sexta-feira, 7 de novembro de 2025

“Sacudir a água do capote”.


Um provérbio à medida. Acusar a Europa, ao mesmo tempo que correr para ela. Há muito que a Europa é responsabilizada pelo que aí vai. Sim, é certo, mas sobretudo porque foi influenciada por russos, americanos e quejandos. A Europa até gostou. E praticou. Mal ficaram os que estavam a europeizar essas Áfricas e demais sítios que os Europeus e povos latinizados ocupavam, porque de repente foram pontapeados de lá por esses mesmos povos do altruísmo ocupacional da actualidade. Talvez a Europa esteja a colher muito do que semeou, decerto por uma bondade excessiva, nascida lá nesses povos do leste e do oeste que querem ser eles sempre a ocupar, afinal, tamanhos que são. Os grandes colonialistas, está visto, a dar lições que eles próprios desprezam, para o seu sucessivo infiltramento... Como demonstram os ucranianos, por enquanto.

A Europa manifestou-se por Gaza, porque não pelo Sudão?

O terceiro-mundismo é, sobretudo, uma péssima análise da actualidade. Os terceiro-mundistas passam a vida a atacar um colonialismo morto, mas com uma mentalidade neocolonial doentiamente eurocêntrica.

BRUNO CARDOSO REIS Historiador e especialista em segurança internacional

OBSERVADOR, 07 nov. 2025, 00:164

Manifestações e protestos, vigílias e manifestos abundaram a respeito de Gaza. Foi-nos infligida toda uma flotilha de barcos de recreio a fingir que iam levar ajuda humanitária aos civis palestinianos vítimas do fogo cruzado entre o Hamas e Israel. Mostram que, ao contrário do que dizem, há muitos europeus que sentem, como eu também sinto muito, o sofrimento dos palestinianos. Mas sempre resisti à ideia de que a Europa – com mais ou menos protestos – poderia ter um papel decisivo nesse conflito, que não o teve, comprova-o o cessar-fogo, frágil mas indispensável, em Gaza, que foi negociado, sobretudo, pelos países da região e pelos EUA. Também não aceito a ideia de que Gaza é um conflito esquecido. Há outros 60 conflitos armados espalhados pelo Mundo, quase todos têm muito menos visibilidade do que Gaza. O Sudão à custa de massacres visíveis do espaço tem, agora, um pouco mais de atenção, mas sem manifestações que se comparem. É legítimo perguntar, porque não?

Gaza é um dos territórios mais pequenos do Mundo. Já o Sudão é o terceiro maior país de África. Os mais de 50 milhões de sudaneses estão, desde 2023, a braços com uma sangrenta guerra civil, a terceira que enfrentem desde a independência, em 1956. Na verdade, este país do Sahel teve apenas 10 anos de paz, e ainda menos de governação civil democrática, tendo passado por seis golpes de estado vitoriosos. Esta é uma guerra que já causou, pelo menos, 150.000 mortos, e 12 milhões de deslocados, seis vezes a população total de Gaza. Onde têm estado todos estes militantes tão preocupados com crises humanitárias?

Não duvido, repito, que muitos europeus estão verdadeiramente chocados com a situação humanitária em Gaza. Eu também estou. Mas é evidente que os promotores dos protestos relativamente a Gaza por essa Europa fora, foram bem para além dessas preocupações ou críticas legítimas. Uma parte importante representa a tentativa de regresso do Terceiro-Mundismo, que usando a defesa dos descamisados globais, procura combater os regimes liberais e a acusar a Europa livre de ser a culpada de todos os males do Mundo. Ora, as guerras no Sudão ou na Ucrânia não lhes são de grande serventia.

A guerra na Ucrânia é, por vezes, usada pelos que tentam passar a ideia de que só tem visibilidade por as vítimas serem europeias. Como se fosse ilegítimo acompanharmos com mais atenção uma guerra no nosso continente, que pode ameaçar-nos directamente. Ignoram ou escondem o facto de este ser o conflito armado mais mortífero do Mundo, em 2024. E se a maioria das baixas é de militares, isso é porque Kiev dá prioridade a tentar proteger os seus civis e concentra os seus ataques em alvos bélicos russos. Nem o facto de ser abertamente uma guerra de conquista pela Rússia, um exemplo público de imperialismo sangrento, mobiliza muitos destes supostos militantes anti-imperialistas.

O Sudão também não serve facilmente os que querem explorar o filão da culpa universal ocidental. Apesar de ser um conflito em que foram documentados mais de 1400 crimes de guerra em que os ex-Janjaweed, rebatizados de Forças de Apoio Rápido, massacram africanos, gritando slogans islamistas e racistas. Estas forças contam, sobretudo, com o apoio da Rússia ou dos Emiratos Árabes Unidos. É, portanto, difícil culpar o Ocidente do que por ali sucede. Não quer dizer que não tentem, fazem-no com a ideia de uma culpa por associação por via dos Emiratos Árabes Unidos, como se o país não tivesse, também, boas relações com a China ou a Rússia, esta última uma aliada no cartel do petróleo. Como se o Ocidente fosse culpado pelo que fazem todos os países com quem faz negócio, ou pudesse dar-se ao luxo de importar petróleo e gás apenas da exemplar Noruega. Porque é, essencialmente, disso que se trata para muitos destes organizadores e militantes: culpar a Europa livre por todos os males do Mundo, exigir que resolva todos os problemas globais, e, de caminho, para nos purgarmos dos pecados original de nascermos europeus, querem impor-nos aos dogmas desta seita.

Quais são os problemas da cartilha Terceiro-Mundismo? Desde logo, vem de um velho e gasto marxismo, apesar de, ironicamente, muitos jovens papaguearem o respectivo catecismo como se fosse uma grande novidade e não tivesse levado falhado uma e outra vez. É má História, que ignora a complexidade e nuance do passado em nome de um maniqueísmo politicamente motivado. O colonialismo ocidental, com a sua inegável quota-parte de violência e injustiça, é apresentado como algo de único: como se os impérios não fossem a regra na história global durante os milhares de anos em que imperava direito de conquista, ou como se os europeus não fossem também, por vezes, vítimas do imperialismo e do esclavagismo. Os europeus seriam os grandes culpados do que se passa em Gaza porque os britânicos conquistaram e governaram a Palestina entre 1917 e 1948. Mas porque não culpar os otomanos que decidiram declarar guerra aos Aliados, em 1914, o que as levou a perder Palestina e o resto dos territórios árabes que ocupavam desde o século XVI? Porque não culpar os Estados árabes e os líderes palestinianos que, em 1948, recusaram a solução de dois Estados, proposta pela ONU e apoiada pelos britânicos? O Sudão foi colonizado pelos britânicos? Sim, é verdade. Mas os britânicos fizeram-no em conjunto com os egípcios, o Sudão era um condomínio. E os britânicos apenas estiveram por lá poucas décadas, e foi Londres que forçou o Egipto a aceitar a independência sudanesa, do Cairo, queriam continuar a governar o território, como tinham feito inúmeras vezes ao longo da história. Sempre que o estado egípcio se reforçava, conquistava a região sudanesa para explorar os seus recursos e escravizar a sua população.

O terceiro-mundismo é, sobretudo, uma péssima análise da actualidade. Os terceiro-mundistas passam a vida a atacar um colonialismo morto, mas manifestam uma mentalidade neocolonial doentiamente eurocêntrica; agem, manifestam-se como se a Europa ainda fosse o centro do Mundo e pudesse facilmente impor a sua vontade. Isso nunca foi verdade, hoje ainda é menos o caso. A Europa tem dificuldade em fazer-se ouvir no palco global, quanto mais em impor-se situações de guerra. No Sudão, tal como em Gaza, o cenário mais provável para um cessar-fogo será uma negociação envolvendo, sobretudo, vários países da região – como os Emiratos e o Egipto – bem como os EUA.

Podem-me perguntar porque não me mobilizo eu pelo Sudão? Eu não tenho apetência por militâncias, ou manifestações. Não gosto muito de multidões, sobretudo quando acabam, demasiadas vezes, a gritar slogans de grupos terroristas. Faço análise e comentário, em nome próprio, e há anos que aponto para a situação no Sudão, e falo de outros destes 60 conflitos armados, onde se verificam situações humanitárias graves, como Haiti e a Nigéria, o Congo e a Birmânia. Também tendo a não acreditar na eficácia desse tipo de manifestações nesta Europa com influência global limitada, em particular quando estamos a falar de conflitos armados. Significa isto que os europeus devem desistir dos seus valores e princípios? Não, mas precisamos de olhar para o Mundo de forma mais realista. Devemos, desde logo, dar prioridade a defender melhor o nosso continente, reforçando o investimento em defesa para dissuadir agressões e para termos mais credibilidade global. E temos de nos deixar de pregações, uma diplomacia europeia assenta na culpa – nossa e alheia – não será eficaz, será uma prenda a grandes potências ditatoriais com a China ou a Rússia.

SUDÃO      MUNDO      FAIXA DE GAZA      MÉDIO ORIENTE      EUROPA

COMENTÁRIOS

jorge espinha: Por enquanto não conseguem culpar os judeus pelo que se passa no Sudão. O caso contra o ocidente é também difícil de montar. Como tal, a regra é que os povos “exóticos” podem-se matar uns aos outros com impunidade. Se um dos lados fosse cristão… talvez, mas no caso da Etiópia onde morreram dezenas de milhar de civis também não suscitou nenhum escândalo.              joaquim Pocinho: Muito, muito bem!               Ana Luís da Silva: Excelente artigo! Esta clarividência é necessária para que a Europa se mantenha com os pés assentes na terra e capaz de sobreviver a outras civilizações cuja matriz não é cristã, nem assente no Direito e na Filosofia ocidentais, mas na barbárie islâmica de uns e no desejo assolapado e sem moral de dinheiro e poder de outros mesmo que isso implique o genocídio de um qualquer povo.              Bruno: Obrigado pelo pragmatismo! Artigo a ser lido pela grande maioria da Comunicação Social, que é quem na realidade dá palco e significância a todos estes militantes anti-ocidente!

 

 

 

BREVES NOTAS DA INTERNET:

FAIXA DE GAZA

FAIXA DE GAZA é uma região formada por uma estreita faixa de terra que compõe, com a CISJORDÂNIA, a PALESTINA. O território gazeu é um dos mais povoados do globo. Está localizada no ORIENTE MÉDIO, entre os países ISRAEL e EGIPTO, na costa do mar Mediterrâneo. O território gazeu é uma estreita faixa de terra, que historicamente foi ocupada por diversos povos, como os árabes. A partir da fundação do Estado de Israel, muitos refugiados palestinos instalaram-se na Faixa de Gaza

Na actualidade, é uma região densamente povoada. Os seus indicadores económicos e sociais são extremamente baixos. A economia da Faixa de Gaza, assim como a sua infraestrutura, foi duramente atingida pelos recorrentes conflitos militares que ocorrem na região. A Faixa de Gaza é dominada pelo grupo extremista Hamas. A população local é predominantemente islâmica e possui hábitos culturais típicos dos povos muçulmanos.

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