Um provérbio à medida. Acusar a Europa, ao mesmo tempo que correr
para ela. Há muito que a Europa é responsabilizada pelo que aí vai. Sim, é certo,
mas sobretudo porque foi influenciada por russos, americanos e quejandos. A
Europa até gostou. E praticou. Mal ficaram os que estavam a europeizar essas Áfricas
e demais sítios que os Europeus e povos latinizados ocupavam, porque de repente
foram pontapeados de lá por esses mesmos povos do altruísmo ocupacional da
actualidade. Talvez a Europa esteja a colher muito do que semeou, decerto por
uma bondade excessiva, nascida lá nesses povos do leste e do oeste que querem
ser eles sempre a ocupar, afinal, tamanhos que são. Os grandes colonialistas,
está visto, a dar lições que eles próprios desprezam, para o seu sucessivo
infiltramento... Como demonstram os ucranianos, por enquanto.
A Europa manifestou-se por
Gaza, porque não pelo Sudão?
O terceiro-mundismo é, sobretudo, uma
péssima análise da actualidade. Os terceiro-mundistas passam a vida a atacar um
colonialismo morto, mas com uma mentalidade neocolonial doentiamente
eurocêntrica.
BRUNO CARDOSO REIS Historiador e especialista em
segurança internacional
OBSERVADOR, 07 nov. 2025, 00:164
Manifestações e protestos, vigílias e
manifestos abundaram a respeito de Gaza. Foi-nos infligida toda uma flotilha de
barcos de recreio a fingir que iam levar ajuda humanitária aos civis
palestinianos vítimas do fogo cruzado entre o Hamas e Israel. Mostram
que, ao contrário do que dizem, há muitos europeus que sentem, como eu também
sinto muito, o sofrimento dos palestinianos. Mas sempre resisti à ideia de que a Europa – com mais ou menos
protestos – poderia ter um papel decisivo nesse conflito, que não o teve, comprova-o o cessar-fogo, frágil mas
indispensável, em Gaza, que foi negociado, sobretudo, pelos países da região e
pelos EUA. Também não aceito a ideia de que Gaza é um conflito
esquecido. Há outros 60
conflitos armados espalhados pelo Mundo, quase todos têm muito menos
visibilidade do que Gaza. O Sudão à custa de massacres visíveis do espaço tem, agora,
um pouco mais de atenção, mas sem manifestações que se comparem. É legítimo
perguntar, porque não?
Gaza é um dos territórios mais pequenos do Mundo. Já o Sudão é o terceiro maior país de África. Os mais de 50 milhões de sudaneses estão, desde 2023,
a braços com uma sangrenta guerra civil, a terceira que enfrentem desde a
independência, em 1956. Na verdade,
este país do Sahel teve
apenas 10 anos de paz, e ainda menos de governação civil democrática, tendo
passado por seis golpes de estado vitoriosos. Esta é uma guerra que já causou, pelo
menos, 150.000 mortos, e 12 milhões de deslocados, seis vezes a população total
de Gaza. Onde têm
estado todos estes militantes tão preocupados com crises humanitárias?
Não duvido, repito, que muitos
europeus estão verdadeiramente chocados com a situação humanitária em Gaza.
Eu também estou. Mas é evidente que os
promotores dos protestos relativamente a Gaza por essa Europa fora, foram bem
para além dessas preocupações ou críticas legítimas. Uma parte
importante representa a tentativa
de regresso do Terceiro-Mundismo, que usando a defesa dos descamisados globais, procura combater os
regimes liberais e a acusar a Europa livre de ser a culpada de todos os males
do Mundo. Ora, as guerras no Sudão ou na Ucrânia não lhes
são de grande serventia.
A guerra na Ucrânia é, por vezes,
usada pelos que tentam passar a ideia de que só tem visibilidade por as vítimas serem europeias. Como se fosse ilegítimo acompanharmos com
mais atenção uma guerra no nosso continente, que pode ameaçar-nos directamente.
Ignoram ou escondem o facto de este ser o conflito armado mais
mortífero do Mundo, em 2024. E se a
maioria das baixas é de militares, isso é porque Kiev dá prioridade a tentar
proteger os seus civis e concentra os seus ataques em alvos bélicos russos. Nem o facto
de ser abertamente uma guerra de conquista pela Rússia, um exemplo público de
imperialismo sangrento, mobiliza muitos destes supostos militantes
anti-imperialistas.
O Sudão também não serve facilmente
os que querem explorar o filão da culpa universal ocidental. Apesar de ser um conflito em que foram
documentados mais de 1400 crimes de guerra em que os ex-Janjaweed, rebatizados
de Forças de Apoio Rápido, massacram
africanos, gritando slogans islamistas e racistas. Estas
forças contam, sobretudo, com o apoio da Rússia ou dos Emiratos Árabes Unidos.
É, portanto, difícil culpar o Ocidente do que por ali sucede. Não quer dizer que não tentem, fazem-no
com a ideia de uma culpa por associação por via dos Emiratos Árabes Unidos, como se o país não tivesse, também, boas relações
com a China ou a Rússia, esta
última uma aliada no cartel do petróleo. Como
se o Ocidente fosse culpado pelo que fazem todos os países com quem faz
negócio, ou pudesse dar-se ao luxo de importar petróleo e gás apenas da
exemplar Noruega. Porque é, essencialmente, disso que se trata para
muitos destes organizadores e militantes: culpar a Europa livre por todos os
males do Mundo, exigir que resolva todos os problemas globais, e, de caminho,
para nos purgarmos dos pecados original de nascermos europeus, querem impor-nos
aos dogmas desta seita.
Quais
são os problemas da cartilha Terceiro-Mundismo? Desde logo, vem
de um velho e gasto marxismo, apesar de, ironicamente, muitos jovens papaguearem o respectivo
catecismo como se fosse uma grande novidade e não tivesse levado falhado uma e
outra vez. É má História, que ignora a complexidade e nuance
do passado em nome de um maniqueísmo
politicamente motivado. O colonialismo ocidental, com a sua inegável
quota-parte de violência e injustiça, é apresentado como algo de único: como se os impérios não fossem a regra na
história global durante os milhares de anos em que imperava direito de
conquista, ou como se os europeus não fossem também, por vezes, vítimas do
imperialismo e do esclavagismo. Os
europeus seriam os grandes culpados do que se passa em Gaza porque os
britânicos conquistaram e governaram a Palestina entre 1917 e 1948. Mas porque não culpar os otomanos que
decidiram declarar guerra aos Aliados, em 1914, o que as levou a perder
Palestina e o resto dos territórios árabes que ocupavam desde o século XVI? Porque não culpar os Estados árabes e os líderes palestinianos
que, em 1948, recusaram a solução de dois Estados, proposta pela ONU e apoiada
pelos britânicos? O
Sudão foi colonizado pelos britânicos? Sim, é verdade. Mas os britânicos
fizeram-no em conjunto com os egípcios, o
Sudão era um condomínio. E os britânicos apenas estiveram por lá poucas
décadas, e foi Londres que
forçou o Egipto a aceitar a independência sudanesa, do Cairo, queriam continuar
a governar o território, como tinham feito inúmeras vezes ao longo da história.
Sempre
que o estado egípcio se reforçava, conquistava a região sudanesa para explorar
os seus recursos e escravizar a sua população.
O terceiro-mundismo é, sobretudo, uma
péssima análise da actualidade. Os
terceiro-mundistas passam a vida a atacar um colonialismo morto, mas
manifestam uma mentalidade neocolonial doentiamente eurocêntrica; agem, manifestam-se como se a Europa ainda fosse o
centro do Mundo e pudesse facilmente impor a sua vontade. Isso nunca foi verdade, hoje ainda é
menos o caso. A Europa tem dificuldade em fazer-se ouvir no palco global,
quanto mais em impor-se situações de guerra. No Sudão,
tal como em Gaza, o cenário
mais provável para um cessar-fogo será uma negociação envolvendo, sobretudo,
vários países da região – como os Emiratos e o Egipto – bem como os EUA.
Podem-me perguntar porque não
me mobilizo eu pelo Sudão? Eu não tenho apetência por militâncias, ou
manifestações. Não gosto muito de multidões, sobretudo quando acabam, demasiadas vezes, a gritar slogans de
grupos terroristas. Faço análise e comentário, em nome próprio, e há anos que
aponto para a situação no Sudão, e falo de outros destes 60 conflitos armados,
onde se verificam situações humanitárias graves, como Haiti e a
Nigéria, o Congo e a Birmânia. Também
tendo a não acreditar na eficácia desse tipo de manifestações nesta Europa com influência global limitada, em
particular quando estamos a falar de conflitos armados. Significa
isto que os europeus devem desistir dos seus valores e princípios? Não, mas precisamos de olhar para o Mundo de
forma mais realista. Devemos, desde logo, dar prioridade a defender melhor
o nosso continente, reforçando o investimento em defesa para dissuadir
agressões e para termos mais credibilidade global. E temos de nos deixar de pregações, uma diplomacia europeia assenta na
culpa – nossa e alheia – não será eficaz, será uma prenda a grandes potências
ditatoriais com a China ou a Rússia.
SUDÃO MUNDO FAIXA DE GAZA MÉDIO ORIENTE EUROPA
COMENTÁRIOS
jorge espinha: Por enquanto não conseguem culpar os judeus pelo que
se passa no Sudão. O caso contra o ocidente é também difícil de montar. Como
tal, a regra é que os povos “exóticos” podem-se matar uns aos outros com
impunidade. Se um dos lados fosse cristão… talvez, mas no caso da Etiópia
onde morreram dezenas de milhar de civis também não suscitou nenhum escândalo. joaquim
Pocinho: Muito, muito
bem! Ana Luís da Silva: Excelente artigo! Esta clarividência é necessária para
que a Europa se mantenha com os pés assentes na terra e capaz de sobreviver a
outras civilizações cuja matriz não é cristã, nem assente no Direito e na
Filosofia ocidentais, mas na barbárie islâmica de uns e no desejo assolapado e
sem moral de dinheiro e poder de outros mesmo que isso implique o genocídio de
um qualquer povo. Bruno: Obrigado pelo pragmatismo! Artigo a ser lido pela
grande maioria da Comunicação Social, que é quem na realidade dá palco e
significância a todos estes militantes anti-ocidente!
BREVES NOTAS DA INTERNET:
FAIXA DE GAZA
FAIXA DE GAZA é uma região formada por uma estreita faixa
de terra que compõe, com a CISJORDÂNIA,
a PALESTINA. O território gazeu é um dos mais povoados do globo. Está
localizada no ORIENTE MÉDIO, entre os países ISRAEL e EGIPTO,
na costa do mar Mediterrâneo. O território gazeu é uma estreita faixa de
terra, que historicamente foi ocupada por diversos povos, como os árabes. A partir da fundação do Estado de
Israel, muitos refugiados
palestinos instalaram-se na Faixa de Gaza
Na actualidade, é uma região
densamente povoada.
Os seus indicadores económicos e sociais são extremamente baixos. A economia da
Faixa de Gaza, assim como a sua infraestrutura, foi duramente atingida pelos
recorrentes conflitos militares que ocorrem na região. A Faixa de
Gaza é dominada pelo grupo extremista Hamas. A população local é predominantemente
islâmica e possui hábitos culturais típicos dos povos muçulmanos.
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