domingo, 23 de novembro de 2025

Mais uma lição

 

Da História ainda recente, serenamente narrada, para um posicionamento em consciência tomado, sem os obstáculos do parti pris que tem sido tantas vezes norma, ultimamente.

Nos 50 anos da morte de Franco

D. Juan Carlos de Borbón, nas suas memórias, tratou Franco com respeito, desafiando o “discurso institucional”. Foi Franco quem o fez rei, mas Juan Carlos poderia tê-lo esquecido, e não o fez.

JAIME NOGUEIRA PINTO Colunista do Observador

OBSERVADOR, 22 nov. 2025, 00:1830

A 20 de Novembro de 1975 morreu Francisco Franco (1892-1975), chefe militar vencedor da Guerra Civil e “Caudillo” de Espanha por quase 40 anos. A sua história confunde-se com a História da Espanha do século XX e foi determinante, para o bem e para o mal, para o que ali se passou e passa.

Talvez por isso, seja de registar e louvar o facto de D. Juan Carlos de Borbón, nas suas memórias, agora publicadas em França, ter tratado Franco com respeito, objectividade, e até afecto, desafiando o “discurso institucional”. Será também um acto de gratidão – foi Franco quem o fez rei, quem o “restaurou” ou “instaurou” – mas poderia tê-lo esquecido, e não o fez.

Franco, Francisco Franco y Bahamonde, nasceu no Ferrol, na Galiza, em 1892 numa família de oficiais de Marinha que se destruturou quando o pai, Nicolás Franco Salgado-Araújo, abandonou a mulher e os cinco filhos e partiu para Madrid com Agustina Aldana. Nicolás, que tivera uma boa carreira na Academia Naval e combatera em Cuba e nas Filipinas, era um liberal com laivos maçónicos. Casara em 1890 com Pilar Bahamonde y Pardo de Andrade, uma mulher católica, melancólica e determinada. Bebia e era, em casa, autoritário e duro para com a mulher e os filhos.

General aos 33 anos

Franco era de baixa estatura e não conseguiu entrar na Marinha por não ter altura suficiente, mas foi para o Exército, para a Academia Militar de Toledo. Serviu nas guerras de Marrocos entre 1912 e 1926 e, no quadro das promoções por bravura em combate, chegou a general em 1925, com 33 anos. Depois, foi director da Academia Militar de Saragoça e o governo centro-direitista de Gil Robles nomeou-o Chefe do Estado Maior do Exército.

Era, acima de tudo, um militar profissional, e é como tal que se conduz até 1936. Tinha convicções patrióticas e conservadoras, mas não conspirou contra a República, proclamada em 1931. Em Fevereiro de 1936, a Frente Popular, uma coligação de toda a Esquerda, incluindo comunistas, anarquistas, socialistas e separatistas vascos e catalães, ganhou, por pequena diferença, as eleições parlamentares. E seguiu para a deriva tradicional das esquerdas ibéricas matar padres, queimar igrejas, ocupar propriedades e esmagar a reacção, no caso, usando milícias e bandos armados. Havia em Espanha um partido fascista – ou nacionalista revolucionário – a Falange, fundado por José António Primo de Rivera, um líder carismático inspirado pelos princípios do nacional sindicalismo. E os falangistas, atacados, começaram a defender-se.

A violência escalou, mas os quartéis mantiveram-se tranquilos, apesar da tensão social. Franco, como militar profissional, esperou e só se decidiu quando um grupo de Guardas de Assalto e milicianos socialistas foi, à noite, a casa do deputado Calvo Sotelo, líder da direita conservadora e, sob o pretexto de o conduzir à Direcção Geral de Segurança, o levou “de paseo” e o matou, em plena Madrid. Foi na noite de 13 de Julho. A partir daí, Franco entrou na conspiração e partiu no “vuelo del Dragon Rapide” das Canárias para Marrocos. A 18 de Julho aconteceu o Alzamiento em Marrocos e em toda a Espanha.

A guerra civil

Mas a Esquerda Unida contou com a disciplina da maioria dos generais e da Guardia Civil e mobilizou a rua nas grandes cidadesMadrid, Barcelona e Valência. Por isso, a revolta militar falhou ali e começou uma longa guerra civil. De um lado, conservadores, católicos monárquicos e fascistas; do outro, comunistas, socialistas e anarquistas. Os liberais e os centristas dividiram-se, já que não tinham espaço próprio na polarização.

A violência foi de parte a parte: as “retaguardas” são sempre ferozes e os “suspeitos”, às vezes definidos em função da classe social, eram vítimas onde ganhava o outro lado. A guerra internacionalizou-se com as Brigadas Internacionais, articuladas por Moscovo, e os apoios a Francoem transporte, logística e contingentes militares – de Mussolini e Hitler. Salazar e Portugal apoiaram os militares anticomunistas, sobretudo diplomaticamente. Como muito bem explica José Luís Andrade na sua tese sobre a Guerra Civil, os Viriatos não foram muitos.

Mas Franco venceu e, graças também a Salazar, evitou envolver-se na Segunda Guerra Mundial. Depois – tal como o Estado Novosobreviveu, salvo pela Guerra Fria, quando os autoritarismos peninsulares foram tolerados por Washington, como alternativas ao comunismo soviético. Depois de um período de isolamento e sanções, a partir dos anos 1950, os Estados Unidos de Eisenhower e Foster Dulles abriram à Espanha, com os “Pactos de Madrid” de 1953; em 1957-1958, deram-se as entradas do país no FMI, no Banco Mundial e no BIRD; e, em 1959 veio “El Plan de Estabilización”, que marcou a saída da autarquia e a entrada num tempo de liberalização, industrialização e abertura da economia.

O Milagre Económico

Foi o princípio do chamado “Milagre Económico Espanhol”, da década e meia que vai do início dos anos 60 até à morte de Franco. O autoritarismo sempre facilita o cumprimento dos planos de desenvolvimento e as equipas encabeçadas por Laureano Lopez-Rodó, um fiel da Opus Dei, conseguiram números impressionantes: nos primeiros quatro anos do Plano, a renda per capita passou de 31.000 pesetas para 36.000, o crescimento industrial foi de 9,4% ao ano e os turistas passaram de 11 000.000 para 18 000.000. No Ensino, os estudantes primários, liceais e universitários passaram de cerca de 4 000.000 para 5 500.000.

Mas a Espanha tinha e tem um problema que o progresso económico-social pode atenuar mas não pode resolveros separatismos vasco e catalão. O Partido Nacionalista Vasco (PNV) era um partido independentista da burguesia vasca, assim como na burguesia catalã existiam correntes separatistas. No século XIX, os separatistas estavam tranquilos, porque o desenvolvimento dos seus negócios era protegido pelas fronteiras e tarifas de Espanha. Depois, na guerra civil, os separatismos despertaram, mas no final foram dominados. Entretanto, em 1959, o ano de arranque do Milagre Espanhol, fundou-se também a ETA (Pátria Basca e Liberdade), um movimento inicialmente “cultural” que evoluiu para o terrorismo e que, apesar de “nacionalista basco”, adoptou o radicalismo marxista-leninista e a acção directa. A partir de Julho de 1968, assassinou mais de 800 pessoas.

A Sucessão

Ao contrário de Salazarque, como bom pessimista antropológico agostiniano, achava que os seus deveres políticos terminavam com a sua vida –, Franco pensou a sucessão e, apesar da oposição de falangistas como José António Girón de Velasco, seguiu a opinião de Lopez-Rodó e do general Camilo Alonso Vega e preparou e impôs, como rei, o neto de Afonso XIII, Juan Carlos de Borbón, numa monarquia restaurada. Porém, impôs como guardião e vigilante do futuro rei o almirante Carrero Blanco, um católico nacionalista, conservador e autoritário. Todos os dias à mesma hora Carrero Blanco fazia o mesmo percurso pela Calle Claudio Coelho, uma paralela à Calle Serrano, a fim de ouvir missa na igreja dos jesuítas. Ora, em Dezembro de 1973, um comando da ETA levou a efeito a chamada “Operación Ogro”, que culminou com o rebentamento do carro do Almirante.

Franco foi e será sempre uma personalidade limite, admirada por uns, odiada por outros, como grande parte dos líderes que fogem à conveniência do “rigorosamente ao centro”.

Para acabar, uma história pessoal: conheci, no final dos anos setenta, o general Vernon Walters. Walters (1917-2002) serviu na Segunda Guerra Mundial e, devido aos seus talentos de poliglota (falava 14 idiomas, entre eles português, com algum sotaque brasileiro), serviu desde Truman sucessivos presidentes americanos como tradutor. Assim acompanhou Eisenhower a Espanha, conhecendo aí Franco.

No tempo de Nixon, foi Director Adjunto da CIA. Conheci-o no Verão de 1980, numa reunião no Liechtenstein, em que ele nos disse que Ronald Reagan seria o próximo presidente dos Estados Unidos. E foi. Encontrámo-nos depois algumas vezes nos anos 80, quando ele era embaixador extraordinário de Reagan, visitando mais de 100 países em “silent missions”, título que acabaria por dar às suas memórias.

Um dia, em Washington, contou-me que, quando no início dos anos 70, Franco, que era um caçador e pescador inveterado, começou a falhar perdizes, os serviços de inteligência americanos foram alertados para isso e Nixon pediu a Walters que, dadas as suas boas relações com o Caudillo, o visitasse e tentasse perceber o que ia ser da Espanha quando ele desaparecesse.

Walters foi ver Franco: “Como não era muito agradável pôr a questão directamente, ou seja, perguntar ao próprio o que aconteceria em Espanha depois de ele desaparecer, comecei por lhe dizer que trazia os cumprimentos e a admiração de Nixon – contava-me Walter – e que o Presidente gostaria de saber o que ele, general Franco, grande expert da geopolítica do Mediterrâneo, pensava da situação política e da evolução próxima no Mediterrâneo Ocidental”. Ao que Franco lhe respondera: “Vocês sabem muito melhor do que eu da situação geopolítica do Mediterrâneo Ocidental; o que o General e o presidente Nixon querem saber é o que vai acontecer à Espanha quando eu desaparecer. Podem ficar descansados… Vai correr bem. Acabei com essa coisa das ‘duas Espanhas’, a dos ricos e a dos pobres, quando desenvolvi o país e criei uma classe média. A Espanha vai ser uma democracia e vai ficar do lado do Ocidente. Não sei se a democracia vai ser boa para a Espanha e para o povo espanhol, mas para o que vos interessa, para o que é bom para vocês, ficará do lado certo da Guerra Fria, podem ficar sossegados. Passe muito bem, General. E dê os meus cumprimentos ao Presidente Nixon”.

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COMENTÁRIOS (de 46)

José B Dias: Excelente e arrasador para as narrativas que hoje por aí continuam a adulterar os factos e a História!                   Alberto Sousa: O detalhe e a profundidade com que os textos do JNP são feitos trazem sempre um novo ângulo de observação... Obrigado                AL MA: Excelente artigo que sem “lados” descreve uma figura marcante, do século passado, e como chegou ao poder, e por que razões, notável, em meia dúzia de linhas.                      João Floriano: Por cá «desenterra-se» o Salazar. Em Espanha Franco deixou de ter sossego desde que Sanchez é chefe do governo. Basta ouvir os longos debates na TV, para perceber que nunca se falou tanto de Franco e dos «possíveis perigos» se a esquerda finalmente for derrotada nas urnas, o que quer dizer que tal como cá,  continuará a sua propaganda na CS e nas universidades. Apesar de dizerem cobras e lagartos de Franco, alguma coisa de bom deve ter feito para Espanha ter sido durante alguns anos o gigante adiado da economia europeia. E uso o termo adiado porque a esquerda está  a destruir a coesão territorial do país e isso tem consequências económicas.               Tim do A: Excelente. No campo da sucessão Franco foi mais inteligente do que Salazar. Antes tivéssemos a monarquia. Assim não teríamos ficado com este inepto do Marcelo. Horrível.                  SDC Cruz: A História contada por quem melhor a conhece. É sempre com enorme prazer que aguardo pelos Sábados. A cada leitura, fico mais rico intelectualmente. Obrigado, Jaime Nogueira Pinto, por mais esta lição. Até para a semana.   Carlos Chaves: Caríssimo Jaime Nogueira Pinto, muito obrigado por nos trazer aqui todos estes “facts and figures” relativos ao percurso de Franco, de uma maneira enxuta e sem viés ideológico! Uma autêntica lição de história muito condensada sobre o período Franquista dos nossos vizinhos Espanhóis.   P.S. Obrigado pela partilha da deliciosa estória que apensou no epílogo.              João Floriano > Mário Costa: Tenho de lhe dar razão. À esquerda há cada génio, que é de nos deixar de queixo caído de tanta «sabedoria». Nada melhor do que a esquerda woke para nos apresentar a História.......da Carochinha e do João Ratão cozido no caldeirão.             Carlos Costa > Mário Costa: Sim, é, todos os da esquerda são inteligentes, equilibrados e verticais.  Tá boa essa, muito boa...                    Mário Costa: Sou um cidadão de esquerda, mas admiro Jaime Nogueira Pinto na forma e no conteúdo como explica a quem gosta de história, os factos. Deve ser um dos raros homens de direita, inteligente, equilibrado e vertical. Parabéns Professor                António Costa e Silva: Sempre superiores os artigos de Jaime Nogueira Pinto. O apoio de Portugal aos nacionalistas foi determinante no início da guerra civil; logo nas primeiras semanas, Salazar permitiu a passagem através de Portugal de um importante transporte de armas e munições a partir de Sevilha, tomada por um golpe de audácia de Queipo de Llano, para o Norte de Espanha, onde as tropas de Mola, os voluntários Requetés e Falangistas estavam em grande risco por falta de munições. Tenho um livro anotado por Pedro de Barcellos, voluntário português na guerra de Espanha, que conta a sua participação num comboio de 400 camiões organizado em Portugal de apoio aos nacionalistas no início da guerra. Há poucos anos ainda foi possível mostrar aos meus filhos o Alcazar de Toledo e o gabinete de Moscardó e contar a sua história única de sacrifício e de bravura. Nunca será de mais salientar a clareza com que Salazar viu e defendeu o interesse de Portugal nas grandes guerras europeias do século passado.            madalena colaço: Falhava as perdizes, mas intelectualmente continuava em plena forma. Obrigado por partilhar as suas histórias pessoais, muito mais edificantes que muitos livros de História.              JML: Excelente.               Maria Nunes: Obrigada JNP, por mais um excelente artigo. Conciso e sem ideologias. 


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