Foi como ficou apelidado na nossa História
romanesca nacional, que hoje o DR. SALLES retoma, fazendo avultar a figura
médica com novos contornos provenientes da evolução dos tempos e da ciência
médica, repartida nos seus múltiplos atributos dependentes das várias zonas
corpóreas humanas e até nos seus desvios em torno das outras espécies animais -
que redundaram nos veterinários e outros cientistas - cada vez mais depurados nas suas
especificidades científicas, que não sabemos onde vão parar, (mas nunca -
hélas! – na exclusão da morte), muito felizes os humanos - sem esquecer, nessa
inclusão, as outras espécies animais –
se se chegar a excluir em absoluto a dor, com mezinha própria e imediata reparadora.
PRIMOS DOS DEUSES, lhes chama o Dr. Salles, em bela homenagem a um seu amigo
médico, que não aguentou a consciência de o não ser mais, por falha no ofício, dedicando-se
antes à terra, sempre generosa esta, e compensadora na distribuição das suas
dádivas. Uma bela homenagem, igualmente, a toda uma classe médica estudiosa,
que veio substituir conscientemente o charlatanismo aliado a um passado naturalmente
menos conhecedor do fisiológico, e agarrado avidamente ao espiritismo
curandeiro. E todavia, nem
sempre esse saber científico medical é compensado pela gratidão humana -
devido, certamente, à multiplicidade de meios farmacológicos para amenizar
sofrimentos, obtida com o progresso - quantas vezes, todavia, sem a necessária
sabedoria, na pressa do apaziguamento imediato da dor. Aonde é que eu já ouvi
isto?
HENRIQUE SALLES DA FONSECA
17.11.25
Durante a II Grande Guerra, no
interior de Portugal, a paz confundia-se com a pasmaceira.
Foi a esse «bulício» que o então jovem
médico-cirurgião se viu destinado por colocação num hospital(eco) em que dava
consultas e fazia pequenas cirurgias. Tudo
na calma e com o Senhor Doutor a granjear prestígio de quase-Deus.
Mas,
certa vez, ocorreu grande aflição com um doente que já não aguentaria a demora
e os solavancos até ao Hospital Regional.
O Doutor não hesitou em o operar, mas o
doente morreu entre as suas mãos e no fio do bisturi. Chocado com a morte do
doente, poisou os instrumentos cirúrgicos, retirou a máscara, despiu a bata,
despediu-se de quem o rodeava, meteu-se no carro e … dedicou-se à agricultura.
Não aguentara o choque de, afinal, não ser quase-Deus nem, sequer «primo dos
deuses».
Quando o conheci já ele era agricultor e
pai dos meus amigos João e Zé. Viveu longa e tranquilamente e eu continuo hoje –
passados oito lustros da sua ida para a outra dimensão – a crer que ele nunca deixou de se considerar «primo dos
deuses».
* * *
Durante séculos, desde o topo da
pirâmide social até ao nível onde chegava o dinheiro, os pacientes de maleitas
e doentes de males procuravam alívio ou cura junto dos médicos, curandeiros,
endireitas, xamãs e charlatães; durante séculos, a ciência, o empirismo e a
espiritualidade andaram de mãos dadas, mas, há relativamente pouco tempo, a
Ciência adquiriu direito a Maiúscula e a glória dos médicos distribuiu-se por
outros cientistas. Acabava o
reinado exclusivo daqueles que, em terra de cegos, só tinham um olho.
Os médicos chegaram a 1974 e ao serviço
Nacional de Saúde (SNS) para serem levados a substanciais quebras de facturação
e passando de uma clientela pagadora,
sofredora e grata para uma multidão exigente e ingrata.
Mas
não há mal que sempre dure e eis que chegam os privados a investir na Saúde, a
«roubar» médicos (e não só) ao SNS e a mostrarem que um doente saído vivo de um
hospital privado fica mais barato do que o homólogo saído do público.
Mistérios da gestão…
Entretanto, nos telejornais, os bombos da festa são as Ministras e outros
responsáveis da Saúde mas, também entretanto, os telejornais informam que em
Portugal há triplo de seguros de saúde em relação ao resto da Europa. Dá para
perguntar se não anda por aí alguma mão invisível a manipular-nos…
Última questão: quem são hoje os
«primos dos deuses»?
NOVEMBRO DE 2025
HENRIQUE SALLES DA FONSECA
Caro Dr. Salles da Fonseca, A última pergunta tem resposta fácil: os "primos dos deuses" são, hoje em dia, os comentadores encartados (com o nosso PR à cabeça). Sabem tudo eles, sem que se lhes conheça obra útil. Quanto ao SNS, mete-se pelos olhos dentro que foi concebido com dois magníficos propósitos: (I) criar na população desbarretada a ideia de que a saúde individual é obra do Governo de ocasião e dos demais políticos, quando lhes calhar em sorte ser Governo; (II) tornar realidade o sonho mirífico de qualquer médico condenado às agruras de um João Semana. Atender às necessidades da população em cuidados de saúde nunca foi um objectivo prioritário. Foi, sim, o argumento que, por um lado, escondeu, por outro, justificou a bondade daqueles propósitos. Daí os hospitais públicos, não como uma rede por onde circulassem os profissionais de saúde consoante as necessidades, mas como a fragmentação senhorial do território a que os pacientes têm de se sujeitar, etc. etc. Sobre a fuga dos profissionais de saúde para o sector privado, é interessante notar o cuidado dos media em poupar os defensores do actual SNS à incómoda pergunta: porquê? Ora, também esta pergunta tem uma resposta simples: porque o sector privado tem clientes, cada vez mais (critica ao SNS) e solventes (aleluias ao anémico crescimento da economia portuguesa, apesar de tudo). Perdoe-me a extensão do comentário.
Anónimo 17.11.2025 23:30: Quem são?
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