domingo, 9 de novembro de 2025

Verdade divina

 

Ou apenas humana, como necessária? Ficámos a admirar mais o espírito livre do P. GONÇALO PORTOCARRERO DE ALMADA, COLUNISTA do OBSERVADOR, cuja argumentação escrita parece não ser a movida por uma seriedade beatífica, mas por uma reflexão liberal dos preceitos bíblicos, que bem conhece, o que apreciamos. A religiosidade não requer beatice, mas uma crença serena, sujeita à dúvida, de humana que é. De facto, se Deus é Amor, não parece lógico o castigo eterno, por Ele ordenado, mais fruto da consciência humana, que assim justifica a sua prática castigadora doutrinária…

 

Mentira diabólica

A condenação eterna é uma ofensa à revelação de que Deus é amor (1 Jo 4, 8.16). Tudo o que se disser em teologia cristã nunca poderá negar esta afirmação eterna.”

P. GONÇALO PORTOCARRERO DE ALMADA  COLUNISTA

OBSERVADOR,  08 nov. 2025, 00:1644

 

Na sua crónica do passado dia 2 de Novembro, o Frei Bento Domingues afirmou que são fiéis defuntos “todos, todos, todos, como diria o Papa Francisco”. O anterior romano pontífice usou essa expressão para dizer que todos são chamados a pertencer à Igreja, por via da sua conversão e Baptismo, mas não no sentido de que a comemoração dos fiéis defuntos é universal, como pretende o autor da crónica. Na realidade, por fiéis defuntos entende a Igreja aqueles cristãos – se o não fossem, também não seriam fiéis – que, tendo-se salvo, ainda não alcançaram a visão beatífica e, por isso, padecem a purificação necessária para esse efeito.

Embora a realidade do purgatório não conste explicitamente na Sagrada Escritura, faz parte da Sagrada Tradição, a outra fonte da revelação divina, porque desde sempre na Igreja católica se rezou pelos fiéis defuntos, ou seja, se admitiu a existência de almas que, tendo-se salvo, ainda não chegaram ao Céu e, por isso, precisam dos nossos sufrágios. Como escreveu o referido cronista, “Umas pessoas iriam para o céu, para disfrutar da eterna alegria de Deus. Outras teriam de ser purificadas pelo fogo para poderem entrar no céu. Outras ainda, que morriam em pecado mortal, iriam para o inferno, para o sofrimento eterno.”

Este era e é, com efeito, o entendimento da Igreja católica desde há dois mil anos, pois nunca duvidou da existência de dois destinos eternos diametralmente opostos: a salvação e a condenação (Mt 25, 31-47; Lc 16, 19-31). Também nunca se pôs em causa a existência de um estádio passageiro de purificação para as almas que, tendo-se salvo, não estão ainda habilitadas para a visão beatífica.

A existência do inferno e a sua eternidade foram recentemente confirmadas pelo solene Magistério da Igreja: “A doutrina da Igreja afirma a existência do Inferno e a sua eternidade. As almas dos que morrem em estado de pecado mortal descem imediatamente, após a morte, aos infernos, onde sofrem as penas do Inferno, o ‘fogo eterno’.” (Catecismo da Igreja Católica, nº 1035). Este compêndio da fé foi elaborado por uma equipe de especialistas chefiada por Bento XVI, talvez o maior teólogo católico contemporâneo, e aprovado por São João Paulo II.

O autor da referida crónica é um veterano comentador de temas religiosos, mas não é teólogo, nem académico, nem tem, portanto, competência, nem autoridade, para dissentir de princípios da doutrina católica. Tem todo o direito de expressar as suas ideias sobre o que quiser, como é óbvio, desde que deixe claro que são, apenas, meras opiniões pessoais que, neste caso, contradizem a doutrina da Igreja a que é suposto pertencer.

Segundo Bento Domingues, as “representações” do céu, inferno e purgatório “pertencem a determinados momentos da história religiosa que ainda sobrevivem em muitos lugares: pessoas completamente realizadas, outras a precisar de purificação e outras condenadas para sempre.” 

É verdade que a ilustração destes possíveis destinos se fez, com frequência, através de imagens que, como é óbvio, não podem ser entendidas no seu sentido literal. Jesus, referindo-se ao Céu, usa por vezes a imagem do banquete (Mt 22, 1-14; Lc 14, 16-24), que obviamente não faz sentido em relação às almas ainda desprovidas do seu corpo glorioso. Também compara o inferno ao fogo da lixeira das portas de Jerusalém (Mt 18, 8; Mc 9, 43) e alude ao choro e ranger de dentes (Mt 13, 42-43. 49; Lc 13, 28-29) que, como é óbvio, é metafórico, na medida em que também os condenados, antes de ressuscitados os seus corpos, o que só acontecerá no juízo final, não podem padecer penas corporais, mas apenas de natureza espiritual.

Que os exemplos escolhidos para esse efeito sejam exemplificativos da maior felicidade e da pior desgraça, respectivamente, não quer dizer, no entanto, que esses estados – não são lugares – não sejam reais, como pretende o autor da referida crónica, que atribui à ignorância dos crentes tais concepções:a imaginação atreveu-se a saber mais do [que] sabe.” Há alguma troça do cronista ao que entende ser o fruto da imaginação e da ignorância dos crentes, mas talvez a “douta ignorância” – na feliz expressão de Santo Agostinho (Ep. 130, 14, 27 – 15, 28) – dos fiéis, que ridiculariza, seja mais sábia do que a néscia sabedoria dos que se consideram, ao jeito dos fariseus e doutores da lei do tempo de Jesus, donos e senhores da doutrina católica.

Para justificar a sua descrença no inferno e no purgatório, Bento Domingues afirma: “As concepções que as alimentaram não podem reclamar-se da teologia verdadeiramente cristã. A condenação eterna é uma ofensa à revelação da Primeira Carta de S. João (4, 8.16): Deus é amor. Tudo o que se disser em teologia cristã nunca poderá negar esta afirmação eterna. Não é o inferno que é eterno. Eterno é o amor que Deus nos tem.”

Compreende-se que o autor não queira admitir a existência do inferno, nem a sua eternidade, mas esta sua atitude não só carece absolutamente de fundamento teológico, como contradiz a necessidade da salvação. Com efeito, se há uma verdade referida na Sagrada Escritura (Jo 5, 29, etc.); corroborada pela Sagrada Tradição; reafirmada pelos Padres da Igreja; e constante e universalmente ensinada pelo Magistério da Igreja essa é, precisamente, a de que existe o Céu, para o qual Cristo é o caminho (Jo 14, 6), e o seu oposto, o inferno, de que Ele nos veio salvar. Negar a possibilidade da condenação é fazer inútil a encarnação do Verbo; fútil a sua pregação; supérfluos os seus ensinamentos e milagres; estéril a sua paixão, morte e ressurreição; ineficazes a sua Lei e mandamentos; desnecessária a sua Igreja; inúteis os Sacramentos; etc., etc., etc. Ou seja, a possibilidade real da eterna condenação não é uma “metáfora”, de gosto duvidoso, de que se possa prescindir, mas o pressuposto necessário para a salvação alcançada por Jesus na Cruz e realizada pela mediação eclesial. Se não houvesse a possibilidade da condenação eterna, Cristo e a sua Igreja não fariam nenhum sentido.

Mas, não é verdade que o amor que Deus é (1Jo 4, 8.16) parece contradizer a possibilidade de uma condenação eterna?! Precisamente porque Deus é amor, encarnou, resgatou-nos pela sua Santa Cruz e, pela sua gloriosa ressurreição, deu-nos a possibilidade de alcançarmos a vida eterna. Mas fê-lo respeitando a nossa liberdade, que é a razão que explica a possibilidade de o ser humano recusar a graça da salvação. Aqueles que se condenam não são, afinal, aqueles que não se conseguem salvar, em cujo caso poderiam merecer compaixão, mas os que não se quiseram salvar. Todos, sem excepção, também os não católicos, podem ser salvos em Cristo (Lc 13, 22-30); só se condenam os que rejeitam, consciente e voluntariamente, a salvação, como aconteceu com os demónios, e, por isso, não são inocentes da sua eterna infelicidade.

Para o cronista, “o céu, o inferno, o purgatório, o juízo final são metáforas dos desejos e dos medos humanos. São representações engrandecidas do além à imagem do que há de melhor e de pior neste mundo.” Ao contrário do que afirma, não são projecções da imaginação humana, como também o amor de Deus não é metafórico, mas a realidade transcendente revelada por Jesus Cristo e testemunhada pela sua Igreja.

Sim, há inferno e as suas penas são eternas (Catecismo da Igreja Católica, nº 1033-1037, 1022, 393, etc.). Também há demónio, que “foi assassino desde o princípio, e não esteve pela verdade, porque nele não há verdade.  Quando fala mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira.” (Jo 8, 44). E, quando a mentira compromete a salvação dos homens, pode-se dizer, sem exagero, que é verdadeiramente diabólica.

COMENTÁRIOS (de 44)

D.L.: Em conclusão: Frei Bento Domingues é um partner  do demónio! Atendendo a que escreve regularmente no Público até não era assim muito difícil de perceber... é Público!                   Ana Luís da Silva > José B Dias: Muito obrigado caro José Dias pelo seu esclarecimento. Veio confirmar exactamente o que penso. Frei Bento Domingos tem o reconhecimento, as honras, a vaidade insuflada pelas homenagens da sociedade ateia, socialista, maçónica, política, etc. É onde apostou a sua longa vida. Fez a sua escolha.  Mas não é um pastor da Igreja Católica, pois não acredita na Fé Católica, sim num credo muito seu, muito da sua lavra, da sua inteligência microscópica aos olhos de Deus. Vamos ser sérios. Se não professa a Fé Católica não é católico. E isso deveria ser público no seio da sociedade e da própria Igreja.                 Ana Luís da Silva > Kindu: Que chorrilho de disparates, caro Kindu. Não conhece nem os Evangelhos nem a História da Igreja, pois não?             Ana Luís da Silva: Fui ver quem é frei Bento Domingos, que não conhecia. É um dominicano de provecta idade, que segundo a Wikipédia “(nega) a ressurreição física de Jesus e o valor salvífico da morte de Jesus na cruz”. Das duas uma: ou é um daqueles membros da Igreja que está senil e devemos respeitá-lo pelo que é e não pelo que diz, ou está lúcido e a loucura é dele (que nega a razão da nossa esperança e alegria cristãs), mas também da Igreja, que ainda não o excomungou.  Deveria estar entre os mais reputados ateus ou a pastorear uma das centenas de Igrejas protestantes, não na ordem religiosa católica dos dominicanos.                José Nicolau > Ana Luís da Silva: Esse sr. só é conhecido porque se tornou um dissidente; um revoltado na Igreja Católica. E por este facto tem, ou teve, voz na CS que está sempre ávida em confundir mais que esclarecer, no que respeita à Igreja Católica. Agradeço ao Pe. Gonçalo o esclarecimento.                 J. D.L. > José B Dias: No entanto, a avaliar pelo que o sr. Padre escreve neste artigo, desconfio que o irmão de Frei Bento Domingos (o tal S. Tomás), deve estar a morrer de riso dos conteúdos dos tratados que Frei Bento escreve. Riso que provavelmente não será incompatível com as lágrimas que verterá pela sua saúde espiritual...            J. D.L. > José B Dias: Já tinha visto várias referências a este irmão de S. Tomás de Aquino na imprensa (o meu vizinho compra o Público) mas, sendo inculto (cá em casa sou eu quem cultiva a horta), todos os achievements  que o amigo Dias menciona, incluindo o doutoramento honoris causa pela Universidade do Minho (que deve ser uma verdadeira honra que até o Trump devia ambicionar mais que o Nobel), me eram completamente desconhecidos.                   manuel menezes: Vamos tentar simplificar esta polémica. Se acreditamos que Cristo é Deus e na sua palavra, que nos foi comunicada pelos Evangelhos, o Padre Gonçalo tem razão, se não acreditamos, a razão está do lado do Frei Bento Domingues. Eu estou do lado do Padre Gonçalo                    Ana Luís da Silva > Kindu: Ah! Ah! Ah! Não tenho é tempo, no dia de hoje que é dia da família cá em casa! Bom dia para si.                     Fernando Soares Loja: É bom ver que ainda alguém se dá ao trabalho de pôr os pontos nos ii, mesmo que seja politicamente incorrecto. Então os assassinos de Shira Bibas e seus pequenos filhos, Ariel e Kfir, morrendo sem se arrependerem vão para o Céu do Frei Bento Domingues? As muitas letras o fazem delirar ...                   Meio Vazio > Ana Luís da Silva: Sim, sobretudo porque nos tempos que correm, ninguém é obrigado a ser católico, muito menos dominicano (Deo gratias!).

 

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