deixar uma primeira boa impressão; segurar parte dos 15% de liberais (sondagem da Pitagórica) que apostavam nele. Falhou ambos: sobrou hesitação onde deveria ter existido assertividade (lei laboral); e nenhum liberal duvidará entre os dois (veja-se o discurso sobre a TAP). Até na Defesa foi Cotrim a comandar e Gouveia e Melo a obedecer. Se isto foi um simulacro para o almirante, correu mal. Sobre Cotrim: missão cumprida; mas terá mais difíceis pela frente.

Ricardo Conceição — “Eu sou mais independente do que o senhor.” Podia ser este um dos resumos possíveis do debate desta noite. João Cotrim Figueiredo apresentou-se liberal com uma gravata de conservador verde e vermelha — encarnada para alguns dos seus eleitores. Gouveia e Melo tirou a farda, mas não perdeu a pose e atirou à esquerda e à direita para se mostrar de centro. Se seguirmos o critério da performance, no fundo, quem ganhou votos? A resposta tem de ser: ninguém perdeu, mas Cotrim poderá ter conseguido amealhar alguns. O candidato liberal demorou cerca de 45 segundos a desferir o primeiro ataque, precisamente, no que toca à independência dos partidos. Gouveia e Melo reafirmou a sua, mas não foi capaz de explicar de forma clara porque vê alguns candidatos como um Cavalo de Tróia dos partidos na presidência. O debate foi muito equilibrado, interessante, esclarecedor, vivo e isso é louvável. Gouveia e Melo terá estado bem para a sua base de apoio, mas as explicações que dá sabem a pouco e em alguns pontos mostrou-se hesitante. Nada de grave para quem vê no almirante o farol de que a pátria precisa. Por seu lado, Cotrim Figueiredo foi direto e rápido tanto nas respostas como nos ataques certeiros. Contas feitas, o actual eurodeputado segurou o seu eleitorado e poderá ter conseguido tirar alguns votos a Gouveia e Melo. Por isso, sai vencedor no critério da eficácia.

PRESIDENCIAIS 2026      ELEIÇÕES      POLÍTICA      DEBATE      SOCIEDADE      ALMIRANTE GOUVEIA E MELO      JOÃO COTRIM DE FIGUEIREDO      INICIATIVA LIBERAL

COMENTÁRIOS

vasco Varela: Cotrim provar que a segunda volta é possível.              Clavedesol: Submarino ao fundo !!!                 Mário Rocha: Dois candidatos dos negócios das guerras, das pandemias e das energias verdes, que levou a preços brutais de bens essenciais, e nada têm a ver com as necessidades reais das  pessoas.               JOHN MARTINS: Debate presidencial: Parecia aula de iniciação política. Gouveia e Melo  tropeçou,  Cotrim não brilhou.  Resultado?  Dois candidatos a Presidente que ainda parecem  estagiários.                  Paula Silveira: O fato de Cotrim não o favorece e a gravata era horrível.

 

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