quarta-feira, 19 de novembro de 2025

Revivendo

 

Não mais com a amargura do que passou, com cinco filhos de cambulhada, no avião para cá, e tudo o mais de gravidade, mas também com gratidão pelos pais e irmã que nos estenderam os braços, e pelo marido que ainda permaneceu por lá, em arrumação da vida. Também fui das sortudas que trazia o vencimento de professora de lá, continuado a ser pago cá, durante seis ou sete meses das férias concedidas, e que possibilitou a permanência do emprego cá. Mas o que me chocou mais ainda, pese embora toda essa repentina movimentação de fuga com sabor a catástrofe, foi a bofetada à nossa História Pátria, subentendendo os tais “barões assinalados que por mares nunca dantes navegados passaram inda além da Taprobana, em perigos e guerras esforçados, mais do que prometia a força humana”, como se vira. Sim, essa bofetada jamais se dissipará, e é ironicamente que encaro russos, americanos e quejandos, que difundiram tão generosas doutrinas de reposição de terras, quando hoje se permitem invadir com desfaçatez sanguinária, povos independentes próximos do seu alcance, ou mesmo os tais, que largámos…

Nos 50 anos da Ponte Aérea – Obrigado, “retornados

Cinquenta anos depois, se calhar já podemos dizer o óbvio: a esquerda tratou meio milhão de portugueses com mais desumanidade do que agora acusa a direita, toda ela, de lidar com os estrangeiros.

NUNO GONÇALO POÇAS Colunista do Observador. Advogado, autor de "Presos Por Um Fio – Portugal e as FP-25 de Abril"

OBSERVADOR, 18 nov. 2025, 00:1690

Chamaram-lhe “Ponte Aérea”, mas foi uma espécie de “aterragem forçada” de vidas inteiras. Há cinquenta anos terminava a maior operação de evacuação aérea da história portuguesa, com cerca de meio milhão de portugueses, caídos literalmente do céu, a chegar à capital de um império que então se extinguia.

Vieram essencialmente de Angola e Moçambique com pouco, e muitos com quase nada. Um cartão de embarque, uma pasta com documentos, caixotes com os seus bens que nunca mais viram, filhos ao colo e vidas às costas. Tinham nomes, histórias, profissões, raízes, cultura e vistas largas. Perderam quase tudo. Ganharam um nome: retornados.

Portugal, então recém-saído da ditadura e mergulhado na anarquia revolucionária de um PREC sem bússola, olhou para este meio milhão de concidadãos com desconfiança e hostilidade. Tinham sido colonos, diziam. Eram ricos, exploradores, “os do Ultramar”. Fascistas, naturalmente. Foram um dos inimigos fáceis da sede revolucionária, com a agravante de não terem sequer mecanismos para reagir.

Mas o mais notável em toda a história do regresso dos nacionais a Lisboa não foi a hostilidade com que foram recebidos, mas o que os próprios fizeram com a ostracização a que foram sujeitos. Não se tornaram reféns da vitimização, deitaram mãos à obra. Os portugueses que vinham das colónias sabiam que o mundo acaba num horizonte largo, e não ao fundo do Chiado. Trouxeram hábitos, capacidade de trabalho, cultura de gestão, formas de estar, até palavras novas. Abriram cafés, empresas, oficinas, fábricas. Reconstruíram-se contra a cultura hegemónica, sempre marxista, e fizeram-no sem pedir favores; sem subsídios, sem planos estratégicos. Fizeram o que faz quem não tem alternativa, que é sempre a maior das forças motoras, num país que estava habituado a não fazer nada ou a fazer muito pouco.

Os “retornados” continuam a ser uma ferida mal contada da nossa memória colectiva. Nunca houve um esforço sério para integrar a sua história na narrativa do regime. Continuam, talvez, a ser estranhos num país de gente amorfa. Talvez porque nos expõem as fraquezas, e exibem, sem contemplações, a desumanidade do progressismo revolucionário.

Cinquenta anos depois, se calhar já podemos dizer o óbvio: a esquerda tratou meio milhão de portugueses com mais desumanidade do que agora acusa a direita, toda ela, de lidar com os estrangeiros. Em Portugal, onde toda a gente aprecia apregoar a sua bondade e gosta de se compadecer de tudo, subsiste um manto de silêncio oficial e oficioso para quem perdeu tudo e recomeçou tudo. Talvez porque não aceitaram o rótulo de vítimas, a única categoria que um país injectado de vulgata marxista aprecia.

O 50.º aniversário da Ponte Aérea devia ser um marco nacional. Não para reabrir feridas, mas para agradecer. Para dizer obrigado a quem chegou com medo e ainda assim teve coragem. Obrigado a quem foi insultado e não desistiu. Obrigado a quem transformou a sua desgraça pessoal numa força colectiva.

Num tempo em que se debate tanto a identidade, o acolhimento e os direitos, talvez seja boa ideia começar por fazer justiça a quem sempre foi da casa e nunca teve direito a entrar pela porta da frente.

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COMENTÁRIOS (de 90):Moçambique 

Retornados 

Uiros Ueramos: A Ponte Aérea não foi só a maior evacuação aérea da história portuguesa,  foi a maior operação do género no mundo em tão curto espaço de tempo (6-7 meses, cerca de 300 mil pessoas só por via aérea). Meio milhão de cidadãos portugueses brancos, muitos com gerações nascidas em África, foram expulsos à força, ameaçados de morte, despojados de tudo. Chegaram a Portugal como refugiados no próprio país. 50 anos depois, a hipocrisia atingiu níveis estratosféricos: Em 1975, quem ousasse receber bem os retornados era acusado de “fascista” e “colonialista”. Em 2025, quem ouse questionar a entrada descontrolada de dezenas de milhares de africanos é imediatamente rotulado de “racista” e “xenófobo”. Os retornados tinham passaporte português, contribuições fiscais, serviço militar feito, filhos que nasceram portugueses. Foram tratados como intrusos. Mas com a sua elevada capacidade técnica e de trabalho acabaram por ser um motor da economia da altura. Hoje, quem nunca pagou um imposto em Portugal tem acesso imediato ao SNS, abono de família, RSI, subsídio de desemprego (através de esquemas vários), e só vem imigrantes com baixas qualificações, e quem reclama é logo acusado de racista e xenófobo pela esquerda. A esquerda que em 1975 gritava “os retornados é que paguem a crise” é exactamente a mesma linhagem ideológica que hoje grita “Portugal tem de acolher toda a gente”. É uma dupla moral tão obscena que já nem tentam disfarçar. E o silêncio oficial sobre os 50 anos da Ponte Aérea, enquanto se fazem cerimónias, exposições e minutos de silêncio por tudo e mais alguma coisa, é a prova final da cobardia moral deste país, dominado por uma comunicação social quase toda de esquerda e por um governo que apesar de direita, presta vassalagem a esquerda                    SDC Cruz: Caro Nuno Gonçalo Poças, eu e a minha família, como "retornados", que abandonámos o nosso País com pouco mais que a roupa do corpo, só temos uma palavra para a sua crónica: EXCEPCIONAL. Obrigado.                  Miguel Santos: Obrigado pela mensagem. A minha avó foi uma retornada. Teve que fugir de Moçambique porque os brancos estavam a ser mortos. Fugiu com a roupa no corpo e 3 filhos na mão. Deixou plantações, 3 casas, tractores, uma vida. Chegou sem nada nem estrutura à metrópole. Viveu em bairros de lata da altura onde havia uma latrina para dezenas de famílias de se higienizar e onde os banhos eram em bacias. Entretanto trabalhou, bastante duro, e conseguiu sair do fosso. Nunca deixou a pobreza, mas deixou a extrema pobreza. Sem subsídios. Tudo com garra. Lembro-me que se levantava as 5h da manhã e eu lá com as remelas acordava pouco tempo depois para ela ir trabalhar (ela levava-me com ela). Pagou os meus estudos, criou-me. Apesar das vicissitudes da vida procurou sempre algo melhor para a geração futura. Tudo sozinha. O meu exemplo de  mulher.                    graça Dias: Caríssimo Nuno Gonçalo Poças : Um artigo arrebatador sobre um capítulo "negro" na História do nosso Portugal e protagonizada pelo governo de então: o partido socialista. Uma verdadeira tragédia vivida por milhares de portugueses que foram obrigados a um regresso repentino e caótico,  deixando para trás tudo o que construíram, tudo o que tinham e as suas vivências ( ! )  Infelizmente, este nosso Portugal tem outros capítulos sombrios protagonizados pelos socialistas/ marxistas que nunca serviram o país, mas se serviram do país (tal como no passado se serviram das Colónias). Ao NGR obrigada pelo tão bem conseguido relato dos acontecimentos passados, mas que deixaram feridas, cicatrizes e memórias, que o passar do tempo nunca apagou. Brilhante analogia entre factos do passado e os factos deste nosso presente.                graça Dias > Uiros Ueramos: Caríssimo: Só posso elogiar este seu eloquente comentário.  Uma tragédia que é parte integrante da história de Portugal.  Merecia e devia este PSD (de tantos apelos ao Humanismo), ter uma palavra para com estes portugueses,  para os quais o passar do tempo não esbateu as cores da memória.                    José Lúcio: " Talvez porque não aceitaram o rótulo de vítimas, a única categoria que um país injectado de vulgata marxista aprecia". Esta frase diz tudo. É ver o Wokismo (que o nome mais correcto seria NeoMaoismo) e tirar as necessárias conclusões. Parabéns pelo Artigo, Dr Nuno Gonçalo Poças!                  João Mourão: Muito bom artigo. Não sou retornado, e apreciei a justeza desta crónica.              Carlos Ferreira: Excelente crónica! Parabéns!       Fernando Magalhães: Excelente... Levantai vos Ó Pátria proclamai os verdadeiros valores lusitanos. Obrigado, "Retornados "!!!!                      José Maceira: Muitos parabéns pelo excelente artigo. Há o medo de dizer que o 25 de Novembro foi o momento fundador da democracia, chegou a altura de perder o medo e erguer um Monumento aos Retornados. Digo retornados à falta de palavra melhor e porque é essa palavra que a minha mulher, retornada, ainda hoje usa quando define o momento humano e social da transição na descolonização. Um Monumento ao Retornado que faça justiça aos 700 mil Portugueses que tiveram que recomeçar a vida do zero e que sem eles não seríamos hoje o país que somos. Provavelmente seríamos menos desenvolvidos e mais fechados. Mas um Monumento ao Retornado à vista de todos, não é escondido, envergonhado com medo das esquerdas e dos media. Um Monumento no Cais de Alcântara, sem hesitações, na primeira frente ao rio, o local onde foram despejadas as suas vidas em caixotes. Um Monumento que simbolize esta gesta de regresso e de retorno à pátria e que iguale em simbolismo o monumento a 2 quilómetros daí, o Padrão dos Descobrimentos, que representa o salto de um povo no desconhecido. Padrão dos Retornados ou Padrão do Retorno seriam bons nomes. Para que ninguém o esqueça e para que todos se lembrem.        Xico Nhoca: A democracia também tem a sua forma de censura. Durante 40 anos não se pôde quase escrever ou falar deste tema. Desde há uma década que se começou a falar, primeiro com medo depois e gradualmente com cada vez menos medo. Este artigo fala abertamente e coloca os pontos nos is. Parabéns ao autor.                  Afonso Moreira: Cinquenta anos depois já se pode escrever, sem que a censura esquerdista o apague:  "Portugal mergulhou num período do PREC sem rumo nem bússola".  Meia dúzia saberia o que queria e não se importando minimamente, uns por ignorância outros por egoísmo, com as consequências dos golpes corporativos que encetaram. A verdadeira História só agora começa a ser feita, pelas dívidas abafadas aos daqui e aos do ultramar que vieram, mas  também aos de lá que pagaram com tanto sofrimento e que ainda hoje perdura e perdurará por muitas décadas.          José B Dias: Um texto para o aqui "paradigmas" ler e reler ... talvez assim entenda que as vítimas, por mais que o tenham sido, não têm de o ser eternamente! Obrigado, mais uma vez, ao aqui cronista.                      Filipe Afonso: Muito bem dito!          Elizabeth Coelho: Muito obrigada pela sua crónica.                        Peter Leash: Foram expulsos das suas terras, aquelas que amavam, e a que muito se dedicaram. Foram mal recebidos em Portugal, onde lutaram para recomeçar de novo. Enquanto isso, viam, impotentes e com amargura, Angola e Moçambique, afundarem na miséria, na guerra e na ditadura. Agora, querer agradecer-lhes é um gesto tardio — muitos já morreram. E se ainda estivessem vivos, duvido que aceitassem o agradecimento de um país que os traiu.                     Nuno Abreu: Muito obrigado por lembrar que nós, retornados, fazemos parte da história sofrida de muitos portugueses. Também eu sou retornado. Também eu cheguei a Portugal com uma mão à frente e outa atrás. Criei coelhos e galinhas para vender na feira, e sustentar a mulher e dois filhos, numa aldeia isolada de Trás-os-Montes. Apesar disso matriculei-me na Universidade de Coimbra onde felizmente tinha uma tia freira que tomava conta de um lar Universitário. Só ia a Coimbra por três dias por altura das frequências. Recebia os sumários de uma aluna que residia no lar, almoçava e jantava no lar e dormia no seminário dos Olivais a pedido da minha tia. Acabada a frequência regressava aos meus coelhos. Acabei por me transferir para Lisboa para aproveitar as diferenças de curriculum e poupar um ano do curso, indo viver por favor em Mem Martins na casa de uma grande amiga de minha mulher. Como tive boas notas fui convidado para monitor de direito constitucional. Um dia encontrei no Marquês o advogado da empresa moçambicana onde trabalhara. Ao saber que cursara direito  convidou-me a ser seu adjunto na multinacional onde trabalhara. Passados seis meses despediu-se e eu fui convidado a ocupar o lugar. Nessa tarefa que desempenhei por dez anos, tive oportunidade de analisar o curriculum de António Carrapatoso que concorrera a um cargo administrativo logo que acabara o curso. Fui convidado a seguir a fundar uma empresa de construção civil. Fui administrador por mais dez anos. Num acidente rodoviário o meu sócio morreu. Fiz a transição para os filhos e vim para as minhas origens fundando outra empresa. Há 19 anos tive um enfarte. Foram-me detectados os diabetes. Entreguei tudo aos meus filhos e fui tirar um mestrado em Biotecnlogia na UTAD  para perceber como funciona o nosso organismo. Hoje vivo sossegado numa quinta onde convivo com animais, onde foram criados os meus netos, colaborando com um em investigação histórica, tendo já editado três livros. Mensalmente edito uma revista de 16 páginas, que já vai no nº 99,  informando e relatando acontecimentos actuais e históricos sobre a freguesia onde nasci. Ser retornado foi talvez o que melhor aconteceu na vida. Muito obrigado por mo lembrar.           Pedro Baptista: Brilhante, bem-haja pelo seu lúcido e corajoso comentário.                 Meio Vazio: Os "retornados" e a "comunidade" (parece que agora tem de dizer-se assim) chinesa; nunca se vitimizaram (tendo para isso tanto motivo como as demais "comunidades"), nunca esperaram pelos subsídios, nunca  berraram, exigindo que quem não é "comunidade" lhes pagasse a renda e a ida ao supermercado.      João Cunha-Rêgo: A evacuação dos PORTUGUESES das províncias ultramarinas foi um acto heróico de muito pessoal da TAP, que chegaram a trazer passageiros deitados nos corredores dos 747. Eu estava em Moçambique a cumprir o serviço militar. Não estou absolutamente nada de lá ter estado. Eu falo da TAP, porque foi o que mais acompanhei. Mas lembro-me de quando as escaramuças começaram, depois do "gloriosa" abrilada, um frelimo ter ido à rádio de Lourenço Marques e ter dito umas palavras em língua nativa. Após este acontecimento a Frelimo carregou sobre Lourenço Marques, tendo matado e chacinado tudo o que lhe aparecia à frente. Tenho imagens gravadas na minha memória que nunca esquecerei. Quando voltei fui apelidado de retornado nojento, fascista, salazarista, etc. etc. Eu nasci em Lisboa, e estive 3 anos em Moçambique. Ajudei muito português branco ou negro a "enfiar-se" nos aviões, de nada me arrependo a não ser o que não fiz quando voltei a Lisboa!                 Manuel Magalhaes: Muito bem para o autor da crónica, por relembrar um acontecimento que nos deve envergonhar a todos os que tenhamos algum respeito por nós próprios, a esquerda não a tem pois é profundamente hipócrita e mal intencionada e este triste acontecimento é da inteira responsabilidade de toda a esquerda portuguesa, onde nunca devemos esquecer a vergonhosa atitude do falsamente endeusado Mário Soares!!!                  António Soares: Excelente crónica. Não esquecer que Gouveia e Melo tem como modelo presidencial Mário Soares, um dos principais responsáveis pela "exemplar" descolonização, a par de Almeida Santos, Rosa Coutinho, Cunhal e outros. Também Seguro, que Poças agora apoia, ainda "pajem", tornou-se um fervoroso seguidor de Soares, que tanto mal causou aos portugueses em geral e aos retornados em particular.                       João Amorim: Excelente texto. Obrigado                     Jorge Espinha: Os meus pais já morreram. A minha avó já morreu. As minhas tias e o meu tio paterno já morreram. Façam a comemoração da ponte aérea num sítio onde não brilhe o sol. Já dei para o peditório. Teria sido bom, quando ainda eram vivos que tivessem recebido algum reconhecimento do seu sofrimento. Mas não foi o caso. É tarde demais.     Carlos Chaves: Caro Nuno Gonçalo Poças, essa “esquerda” (que) “tratou meio milhão de portugueses com mais desumanidade do que agora acusa a direita, toda ela, de lidar com os estrangeiros”,  tem um nome de proa: O maior criminoso político depois de Marquês de Pombal e de Afonso Costa, que este país já viu nascer – Mário Soares!    Permita que me associe ao seu agradecimento, a estes nossos concidadãos tão maltratados pela esquerda arrogante que ainda sobrevive até hoje em partidos como o PS, o PCP, o BE e o LIVRE! Malditos sejam!               josé cortes > Jorge Espinha: Talvez seja a amargura a falar, meu caro. Recordar os nossos (e alguns que ainda cá estão) e a sua circunstância é doloroso. Mas ajuda. Sempre. Assim sinto.          Vitor Batista: Dedico esta crónica aos vários amigos meus do coração e que foram "retornados "a história não esquece mas há quem a tente reescrever. Bem hajam.                   Francisco Almeida: Um artigo muito, muito, muito corajoso. Mas também escrito por quem não viveu esse tempo. Em Portugal nada funcionava. Greves sucessivas, crises de crédito levaram aeronaves a não voar por falta de manutenção e até demoras por falta de pagamento atempado de combustível em aeroportos estrangeiros. Aliás o mesmo aconteceu com alguns navios. Comandada e coordenada pelo então coronel Gonçalves Ribeiro, a Ponte Aérea Luanda-Lisboa foi um verdadeiro milagre. Nada falhou, não houve avarias, não houve problemas nas escalas. Sem comparação com uma campanha de vacinação. Isso só se explica porque todos, da União Soviética aos EUA queriam os portugueses fora de Angola e Moçambique. E evidentemente houve dirigentes políticos e militares que agenciaram esses interesses externos. Passei algum tempo em Angola - depois de dois anos de Guiné - que visitei do Cuando-Cubango aos Dembos e apercebi-me que Luanda tinha quase todos os defeitos de Lisboa e não só no urbanismo. Era, pode dizer-se, uma cidade de funcionários. Públicos, bancários, de seguros, agências de navegação, importadores-exportadores mas uma imensa maioria de funcionários. Os verdadeiros empreendedores, eram das cidades e localidades do interior e a maioria desses fugiu para a RSA. Muitos integraram a força mista que chegou à entrada de Luanda e, já aniquilada a força aérea do MPLA, foi forçada a retirar por um ultimato diplomático liderado pelos EUA e Inglaterra. A maioria, fugiu para a RSA e para o Brasil e, se muitos voltaram a Portugal, já não foi na Ponte Aérea. Tudo história por fazer, se algum dia vier a ser feita. P.S. O meu ponto de vista não diminui as considerações de Nuno Poças e muito menos as do comentário de Uiros Ueramos. Na realidade, reforça-as.                     João Almeida DiasPaulo Barros: Mesmo que assim fosse, e não é, escusavam de ter ofendido, e de nos apontar a dedo. Poderíamos ter partilhado a tal abjecta miséria, mas não. Cada um ficou com a sua, e nós ganhámos a qualificação de retornados, que ainda hoje tem conotação pejorativa.                 Sr Leão > Miguel Santos: O texto do artigo é bom, é mesmo muito bom e abrangente. O seu comentário é óptimo: verdadeira e completa exemplificação da grandeza e da intrepidez dos retornados. Também os tive na minha família, dos que chegaram cá sem nada e sem nada continuaram por decisão da esquerdopatia dominante na altura.

 

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