terça-feira, 18 de novembro de 2025

JOÃO SEMANA


Foi como ficou apelidado na nossa História romanesca nacional, que hoje o DR. SALLES retoma, fazendo avultar a figura médica com novos contornos provenientes da evolução dos tempos e da ciência médica, repartida nos seus múltiplos atributos dependentes das várias zonas corpóreas humanas e até nos seus desvios em torno das outras espécies animais - que redundaram nos veterinários e outros cientistas -  cada vez mais depurados nas suas especificidades científicas, que não sabemos onde vão parar, (mas nunca - hélas! – na exclusão da morte), muito felizes os humanos - sem esquecer, nessa inclusão,  as outras espécies animais – se se chegar a excluir em absoluto a dor, com mezinha própria e imediata reparadora. PRIMOS DOS DEUSES, lhes chama o Dr. Salles, em bela homenagem a um seu amigo médico, que não aguentou a consciência de o não ser mais, por falha no ofício, dedicando-se antes à terra, sempre generosa esta, e compensadora na distribuição das suas dádivas. Uma bela homenagem, igualmente, a toda uma classe médica estudiosa, que veio substituir conscientemente o charlatanismo aliado a um passado naturalmente menos conhecedor do fisiológico, e agarrado avidamente ao espiritismo curandeiro. E todavia, nem sempre esse saber científico medical é compensado pela gratidão humana - devido, certamente, à multiplicidade de meios farmacológicos para amenizar sofrimentos, obtida com o progresso - quantas vezes, todavia, sem a necessária sabedoria, na pressa do apaziguamento imediato da dor. Aonde é que eu já ouvi isto?

 

OS PRIMOS DOS DEUSES

 HENRIQUE SALLES DA FONSECA

 17.11.25 

 Durante a II Grande Guerra, no interior de Portugal, a paz confundia-se com a pasmaceira.

Foi a esse «bulício» que o então jovem médico-cirurgião se viu destinado por colocação num hospital(eco) em que dava consultas e fazia pequenas cirurgias. Tudo na calma e com o Senhor Doutor a granjear prestígio de quase-Deus.

Mas, certa vez, ocorreu grande aflição com um doente que já não aguentaria a demora e os solavancos até ao Hospital Regional.

O Doutor não hesitou em o operar, mas o doente morreu entre as suas mãos e no fio do bisturi. Chocado com a morte do doente, poisou os instrumentos cirúrgicos, retirou a máscara, despiu a bata, despediu-se de quem o rodeava, meteu-se no carro e … dedicou-se à agricultura. Não aguentara o choque de, afinal, não ser quase-Deus nem, sequer «primo dos deuses».

Quando o conheci já ele era agricultor e pai dos meus amigos João e Zé. Viveu longa e tranquilamente e eu continuo hoje – passados oito lustros da sua ida para a outra dimensão – a crer que ele nunca deixou de se considerar «primo dos deuses».

* * *

Durante séculos, desde o topo da pirâmide social até ao nível onde chegava o dinheiro, os pacientes de maleitas e doentes de males procuravam alívio ou cura junto dos médicos, curandeiros, endireitas, xamãs e charlatães; durante séculos, a ciência, o empirismo e a espiritualidade andaram de mãos dadas, mas, há relativamente pouco tempo, a Ciência adquiriu direito a Maiúscula e a glória dos médicos distribuiu-se por outros cientistas. Acabava o reinado exclusivo daqueles que, em terra de cegos, só tinham um olho.

Os médicos chegaram a 1974 e ao serviço Nacional de Saúde (SNS) para serem levados a substanciais quebras de facturação e passando de uma clientela pagadora, sofredora e grata para uma multidão exigente e ingrata.

Mas não há mal que sempre dure e eis que chegam os privados a investir na Saúde, a «roubar» médicos (e não só) ao SNS e a mostrarem que um doente saído vivo de um hospital privado fica mais barato do que o homólogo saído do público

Mistérios da gestão…

Entretanto, nos telejornais, os bombos da festa são as Ministras e outros responsáveis da Saúde mas, também entretanto, os telejornais informam que em Portugal há triplo de seguros de saúde em relação ao resto da Europa. Dá para perguntar se não anda por aí alguma mão invisível a manipular-nos…

Última questão: quem são hoje os «primos dos deuses»?

 NOVEMBRO DE 2025

HENRIQUE SALLES DA FONSECA

 COMENTÁRIOS

Caro Dr. Salles da Fonseca, A última pergunta tem resposta fácil: os "primos dos deuses" são, hoje em dia, os comentadores encartados (com o nosso PR à cabeça). Sabem tudo eles, sem que se lhes conheça obra útil. Quanto ao SNS, mete-se pelos olhos dentro que foi concebido com dois magníficos propósitos: (I) criar na população desbarretada a ideia de que a saúde individual é obra do Governo de ocasião e dos demais políticos, quando lhes calhar em sorte ser Governo; (II) tornar realidade o sonho mirífico de qualquer médico condenado às agruras de um João Semana. Atender às necessidades da população em cuidados de saúde nunca foi um objectivo prioritário. Foi, sim, o argumento que, por um lado, escondeu, por outro, justificou a bondade daqueles propósitos. Daí os hospitais públicos, não como uma rede por onde circulassem os profissionais de saúde consoante as necessidades, mas como a fragmentação senhorial do território a que os pacientes têm de se sujeitar, etc. etc. Sobre a fuga dos profissionais de saúde para o sector privado, é interessante notar o cuidado dos media em poupar os defensores do actual SNS à incómoda pergunta: porquê? Ora, também esta pergunta tem uma resposta simples: porque o sector privado tem clientes, cada vez mais (critica ao SNS) e solventes (aleluias ao anémico crescimento da economia portuguesa, apesar de tudo). Perdoe-me a extensão do comentário.                        

Anónimo  17.11.2025  23:30: Quem são?

 

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