Julgo, a BBC, o discurso relevante a seu respeito, feita pelo Historiador
e Especialista em Segurança Internacional, BRUNO CARDOSO REIS, pois de longa
data nos habituámos à referência à BBC, nos noticiários ou outros meios
informativos, feita com respeito a acatamento, devido certamente à honestidade
da pesquisa informativa, que servia de suporte a muita imprensa. Gostei, pois,
da referência, e compreendo a reacção negativa de Trump, ao ser por ela talvez
criticado, em virtude das suas políticas um tanto desastrosas, na arrogância de
acções próprias, a merecer palmatória. Contudo, ao que parece, também a BBC não
está livre de crítica, em termos de credibilidade.
Trump tem alguma razão, a
BBC também
Não seria a primeira crise diplomática em torno da BBC, mas seria a
primeira com uma democracia e aliado próximo.
BRUNO CARDOSO REIS, Historiador e Especialista em Segurança Internacional
OBSERVADOR, 14 nov. 2025, 00:15
Há mais uma crise envolvendo Donald
Trump e a BBC. Um
documentário da série Panorama editou de forma enganadora um discurso do
presidente norte-americano, que ameaça com um processo pedindo mil milhões de
dólares. É uma crise reveladora dos nossos tempos de maior
polarização política. É
reveladora também dos riscos da imprensa de referência, ou da academia, colocar
de lado os tradicionais princípios de rigor factual e analítico, porque certos
jornalistas ou professores não gostam de um líder político ou de um país e
preferem militar nas “boas causas” em vez de se dar ao trabalho de analisar
factos. Há, no entanto, um paradoxo. Se, como Trump tantas vezes repete, a imprensa de
referência é tão má, está falida e é irrelevante, porque é que o presidente da
maior potência global se preocupa tanto com ela, e, neste caso, até com uma
instituição que nem é norte-americana?
A BBC não é, realmente, um órgão de
comunicação qualquer. Através
de vários media é um líder noticioso global com uma audiência média estimada em mais
de 400 milhões de pessoas. Como aconteceu em Portugal durante o regime autoritário, em muitas
ditaduras – da
Birmânia à Coreia do Norte ou ao Afeganistão – a sua emissão de rádio é a única
fonte fiável de notícias na língua local. A BBC News está também muito presente nos EUA, com mais de 40
jornalistas e redações permanentes na capital, em Nova Iorque e em Los Angeles.
É visível através de uma parceria com a televisão pública norte-americana,
transmitindo um noticiário diário feito a partir de Washington D.C. por essa
equipa. Tem ainda uma forte presença online. Mais incrível ainda, segundo uma
sondagem, a BBC é o órgão noticioso em que
mais norte-americanos confiam – só ultrapassada pelo Weather Channel e acima
de todos os demais congéneres “nativos”. É isto que
explica tanto interesse de Trump pela BBC.
Muito haveria a dizer sobre a BBC com
uma história mais do que centenária. Foi criada em 1922, e tem, desde janeiro de 1927, o estatuto
de emissora pública. Foi a
pioneira das emissões regulares de televisão fora dos EUA, a partir de 1936.
É, portanto, a mais antiga rádio e tv pública do Mundo. Foi não só a pioneira global de um modelo
de emissora pública que evita o controlo directo pelo governo, como inventou
muitos dos formatos da rádio e tv que conhecemos. A BBC Empire, criada
em 1932, transformou-se,
no mundo descolonizado do pós-Segunda Guerra Mundial, no primeiro grande órgão
de comunicação global com o BBC World Service, com noticiários em mais de 40
línguas e, a partir de 1997, deu origem a um serviço noticioso 24 horas. Também no
online a BBC tem sido muito activa. Desde o seu primeiro director-geral, John Reith, que a
BBC estabeleceu princípios editoriais de qualidade, rigor, imparcialidade. Sem
romantizar o passado, é verdade que comparada com a concorrência disponível,
nestes mais de cem anos, a BBC tem sido
uma referência de rigor e relativa independência, beneficiando com o contraste com a propaganda
e desinformação descarada das emissoras da Alemanha nazi ou da União Soviética.
É precisamente por não estar directamente dependente do governo
britânico que a BBC tem sido um instrumento tão eficaz de influência global
da Grã-Bretanha. Veremos se não irá,
agora, provocar uma crise nas relações entre o Estado britânico e o governo de
Trump. A posição internacional da
Grã-Bretanha está mais fragilizada depois do Brexit. O governo britânico trabalhou muito para criar pontes
com a Administração Trump. Mas, apesar de os britânicos gostarem
de criticar a “sua” BBC – pela qual pagam mais de 170 libras anualmente de
licença –, isso não
quer dizer que aceitem vê-la sacrificada às boas relações com Trump (embora, segundo as sondagens, a maioria
considere apropriado algum pedido de desculpas). Não seria
a primeira crise diplomática em torno da BBC, mas seria a primeira com uma
democracia e aliado próximo.
Em suma, Trump tem alguma razão, como
a própria BBC reconheceu. O Panorama – a série de documentários de actualidade da BBC, que em Portugal é
transmitido pela SIC
Notícias (onde
também colaboro) – como é normal “cortou e colou” diferentes
frases do discurso feito por Trump, a 6 de janeiro de 2021, mas deu a
entender que declarações separadas por 50
minutos foram ditas em sequência, criando a impressão de um apelo claro
ao ataque violento ao Capitólio. Isso é errado e inaceitável. Ironicamente, o documentário tornou o discurso
presidencial mais coerente do que costuma ser na realidade, pois Trump
caracteriza-se sempre por uma retórica habilidosa em que diz coisas
controversas sem nunca assumir plena responsabilidade por elas, com fórmulas
como: muita
gente diz, é uma pergunta, pode ser ou não. Também são graves as críticas relativas a alguma da
cobertura de Israel e do Hamas, em particular pela BBC em árabe, com demasiados
exemplos de colaborações com pseudojornalistas próximos do Hamas, e alguns
casos de reprodução de informação, promovida por esta organização terrorista, que já era público ser errada. Eu próprio critiquei a recusa da BBC em caracterizar o
Hamas como um movimento terrorista, como manifestamente é,
seja na definição legal do termo pela maioria dos estados, seja na táctica habitual de ataques indiscriminados contra civis,
inclusive o massacre sádico do 7 de outubro.
Significa isto que a BBC passou a ser
um órgão de propaganda ideologicamente alinhado, e que Trump e o governo de
Israel estejam acima de qualquer crítica? Não. A BBC
continua a ter bons trabalhos noticiosos, inclusive sobre a política nos EUA e
o conflito no Médio Oriente. É
evidente que muitos dos críticos da BBC, a começar por Donald Trump, não têm interesse numa imprensa rigorosa e independente, querem
jornalistas subservientes e alinhados. Também é verdade ser raro na
história haver projectos de comunicação que não tenham algum tipo de objectivo
político. A própria BBC foi criada para
reforçar a unidade de uma monarquia compósita e de um grande império global. E transformou-se numa forma de manter a influência
global britânica quando a via da conquista militar já não era muito viável. A maioria dos jornais têm uma linha ideológica
predominante nas suas colunas de opinião, do Figaro ao Monde, do Guardian ao Telegraph (que
denunciou estas más-práticas na BBC). O que diferencia os projectos de imprensa
de qualidade é que não se tornam meros porta-vozes de um partido ou governo, e
cuidam de separar opinião e informação
factual.
Infelizmente,
embora nas sondagens a maioria das
pessoas diga que quer rigor nas notícias, não é para mim claro que seja realmente
isso que verdadeiramente querem. Há muito
quem, à direita e à esquerda, inclusive na imprensa e na academia, abrace
alegremente uma lógica à Gramsci: o que
importa é o triunfo da narrativa do “meu lado”, que a “minha” ideologia
prevaleça, os factos que se lixem. É o conforto
das grandes certezas. É a pose tão
frequente de: não
me venham complicar a vida com factos inconvenientes e eu não pago para ler
opiniões de que discordo. Como lógica de poder pode resultar,
mas também significará um mundo mais ignorante e mais dividido em silos
propagandísticos. Pessoalmente nunca vi
vantagem em confundir preferências políticas com a realidade. Quando temos no Mundo tantos problemas
sérios e conflitos graves, apostar em ilusões politicamente convenientes não
irá ajudar. Trump
é mais culpado desta tendência do que os jornalistas
da BBC, mas pelos vistos alguns destes últimos também não
estão isentos de culpas. Não espero que Trump, com 79 anos,
venha a mudar. Espero que a BBC, com mais de 100 anos de reputação,
trate de a defender. O
que define um bom órgão de comunicação não é que nunca erre – a perfeição não
existe na imprensa ou noutro lado qualquer –, é que não esconde erros e procura
activamente corrigi-los e evitá-los. Um mundo
sem a BBC, cuja concessão terá de ser renovada em 2027, será mais vulnerável à
desinformação. Eu
continuarei a procurar imprensa diversa nas opiniões e comprometida com os
factos, sempre com alguma distância crítica, que, claramente se justifica até
no caso da BBC.
COMENTÁRIOS:
Diogo Pacheco
de Amorim: “Deu a entender”??? Aquilo foi um corta e cose
feito ao décimo de milímetro para falsificar um discurso de Trump quatro
dias antes de umas eleições para ele decisivas. Como é que é possível
encarar com tanta bonomia uma fraude dessas?
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