Com coragem para se livrar das forças do leste. O nosso Costa ajudará, com o seu saber e poder.
A Rússia "fez de tudo para virar a
eleição", mas a Moldávia não cedeu. Partido pró-UE aproxima-se de Bruxelas
com vitória nas legislativas
Na fronteira entre Ucrânia e UE, a
Moldávia teve uma campanha recheada de alertas sobre interferência russa. Mas,
com os votos da diáspora, partido pró-UE conseguiu novamente uma maioria
absoluta.
MADALENA MOREIRA: TEXTO
OBSERVADOR, 29 set. 2025, 19:4329
Índice
Da Transnístria a Moscovo. A presença do Kremlin na
ida às urnas na Moldávia
Diáspora. “Eleitorado paralelo” ou “consistentemente
pró-Europa”?
Bruxelas “suspirou de alívio”. Mas ainda há obstáculos
para assegurar a adesão antes de 2030
A poucas semanas de completar um ano da sua vitória
nas eleições presidenciais, a
Presidente da Moldávia, Maia Sandu, alcançou este domingo uma
nova conquista: o seu Partido de Acção e Solidariedade (PAS) ganhou as eleições
legislativas com mais de 50% dos votos. O partido superou, assim, os
melhores resultados projectados pelas sondagens e conseguirá formar
novamente um Governo de maioria absoluta. “O resultado é um hat-trick político para Sandu”,
resume Rikard Jozwiak, editor da Radio Free Europe/Radio Liberty num artigo de análise.
Isto porque, além das duas eleições de que saiu
vitoriosa, a chefe de Estado viu, na mesma altura da sua reeleição no final
do ano passado, o povo moldavo validar o sonho europeísta de Chișinău através
de um referendo sobre a adesão à
União Europeia (UE), em que o “sim” ganhou por uma margem estreita.
Na reacção à vitória mais
recente, Sandu fez questão de sublinhar este tema, que tem sido uma das
prioridades da Moldávia. “O voto de ontem [domingo] é um mandato forte para o processo de
adesão da Moldávia à UE”, declarou esta segunda-feira. “[O resultado]
mostrou que sabemos unir-nos quando o futuro do nosso país está em risco”,
acrescentou.
O sentimento fez eco em Bruxelas. “Moldávia, voltaram a
conseguir. Nenhuma tentativa de semear medo ou divisão podia quebrar a vossa
determinação”, escreveu a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen. Pela boca dos chefes de Estado e de Governo dos 27
ouviu-se que o resultado foi “uma boa lição”, “uma boa notícia”, uma prova de
“coragem” e um sinal de “esperança”. Por trás de todas as reacções está a mesma realidade:
as tentativas da Rússia de
interferir nas eleições.
A presença de Moscovo no processo eleitoral reflectiu-se
em campanhas de desinformação contra Sandu, o PAS e a UE, alegadas tentativas
de desestabilização durante e após a votação, mas também através do segundo
partido mais votado, o Bloco Eleitoral Patriótico de Socialistas, Comunistas,
Coração e Futuro da Moldávia, que conquistou pouco menos de 25% dos votos
(menos de metade dos votos do PAS). Igor Dodon, antigo Presidente e líder do
bloco composto por quatro partidos, liderou esta segunda-feira uma curta
manifestação, em que reivindicou vitória e anunciou que ia recorrer à
Comissão Central Eleitoral (CCE).
▲ O
PAS (à esquerda) foi o partido mais votado com mais do dobro dos votos do
Bloco Patriótico (à direita), que ficou em segundo DUMITRU DORU/EPA
Índice
O apelo foi notado pelo porta-voz do Kremlin,
que se limitou a dizer que, feita a denúncia à CCE, os moldavos
“provavelmente devem resolver isso sozinhos”. Ainda assim, Dmitry Peskov não se coibiu de apontar
o dedo a Chișinău, pela forma como diz ter sido organizado o voto da diáspora
moldava. Apesar de as urnas já terem
fechado e os votos já terem sido contabilizados, as consequências das eleições
na Moldávia podem continuar a fazer-se sentir por todo o continente durante os
próximos tempos.
Da
Transnístria a Moscovo. A presença do Kremlin na ida às urnas na Moldávia
“A Rússia está a fazer de tudo
para virar esta eleição.” O alerta foi deixado por Stanislav Secrieru, conselheiro de Defesa e
Segurança Nacional da Presidente, ainda antes das eleições. “Estamos
a ver esforços sem precedentes: mais
dinheiro para comprar votos, mais desinformação impulsionada por IA [e]
amplificada por redes de trolls e mais recursos dedicados a organizar
violência nas ruas”, elaborou ao Politico.
A leitura de Chișinău foi corroborada por um
responsável de informação ocidental, que relatou ao The Guardian que, no início deste ano, o Kremlin mudou a equipa focada na Moldávia,
com o objectivo de perseguir uma “estratégia mais agressiva”. O país
tornou-se, portanto, “uma prioridade chave da política externa” de Moscovo. O
interesse russo é justificado pelas características socioculturais e
geográficas da Moldávia.
Geograficamente, o país fica entre a Ucrânia e a
Roménia, pelo que o
controlo russo da Moldávia (política ou militarmente), aumentaria a fronteira
da NATO e da UE com o seu maior adversário. A
ligação da Moldávia à Rússia não é de agora, já que o país integrou, até 1991,
a União Soviética. O sentimento
pró-Rússia continua a predominar, como constatou a BBC no dia das
eleições,
na região separatista da Transnístria,
que se estende no leste do país, junto à fronteira com a Ucrânia.
▲ No
leste do país, predomina a popularidade de partidos pró-Moscovo DUMITRU
DORU/EPA
ÍNDICE
Bruxelas “suspirou de alívio”. Mas ainda há obstáculos para assegurar a adesão antes de Um dos eixos principais da
estratégia russa para influenciar as eleições fez-se através das redes sociais.
À semelhança do que aconteceu na vizinha Roménia, a
Rússia é acusada de ter financiado centenas de contas que publicaram conteúdo
falso sobre a legitimidade das eleições. Uma das redes, investigada pelo canal britânico, tinha pelo menos 90
contas no Tiktok, que reuniram, desde o início do ano, mais de 23 milhões
de visualizações. A BBC escreve que esta rede era financiada pela
Evrazia, uma Organização Não-Governamental alvo de sanções na UE, Estados
Unidos e Reino Unido e liderada por um oligarca russo. A questão do financiamento
também foi sentida de forma mais directa na exclusão de
dois partidos pró-Rússia da corrida eleitoral, devido a irregularidades de financiamento.
O outro eixo de interferência
russa terá passado pela desestabilização da ordem pública. No domingo à noite, as
autoridades moldavas detiveram três suspeitos de planearem distúrbios na
manifestação desta segunda-feira — que acabou por decorrer sem sobressaltos
maiores — que tinham na sua posse materiais pirotécnicos. Entre os
detidos, estavam dois responsáveis de forças paramilitares da Transnístria,
escreve a Balkan Insight. A mesma revista relata que, na semana antes das eleições, também
foram feitas detenções na Sérvia,
onde funcionaria um campo de treino para cidadãos moldavos e romenos, com o
objectivo de “garantir resistência física à polícia em caso de motins durante o
dia das eleições”.
Aos
incidentes somam-se as declarações do serviço de informação externo da Rússia,
que, na semana passada, afirmou que a NATO estava a planear invadir a Moldávia. As afirmações “absurdas”
levaram o Institute for the Study of War a publicar um aviso: “O Kremlin parece estar
a conduzir uma operação de informação organizada, injetando narrativas sobre o
anulamento das eleições no espaço informativo moldavo de forma a estabelecer
condições para protestos violentos”.
Diáspora. “Eleitorado paralelo” ou
“consistentemente pró-Europa”?
Depois de um período de campanha atribulado por
ameaças e pressões, o dia de ir às urnas não se revelou mais tranquilo. Na
Rússia, Dmitry Peskov acusou as autoridades moldavas de terem impedido centenas
de emigrantes na Rússia de votar, por falta de secções de voto — em
Moscovo, por exemplo, só havia duas, elaborou o porta-voz da presidência. Dentro da Moldávia, Igor
Dodon denunciou “todo o tipo de assédio” contra os habitantes da Transnístria,
o que os “impediu de votar”.
Em
sentido contrário, na Roménia, Estados Unidos da América, Espanha, Bélgica e
Itália, várias secções de voto tiveram de ser evacuadas por causa de ameaças de bombas que se vieram a
revelar falsas. O conselheiro Stanislav Secrieru já tinha alertado para a
possibilidade de “ameaças de bombas
falsas em cidades europeias”. O objetivo? Impedir a diáspora
moldava de votar.
▲ Lados
pró-Rússia e pró-UE trocaram acusações por impedirem a diáspora de votar DUMITRU
DORU/EPA
Índice
Dorina Baltag, analista no Institute for Diplomacy and
International Affairs e fundadora de uma ONG debruçada sobre este segmento da
população, destacou ao Politico a sua “importância crítica”
numa eleição. Em primeiro lugar, pela sua dimensão. A Moldávia tem uma das
taxas de emigração mais altas do mundo, com cerca de 35 a 40 mil habitantes a
abandonar o país anualmente, segundo uma análise do Newsmaker,
um meio de
comunicação independente. Isto quer dizer que a Moldávia tem um total de 2,4
milhões de habitantes (excluindo a Transnístria) e uma diáspora de mais de 1
milhão, segundo o Ministério dos Negócios Estrangeiros.
Para além de numerosa, a
diáspora também tem assumido um papel “simbólico”. “Ao longo da última
década, a diáspora consolidou-se como um dos círculos eleitorais mais consistentemente pró-europeus, com
mobilização eleitoral que muitas vezes faz pender a balança em corridas
disputadas”, analisou a especialista.
O líder do
Bloco Eleitoral Patriótico tem consciência deste peso. Foi por isso que, enquanto
foi Presidente, procurou limitar o voto da diáspora, que classificava
como “um eleitorado paralelo”, relembra a RFE/RL. A
leitura mantém-se até aos dias de hoje. “O PAS perdeu as eleições no país mas permanece no poder
graças apenas à diáspora, mas não vamos desistir e apresentámos recursos à
Comissão Central Eleitoral”, declarou Igor Dodon durante a manifestação desta
segunda-feira.
É verdade que os resultados do PAS dentro e fora da
Moldávia são bastante diferentes — nos círculos
internos conseguiu 44,13% dos votos, enquanto nos círculos da emigração chegou
aos 78,61%. Contudo, mesmo sem os votos da diáspora, o PAS só teria saído
derrotado se o Bloco Patriótico conseguisse uma coligação com os restantes
partidos da oposição, incluindo a outra aliança que conquistou o terceiro
lugar: a Alternativa,
composta por três partidos.
▲ A
vitória do PAS também pode ser uma vitória para Kiev, notam os especialistas SERGEY DOLZHENKO/EPA
Índice
Apesar das críticas, Dodon apelou aos manifestantes
para que não respondessem a “provocações” nem causassem “desestabilizações” e
fossem para casa até serem convocados para novos protestos. “Se outra pessoa
vos chamar, é uma provocação“,
alertou. Ainda que a manifestação tenha decorrido sem confrontos, um
incidente obrigou a intervenção policial. O momento é descrito pela agência
noticiosa russa TASS como “provocadores que gritaram insultos”. A RFE/RL detalha quais
foram as palavras gritadas contra os manifestantes: “Glória à Ucrânia!“.
Bruxelas
“suspirou de alívio”. Mas ainda há obstáculos para assegurar a adesão antes de
2030
Quando a Rússia invadiu a Ucrânia em fevereiro de 2022
e rapidamente avançou pelo país, a União
Europeia viu o seu flanco leste ameaçado. Em resposta, a Bruxelas procurou
estreitar as suas relações com os países dessa região. Foi nesse sentido que,
em junho de 2022, concedeu tanto à Ucrânia como a Moldávia o estatuto formal de
candidato à adesão.
Os resultados deste domingo fizeram soar, como escreve o
Politico, “um suspiro de alívio” de Bruxelas, por ver afastada a
possibilidade de (mais) um regime pró-Kremlin se instalar às suas portas.
Rikard Jozwiak, da RFE/RL, argumenta ainda que a Moldávia é o “único país na
vizinhança a leste que ainda tem uma hipótese viável de se tornar membro” da UE:
a Ucrânia continua em
guerra, sem fim à vista, a Geórgia afastou-se
das negociações depois da vitória do partido pró-Kremlin nas eleições do final
do ano passado, e a Sérvia,
também próxima do regime de Putin, tem o processo paralisado há cerca de uma
década.
Neste sentido, o editor destaca que “uma vitória do PAS também é uma vitória para a Ucrânia”. Primeiro, porque significa
que a Ucrânia não estará “entalada” entre dois regimes “hostis”. Depois,
porque poderá acelerar o processo de adesão da própria Ucrânia, a partir de
dentro do bloco.
▲ A proximidade entre a UE e a Moldávia
beneficia ambas as partes DUMITRU
DORU/EPA
ÍNDICE
Contudo, a adesão da Moldávia à UE não é bem-vinda
apenas em Kiev ou em Bruxelas. Aquando da sua reeleição Maia Sandu defendeu
como uma das suas prioridades a integração no bloco europeu até ao final da
década. Os resultados deste domingo são o melhor cenário possível para alcançar
esse objectivo, pois, mesmo com um resultado pior que em 2021, o partido
conseguiu maioria absoluta e não terá de negociar com os restantes partidos um
acordo de governação — como as sondagens apontavam. Assim, o processo de
adesão pode continuar. E Chișinău quer que isso
aconteça “rápido”.
O apelo foi da vice-primeira-ministra para a
Integração Europeia, Cristina Gherasimov. “Esperamos que a UE seja recíproca, tendo em conta os resultados
das eleições, porque de forma a utilizar este ímpeto histórico em que estamos
no alargamento, temos de nos mexer rápido”, afirmou ao Politico.
Em Bruxelas, há pelo menos uma pessoa disposta a
responder ao apelo, noticia o mesmo jornal, citando cinco diplomatas europeus,
que revelaram que António Costa tem um plano para
acelerar o processo de adesão. O presidente do Conselho Europeu terá pressionado
os líderes dos 27 — com foco particular na possível resistência da Hungria de
Viktor Orbán — a abrir os capítulos de negociação apenas com a aprovação de uma
maioria simples.
Os capítulos são os 35 objectivos legais e políticos
que um Estado tem de cumprir para se juntar ao bloco e que têm de ser aprovados
por unanimidade. A alteração proposta por Costa não altera que a aprovação
final tenha de ser unânime, apenas facilita a abertura da discussão em cada um
dos capítulos, evitando, assim, longos atrasos. O
resultado deste domingo garante que, durante os próximos quatro anos, a
negociação será feita a partir de Chișinău por um governo empenhado em chegar a
Bruxelas até 2030 — e que confia na UE para também cumprir o prazo.
MOLDÁVIA MUNDO RÚSSIA ELEIÇÕES POLÍTICA UNIÃO
EUROPEIA EUROPA COMENTÁRIOS (de 29)
Nenhum comentário:
Postar um comentário