A um historiador dos novos tempos, uma figura para sempre moderna, que não receia usar de ironia e de manifestar o seu amor pelo seu país, por “pequenino” que este seja. Maria José Nogueira Pinto foi, igualmente uma grande MULHER, que sempre admirei pelo seu desassombro político, numa época em que isso parecia perigosamente provocador. Um casal para prosseguir por cá, que bem os precisava, a ambos, mas, injustamente, não aconteceu. Que seja preservado, ao menos, JNP, longos anos, cujo “serviço fascista” tanto estimamos. E precisamos, necessitados que somos. De gente com coragem, digo. Para expressar o seu pensamento de nobreza.
Jaime Nogueira Pinto: "Sou uma
espécie de 'fascista de serviço'"
27 nov 2024
(Da INTERNET)
Afinal, quem é mais perigoso, Trump ou Biden?
O
25 de Novembro serviu de pretexto para falar de política nacional e
internacional, de democracia e de 'wokismo', de um mundo em mudança." A
entrevista com Jaime Nogueira Pinto, que entre ser governado por pacóvios
portugueses ou por alemães inteligentíssimos não hesita, prefere os primeiros.
Paulo Rascão | MadreMedia
Encontrámo-nos
para falar de "NOVEMBRO", o
romance lançado em 2012 pela D. Quixote e recentemente reeditado, que retrata o
outro lado do 25 de Abril e o fim de uma época: o Império, a Revolução, os sonhos de muitos, à direita e à esquerda.
"Os livros são uma desgraça, tenho 16.500 livros.
Mas agora estão dispersos, por aqui, pela minha nova casa, pela quinta. Não me
quero desfazer deles e tenho sorte, porque os meus três filhos gostam".
"NOVEMBRO" é um de muitos livros de Jaime Nogueira Pinto,
mas é o primeiro romance, a aventura na ficção. E também
uma homenagem a Maria José Nogueira Pinto. Jaime Nogueira Pinto junta-se ao É Desta Que Leio Isto no próximo encontro, marcado
para dia 28 de novembro,
uma quinta-feira, pelas 21h00. Consigo traz o seu romance "NOVEMBRO",
editado pela D. Quixote.
Conversamos sobre o Estado
Novo e o antigo regime, Salazar e Marcello Caetano, esquerda e direita, os
radicalismos dos dias que correm, em Portugal, na Europa e no mundo. E ficamos
a saber como seria um partido político criado pelo politólogo e escritor.
A conversa
vai andando ao sabor das novidades:
"Fui
com Jaime Gama ao Seminário dos Olivais falar sobre o 25 de Abril. Fomos muito
bem recebidos e fiquei muito contente, julguei que os seminários não tinham
ninguém, mas aquele tem 50 pessoas".
Tem alguma ligação ao Seminário?
A certa altura, a UNITA raptou um grupo de
seminaristas e fui eu que negociei a sua libertação (relatada em "Jogos
Africanos"). Savimbi trouxe-os para Portugal na visita que fez ao país em
1991, mas o governo de Angola queria que regressassem a Luanda. E a UNITA não
queria.
Para mim, que sou católico, apostólico e romano, a
autoridade sobre os seminaristas é dos bispos deles. Uns eram de
Benguela, outros de Novo Redondo, outros de outras regiões. A verdade é que
consegui trazer os bispos a Portugal, fiz um jantar em minha casa com o padre
João Seabra e com o reitor da altura do Seminário dos Olivais. Como não
tínhamos uma solução imediata, enquanto os seminaristas esperavam foram para o
Seminário dos Olivais. Sou
uma espécie de 'fascista de serviço'. Cada vez que alguém diz que não se dá voz
ao outro lado, "Ah, espera, temos o
Jaime Nogueira Pinto". Quando disse
isto ao Jaime Gama ele respondeu: "Não, o Jaime é um patriota que entendeu o mundo
moderno". Acho que vou pôr isso no currículo [ri].Mas, quer saber? Desde que apareceu o Chega ninguém me
convida para nada. Só me convidam para falar do Sudão, ou coisa que o valha. No
programa que tenho com Pedro Tadeu, moderado por Maria Flor Pedroso [Radicais
Livres], afirmei que ninguém quer ouvir alguém que racionalize esta
coisa. Mas estudei o assunto - agora vou reeditar o livro "A Direita e as Direitas", com actualização. Já viu a nossa revista nova?
Não vi, não.
É
a terceira que faço. Fiz uma em 1969
e lancei outra em 1980, quando voltei dos exílios, que durou mais de
20 anos. Estava à espera que alguém com 20 ou 40 anos fizesse uma coisa como
esta e me viesse pedir ajuda. Ninguém fez, fiz eu. Eu e o Rui Ramos
somos co-directores. Temos quase mil assinantes. A revista é trimestral,
começou em Setembro de 2022. Quando mostrei isto ao [Jaime] Gama ele disse
logo: "A esquerda não tem capacidade para fazer uma coisa destas". E
não tem.
"Prefiro ser governado por comunistas portugueses
do que por conservadores belgas ou alemães."
- A ideia dos
intelectuais de esquerda. É mito?
A
esquerda conseguiu fazer passar a ideia do intelectual de esquerda e a direita
ajudou muito nisso. De facto, tenho correligionários que são burros que nem
portas e exploram o género. Mas a esquerda também está cheia de burros. Chegamos
a uma idade em que concluímos coisas que quando somos miúdos não temos
capacidade de ver: há causas boas servidas por pessoas más e causas más
servidas por pessoas boas.
Quer dar um
exemplo?
Olhe, pessoas boas a servir causas más, Ruben de
Carvalho, meu amigo, era do Comité Central do PC e comunista convicto. O
contrário não vou comentar.
A esquerda está muito maniqueísta. O que dantes era mais da
direita, aquela coisa do eles são maus, pérfidos, como o filme "Feios,
porcos e maus", é agora muito da esquerda, porque está apavorada - não
deixo de lhe confessar que achei imensa graça aos 50 deputados do Chega nos 50
anos do 25 de Abril.
Subiu de 12
para 50 deputados. Que significado atribui a este crescimento?
É
impressionante, mas também é sinal do desconcerto em que isto está. E,
sobretudo, o populismo tem um fundo de verdade: há uma quantidade de gente que
foi completamente esquecida e abandonada. E que, curiosamente - estou a
escrever sobre isto -, foi parar a estes partidos, que já existiam, mas
eram completamente marginais, tinham 6% ou 7% e, de repente, tiveram uma
subida enorme, exactamente porque as pessoas foram abandonadas.
Os
partidos do chamado centrão dominaram a política europeia durante 40 ou 50
anos, normalmente à direita os democratas cristãos, ou coisa semelhante, e à
esquerda os socialistas e sociais-democratas. Os 50 anos são, de facto, o ponto
de viragem dos sistemas.
Em Itália, foi nos anos 90, a democracia
cristã desapareceu com os escândalos. Os
partidos comunistas, de certo modo, também se esvaíram com o fim da União
Soviética. Mas, é curioso, porque com a desindustrialização os operários
franceses passaram a votar em quem? No Rassemblement
National.
Em
Portugal não tivemos esse problema, para começar, porque não tínhamos uma
grande indústria, não tínhamos grandes fábricas além da siderurgia. Mas tivemos
um deserto ideológico muito grande, porque estes partidos, a chamada
direitinha, também já não corresponde ao que é a direita. Esta
subida do Chega é curiosa, muito à custa de todos os partidos, mas, no
Alentejo, à custa do PCP.
Acredita que o Chega vai continuar a crescer?
Não há razões para parar. Quer dizer, pode parar se
não souber gerir este sucesso.
E sabe, tem cabeças?
É o problema dos quadros médios. Um partido novo tem esse problema, um afluxo
completamente inesperado, passam de 1,30% e um deputado em 2019 para mais de
18% e 1,2 milhões em 2024. Claro que não vai continuar a crescer assim.
Mas as razões do crescimento estão lá. Isto é uma
coisa europeia, uma vaga. Quando se quer comparar com o PRD, não há comparação
possível. O PRD estava entre o PSD e o PS e era uma coisa feita de cima para
baixo. E não havia uma vaga europeia.
Há um caso histórico conhecido, um partido que cresce
assim, o Nacional Socialismo, na Alemanha. Cresce até chegar à vitória, em
1932, quando tem as grandes votações populares. Em 1933, quando chega ao poder,
adere tudo, da aristocracia alemã em peso aos professores universitários.
Essa coisa dos deplorables da [Hillary]
Clinton é muito importante. Nos Estados Unidos, nos últimos 40 anos, os poucos
mais ricos ficaram cada vez mais ricos, enquanto nas chamadas classes
trabalhadoras e na classe média os rendimentos se mantiveram.
"Tenho correligionários que são burros que nem portas e exploram o
género. Mas a esquerda também está cheia de burros."
E Trump voltou a ganhar, desta vez a Harris.
Nunca estive
convencido de que Trump fosse perder. A máquina de wishful thinking levou
a que grande parte das pessoas que confiaram no jornalismo, nos comentadores e
nas suas análises esquecesse a realidade. E não vi ninguém fazer um mea
culpa, pedir desculpa pelo que aconteceu. Agora, entretêm-se a demolir as
escolhas de Trump.
Tenho
procurado explicar e insistido que, para o bem e para o mal, esta é uma vaga de
fundo, não é como as fábulas dos maus. Bolsonaro, Meloni, Milei, Trump... Se
continuam com esta análise maniqueísta, vão ter surpresas muito desagradáveis.
A esquerda também podia ter a humildade de reconhecer que foi um erro ter
deixar que o 'wokismo' fosse a sua bandeira, com propostas minoritárias e
absurdas. Uma coisa é ter
tolerância, outra é serem as minorias muito minoritárias a fazer a agenda.
As pessoas precisam de rótulos, estão cansadas
do 'wokismo' e a direita assiste impávida, é isso?
Esta cultura que
a esquerda marginal, mas intelectual, quer impor, esta coisa do 'wokismo', dos
homens vestidos de mulheres, mulheres vestidas de homem, são coisas que chocam
os tais deplorables, é um problema que mobiliza muita gente, as pessoas
estão fartas, não querem.
E como os
partidos chamados respeitáveis têm muito medo de tudo o que tenha a ver com
valores, de entrar nestas discussões, porque não podem, não é politicamente
correto, têm de ser inclusivos, evidentemente que partidos como o Chega têm aí
amplo terreno para crescer. As pessoas estão fartas, sobretudo nas sociedades
onde já ninguém persegue ninguém.
Já ninguém persegue homossexuais, ou LGBTI+,
negros e outras minorias?
Sou de uma
geração em que um miúdo mais efeminado era perseguido, davam-lhe cachações. Em
relação aos negros até se dizia que davam sorte, porque não havia. Quando eu
era miúdo, não se viam. Em 1961, tinha começado a guerra em Angola, houve um
comício organizado por Santos da Cunha, lá fui eu a Braga, tinha uns 15 anos.
Foi a seguir aos
massacres e aos ataques da UPA. E a organização queria ter um africano, mas não
havia. Descobriram um que era engraxador na Póvoa de Varzim, puseram-lhe um
fato, e ele foi para uma frisa. O Santos da Cunha, que era um cacique com tudo
muito bem organizado, fazia uns gestos e a palavra de ordem era "mandai buscar Salazar".
Aquilo ia
subindo de tom. Chega uma altura do discurso e ele começa: "Ó, e que vejo eu? Vejo um irmão dessas terras
longínquas de África. Irmão, onde estás? Vem a meus braços". E
caminhou para o sítio onde ele estava. O africano, que devia ter bebido e
comido bem, cai da frisa. Foi uma cena extraordinária. Mas hoje não há estas coisas. O que as pessoas querem é exibir aquilo
que é do foro privado, da sua intimidade. Os heterossexuais também não andam
aos berros a fazer manifestações.
No 25 de
Novembro já não era um miúdo, nem antes, no 25 de Abril. Fez tropa?
No 25 de Abril já era muito velho, tinha 28 anos. Estava na tropa à espera de ir para
o Ultramar. Porque nessa altura - hoje já não, fiz uma operação para corrigir a
miopia -, tinha sete dioptrias num olho e cinco noutro, era completamente
pitosga.
Estive em Mafra
para fazer o Curso de Oficial de Milicianos, tinha-me oferecido para
atirador de infantaria, mas fui recusado [ri]. E fui para a Acção
Psicológica, onde estava o António Franco, o Seixas da Costa, o Arnaldo
Cadavez, o Manuel Cavaleiro Brandão.
O problema é que as mobilizações para o Ultramar
faziam-se a partir dos que tinham piores notas, que iam primeiro. Como eu tinha boas nota,
ofereci-me, mas nunca mais me chamavam. Então, um mês ou um mês e meio antes do 25 de Abril, troquei com um
camarada que estava mobilizado, o Arnaldo Cadavez.
Por causa disso,
estava à espera no Estado-Maior, na segunda repartição, à
espera de embarcar para Angola. Veio o 25 de
Abril e não tínhamos telefone em casa, morávamos num prédio atrás do Campo
Grande, a minha sogra telefona eram umas oito da manhã. E vem o porteiro, o
senhor Moura, chamar. Fui atender e a minha sogra disse: "Olha que há uma revolução em Lisboa".
Nessa altura fiz aquilo que era suposto, telefonei para o meu chefe a perguntar
o que havia de fazer. "Para já,
fique em casa quieto até vermos no que isto vai dar". E fiquei quieto, fui
para casa dos meus sogros onde havia telefone e fui telefonando.
("Há
causas boas servidas por pessoas más e causas más servidas por pessoas
boas.")
Foi na
altura dos nacionalistas revolucionários?
Sim, este grupo,
eu, o Júdice, o grupo de Coimbra, o José Carlos Vieira de Andrade,
chamávamo-nos nacionalistas revolucionários. Tínhamos percebido que o trunfo já
não eram os generais. Naquela altura,
quem desse o golpe ganhava, porque estava tudo farto de Marcello Caetano.
Aliás, houve na esquerda quem pensasse que o golpe era de Kaúlza [de Arriaga]. Só que Kaúlza, um homem corajoso e inteligente,
com quem às vezes eu falava destas coisas, não tinha, como a direita, a noção
do tempo e de que os outros também estavam a avançar. Dizia: "O presidente
da República tem um plano". E eu respondia sempre, "esse plano é
capaz de já vir tarde..." Foi o que aconteceu.
No próprio dia 25 de Abril tive a noção de querer ir
para África, talvez fosse uma utopia, mas tínhamos muito a ideia da nação pluricontinental, plurirracial, integrada.
Achávamos que isso é que era bom para o país e para os portugueses. E não era
assim tão pouca gente.
Acho que o
que aguentou o regime mais tempo foi, curiosamente, a própria guerra. Em 1961,
o regime estava no fundo, viu-se nas eleições de Delgado, que mostraram que já
havia muita contestação, mesmo entre a classe média. Até por uma coisa simples: de onde vinha grande parte do
apoio ao regime de Salazar? Do campo e das classes médias, que tinham sofrido
muito com as perseguições da Primeira República. Essa gente já estava a fazer
60 anos nos anos 50. Para as novas gerações, a ideia de um regime autoritário,
sem partidos, na Europa Ocidental - nós e os espanhóis, que, apesar de tudo,
tinham tido uma guerra civil -, não fazia sentido.
A guerra veio trazer outra vez um certo apoio popular,
porque muita gente fica indignada com os ataques da UPA em Angola, vivi isso.
Com 15 anos já tinha algumas ideias políticas, mais depressa esquerdistas, como
toda a gente na época - éramos miúdos, os livros que líamos eram de comunistas
italianos, editados pela Miniatura, os tais que não se podiam ler e líamos
todos.
Nessa altura,
a propaganda funcionou bem. Aliás, há uma série de gente da chamada oposição
republicana que faz declarações de apoio à política do governo. E isso deu uma
certa força ao regime, que rendeu mais uns anos. Depois foi o contrário, a usura
que chegou aos quadros militares. E temos aí a chave do problema do 25 de
Abril, é que as armas combatentes na academia militar começam a não ter
candidatos. A solução é começar a criar aquele quadro especial de oficiais, os
que faziam o serviço de comissão já em África e "metiam o Chico", e é
isso que leva ao descontentamento e ao Movimento dos Capitães.
(CONTINUA)
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