sexta-feira, 14 de novembro de 2025

Bem merece

 

Julgo, a BBC, o discurso relevante a seu respeito, feita pelo Historiador e Especialista em Segurança Internacional, BRUNO CARDOSO REIS, pois de longa data nos habituámos à referência à BBC, nos noticiários ou outros meios informativos, feita com respeito a acatamento, devido certamente à honestidade da pesquisa informativa, que servia de suporte a muita imprensa. Gostei, pois, da referência, e compreendo a reacção negativa de Trump, ao ser por ela talvez criticado, em virtude das suas políticas um tanto desastrosas, na arrogância de acções próprias, a merecer palmatória. Contudo, ao que parece, também a BBC não está livre de crítica, em termos de credibilidade.

Trump tem alguma razão, a BBC também

Não seria a primeira crise diplomática em torno da BBC, mas seria a primeira com uma democracia e aliado próximo.

BRUNO CARDOSO REIS, Historiador e Especialista em Segurança Internacional

OBSERVADOR, 14 nov. 2025, 00:15

Há mais uma crise envolvendo Donald Trump e a BBC. Um documentário da série Panorama editou de forma enganadora um discurso do presidente norte-americano, que ameaça com um processo pedindo mil milhões de dólares. É uma crise reveladora dos nossos tempos de maior polarização política. É reveladora também dos riscos da imprensa de referência, ou da academia, colocar de lado os tradicionais princípios de rigor factual e analítico, porque certos jornalistas ou professores não gostam de um líder político ou de um país e preferem militar nas “boas causas” em vez de se dar ao trabalho de analisar factos. Há, no entanto, um paradoxo. Se, como Trump tantas vezes repete, a imprensa de referência é tão má, está falida e é irrelevante, porque é que o presidente da maior potência global se preocupa tanto com ela, e, neste caso, até com uma instituição que nem é norte-americana?

A BBC não é, realmente, um órgão de comunicação qualquer. Através de vários media é um líder noticioso global com uma audiência média estimada em mais de 400 milhões de pessoas. Como aconteceu em Portugal durante o regime autoritário, em muitas ditaduras – da Birmânia à Coreia do Norte ou ao Afeganistãoa sua emissão de rádio é a única fonte fiável de notícias na língua local. A BBC News está também muito presente nos EUA, com mais de 40 jornalistas e redações permanentes na capital, em Nova Iorque e em Los Angeles. É visível através de uma parceria com a televisão pública norte-americana, transmitindo um noticiário diário feito a partir de Washington D.C. por essa equipa. Tem ainda uma forte presença online. Mais incrível ainda, segundo uma sondagem, a BBC é o órgão noticioso em que mais norte-americanos confiam  –  só ultrapassada pelo Weather Channel e acima de todos os demais congéneres “nativos”. É isto que explica tanto interesse de Trump pela BBC.

Muito haveria a dizer sobre a BBC com uma história mais do que centenária. Foi criada em 1922, e tem, desde janeiro de 1927, o estatuto de emissora pública. Foi a pioneira das emissões regulares de televisão fora dos EUA, a partir de 1936É, portanto, a mais antiga rádio e tv pública do Mundo. Foi não só a pioneira global de um modelo de emissora pública que evita o controlo directo pelo governo, como inventou muitos dos formatos da rádio e tv que conhecemos. A BBC Empire, criada em 1932, transformou-se, no mundo descolonizado do pós-Segunda Guerra Mundial, no primeiro grande órgão de comunicação global com o BBC World Service, com noticiários em mais de 40 línguas e, a partir de 1997, deu origem a um serviço noticioso 24 horas. Também no online a BBC tem sido muito activa. Desde o seu primeiro director-geral, John Reith, que a BBC estabeleceu princípios editoriais de qualidade, rigor, imparcialidade. Sem romantizar o passado, é verdade que comparada com a concorrência disponível, nestes mais de cem anos, a BBC tem sido uma referência de rigor e relativa independência, beneficiando com o contraste com a propaganda e desinformação descarada das emissoras da Alemanha nazi ou da União Soviética.

É precisamente por não estar directamente dependente do governo britânico que a BBC tem sido um instrumento tão eficaz de influência global da Grã-Bretanha. Veremos se não irá, agora, provocar uma crise nas relações entre o Estado britânico e o governo de Trump. A posição internacional da Grã-Bretanha está mais fragilizada depois do Brexit. O governo britânico trabalhou muito para criar pontes com a Administração Trump. Mas, apesar de os britânicos gostarem de criticar a “sua” BBC – pela qual pagam mais de 170 libras anualmente de licença –, isso não quer dizer que aceitem vê-la sacrificada às boas relações com Trump (embora, segundo as sondagens, a maioria considere apropriado algum pedido de desculpas). Não seria a primeira crise diplomática em torno da BBC, mas seria a primeira com uma democracia e aliado próximo.

Em suma, Trump tem alguma razão, como a própria BBC reconheceu. O Panorama – a série de documentários de actualidade da BBC, que em Portugal é transmitido pela SIC Notícias (onde também colaboro) – como é normal “cortou e coloudiferentes frases do discurso feito por Trump, a 6 de janeiro de 2021, mas deu a entender que declarações separadas por 50 minutos  foram ditas em sequência, criando a impressão de um apelo claro ao ataque violento ao Capitólio. Isso é errado e inaceitável. Ironicamente, o documentário tornou o discurso presidencial mais coerente do que costuma ser na realidade, pois Trump caracteriza-se sempre por uma retórica habilidosa em que diz coisas controversas sem nunca assumir plena responsabilidade por elas, com fórmulas como: muita gente diz, é uma pergunta, pode ser ou não. Também são graves as críticas relativas a alguma da cobertura de Israel e do Hamas, em particular pela BBC em árabe, com demasiados exemplos de colaborações com pseudojornalistas próximos do Hamas, e alguns casos de reprodução de informação, promovida por esta organização terrorista, que já era público ser errada. Eu próprio critiquei a recusa da BBC em caracterizar o Hamas como um movimento terrorista, como manifestamente é, seja na definição legal do termo pela maioria dos estados, seja na táctica habitual de ataques indiscriminados contra civis, inclusive o massacre sádico do 7 de outubro.

Significa isto que a BBC passou a ser um órgão de propaganda ideologicamente alinhado, e que Trump e o governo de Israel estejam acima de qualquer crítica? Não. A BBC continua a ter bons trabalhos noticiosos, inclusive sobre a política nos EUA e o conflito no Médio Oriente. É evidente que muitos dos críticos da BBC, a começar por Donald Trump, não têm interesse numa imprensa rigorosa e independente, querem jornalistas subservientes e alinhados. Também é verdade ser raro na história haver projectos de comunicação que não tenham algum tipo de objectivo político. A própria BBC foi criada para reforçar a unidade de uma monarquia compósita e de um grande império global. E transformou-se numa forma de manter a influência global britânica quando a via da conquista militar já não era muito viável. A maioria dos jornais têm uma linha ideológica predominante nas suas colunas de opinião, do Figaro ao Monde, do Guardian ao Telegraph (que denunciou estas más-práticas na BBC). O que diferencia os projectos de imprensa de qualidade é que não se tornam meros porta-vozes de um partido ou governo, e cuidam de separar opinião e informação factual.

Infelizmente, embora nas sondagens a maioria das pessoas diga que quer rigor nas notícias, não é para mim claro que seja realmente isso que verdadeiramente querem. Há muito quem, à direita e à esquerda, inclusive na imprensa e na academia, abrace alegremente uma lógica à Gramsci: o que importa é o triunfo da narrativa do “meu lado”, que a “minha” ideologia prevaleça, os factos que se lixem. É o conforto das grandes certezas. É a pose tão frequente de: não me venham complicar a vida com factos inconvenientes e eu não pago para ler opiniões de que discordo. Como lógica de poder pode resultar, mas também significará um mundo mais ignorante e mais dividido em silos propagandísticos. Pessoalmente nunca vi vantagem em confundir preferências políticas com a realidade. Quando temos no Mundo tantos problemas sérios e conflitos graves, apostar em ilusões politicamente convenientes não irá ajudar. Trump é mais culpado desta tendência do que os jornalistas da BBC, mas pelos vistos alguns destes últimos também não estão isentos de culpas. Não espero que Trump, com 79 anos, venha a mudar. Espero que a BBC, com mais de 100 anos de reputação, trate de a defender. O que define um bom órgão de comunicação não é que nunca erre – a perfeição não existe na imprensa ou noutro lado qualquer –, é que não esconde erros e procura activamente corrigi-los e evitá-los. Um mundo sem a BBC, cuja concessão terá de ser renovada em 2027, será mais vulnerável à desinformação. Eu continuarei a procurar imprensa diversa nas opiniões e comprometida com os factos, sempre com alguma distância crítica, que, claramente se justifica até no caso da BBC.

COMENTÁRIOS:

Diogo Pacheco de Amorim:  “Deu a entender”??? Aquilo foi um corta e cose feito ao décimo de milímetro para falsificar um discurso de Trump quatro dias antes de umas eleições para ele decisivas. Como é que é possível encarar com tanta bonomia uma fraude dessas?

 

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