Da História ainda recente, serenamente narrada, para um
posicionamento em consciência tomado, sem os obstáculos do parti pris que tem sido tantas vezes norma, ultimamente.
Nos 50 anos da morte
de Franco
D. Juan Carlos de Borbón, nas suas memórias, tratou Franco com
respeito, desafiando o “discurso institucional”. Foi Franco quem o fez rei, mas
Juan Carlos poderia tê-lo esquecido, e não o fez.
JAIME NOGUEIRA PINTO Colunista do Observador
OBSERVADOR, 22
nov. 2025, 00:1830
A 20 de Novembro de 1975 morreu
Francisco Franco (1892-1975), chefe militar
vencedor da Guerra Civil e “Caudillo” de Espanha por quase 40 anos. A sua história confunde-se com a História
da Espanha do século XX e foi determinante, para o bem e para o mal, para o que
ali se passou e passa.
Talvez por isso, seja de
registar e louvar o facto de D. Juan Carlos de Borbón, nas suas memórias, agora publicadas em França, ter tratado Franco com respeito, objectividade, e até afecto, desafiando
o “discurso institucional”. Será também um acto de
gratidão – foi Franco quem o fez rei, quem o “restaurou” ou “instaurou” – mas
poderia tê-lo esquecido, e não o fez.
Franco, Francisco Franco y Bahamonde,
nasceu no Ferrol, na Galiza,
em 1892 numa família de oficiais de Marinha que se destruturou quando o pai, Nicolás Franco Salgado-Araújo, abandonou a mulher e os cinco filhos e
partiu para Madrid com Agustina Aldana. Nicolás, que tivera uma boa carreira na Academia
Naval e combatera em Cuba e nas Filipinas, era um liberal com laivos maçónicos.
Casara em 1890 com Pilar Bahamonde y Pardo de Andrade, uma mulher católica, melancólica e
determinada. Bebia e era, em casa, autoritário e duro para com a mulher e os
filhos.
General aos 33 anos
Franco era de baixa estatura e não conseguiu entrar na Marinha por não ter
altura suficiente, mas foi para o Exército, para a Academia Militar de Toledo. Serviu nas guerras de Marrocos entre 1912 e 1926 e, no
quadro das promoções por bravura em combate, chegou a general em 1925, com 33
anos. Depois,
foi director da Academia Militar de Saragoça e o governo centro-direitista de
Gil Robles nomeou-o Chefe do Estado Maior do Exército.
Era, acima de tudo, um militar
profissional, e é como tal que se conduz até 1936. Tinha convicções patrióticas e conservadoras, mas não
conspirou contra a República, proclamada em 1931. Em Fevereiro de 1936, a Frente Popular, uma coligação de toda a Esquerda, incluindo comunistas, anarquistas,
socialistas e separatistas vascos e catalães, ganhou, por pequena diferença, as
eleições parlamentares. E seguiu para a deriva tradicional
das esquerdas ibéricas – matar
padres, queimar igrejas, ocupar propriedades e esmagar a reacção, no caso,
usando milícias e bandos armados. Havia em
Espanha um partido fascista – ou nacionalista revolucionário – a Falange, fundado por José António Primo de Rivera, um
líder carismático inspirado pelos princípios do nacional sindicalismo. E os falangistas, atacados, começaram a
defender-se.
A violência escalou, mas os
quartéis mantiveram-se tranquilos, apesar da tensão social.
Franco, como militar profissional, esperou e só se decidiu quando um grupo de
Guardas de Assalto e milicianos socialistas foi, à noite, a casa do deputado Calvo
Sotelo, líder
da direita conservadora e, sob o pretexto de o conduzir à Direcção
Geral de Segurança, o levou “de paseo” e o matou, em plena Madrid. Foi na
noite de 13 de Julho. A partir
daí, Franco entrou na conspiração e partiu no “vuelo del Dragon Rapide” das Canárias para Marrocos. A 18 de Julho aconteceu
o Alzamiento em
Marrocos e em toda a Espanha.
A guerra civil
Mas a Esquerda Unida contou
com a disciplina da maioria dos generais e da Guardia
Civil e mobilizou a rua nas grandes cidades – Madrid,
Barcelona e Valência. Por isso,
a revolta militar falhou ali e começou uma longa guerra civil. De um
lado, conservadores, católicos monárquicos e fascistas; do outro, comunistas,
socialistas e anarquistas. Os
liberais e os centristas dividiram-se, já que não tinham espaço próprio na
polarização.
A violência foi de parte a parte: as “retaguardas” são sempre ferozes e os “suspeitos”,
às vezes definidos em função da classe social, eram vítimas onde ganhava o outro
lado. A
guerra internacionalizou-se com as Brigadas
Internacionais,
articuladas por Moscovo, e os
apoios a Franco – em transporte, logística e
contingentes militares – de Mussolini e Hitler. Salazar e Portugal apoiaram
os militares anticomunistas, sobretudo diplomaticamente. Como muito bem explica José Luís Andrade na sua tese sobre a Guerra
Civil, os Viriatos não foram muitos.
Mas Franco venceu e, graças também a Salazar, evitou
envolver-se na Segunda Guerra Mundial. Depois – tal como o Estado
Novo – sobreviveu,
salvo pela Guerra Fria, quando os autoritarismos peninsulares foram tolerados
por Washington, como alternativas ao comunismo soviético. Depois de
um período de isolamento e sanções, a partir dos anos 1950, os Estados Unidos
de Eisenhower e Foster Dulles abriram à Espanha, com os “Pactos de Madrid” de 1953; em 1957-1958,
deram-se as entradas do país no FMI, no Banco Mundial e no BIRD; e,
em 1959 veio “El Plan de Estabilización”, que marcou a saída da autarquia e a entrada num tempo
de liberalização, industrialização e abertura da economia.
O Milagre Económico
Foi o princípio do chamado “Milagre
Económico Espanhol”,
da década e meia que vai do início dos anos 60 até à morte de Franco. O
autoritarismo sempre facilita o cumprimento dos planos de desenvolvimento e as
equipas encabeçadas por Laureano
Lopez-Rodó, um fiel da Opus
Dei, conseguiram números impressionantes: nos primeiros quatro anos do Plano, a renda per
capita passou de 31.000 pesetas para 36.000, o crescimento industrial foi
de 9,4% ao ano e os turistas passaram de 11 000.000 para 18 000.000. No
Ensino, os estudantes primários, liceais e universitários passaram de cerca de
4 000.000 para 5 500.000.
Mas a Espanha tinha e tem um problema que o progresso
económico-social pode atenuar mas não pode resolver – os
separatismos vasco e catalão. O Partido Nacionalista Vasco (PNV) era
um partido independentista da burguesia vasca, assim como na burguesia catalã
existiam correntes separatistas. No século
XIX, os separatistas estavam tranquilos, porque o desenvolvimento dos seus
negócios era protegido pelas fronteiras e tarifas de Espanha. Depois, na guerra civil, os separatismos
despertaram, mas no final foram dominados. Entretanto, em 1959, o ano de arranque do Milagre
Espanhol, fundou-se também a ETA (Pátria Basca e Liberdade), um movimento inicialmente “cultural” que
evoluiu para o terrorismo
e que, apesar de “nacionalista basco”, adoptou o radicalismo
marxista-leninista e a acção directa. A
partir de Julho de 1968, assassinou mais de 800 pessoas.
A Sucessão
Ao contrário de Salazar – que, como bom pessimista antropológico agostiniano,
achava que os seus deveres políticos terminavam com a sua vida –, Franco pensou a sucessão e, apesar
da oposição de falangistas como José António Girón de Velasco, seguiu a opinião
de Lopez-Rodó e do general Camilo Alonso Vega e preparou e impôs, como rei, o neto de
Afonso XIII, Juan Carlos de Borbón, numa monarquia restaurada.
Porém, impôs como guardião e vigilante do
futuro rei o almirante Carrero
Blanco, um
católico nacionalista, conservador e autoritário.
Todos os dias à mesma hora Carrero
Blanco fazia o mesmo percurso pela Calle Claudio Coelho, uma paralela à Calle
Serrano, a fim de ouvir missa na igreja dos jesuítas. Ora, em
Dezembro de 1973, um comando da ETA levou a efeito a chamada “Operación Ogro”,
que culminou com o rebentamento do carro do Almirante.
Franco foi e será sempre uma personalidade limite,
admirada por uns, odiada por outros, como grande parte dos líderes que fogem à
conveniência do “rigorosamente ao centro”.
Para acabar, uma história
pessoal: conheci, no final dos anos setenta, o general Vernon Walters. Walters (1917-2002) serviu na Segunda Guerra Mundial
e, devido aos seus talentos de poliglota (falava 14 idiomas, entre eles
português, com algum sotaque brasileiro), serviu desde Truman sucessivos
presidentes americanos como tradutor. Assim acompanhou Eisenhower a Espanha,
conhecendo aí Franco.
No tempo de Nixon, foi Director Adjunto
da CIA. Conheci-o no Verão de 1980,
numa reunião no Liechtenstein, em que ele nos disse que Ronald Reagan seria o
próximo presidente dos Estados Unidos. E foi. Encontrámo-nos depois algumas vezes nos
anos 80, quando ele era embaixador extraordinário de Reagan, visitando mais de
100 países em “silent
missions”, título que acabaria por
dar às suas memórias.
Um dia, em Washington, contou-me
que, quando no início dos anos 70, Franco, que era um caçador e pescador
inveterado, começou
a falhar perdizes, os serviços de inteligência americanos foram alertados para
isso e Nixon pediu a Walters que, dadas as suas boas relações com o Caudillo, o visitasse e tentasse perceber o que ia ser da Espanha quando ele
desaparecesse.
Walters foi ver Franco: “Como não
era muito agradável pôr a questão directamente, ou seja, perguntar ao próprio o
que aconteceria em Espanha depois de ele desaparecer, comecei por lhe dizer que
trazia os cumprimentos e a admiração de Nixon – contava-me Walter – e que o
Presidente gostaria de saber o que ele, general Franco, grande expert da
geopolítica do Mediterrâneo, pensava da situação política e da evolução próxima
no Mediterrâneo Ocidental”. Ao que Franco lhe respondera: “Vocês
sabem muito melhor do que eu da situação geopolítica do Mediterrâneo Ocidental;
o que o General e o presidente Nixon querem saber é o que vai acontecer à
Espanha quando eu desaparecer. Podem ficar descansados… Vai correr bem. Acabei
com essa coisa das ‘duas Espanhas’, a dos ricos e a dos pobres, quando
desenvolvi o país e criei uma classe média. A Espanha vai ser uma democracia e vai ficar do lado
do Ocidente. Não sei se a democracia vai ser boa para a Espanha e para o povo
espanhol, mas para o que vos interessa, para o que é bom para vocês, ficará do
lado certo da Guerra Fria, podem ficar sossegados. Passe muito bem, General. E
dê os meus cumprimentos ao Presidente Nixon”.
A SEXTA
COLUNA HISTÓRIA CULTURA ESPANHA EUROPA MUNDO JUAN CARLOS
COMENTÁRIOS (de 46)
José B Dias: Excelente e arrasador para as
narrativas que hoje por aí continuam a adulterar os factos e a História! Alberto Sousa: O detalhe e a profundidade com
que os textos do JNP são feitos trazem sempre um novo ângulo de observação...
Obrigado AL
MA: Excelente artigo
que sem “lados” descreve uma figura marcante, do século passado, e como chegou
ao poder, e por que razões, notável, em meia dúzia de linhas. João Floriano: Por cá «desenterra-se» o
Salazar. Em Espanha Franco deixou de ter sossego desde que Sanchez é chefe do
governo. Basta ouvir os longos debates na TV, para perceber que nunca se falou
tanto de Franco e dos «possíveis perigos» se a esquerda finalmente for
derrotada nas urnas, o que quer dizer que tal como cá, continuará a sua
propaganda na CS e nas universidades. Apesar de dizerem cobras e lagartos de
Franco, alguma coisa de bom deve ter feito para Espanha ter sido durante alguns
anos o gigante adiado da economia europeia. E uso o termo adiado porque a
esquerda está a destruir a coesão territorial do país e isso tem
consequências económicas. Tim
do A: Excelente. No campo da sucessão Franco foi mais inteligente do que Salazar.
Antes tivéssemos a monarquia. Assim não teríamos ficado com este inepto do
Marcelo. Horrível.
SDC Cruz: A História contada por quem melhor a conhece. É sempre com enorme prazer que
aguardo pelos Sábados. A cada leitura, fico mais rico intelectualmente. Obrigado, Jaime Nogueira
Pinto, por mais esta lição. Até para a semana. Carlos Chaves: Caríssimo Jaime Nogueira
Pinto, muito obrigado por nos trazer aqui todos estes “facts and figures”
relativos ao percurso de Franco, de uma maneira enxuta e sem viés ideológico!
Uma autêntica lição de história muito condensada sobre o período Franquista dos
nossos vizinhos Espanhóis. P.S. Obrigado pela partilha da deliciosa estória que apensou no epílogo. João Floriano > Mário Costa: Tenho de lhe dar razão. À
esquerda há cada génio, que é de nos deixar de queixo caído de tanta
«sabedoria». Nada melhor do que a esquerda woke para nos apresentar a
História.......da Carochinha e do João Ratão cozido no caldeirão. Carlos Costa > Mário Costa: Sim, é, todos os da esquerda
são inteligentes, equilibrados e verticais. Tá boa essa, muito
boa...
Mário Costa: Sou um cidadão
de esquerda, mas admiro Jaime Nogueira Pinto na forma e no conteúdo como
explica a quem gosta de história, os factos. Deve ser um dos raros homens de
direita, inteligente, equilibrado e vertical. Parabéns Professor António Costa e Silva: Sempre superiores os artigos de Jaime Nogueira Pinto. O apoio de Portugal aos nacionalistas foi determinante
no início da guerra civil; logo nas primeiras semanas, Salazar permitiu a
passagem através de Portugal de um importante transporte de armas e munições a
partir de Sevilha, tomada por um golpe de audácia de Queipo de Llano, para o
Norte de Espanha, onde as tropas de Mola, os voluntários Requetés e Falangistas
estavam em grande risco por falta de munições. Tenho um livro anotado por Pedro de Barcellos,
voluntário português na guerra de Espanha, que conta a sua participação num
comboio de 400 camiões organizado em Portugal de apoio aos nacionalistas no
início da guerra. Há poucos anos ainda foi possível mostrar aos meus filhos o
Alcazar de Toledo e o gabinete de Moscardó e contar a sua história única de
sacrifício e de bravura. Nunca será de
mais salientar a clareza com que Salazar viu e defendeu o interesse de Portugal
nas grandes guerras europeias do século passado. madalena colaço: Falhava as perdizes, mas intelectualmente continuava
em plena forma. Obrigado por partilhar as suas histórias pessoais, muito mais
edificantes que muitos livros de História. JML: Excelente. Maria Nunes: Obrigada JNP, por mais um excelente artigo. Conciso e
sem ideologias.
Nenhum comentário:
Postar um comentário