Aos candidatos à Presidência da República. Por cá. Continuam os debates logo após as entrevistas, em descritivo comportamental imediato, favorito da nossa percepção indolente, assim enriquecida dos pareceres e dos saberes da perspicácia alheia, que vai impondo os figurinos do nosso mundo social: GOUVEIA E MELO e JOÃO COTRIM FIGUEIREDO, os candidatos do confronto de hoje.
Falaram, e muito, de independência. E
lá pelo meio veio a maçonaria e as alterações à Constituição. Depois divergiram
na TAP, na lei laboral e até nas prioridades da NATO. De acordo, só na Justiça.
OBSERVADOR: Texto
20 nov. 2025, 23:015
A esperada
entrada no teatro de guerra dos debates televisivos do almirante Gouveia e Melo aconteceu frente a João Cotrim
de Figueiredo: foi assim um confronto entre o
candidato que está em queda nas sondagens contra aquele que mais tem
surpreendido nas subidas. Num ritmo de
permanente troca de respostas, o primeiro tema foi sobre o nível de independência
de cada um a propósito da frase do almirante de que não haveria “ninguém mais independente” do que ele. Cotrim não só
garantiu ter “capacidade
para resistir a interesses e influências” como
confrontou Gouveia e Melo: “Acha
que sou um cavalo de Tróia do meu partido?”.
O tema
dominou a parte inicial do debate, com Gouveia e Melo a dizer a Cotrim
Figueiredo que os “líderes partidários têm um
conjunto de ligações anteriores que os condicionam, até em termos de interesses” e o ex-líder da IL a responder de forma dura: primeiro
sublinhando que “não é cadastro ter
passado partidário” e depois dizendo, num novo ataque directo a Gouveia
e Melo, e ao facto deste insistir que
é suprapartidário, que as máquinas partidárias “também se vêem pelos que rodeiam”
as candidaturas, confrontando o almirante com os líderes do PSD que
o apoiam e também pelas estruturas dentro da candidatura que “foram responsáveis pela máquina de
propaganda de José Sócrates” — referindo-se ao director
de comunicação, Luís Bernardo, ex-assessor de Sócrates.
Ainda
sobre apoios, Gouveia e Melo teve de voltar a repetir que não é “maçon”, porque
Cotrim foi sarcástico ao dizer que lhe “ficou na cabeça: porque é que os maçons
tinham interesse na sua candidatura tão cedo?”, a propósito do grupo que tentou
apoiar o almirante e do qual teve de se distanciar. Gouveia e
Melo atirou-lhe depois, em resposta, com a defesa da alteração da Constituição, acusando-o de querer “poder
absoluto do veto”. Cotrim defendeu que apenas propôs debater e que o tema
era o “veto inultrapassável”, mas
garantiu que cumprirá a Constituição em vigor se for eleito.
A TAP também
os dividiu: Gouveia e Melo admite
a privatização, mas com condições (“hub
em Lisboa e ligações estratégicas) e Cotrim acha que “não faz qualquer sentido
Estado ter companhias de aviação”. Sobre a lei laboral, não se sabe bem se estão de acordo,
já que o eurodeputado da IL defende a reforma, que acha “favorável” para
empresas e trabalhadores, e o almirante recusou dizer se promulgava ou vetava
as alterações na legislação. E
mesmo sobre a possibilidade de enviar tropas para o terreno, Cotrim foi mais
afirmativo, defendendo que será necessário “honrar os compromissos que temos
com a NATO”, enquanto Gouveia e Melo, embora também falasse em respeitar acordos,
apontou antes para a necessidade de nos afirmarmos “noutra vocação, a
Atlântica”.
De acordo, só
num ponto: mais escrutínio à Justiça. Pelo que aconteceu nas
últimas buscas à TAP. E pela notícia do Diário
de Notícias sobre escutas ao primeiro-ministro
António Costa. Cotrim defendeu que seja “revisitado o funcionamento do sistema
de justiça e dos conselhos superiores do MP” e Gouveia e Melo disse mesmo que
“quando a justiça aparece em determinados momentos, permite a leitura de que é
uma justiça de pelourinho”. Ambos falaram de um caso grave e pediram
esclarecimentos.”
Na declaração
final, Cotrim voltou a provocar o almirante e disse ser “a verdadeira vacina
contra o pessimismo e o medo do futuro”, enquanto Gouveia e Melo disse que a
pior mentira que disseram sobre ele foi que “um ex-militar era um perigo para a
democracia”.
Gouveia e
Melo, 12 – Cotrim Figueiredo, 14,5
Helena Matos — O que eu esperava: Em primeiro
lugar espero ter tempo para dormir. A sério. Amanhã de manhã tenho Contra Corrente logo não posso ficar a
burilar um texto sobre o debate porque preciso de dormir umas horas sob risco
de Cotrim e Gouveia e Melo se me atravessarem no pensamento amanhã de manhã.
(Na verdade não é apenas por causa do tempo de sono, mas também por causa da Filomena
Martins, que faz questão de por todos os meios conhecidos e por conhecer me
lembrar que está na hora de entregar o texto.)
Em resumo, o que
tem de ser tem muita força e a mim só me restou arranjar um formato de texto
que me permita entregar a prosa a tempo e horas. E foi assim que cheguei a
este modelo em que detalho primeiro o que eu espero do debate e depois aquilo
que, na minha perspectiva, aconteceu.
Mas até
recorrendo a essa táctica a coisa é difícil porque no ponto em que estamos não
é de uma campanha com os diferentes candidatos tratando de mobilizar os seus
respectivos apoiantes que estamos a falar, mas sim uma espécie de fotografia
desfocada em que ninguém está no local antecipadamente reservado: os passistas não apoiam Marques Mendes; já boa parte
dos socialistas foge de António José Seguro e o grupo outrora conhecido como
apoiantes do almirante agora parece não saber literalmente para onde ir. Enquanto isto os candidatos
correm atrás dos eleitores, não dos seus mas sim daqueles que não sendo por
agora os seus poderão vir a sê-lo daqui a umas semanas: António José Seguro faz tudo e também o seu contrário para não irritar os eleitores de
direita de quem precisa; Marques Mendes não se pronuncia sobre nada
enquanto fala sobre tudo porque acredita que assim captará eleitorado do
almirante; já o almirante vai da esquerda à direita como se
fosse o carreto duma antiga máquina de escrever…
Enfim, há
excepções claro. E uma delas é Cotrim de Figueiredo (André Ventura também, mas esse é outro assunto e tem
outras nuances). Para o caso que
hoje tratamos, o do debate Cotrim de
Figueiredo-Gouveia e Melo, o líder da IL conta com várias vantagens: é um bom orador, está testado
em debates e, não menos importante, não está a fugir do seu eleitorado, nem à
procura dele.
Portanto,
retoricamente falando, eu espero ver Cotrim de Figueiredo a vencer quiçá
esmagar Gouveia e Melo. E espero ver Gouveia e Melo irritado com Cotrim e a
perder o foco no debate. O almirante está habituado a falar e a fazer intervenções, mas olha
para os jornalistas que o entrevistam e, antecipo eu, para as pessoas com quem
tem de debater com o ar de quem está farto de tanta impertinência.
O facto que
acho que pode desequilibrar o debate a favor de Gouveia e Melo: a vaidade de Cotrim.
O que aconteceu: Para já, perdi: não aconteceu quase nada do que eu
antecipei. Para começar, Gouveia e Melo não foi tão mau quanto eu esperava. Ou mais correctamente foi melhor do que eu
antecipava. Cotrim de Figueiredo é sem dúvida melhor comunicador, nem sequer descurou o detalhe da
gravata em tons de verde e vermelho. Mas percebeu que não ganhava nada em
hostilizar Gouveia e Melo.
O que interessa
é se Gouveia e Melo foi ou não eficaz para o seu potencial eleitorado? E aí acho que é cedo para responder. Para já o almirante não se
espalhou. Cotrim ganhou, mas Gouveia e Melo não se espalhou.
Luís Rosa — Havia uma grande expectativa sobre o
primeiro debate de Henrique Gouveia e Melo e o melhor que se pode dizer do
ex-chefe de Estado-Maior da Armada é que as piores expectativas se confirmaram: não tem
jeito para debates televisivos. Não é gralha. É mesmo “o melhor” que se pode
dizer sobre a sua primeira prestação. Porquê? Porque Cotrim Figueiredo poderia
ter esmagado Gouveia e Melo e, de forma piedosa (algo pouco habitual em
política), optou por não fazê-lo. Porquê? Não sei responder. Espero que não
seja influência de um determinado e conhecido eucalipto da política portuguesa.
Em termos gerais, Cotrim
Figueiredo apareceu com pose de Almirante — e
uma gravata republicana, em vez do azul marinho. Já Gouveia e
Melo parecia um soldado raso do
Exército, com posse titubeante, a olhar para a mesa e com uma voz que fazia
transparecer todo o seu nervosismo. Aquele
militar que, quando ia para o mar, fazia tremer os adversários em exercícios
militares não se viu nos estúdios da RTP. Exemplo concreto? Logo ao
início quando Cotrim o desafiou a dizer que ele, o candidato liberal, não
era independente por ser um antigo líder partidário. “Não me vai dizer que ter passado partidário é cadastro” ou “um
candidato presidencial não poder ter passado por um partido” — são duas boas
frases que destruíram a ideia de Gouveia e Melo como “candidato suprapartidário” Cotrim foi muito assertivo e eficaz. Já
Gouveia e Melo respondeu com voz trémula e um olhar fixo que variava entre o
foco na mesa e um olhar suplicante para o adversário que o olhava fixamente.
Se estivesse a usar a farda, Gouveia e
Melo teria ainda menos autoridade. Esse foi um momento que definiu o debate.
O problema é que Cotrim poderia ter
continuado na mesma senda para ganhar por uma goleada das antigas mas resolveu
não o fazer. Quando Vítor Gonçalves
traz para o debate uma notícia das últimas horas sobre a Operação Influencer e
as escutas ao ex-primeiro-ministro António Costa, Cotrim teve uma oportunidade
de ouro para fazer xeque-mate. Poderia
ter criticado o Ministério Público (como o fez, e bem) mas devia ter falado dos 75.800 euros no
gabinete de Vítor Escária para chegar a Isaltino Morais (apoiante de primeira
linha de Gouveia Melo) que também teve sacos com dezenas de milhares de euros
no seu gabinete de presidente da Câmara de Oeiras. Ou para mostrar a diferença sobre as ideias de Rui Rio sobre o
controle político do Ministério Público e das magistraturas judiciais. Cotrim não o fez porque sempre teve
complexos com a Justiça e a luta contra a corrupção — um calcanhar de Aquiles
da sua liderança na Iniciativa Liberal.
Gouveia e Melo marcou os
seus pontos ao atacar a ideia de Cotrim Figueiredo sobre o debate de um veto
absoluto do Presidente da República — que colocaria em causa a natureza
semi-presidencial do nosso regime democrático e, já agora, seria um foco de
instabilidade e de guerra entre o Presidente, por um lado, e o Governo e o
Parlamento, por outro lado. Ou quando
criticou Cotrim pela sua posição confortável de quando o “mercado resultado
está tudo bem; quando o mercado não resulta, está lá o Estado”. É uma frase feita, um pouco demagógica mas
que é eficaz num eleitorado pouco dado a liberalismos.
Contudo, e
voltando ao princípio, o principal problema do candidato Gouveia e Melo é a sua falta de identidade política — coisa de que
não se pode assacar a Cotrim Figueiredo. O segmento da legislação laboral evidenciou
isso mesmo. Enquanto Cotrim tem uma posição
clara: está a favor da proposta do Governo porque é a favor da flexibilização
das regras laborais para termos um mercado mais dinâmico e ágil. Já Gouveia e Melo demonstra o vazio das suas ideias políticas. Exemplo? É só citar: “Tem que se ter cuidado para não
colocar o núcleo muito especial e muito restrito dos direitos dos
trabalhadores. Porquê? Porque a economia são as pessoas. E a economia sem
coesão é uma má economia”, diz o ex-militar. Tendo
em conta que tinha antes defendido a flexibilização laboral, o que significa
isto? Nada. Pior:
imediatamente a seguir, fala das “receitas do Estado” (deduzo que sejam
receitas fiscais) que servem, diz, para “garantir a coesão”. Repito: o que significa isto? O que tem o
Código do Trabalho a ver com as receitas dos diferentes impostos? Conclusão: pressionado
por Cotrim, Gouveia e Melo lá admite que não tem a certeza se promulgaria o
novo Código do Trabalho. E
a seguir refere-se à violência doméstica para falar dos mais fracos e mais
desprotegidos… Que grande confusão vai na cabeça de Gouveia e Melo!
Na questão da Ucrânia, Cotrim
voltou a perdoar a Gouveia e Melo a contradição, tendo em conta que o então
almirante chegou a dizer em maio de 2024 que “se a Europa for atacada e a NATO nos exigir, vamos morrer onde tivermos
de morrer para a defender”. Agora,
já não fala “em morrer” no leste europeu mas sim em defender o Atlântico.
Cotrim bem pode prometer a “verdadeira vacina contra o pessimismo e o medo do
futuro” mas hoje decidiu não injetar a vacina junto dos eleitores contra a
candidatura de Gouveia e Melo. Poderia tê-lo feito para demonstrar que é o
melhor candidato contra aquele que parece ser o ex-favorito nesta corrida
presidencial.
Miguel Santos Carrapatoso — A1, submarino atingido. A2, submarino ao fundo. Henrique Gouveia e
Melo entrou neste debate a tentar provar que o facto de ser apartidário faz
dele o mais impoluto dos candidatos. João Cotrim Figueiredo disparou logo dois torpedos:
o almirante está rodeado de staff socrático (facto); o almirante foi apoiado
pela maçonaria no início da campanha (facto). Não é necessariamente um
cadastro; mas quem tem telhados de vidro, deveria ter mais cuidado quando atira
pedras. Gouveia e Melo partia para este debate com dois
desafios: deixar uma primeira boa impressão; segurar parte dos 15% de liberais
(sondagem da Pitagórica) que apostavam nele. Falhou ambos: sobrou hesitação onde deveria ter existido
assertividade (lei laboral); e nenhum liberal duvidará entre os dois (veja-se o
discurso sobre a TAP). Até na Defesa foi Cotrim a comandar e Gouveia e Melo a
obedecer. Se isto foi um simulacro para o almirante, correu mal. Sobre Cotrim:
missão cumprida; mas terá mais difíceis pela frente.
Ricardo
Conceição — “Eu sou mais independente do que o senhor.” Podia ser este um dos
resumos possíveis do debate desta noite. João Cotrim Figueiredo apresentou-se liberal com uma gravata de
conservador verde e vermelha — encarnada para alguns dos seus
eleitores. Gouveia e Melo tirou a
farda, mas não perdeu a pose e atirou à esquerda e à direita para se mostrar de
centro. Se seguirmos o critério da performance, no fundo, quem
ganhou votos? A resposta tem de ser: ninguém perdeu, mas Cotrim poderá ter conseguido amealhar alguns.
O candidato liberal demorou cerca de
45 segundos a desferir o primeiro ataque, precisamente, no que toca à
independência dos partidos. Gouveia e Melo reafirmou a sua, mas não foi
capaz de explicar de forma clara porque vê alguns candidatos como um Cavalo de
Tróia dos partidos na presidência. O debate foi muito equilibrado, interessante, esclarecedor, vivo e isso é
louvável. Gouveia e Melo terá estado bem para a sua base
de apoio, mas as explicações que dá sabem a pouco e em alguns pontos mostrou-se
hesitante. Nada de grave para quem vê no almirante o farol de que a pátria
precisa. Por seu lado, Cotrim Figueiredo foi direto e rápido tanto nas
respostas como nos ataques certeiros. Contas feitas, o actual
eurodeputado segurou o seu eleitorado e poderá ter conseguido tirar alguns
votos a Gouveia e Melo. Por isso, sai vencedor no critério da eficácia.
PRESIDENCIAIS 2026 ELEIÇÕES POLÍTICA DEBATE SOCIEDADE ALMIRANTE GOUVEIA E MELO JOÃO COTRIM DE FIGUEIREDO INICIATIVA LIBERAL
COMENTÁRIOS
vasco Varela: Cotrim
provar que a segunda volta é possível. Clavedesol: Submarino ao fundo !!!
Mário Rocha:
Dois candidatos dos negócios das
guerras, das pandemias e das energias verdes, que levou a preços brutais de
bens essenciais, e nada têm a ver com as necessidades reais das pessoas. JOHN MARTINS: Debate presidencial: Parecia aula de iniciação
política. Gouveia e Melo tropeçou, Cotrim não brilhou. Resultado?
Dois candidatos a Presidente que ainda parecem estagiários.
Paula Silveira: O
fato de Cotrim não o favorece e a gravata era horrível.
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